Beleza e ambientes desafiadores são direitos das crianças!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioA atenção à qualidade estética das coisas que nos cercam é uma aspiração profunda na história da humanidade. Frequentemente essa qualidade é confundida com ostentação e riqueza, mas não é disso que estamos falando, e sim de uma relação com o mundo marcada pela sensibilidade, pela escuta, pelo cuidado, pela atenção, pela imaginação e pelo desejo de construir sentidos e compartilhá-los com os outros. Nessa relação mais íntima e intensa com a realidade, que se dá no plano dos sentimentos, nasce a beleza e o prazer a ela associado.

Sons, cores, texturas, odores, sabores, formas estão presentes no mundo, tanto na natureza quanto nos objetos e espaços criados pelo homem, nos afetando de diferentes formas, mexendo com nossos sentidos e pensamentos. Através da cultura, dos espaços que habitamos e das experiências vividas, vamos construindo lentes cada vez mais sensíveis para sentir o mundo e significá-lo.

As pesquisas com crianças revelam que elas têm uma sensibilidade perceptiva inata em relação aos ambientes em que se inserem, demonstrando alta capacidade de analisar e distinguir a realidade através de sentidos como visão, olfato, audição, toque, paladar.

Muitos aspectos podem ser levantados a partir dessas colocações, mas hoje vamos falar dos espaços organizados pelos adultos para as crianças, sobretudo sobre os espaços escolares. Como são pensados? O que oferecem para as crianças? Favorecem esse sentido de beleza, permitindo-lhes se envolver e criar sentidos nas relações com os elementos ali presentes?

Antes de mais nada, é preciso dizer que o modo como os espaços são organizados, as escolhas e a disposição do mobiliário, dos objetos e dos materiais que compõem os diferentes ambientes de uma unidade de Educação Infantil não constituem um simples pano de fundo indiferenciado onde acontece um trabalho educativo. Na verdade, revelam a compreensão de criança que sustenta a filosofia pedagógica da instituição. Vejamos: que ideia de criança orienta espaços assépticos e amorfos, com poucas cores e objetos para as crianças observarem e manipularem? E o que dizer de um espaço com uma profusão de cores, dispostas de modo indiferenciado, restritas geralmente ao azul, vermelho, branco e amarelo, onde os objetos e materiais estão guardados em armários ou prateleiras fora do alcance das crianças? Ou ainda espaços em que as paredes expõem colagens ou pinturas moldadas pelos adultos e reproduzidas pelas crianças, como por exemplo as famosas “releituras” de Romero Britto? Certamente essas diferentes formas de organização do espaço têm como referência uma ideia de  criança pouco potente, de quem se espera pouca autonomia, baixa capacidade de percepção e pouca ou nenhuma criação.

São muito diferentes os espaços que se orientam para a reprodução/transmissão de conhecimentos e aqueles que são pensados para acolher e favorecer a criação da criança! Precisamos refletir sobre isso!

Mas o que seria um bom ambiente para as crianças?

Um ambiente projetado para as crianças não pode ser uma mera soma de espaços, mas sim a expressão de uma filosofia, de uma forma de se compreender a criança, a brincadeira, a educação, a aprendizagem, as relações adulto-crianças e as relações entre as crianças. Os elementos que compõem o espaço precisam fazer parte de um contexto significativo, tendo em mente uma criança competente, ativa, criativa, sensível, perceptiva, comunicativa e produtora de cultura.

Levantamos abaixo alguns aspectos que precisam ser considerados nos projetos de ambientes de infância:

  • a segurança e, ao mesmo tempo, o desejo de autonomia da criança.
  • a capacidade de acolher carinhosamente o eu e os outros, o grupo pequeno e o grande, as ações individuais, os encontros e as interações.
  • a capacidade de convidar as crianças a uma ação curiosa sobre os objetos e materiais, a brincar, a manifestar e a desenvolver suas potencialidades e habilidades e a se relacionar com os outros, adultos e crianças.
  • elementos como cores, luzes, texturas, cheiros e sons, em pisos, paredes tetos, materiais e objetos, compõem a qualidade estética do espaço e devem favorecer o acolhimento, o brincar, a exploração do espaço com todos os sentidos e uma vivência prazerosa.
  • os objetos, materiais e brinquedos devem ser aqueles que se deixam brincar e ser transformados pelas crianças; devem estar acessíveis às crianças e organizados de modo a oferecer-lhes a possibilidade de uma escolha ativa.
  • as diferenças de ritmo, idade, sexo, identidade, hábitos e habilidades precisam ser contempladas.
  • a capacidade de valorizar as linguagens das crianças, favorecendo as suas diferentes possibilidades de elaboração e expressão.
  • pesquisas indicam que os ambientes organizados em cantos ou zonas separadas de brincadeiras, mas que mantenham a possibilidade de comunicação entre si (através de fechamentos e aberturas), favorecem as escolhas, as interações e a exploração contínua e produtiva dos objetos e materiais.

