Crianças e violência

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não trataremos de violência urbana porque ela não está presente só nas metrópoles, no campo também. Nem, tampouco da violência presente nos desenhos animados, pensados preferencialmente para as crianças, porque ela está presente nas novelas, nos anúncios e na mídia em geral. Também não podemos alocar a violência nas ruas porque ela se faz presente nas casas, dentro das famílias, até nas creches e escolas.

Pode ser ingênuo, de nossa parte, supor que as crianças não tenham acesso a esses tipos de violência que ameaçam aos adultos. Quando e como elas tomam contato com isso, nem sempre se pode precisar. Salvo em alguns casos, como o do menino Chico que, com apenas quatro anos, teve a sua casa em Vila Isabel invadida por bandidos armados. No colo da mãe, eles foram trancados num compartimento da casa e, nessa hora, perguntou a ela: isso é filme, mãe?   E ela, embora assustada e amedrontada, respondeu: não, é de verdade. Já lhe disse que há pessoas do bem e do mal. Estas são pessoas do mal. Eles querem levar coisas da nossa casa para eles, mas a polícia vai chegar e vai ficar tudo bem.

Com esse tipo de reação da mãe, não planejada pelo susto óbvio do momento, foi demonstrada à criança uma certa aposta dela em relação a um final feliz, que poderia não ter acontecido, mas que acabou acontecendo, de fato, já que a polícia chegou e salvou a vida dessa família. No entanto, os pais de Chico tinham consciência de que a violência e seus riscos, de alguma forma, já faziam parte da vida dessa criança. Quando deixavam o carro estacionado numa vaga, e não em outra, quando verificavam se o mesmo estava trancado para não ser roubado, ou para minimizar os riscos, “passavam” para ele a existência da violência, de pessoas “do mal” etc.

Como o Chico representou internamente essa vivência real, não se pode dizer. O quê desse cenário assustador marcou sua memória com maior ou menor força, não sabemos. Nem como os seus pais também “representam” internamente, cada um deles, de formas próprias e únicas, essa dura experiência. Tudo isso pode ser revelado ou transmutado em palavras, mas esses registros são sempre subjetivos e cada pessoa, em qualquer idade, vai elaborar esse acontecimento a seu modo.

É comum que os adultos fiquem preocupados em relação a esses fatos virem a se tornar traumas na vida de seus filhos. No entanto, sob o ponto de vista da Psicologia, o que é traumático nem sempre coincide com o dramático e /ou violento. Eventualmente, um som, um rosto estranho, o olhar triste de alguém ou algum outro acontecimento avaliado como sem importância por terceiros pode vir a ser traumático. O que tem valor de trauma é o que toca particularmente a cada um e se apresenta como insuportável. E com isso, seria algo para o qual não se pode encontrar, tão logo, um sentido. Ou seja, não necessariamente um fato assustador vai ser traumático. De forma simples, estamos dizendo que o traumático em si não está no fato, ainda que possa ter sido verdadeiramente violento, mas sim no encontro contingente com algo perturbador para alguém. Um encontro imprevisível, que promove uma ruptura nas formas que cada qual “inventa” para se localizar no mundo. Haverá, então, nesse caso, que se inventar algo novo, que inclua o acontecimento em questão.

Voltando a vida das crianças, ter que criá-las num mundo assim tão complexo e até mesmo cruel não nos permite naturalizar a violência, nem a miséria, a pobreza, a falta de compromissos dos adultos para com as crianças, a falta de condições básicas de vida que, em geral, são geradoras de comportamentos violentos. No entanto, vivemos no fio dessa navalha: como fortalecer ou preparar nossas crianças para lidarem com essa dimensão tenebrosa da vida social _ a violência?

Como educadoras, em princípio, não defendemos nenhuma fórmula ou comportamento adequado, para adultos ou para crianças, que sirva para todos. Em geral, a forma como seus pais e as famílias lidam, cotidianamente, com a vida deixa exemplos e aprendizagens que costumam aparecer na vida das crianças. Há pais que fazem cursos de tiro, com armas de fogo e que acreditam na força da defesa da família a partir desses recursos. Há pais totalmente pacíficos e amorosos, que ensinam desde cedo aos filhos a diferença, por exemplo, entre brigas e lutas marciais. Há aqueles seres explosivos que por muito pouco brigam no trânsito. Há casais que nunca aumentaram a voz um para o outro, e há também pessoas que só falam gritando. Poderíamos ficar aqui falando de exageros e de grosserias que nada mais são do que atos violentos, embora não sejam sempre caracterizados como sendo de violência física. E que diferença faz?

Outro dia, uma mãe amiga estacionou o carro, junto com seus dois filhos, de cinco e dois anos. Ela pediu às crianças que saíssem rápido do carro para evitar que ladrões pudessem vir roubá-los. O menino, o mais velho, se mostrou confuso nessa hora: adultos não são vilões; os vilões não moram nas cidades e sim nas florestas. Com isso ela se mostrou insegura sobre como apresentar a violência para seus filhos.

De certa forma, em situações como essas os adultos já estão trazendo uma representação da violência do mundo para perto dos seus filhos. E é natural que seja assim. Não podemos supor é que eles nunca tenham tido acesso a nenhum conteúdo violento, para eles. Um grito mais alto de alguém, uma freada brusca do automóvel, um brinquedo que se perde, ou que se quebra, uma vacina que dói, um puxão de cabelos na escola são situações que podem ser violentas sob a ótica das crianças e, também, na de alguns adultos.

É claro que “no mundo perfeito”, aquele que idealizamos para viver junto com os nossos filhos, não existiria nada ruim, nada ameaçador, mas a vida não é assim. Portanto, embora não seja uma receita que valha para todos, não é recomendável que as crianças sejam sacralizadas, idealizadas nem tratadas num nível exagerado de proteção em que se negue a elas, a experiência da vida social como sujeitos de cultura que são. Negar que exista maldade no mundo, negar que existam pessoas desestruturadas que podem ser violentas e más, para nós, é como negar uma das facetas reais do mundo em que vivem, e que tem, do outro lado dessa mesma moeda, toda a alegria e felicidade, tudo de bom que embebe a vida de prazer.

Quem apresenta a violência às crianças é a vida. Nós adultos, com delicadeza e cuidado não podemos mentir para elas e, mais do que isso, precisamos considerar como nós, adultos, lidamos como vários aspectos intervenientes, como: as nossas vivências como pai e mãe, as experiências delas, as dúvidas que nos trazem, os fatos que se impõem sobre elas etc. Respeitosamente, vamos conversando e deixando claro, sempre, que o bem e o mal existem. E também que devemos perseguir o bem, sem olhar a quem, mas sem ingenuidades.

As histórias de encantamento são ótimas para as crianças lidarem com essa luta do bem contra o mal sendo que, aos poucos, e não são poucas as vezes, elas precisarão tomar contato com a vitória do mal, na vida real. É triste, mas é verdadeiro.

(*) Autoras: Angela M. Borba e Maria Inês de C. Delorme, com a contribuição de Ana Claudia Jordão