Quando os filhos são postos na vitrine

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio  Filma eu, filma eu! Quero ver eu aí, no seu celular! Deixa, deixa. Não é joguinho não, quero ver eu aí.  Abordagens assim ultrapassam as paredes de casa, da família e são parte do discurso de crianças bem pequenas, às vezes ainda com dois anos, nas ruas, nas escolas, nos supermercados. O que isso quer dizer? Que nós, adultos, já ensinamos a elas um valor contemporâneo, em que “ser” implica poder “ser visto” nas redes sociais.

Pais, mães, babás, às vezes, até professores de crianças estão igualmente imersos no mundo onde a imagem representada ocupa a centralidade das experiências adultas e infantis. Assim, quando há adultos próximos de crianças, porém com mãos, olhos e alma fixados nos ipads, notebooks e celulares dizemos a eles: estamos ocupados com algo muito importante, que nos envolve o tempo todo e que não nos deixa livres para dialogar, brincar e nem para ficar olhando para nada mais.  As crianças tanto passam a supor que essas tecnologias possam ser fascinantes, como de fato são, como passam a ser altamente desejadas por elas. Claro, estamos reclamando dos exageros, mas parece que os adultos andam exagerando mesmo, ou não? E as possíveis consequências para a vida das crianças e de suas famílias não são difíceis de imaginar.

 As cenas representadas valem mais do que as experiências, em si.

Muitas vezes, os adultos criam cenários e circunstâncias que funcionam como pseudoacontecimentos ou pseudoeventos (Boorstin[1], 1961) envolvendo suas crianças. Esses episódios, cada vez mais comuns, escapam completamente dos critérios de espontaneidade, ao contrário, são forjados pelos adultos para terem efeito como uma imagem de suas crianças que seja “comestível, desfrutável, vendável” nas redes, sendo em sua origem, elas apenas auto satisfatórias.

Vale apena destacar aqui ainda aqueles casos onde os pais produzem suas crianças como mulheres adultas, com roupas colantes, maquiagem, erotizando ao máximo as suas meninas.  Crime.

Com isso, mais do que brincar, experimentar, inventar, transformar e descobrir, que são experiências necessárias para a vida das crianças, adultos e crianças comprometem a liberdade das brincadeiras em nome das “melhores imagens e representações” de suas experiências. E sempre são os adultos, em geral as mães, que “empresariam e exploram” a imagem de suas crianças, não as suas próprias.

Para “fazerem sucesso”, têm seus cenários muito reduzidos, suas experiências restritas, os horizontes das brincadeiras limitados em função do olhar do adulto que as empresaria.

É o que vemos quando encontramos adultos que usam seu celular como uma máquina para registrar momentos e imagens da sua criança no balanço, no banho, fazendo dever de casa, almoçando, dormindo e até fazendo cocô no banheiro. O registro não é para perpetuar essas imagens para a vida dessa criança e da família, e sim para divulgá-las nas redes sociais e, com isso, dizer uma “mentira perversa” para as crianças: você nasceu para ser uma celebridade; eu, sua mãe e/ou seu pai (em geral, a tarefa é mais feminina) esperamos que você alimente a sua vida e a dos outros com sua individualidade. Incitamos assim que crianças e adultos fortaleçam mais e mais uma idolatria de suas individualidades, sendo introduzidos pelas suas famílias na cultura do consumo sem reservas.

As crianças são convidadas a serem jovens antes da hora e os idosos, ao contrário, não podem deixar de ser jovens.  E sem espaço para experiências verdadeiras mas para a “produção de celebridades” como entretenimento humano, pensado e concretizado pelas famílias como sendo um produto cultural de massas. Ali não há sofrimento, frustrações nem dores, só brilho e uma competição permanentemente em pauta.

Nenhum adulto que poste demais as imagens de seus filhos sonha para que eles tenham, apenas, aqueles quinze minutos de fama propostos por Andy Warhol. Há que ser famoso o tempo todo e desde a mais tenra idade.  Exagero nosso? Pensamos que não!