É importante lembrar também que a qualidade do ambiente não diminui a importância do papel do adulto como responsável por organizar e garantir uma boa experiência para as crianças.

Precisamos repensar os espaços para a infância e entendê-los como um elemento relacional e construtivo no processo da experiência da criança. Alguns países vêm avançando nesse sentido. Na Itália, por exemplo, cidades como Reggio Emilia, San Miniato e outras cidades da Toscana são exemplos de um  trabalho inovador e cuidadoso em relação aos espaços de creches e pré-escolas. Estes são projetados a partir do olhar da educação, da arquitetura, do design e da arte.

O Brasil pode avançar também! Mas, para tanto, é preciso abandonar velhos parâmetros e acreditar na capacidade de a criança criar e em seu direito à beleza e a boas e significativas experiências nos ambientes em que habita!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

Adaptação: tempo de olhar para as interações entre as crianças

Bernadete Mourão (*)

O início do calendário escolar marca também, para muitos de nós, uma temporada de tensões relativas ao ingresso das crianças pequenas às unidades de educação infantil, e é a este respeito que trazemos algumas ideias que podem contribuir para pensar este momento delicado que é o da adaptação.

Se nos reportarmos às nossas próprias lembranças de adultos ingressando em um novo ambiente (na universidade ou no trabalho, por exemplo), certamente, a maioria de nós, conferirá grande valor à formação de vínculos com colegas na construção do nosso bem-estar nesses espaços. Vínculos que vão, paulatinamente, participando de um sentimento de pertencimento ao grupo e que nos permitem inserções felizes. Este exemplo, pode nos ajudar, como analogia, a nos deslocar para a posição da criança recém-ingressa em uma creche ou pré-escola ou mesmo no momento de seu reinício após longas férias, permitindo uma reflexão quanto ao valor que deveríamos atribuir ao papel das interações entre as crianças na Educação Infantil. É claro que não é apenas a vinculação afetiva o único elemento a ser considerado na avaliação da qualidade de um espaço, mas isto importa muito para a criança. Vale lembrar que quando conversamos com crianças e perguntamos sobre o que elas mais gostam na creche ou na pré-escola, a quase totalidade delas se refere ao brincar. E este brincar, se bem observarmos, dificilmente acontece solitariamente, como pode ser frequente nos lares, mas sempre com os colegas. É comum colocarmos o foco de nossas preocupações apenas nos adultos das creches e pré-escolas e especialmente nas professoras e nos professores. Esquecemo-nos de valorizar a importância da formação do grupo, das interações que ocorrem entre as crianças e que participam do bem-estar delas na creche e na pré-escola e que, portanto, envolvem seu interesse em lá estar e permanecer. Em geral, apenas valorizamos as relações do adulto com a criança como promotora de segurança, bem estar e de desenvolvimento. Mais ainda, tendemos a reconhecer como majoritariamente importantes os vínculos afetivos da criança voltados aos adultos. Claro que é fundamental um profissional bem formado para um projeto de Educação Infantil de qualidade. E, atrelado à formação, sua capacidade de empatia (especialmente com crianças), atitude de acolhimento, de abertura ao diálogo para uma escuta atenta ao que dizem as crianças (com palavras, risos, choros, recusas, gestos e expressões) e senso de responsabilidade. Assim, longe de colocar o papel da professora e do professor em segundo plano, apenas se está propondo aqui um ajuste no olhar à criança que ingressa no ambiente da creche ou pré-escola que inclua as interações com seus pares.

