A chegada do segundo filho

Papo de pracinha (*) 

1444722355_88Escolhemos conversar hoje sobre a chegada de um segundo filho, sobre as famílias que já têm uma criança e um bebê recém-chegado, ou por chegar.

Não é fácil criar duas crianças bem pequenas com pouca diferença de idade, sabemos. Há quem ache que o trabalho duplica ou triplica e há, também, aqueles que julgam ter vivido a grande mudança de suas vidas quando chegou o primeiro filho, não com a chegada do segundo. Algumas “multiplicações” são inegáveis no país em que vivemos, em especial no aspecto financeiro: escola, condução escolar, pediatra, alimentação, plano de saúde, por exemplo.

A experiência da maternidade anterior vale como um patrimônio imaterial valioso. A ansiedade em relação ao segundo bebê diminui muito, pai e mãe se sentem fortalecidos e muito mais seguros. No entanto, sem querer gerar desânimo, é preciso lembrar que crianças são únicas e muito diferentes entre si, embora filhos de um mesmo casal. As diferenças aparecem já durante a gravidez diante das transformações do corpo da mulher-mãe: com ou sem azia, com mais ou menos enjoo, com maior ou menor disposição física, chegando ao total de quilos ganhos durante os nove meses. As comparações são inevitáveis, e nem sempre ajudam.

Para trazer ânimo e alegria, podemos dizer que alguns casais que desejaram ter mais que dois filhos informaram que tudo fica muito mais simples para todos do terceiro em diante, será?

Voltando ao segundo filho, já ao nascer, iniciam-se comparações em relação às semelhanças e diferenças entre eles: peso, cor dos olhos, cabelos e pele, se dorme mais ou menos, como acontecem as mamadas, se aceita chupetas, se apresenta alergias, se soluça muito ou pouco; esses são comportamentos comuns, mas é preciso ter cuidado e, ao mesmo tempo, pais disponíveis para abraçar, acolher e valorizar as diferenças existentes entre eles. São duas pessoas diferentes, não é mesmo?

Há ainda, aspectos que não se pode garantir se irão se repetir. Os seios da mãe podem rachar durante a amamentação do primeiro filho, ou não, podem rachar só na segunda gravidez, e pode acontecer de rachar em todas elas. Difícil prever.

Muitas mães e pais podem também sentir algum medo, tão forte que nem sempre chega a ser explicitado, de que não sejam capazes de amar o segundo filho/a tanto quanto o primeiro/a. Essa fantasia é cruel, gera culpa e dor, mas em geral não se configura na prática. O amor já veio se construindo e continuará na relação direta com o novo bebê, também em relação à criança mais velha.

Nesse contexto, mais importante do que tudo isso parecem ser as expectativas que vão sendo geradas no filho ou filha mais velhos, crianças às vezes bem pequenas, em relação ao irmão ou irmã que vai chegar, ou que acabou de nascer. Esse talvez seja o ponto mais importante dessa nossa conversa.

Há aqui algumas falas de crianças sobre isso. O menino B. de 4 anos, vai ganhar um irmãozinho, no período máximo de dois meses. No entanto, há seis meses atrás ele ganhou um priminho e, assim, suas expectativas em relação ao irmãozinho parecem entremeadas pelo que vem vivendo com esse novo primo. Diz ele: eu acho que meu irmão vai ser parecido com o meu primo A., aquele bebezinho assim (faz com a mão, algo como dois palmos de tamanho). Eu vou brincar com ele, mas eu não gosto quando o A. chora. Eu não sei porque ele chora. Quando a voz dele vai começar? Olha eu não quero que meu irmão pise nos meus brinquedos (B. 4 anos). Ele já demonstra algum aborrecimento em relação à possibilidade de o bebê quebrar seus brinquedos e, também em relação à escuta do choro dos bebês. Segundo ele, a fala (a voz) possibilitaria a expressão do que o bebê sente, podendo ser mais facilmente entendido e com isso chorar menos. Essa é uma possibilidade de interpretação.

Ouvimos L., hoje com 11 anos, sobre sua irmã de 5 anos. Segundo ele, as meninas gritam muito e são estressadas, mas é bom ser um menino e uma menina para a família ficar completa. E segue: o meu pai é homem, a minha mãe é mulher, o filho mais velho tem que ser homem e a mais nova, mulher. Pode ter duas mulheres ou dois homens de filhos, mas assim a família não fica completa. Seria bom saber melhor o que ele entende como “família completa”, para além da correspondência de gêneros.