 Imagens significativas e perpetuadas ou imagens descartadas?

Mais uma questão a ser discutida se refere ao fato de que as crianças vão crescer e, logo ali na frente, elas podem sentir vergonha e constrangimento dessa exposição a que foram submetidas, dessa divulgação de sua vida cotidiana, ordinária, sem que elas tenham sido ouvidas e sem condições de prever a globalidade da consequência dessa vitrine onde expõem a vida delas.

Já se sabe que diante dessa fome de imagens e da cultura da produção de celebridades infantis, dentro de casa, vem morrendo aquele acervo de imagens digitalizadas que poderiam vir a ser acessadas pelas crianças, mais tarde, como um registro pitoresco de suas histórias. As máquinas digitais facilitaram o serviço de todos, as imagens tornaram-se fáceis de serem feitas, de serem produzidas, alteradas com o uso de filtros, photoshops, e todas são rapidamente veiculadas. As crianças dizem: minha mãe já apagou isso do celular dela. Não tem mais, agora são outras.

Na era do consumo e da descartabilidade, como acontece com o Facebook, “passa um rolo” que faz com que umas imagens deem lugar a outras e, com isso, alimenta-se nos adultos a necessidade de produzir novas imagens para sua substituição, rápida, nas redes.

Por que os adultos agem assim com suas crianças?

Não podemos responder por todos, mas uma grande parte projeta em suas crianças um brilho e uma expectativa de destaque, de sucesso dentro do grupo social, que talvez desejassem ter.

Esquecemos que hoje as celebridades se afastaram da identificação com os grandes feitos, não se destacam espontaneamente por uma ação ou comportamento digno de uma notoriedade. Hoje, as celebridades são produzidas da noite para o dia e são esquecidas, também, no mesmo ritmo.  São criadas para serem consumidas. Isso é bom para as crianças?

Crianças são seres muito especiais, diferentes entre si embora demonstrem gostar de coisas semelhantes em cada momento da vida. O estimulo à espontaneidade, à criatividade e à singularidade não se dão quando as crianças competem individualmente desde cedo, e nem quando a beleza de suas vidas, o improvável que as caracteriza, o inusitado e o inesperado precisam dar lugar a uma encenação de vida, que não é vida. Encenação para o outro ver.

Isso é bom para as crianças?

No Maranhão, há uma sabedoria popular que diz assim: “a casa que tem criança, deus visita todo dia”.   Não há nenhum tipo de religiosidade embutido propriamente nessa frase apenas a defesa de que as crianças iluminam o mundo porque trazem em si sua aura livre e sem amarras, representam a surpresa da vida, fazem as perguntas que os adultos não fazem mais; elas agem como se fossem animais e personalidades, reais e imaginários, rolam, pulam tremem, cantam e dançam num ritual diário de ludicidade e de alegria, de magia e de imaginação.  Elas merecem os nossos olhos e ouvidos atentos, parceiros, ao mesmo tempo em que os enriquecem, quando vemos que elas brincam sozinhas, com outras crianças e com adultos. Isso é bom para as crianças!

O que notamos é que, enquanto seus pais seguram holofotes e esticam tapetes vermelhos para dar destaque às suas crianças, eles esquecem de vê-las como crianças ordinárias que são, com o direito de viver simplesmente, sem qualquer compromisso com o sucesso nas redes. Nesses casos, os pais perdem o tempo de brincar com elas e de deixá-las serem como são.

E vocês, o que pensam sobre isso?

 


[1] Boorstin, Daniel J. (1961) The Image: A Guide to Pseudo-events in America. Ele foi um historiador, professor, advogado e escritor norte-americano (1914- 2004).

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

As crianças e as câmeras de filmagem

Papo de pracinha (*)

A cada dia, cresce o número de residências e de instituições de educação infantil com as chamadas câmeras online (de segurança) espalhadas pelo espaço.