Para ilustrar esta argumentação, vou contar duas histórias de crianças de aproximadamente três anos e que aconteceram anos atrás, em uma Unidade de Educação Infantil, de que participava. Nesta, o planejamento do período de ingresso de novas crianças (a qual chamávamos de inserção em contraponto ao termo adaptação) incluía a participação dos responsáveis. Inicialmente, cada responsável ficava junto a sua criança na sala de atividades, acompanhando e/ou realizando as propostas feitas pelas professoras (não tínhamos salas de aula porque não eram aulas, mas atividades que realizávamos com crianças de menos de seis anos de idade). Posteriormente, no momento em que o educador já considerasse possível o afastamento do responsável, este permanecia na Unidade, mas em outro local no qual a criança poderia encontrá-lo, caso solicitasse. Certa vez, uma criança precisou que sua mãe ficasse mais de um mês na recepção, dada sua insegurança quanto ao seu afastamento. Em um belo dia de sol, embora igual a tantos outros, o inesperado fez acontecer o ponto de viragem desta história, relatado à equipe pelo próprio pai, observador atento da cena que havia se passado: naquele dia o filho havia chegado atrasado e, quando os colegas o avistaram do pátio externo, começaram a chamar alto pelo seu nome. Ali a magia se realizou e todos “foram felizes para sempre”. Fim da história e começo de uma outra livre de inseguranças. A nosso ver, o fim de uma história e o início da outra relacionaram-se com a recepção esfuziante, espontânea e coletiva, que permitiu que a criança vislumbrasse de modo inequívoco o quanto era querida pelo grupo, re-significando para ela suas noções de pertencimento àquele grupo ao qual passou a integrar, desde então, de forma tranquila e plena.

Nossa segunda e última história deu-se no período de retorno das longas férias de fim de ano e é sobre uma criança que se recusava a ir para sua sala e deixar sua mãe ir embora da creche. Durante meia hora, a recusa aos convites dos adultos era total e absoluta até surgir em cena uma colega que acabara de chegar à creche. Neste momento, as duas crianças se entreolharam. A menina que chegava, sem nada saber o que estava acontecendo, em seu caminho em direção à sala, espontaneamente, fez um gesto com a mão (abrindo a palma da mão e levantando os dedos), que claramente indicava: “- Vem comigo”. O menino que até então era só certeza de recusa, claramente entrou em conflito quanto à decisão tomada. Esboçou um aceite: virou o corpo em direção à menina e deu alguns passos. Por alguns instantes, todos que participávamos da cena, pensamos que a decisão seria revertida. Embora não tenha sido, apenas mais adiante, a dúvida que o convite da colega claramente produziu no menino indica a força das relações que acontecem entre as crianças e que muitas vezes passam despercebidas ao olhar comum.

A partir de tudo que se disse até aqui, fica o convite para um olhar sobre o valor das interações entre as crianças neste delicado período que marca o começo da construção de um mundo novo para crianças e adultos.

(*) Bernadete Mourão, colaboradora do Papo de pracinha, é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – Niterói, e doutora em Psicologia pela USP.

Quem tem medo de bruxa?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não estamos aqui na pracinha, dessa vez, para discutir se os países que vivem na parte debaixo da linha do Equador devem, ou não, comemorar o dia das bruxas como se faz na América do Norte, embora isso pudesse vir a ser um papo de muitos dias no banco da nossa praça. Viemos conversar dessa vez sobre a relação de crianças e adultos com os medos, como algo que caracteriza a vida dos seres humanos, e de todas as culturas.

Afinal, quem é que nunca sentiu em algum momento de sua vida um certo medo do bicho-papão, ser horrendo que come criancinha? Ou do homem-do-saco, velho maltrapilho que leva embora os pequeninos? Mais recentemente conhecemos a avassaladora loura do banheiro. Bem, nós adultos precisamos saber que a tal loura, o bicho-papão e o homem-do-saco são seres criados pela imaginação dos adultos para amedrontar as crianças, para conseguir que elas fiquem quietas, ou que obedeçam.

Quem também não criou seus próprios monstros? Quem nunca imaginou que havia um morto-vivo escondido debaixo da cama ou jurou que atrás da porta do quarto escuro se escondia um fantasma, ou um ser de olhos maus e flamejantes? Continuar lendo Quem tem medo de bruxa?