Em geral, as crianças fazem recortes do que vivem, do que escutam, do que experimentam e vivenciam na vida social, sem copiar, mas ressiginificam tudo de acordo com suas experiências, seus valores, suas histórias de vida, seus medos etc. É importante ouvi-las, sempre.

Não é pouco comum que os adultos “responsabilizem“, sem perceber, na busca de inserção do bebê que vai chegar, aquela criança, às vezes ainda bem pequena, sobre atitudes e comportamentos que não seriam confortáveis nem positivos para ela: você vai ter que tomar conta do seu irmãozinho, vai ter que ensinar a ele isso ou aquilo etc., esquecendo-se de que crianças precisam brincar e não de assumir responsabilidades que são dos adultos.

Vejam o que B. de quatro anos, disse: eu vou ensinar o meu irmão a nadar. Perguntamos: que bacana, você já sabe nadar? Ele respondeu: não, sozinho eu não sei nadar, mas meu pai sabe. E assim, como uma hipótese, achamos que por ele amar tanto o pai, ter tanta identificação com a sua figura, chegue a ampliar “os poderes” dele, para si mesmo. Mas ele sabe que não poderá ainda ensinar isso ao irmão. Por que lhe caberiam esse e outros ensinamentos?

Numa outra situação, contamos para dois meninos de sete e de cinco anos que, quando uma de nós era pequena, a irmã mais velha mal curtia a ida da família à praia. Enquanto a mãe delas conversava na beira da água, a filha mais velha insistia, e gritava: mamãe, olha essa menina. E continuou a conversa: eu acho que ela amava muito a irmã menor e tinha medo que ela se perdesse na praia, ou que se afogasse no mar. Na mesma hora, o P. de cinco anos disse: ela tinha era medo de tubarão! Já o mais velho, A., de sete anos, ficou parado olhando, pensando um pouco mais, e disse: ela não gostava de água do mar, é o melhor da praia! Você não achava que ela era muito chata?

Portanto, conversar com o filho/a e ouvi-lo é desejável também sobre a chegada de um irmãozinho/a. Nada melhor do que envolver a criança nessa espera sem criar expectativas desnecessárias. Muitas vezes as crianças se frustram com a chegada de um bebê porque ele não brinca, como lhes disseram, ele chora mais do que eles gostariam e ainda lhes tomam parte das atenções que eram só delas, coisas que os adultos nunca dizem.

É muito bom poder ouvi-las carinhosamente, com respeito, dizendo à criança que nem mesmo o papai e a mamãe conhecem ainda o bebezinho e que, assim, todos passarão a amá-lo, a acompanhá-lo e conhecê-lo a partir da convivência com esse bebezinho que vai chegar, de quem tão pouco ainda se sabe.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

O que fazem os bebês?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Muitos pais nos perguntam sobre o desenvolvimento dos bebês, principalmente nos primeiros meses de vida. Sentem-se inseguros diante daquele ser que chegou às suas vidas, totalmente dependente deles e, ao mesmo tempo, tão desconhecido. O filósofo espanhol Jorge Larrosa nos fala dessa diferença radical entre o adulto e a criança: As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua. (**). E não é? Para Larrosa, a criança é um enigma que precisa ser desvendado, a partir da nossa abertura para conhecê-la, admirá-la e também nos surpreender com ela! Mas nós, adultos, teimamos em rapidamente enquadrar as crianças em nosso saber, supondo que tudo sabemos sobre elas…

Para além de questões relacionadas aos cuidados com o bebê, como sono, aleitamento, cólicas etc. outras tantas questões começam a surgir na relação pais-bebê. O que o bebê sente e pensa? Como posso brincar com ele? O que faz um bebê com um mês? E com dois, três? Posso dar brinquedinhos? Quais? Coloco o bebê no chão? Ele deve ouvir música? De que tipo? Música clássica? Pode assistir DVD? Galinha Pintadinha? Quando posso colocá-lo no tapetinho de atividades? Por quanto tempo? E por aí vai.