Os motivos para isso são muitos, mas o principal deles, sustentado pelas instituições, é de que as câmeras são um investimento (das empresas) na CONFIANÇA dos pais que lá deixam os seus filhos. Segundo as gestoras, esses equipamentos permitem que os pais participem da rotina dos seus filhos através do computador ou do celular e, ao mesmo tempo, facilitam o trabalho das diretoras para monitorar, vigiar e cuidar do andamento do dia. Os pais que optam por creches que têm câmeras entendem que elas permitem que eles saibam tudo o que os seus/suas filhos/filhas estão fazendo, além da possibilidade de fotografarem, filmarem e gravarem o que está acontecendo: à medida que a gente acompanha e vê tudo, a nossa confiança aumenta e o medo diminui.  

Vem aumentando também, nas residências, o uso de câmeras para fiscalizar o trabalho dos empregados, quando os patrões não estão em casa e, com muito maior rigor, quando optam por deixar o seu bebê aos cuidados de alguém. Assim, com a possibilidade de espiar online e full time a sua criança na relação com o adulto responsável por ela, segundo esses pais, a criança está mais segura e eles, mais tranquilos, por poderem verificar se escolheram corretamente a pessoa que cuida dela.

Não vamos discutir aqui, dessa vez, o que faz com que algumas instituições de educação infantil e também algumas famílias achem positivo disponibilizar ipads, computadores e celulares para suas crianças, às vezes com menos de cinco anos de vida. Embora isso também reflita a volume cada vez maior de uso de tecnologias nos dias de hoje, deixaremos esse assunto para um próximo papo.

Voltando às câmeras de segurança, é inegável a contribuição delas na investigação de crimes e de casos que outrora demorariam anos para serem esclarecidos, mas a presença de câmeras em creches e em residências, como um recurso promotor de confiança, é um elemento novo que merece ser analisado.

Lembrando do que disse Nelson Mandella, resgatado recentemente por Daniel Becker, na palestra postada no Papo de Pracinha: o verdadeiro caráter de uma sociedade se revela pela forma como ela trata as suas crianças. E, nesse caso, precisamos lembrar que a sociedade somos nós, não apenas as instituições e leis que deveriam atender a todos.

Nesse viés, fomos conversar com um grupo de mães de bebês com idades em torno de um ano. O que pudemos perceber é que as câmeras de segurança em casa são necessárias enquanto os filhos são bebês, na opinião da maioria delas, porque as suas crianças ainda não seriam capazes de fazer queixas de maus-tratos etc., e que para os filhos maiores elas não seriam assim tão imprescindíveis. Também percebemos que, das famílias que têm câmeras em casa, apenas uma delas avisou para a sua “ajudante“ sobre as câmeras e as gravações. As outras mães preferem não chamar atenção para a existência desse recurso.

Embora segurança e confiança sejam palavras que rimam, elas não são sinônimas. Entende-se que quando há confiança, em geral as pessoas se sentem seguras, mas nem sempre o contrário é verdadeiro. Sentir-se mais seguro não traz necessariamente o sentimento da confiança. As crianças podem estar totalmente “seguras”, garantidas em relação a acidentes, tombos e até a maus tratos, que se configuram em crime, sem que seus pais tenham confiança em delegar seus filhos a alguma pessoa ou instituição: eu sei que naquele espaço não deixarão que nada de ruim aconteça ao meu filho, mas eu não confio na proposta deles; eu sei que essa pessoa nunca deixará de cuidar e de proteger a minha criança, mas eu não confio que ela saia de casa com ela. E por aí vai.

Elementos muito diferentes geram confiança em cada casal, em cada família. O ato de confiar, em primeiro lugar, passa pela confiança no sentimento que nutrem em relação ao filho/a, pela certeza e confiança de que ele é capaz de estabelecer relações com outras crianças e adultos sem deixar de amar de modo diferenciado os seus pais. É preciso ter confiança de que existem outros modos de fazê-lo dormir, de tocá-lo e de agir que podem ser igualmente seguros e prazerosos, diferentes dos que os pais praticam habitualmente.