Para tirar essas e outras tantas dúvidas, os pais recorrem à internet, e não faltam sites, blogs, pesquisas e textos científicos, contendo informações, dicas e até mesmo receitas detalhadas do quê fazer. Mas vamos lembrar que o terreno da internet é vasto e movediço, contendo do melhor e do pior! É preciso acessar sites confiáveis. É preciso refletir sobre o que lemos. E, mais importante do que tudo isso, é preciso ir descobrindo junto com o bebê suas preferências, suas possibilidades e limites. Sim, o bebê nos diz muitas coisas com seus movimentos, expressões e reações. Mas, para escutar o que eles dizem, é necessário entrar em conexão com eles e confiar mais na nossa sensibilidade! Afinal, junto com o bebê também está nascendo uma mãe e um pai! E é na relação com o bebê que se aprende a ser pai ou mãe, muito mais do que é possível aprender por meio de manuais, livros, internet e conselhos por aí (e esses existem em abundância!) Claro que as informações são muito importantes, e saber sobre os marcos do desenvolvimento infantil e comportamento de bebês nas suas diferentes idades ajuda a estruturar o cotidiano, e também contribui para que os pais criem possibilidades de interações com o bebê, mas nenhum manual dá conta da complexidade que é o desenvolvimento de uma criança e das relações e significados que vamos construindo com nossos filhos.

Os manuais baseiam-se geralmente numa compreensão do desenvolvimento infantil como etapas que se sucedem em direção ao pensamento adulto. Fomos levados a pensar que existe um percurso, desde o nascimento do bebê, que é previsível, uniforme e universal, como uma linha reta crescente, cujo ponto final é a racionalidade adulta. Mas uma linha em espiral, ou mesmo em forma de rede, seria bem mais adequada para representar esse processo, que não é linear e muito menos universal, uma vez que é função da cultura e das interações entre a criança, o ambiente e as pessoas com quem convive. Não faltam pesquisas e teorias com escalas de desenvolvimento que especificam as capacidades esperadas das crianças em cada idade, independente do contexto sociocultural em que ela se encontra. Quando olhamos para essas escalas, queremos logo saber se nossos filhos correspondem à normalidade ou, até mesmo, se estão “adiantados”, “acelerados”. Felizmente, há outras formas de abordar o desenvolvimento infantil que buscam a compreensão dos processos de desenvolvimento e dos modos particulares como as crianças se desenvolvem nas interações com o ambiente, com a cultura e com as pessoas do seu convívio. Tais estudos dão mais conta da diversidade, da singularidade e da complexidade do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças. Podemos falar sobre eles em outro momento.

Para responder à questão que dá título a esse texto vamos deixar as escalas de lado e tratar aqui de princípios gerais que podem encorajar os pais a descobrir o que fazem os bebês junto com seus bebês: Continuar lendo O que fazem os bebês?

O que é melhor para seus filhos?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não é pouco comum ver mães, pais e famílias se sentindo fragilizados para decidir coisas importantes em relação às suas crianças. Como eu percebo isso? Não é difícil diante do número de e-mails, telefonemas e abordagens que recebo de amigos e nos espaços por onde transito: o que você acha sobre o uso da chupeta? E a natação para bebês? A água do banho: quente, morna ou fria? As escolas bilíngues? Castigos, sim, não, a partir de que idade? E tantas outras dúvidas, inseguranças e lacunas que incomodam os corações de pais e mães em busca de respostas. Mas quem tem essas respostas? Onde elas estão prontas e acessíveis?

Assim, preciso evitar sempre ocupar esse espaço que me é oferecido para não agir de uma forma que contraria as minhas raízes, a minha história e as minhas crenças. Ao mesmo tempo, isso não é simples porque não sou um ser sem opinião, alguém que se omite e que pouco se expõe. Portanto, é bem comum eu vir a responder com uma proposta assim: vamos conversar sobre isso? para aceitar dialogar sobre um tema aflitivo sem alimentar crenças fantasiosas. Não acredito que qualquer pessoa, fora do contexto familiar que sustenta a relação afetiva cotidiana, tenha as melhores respostas para a educação de suas crianças. E, junto com isso, eu não acredito em pessoas que se julguem superiores, mais sabidas (isso na nossa sociedade nada mais é do que poder), capazes de solucionar problemas alheios com respostas prontas.

Me pergunto ainda, a quem interessa criar, disseminar e manter essa forma de ver a vida onde, por exemplo, se busque defender um único modo para todas as mães parirem seus filhos, sobre um padrão de amamentação por igual período para todas as crianças que poderia ir de 6 meses a 2 anos, ou pelos primeiros mil dias, como alguns defendem e, ainda, sobre os benefícios e malefícios do uso da chupeta. Dei três exemplos provocadores porque qualquer “estudioso de crianças” poderia responder rápida e genericamente a essas três questões. E eu também, desde que genericamente. No entanto, generalidades não combinam com a mulher, a mãe e a avó que me habitam porque desejo garantir o espaço das subjetividade(s), do que diferencia as pessoas, e isso delicadeza, cuidado e muito respeito. Continuar lendo O que é melhor para seus filhos?