Confiar “sob vigilância” parece uma meia-confiança, um voto de possível confiança que não poderá prescindir da vigilância à distância, proporcionada pelas câmeras. É preciso refletir se alguma pessoa que se relaciona com outra, de qualquer idade, se sentiria liberta e feliz para mostrar-se como é, sendo vigiada. E se um dia faltar luz, ou houver qualquer impossibilidade de “visionamento”, como ficariam a cabeça e o coração desses pais?

Na verdade, cada família deve operar com tecnologias da forma que acha satisfatória. No entanto, podemos dizer que confiança não se constrói sob vigilância.

O ato de confiar depende de poder acreditar, de ter fé na sinceridade, na lealdade do outro, e de conseguir delegar, aceitando as diferenças. Quando se confia, de certa maneira, é feita uma aposta interna de que algo não falhará, de que vai dar certo. Quando se confia, parte-se de uma certeza do comportamento desejável do outro, e de que ele saberá agir adequadamente diante de uma cena ou situação, mesmo que não necessariamente tome as atitudes exatamente como você tomaria.

Para entrar nesse processo de confiança em relação a alguém que cuidará do seu bebê, não podem faltar autoconfiança e confiança mútua, de todos os adultos envolvidos. Será, ainda, que “ajudantes-vigiados” saberão confiar nos seus patrões? Vão se preocupar em relatar o dia com o bebê sabendo que são vigiados o dia todo? Difícil responder. Mas, em princípio, nos parece que a confiança e a parceria não têm um bom solo para serem cultivadas, quando as relações são atravessadas pela vigilância desconfiada, imposta pelo uso da câmera.

Delegar a alguém os cuidados de um bebê para uma terceira pessoa é mesmo muito difícil. Encontrar alguém que se afine com a família é possível, mas que atue exatamente como se fosse a mãe ou o pai, impossível.

O que parece funcionar bem para essa seleção criteriosa são as referências de outras famílias, para quem a pessoa já tenha trabalhado. Conversas-entrevistas honestas, delicadas, mas lúcidas onde exista exposição clara das prioridades de cada família e, também, por parte de quem se candidata ao trabalho, costumam ser os melhores caminhos. Por que escolheu trabalhar com crianças? Se já assistiu a situações de conflito em pracinhas etc.? Como acha que deva ser o momento de dormir da criança? E a hora de comer? Por que saiu dos empregos que teve? Como foi a educação que recebeu na sua família? São perguntas que podem ajudar nessa conversa.

As câmeras de segurança, certamente, podem trazer uma relativa tranquilidade para os pais que as usam. Mas delegar, de modo a construir uma relação verdadeira, cotidiana, exige tempo, precisão, observação criteriosa de vários pontos. É importante que os pais ou responsáveis tornem claros os valores da família para a pessoa que deseja trabalhar cuidando da criança, inclusive em relação à saúde física e psicológica do bebê. Ouvir e valorizar a opinião dos seus ajudantes é fundamental. Eles precisam se sentir valorizados em suas opiniões, atitudes etc., quando for o caso, para se sentirem seguros e confiarem em si, também.

Nenhum pai e mãe poderá estar o tempo todo controlando e moldando o mundo de seus filhos. Suas autoridades e a relativa sensação de poder que têm sobre eles precisar dar lugar à segurança de que sua educação e o seu amor estarão sendo interiorizados na criança, e que estarão presentes mesmo quando estejam distantes fisicamente, lá na frente, um dia.

Poder ver tudo o que os filhos fazem, o que acontece por todo o dia na creche ou no lar, só serve para sofisticar a fantasia de controle dos adultos sobre suas crianças.

As câmeras não aproximam pais e filhos, embora possa parecer que sim. Ao nosso ver, o que aproxima pais e filhos são os momentos intensos na presença, o contato físico, a conversa, as boas histórias para contar, a parceria efetiva, as brincadeiras que façam juntos e o amor. Vale muito a qualidade e também a quantidade do tempo que ficam juntos, sim.

Confiança, de verdade, com letras maiúsculas, em nada combina com vigilância.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme