É preciso desacelerar a rotina das crianças: parte 2

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEstamos verdadeiramente atentas e preocupadas com o que os adultos vêm fazendo com e pela vida de seus filhos e filhas, as vezes com muito esforço, em nome do “sucesso” futuro, na vida adulta.  Em sociedades altamente competitivas como a nossa, há quem acredite que a criança deva se “preparar para o futuro”, para o mundo do trabalho e, nesses casos, não basta a escola. As crianças acabam frequentando muitas outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades e, tudo indica que quanto mais cursos a criança frequenta, aparentemente mais bem preparada ela estaria. Será?

A contrapartida mais imediata é que muitos pais se julgam melhor avaliados pelo tamanho do investimento que fazem no futuro de seus filhos. Isso é bom para esses pais? E para seus filhos e filhas?

E nesse ritmo frenético há, ainda, uma relativa valorização daquelas escolas que antecipam a educação formal, que exigem de crianças com 3, 4, 5 anos, a “exercitação e o aprendizado”, com muitas aspas, do que seria a leitura, a escrita e as noções matemáticas, quase sempre desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Por que insistimos em certos comportamentos e crenças?

Sabe-se que a brincadeira infantil, livre, sem o controle dos adultos foi bastante esquecida e desvalorizada por muitos longos anos. O fato de ela não depender de objetos específicos, já que tudo pode ser transformado em brinquedo, e nem de um espaço próprio, porque as crianças criam e constroem espaços e tempos de brincar sem obedecer às regulações do mundo adulto, gera uma compreensão de que brincar é algo “inútil e improdutivo” (?). E tem mais, como as brincadeiras escapam ao controle e à previsibilidade dos adultos, porque elas valem por si e não por qualquer outro produto ou resultado que possam produzir, de novo, ficam fora do ranking das atividades saudáveis, produtivas e necessárias para a vida das crianças. Argh!

Isso tudo tem origens remotas que vêm de séculos atrás.

 Um pouco dessa história:

Para entender essa história precisamos chegar ao filosofo grego Platão, que viveu provavelmente de 427 A.C. a 347 A.C. e que influenciou consideravelmente a filosofia ocidental, e também a educação. Suas ideias deixaram resquícios que podem ser vistos até hoje, por exemplo, o fato de a INFÂNCIA não ter características próprias e, por isso, ser vista apenas como um pilar antecipatório para a vida adulta(?). Essa visão “futurista” e ultrapassada de criança só considera as suas possibilidades como um ser em potencial, em um momento futuro, como adulto/a. Assim, as crianças não eram compreendidas como sujeitos que tinham uma vida ativa e rica em experiências no presente. Será que há ainda quem pense assim?

O fato de elas não serem valorizadas como crianças, no presente, também tinha apoio nas ideias de Platão, que as entendia como seres inferiores e via a infância, nesse viés, como uma fase inferior, menos importante que a fase adulta.  Será que já superamos essa antiga concepção?

Para completar, pela impossibilidade de agirem sobre e na pólis, origem da palavra política, Platão entendia a criança como “um outro desprezável, um excluído”, de quem se esperava que fosse vencida e domada pela Educação  (Kohan, 2003).  Não viria daí o fato de que hoje, ainda, a frequência às instituições de Educação Infantil funcionar muitas vezes como pano de fundo para a “socialização desses seres selvagens e desprezáveis” para aprenderem o jogo das regras sociais?

E, se a infância era vista como uma possibilidade futura, a educação funcionaria como uma ferramenta para moldar as crianças.  Alguém ainda acredita nisso?

Onde estão as alternativas?  

  • Na afirmação da criança como um sujeito de direitos, como produtora e consumidora de cultura, garantindo-lhes o direito de brincar. Para que se constituam como sujeitos únicos, sensíveis, criativos e expressivos, as crianças precisam imaginar e fantasiar em contextos de brincadeira livre. Isso é um direito e uma necessidade para viverem plenamente como crianças que são. Brincar, imaginar e fantasiar vem a ser o modo próprio como as crianças experimentam o mundo, como entendem esse mundo, como elas se entendem como parte dele e, também, como melhor expressam o que pensam, sentem e imaginam. Brincar favorece a construção de valores como a solidariedade e a parceria, o respeito às diferenças e aos “outros jeitos” de viver, de ser e de sentir.
  • Na formação de professores de crianças valorizando a brincadeira e defendendo sua importância como um direito delas, de poderem brincar livremente, com outras crianças e com adultos, em casa, nos espaços da cidade e também, em instituições de educação infantil. Não deve haver limites para o brincar e para a brincadeira que é, na verdade, a atividade essencial das crianças.
  •   Num comportamento crítico e reflexivo de pais e das famílias sobre o que desejam verdadeiramente para a vida de seus filhos, cientes de que quando elas são impedidas de brincar não há como retomar esse processo, que só pode ser vivido por elas, em situação de liberdade, se possível em contato com a natureza, e sempre com o apoio dos adultos.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Dormir é perda de tempo? Para quem?

Como defensoras das crianças e das diferentes infâncias, escolhemos discutir aqui sobre algo que foi ouvido no metrô. A história era assim: “ esse ano, embora o meu ainda vá fazer três anos daqui a quatro meses, a equipe da escolinha já começou a tirar o soninho da tarde”. Para nossa sorte, a amiga com quem essa pessoa conversava teve dúvidas: “mas como? Como elas conseguem não deixar as crianças dormirem? ” A primeira, então, explicou que não significava “não deixar, mas propor atividades bem legais para eles irem se habituando a tirar o sono da tarde”. Será que é isso mesmo? É ruim que as crianças durmam à tarde?

A essa altura já pensávamos em tantas coisas, inclusive no azar que aquela dupla teve ao sentar exatamente perto de nós, exatamente atrás de nós, com tantos bancos vazios no metrô. A segunda coisa que nos preocupou foram as “tais atividades”, que têm cheiro de escolarização precoce e que merecem um papo à parte. Elas podem ser criativas e interessantes, mas nossas cabeças de professora viajam logo para outros mundos, nem sempre felizes, e nos causa arrepios pensar num rol de atividades para crianças tão pequenas: quais, por que e para quê? Bem, mas desta vez, para abrir o debate escolhemos ainda explorar um terceiro ponto, tão importante quanto os anteriores: o controle dos adultos sobre o sono das crianças.

Será mesmo verdade que algum professor e a instituição onde atua acredita que, em torno dos três anos de vida as crianças não devam mais dormir à tarde, na creche?

Desafio, mesmo, quem nos convença de que seja bom para a vida das crianças que um adulto interfira no horário do sono delas. Desafio! Sono é um território onde é muito difícil, mesmo querendo muito, impor ritmo, duração, intensidade etc. E ainda bem. Claro, cada um de nós, e também as crianças aos poucos vão conhecendo o que o cada corpo pede, precisa e, às vezes, até impõe. E, com isso, cada criança e os adultos que a cercam também passam a conhecer as demandas de cada uma que, por recorrência, acaba sendo um hábito, ou uma rotina. Esses hábitos e rotinas também vão se transformando durante toda a vida. E, quando as crianças estão muito felizes e envolvidas numa brincadeira, esses hábitos ou rotinas podem ser quebrados, sem problemas. Claro, se num dia ela acordou muito cedo e brincou exageradamente, pode ser que mesmo não tendo o hábito de dormir à tarde, que nesse dia tenha sono. E o contrário também acontece com quem dorme, todos os dias, aquele soninho gostoso do pós- banho, pós- alimentação. Descansado e com bons amigos por perto, muitas vezes o sono da tarde vai embora e à noite, ou no cair da tarde… bem, aqui começam muitos dos problemas dos adultos.

Crianças com sono costumam ficar enjoadas, chorando à toa. Resmungam sem saber dizer o que sentem, o que desejam e as causas do desconforto. Muitas vezes esfregam o rosto com força, ficam vermelhas e choram nervosamente. E, quando crianças choram por qualquer motivo, os adultos ficam muito incomodados, estressados. Claro, em situações comuns, chorar sempre indica algum desajuste ou desconforto e, nesses casos, quanto menor é a criança maior deve ser a tolerância e o apoio do adulto ao acolhê-la para tentar, com cuidado e sensibilidade, ajudá-la a decifrar o indecifrável. O sono muitas vezes é responsável por cenas assim, desgastantes para todos.

Sabe-se que as crianças que frequentam creches desde cedo precisam aprender a seguir certas regras e rotinas que não necessariamente são desrespeitosas, mas necessárias. Os horários de banho, de alimentação e de sono, por exemplo, precisam ser organizados e planejados para atender ao grupo de crianças. Isso é razoável e compreensível, mas ter que dormir depois do almoço pode ser uma experiência tão ruim para algumas crianças, quanto não poder dormir.

Felizmente a maioria das crianças dorme “do jeito que dá”, quando o sono chega. Arrebatador, ele consegue fazer com que elas durmam sentadas, mal-ajeitadas, recostadas ou não, no chão, em cadeiras de restaurante, no banco do metrô e, também, na rodinha da creche ou da escola.

Enquanto as pessoas dormem o seu corpo descansa e as energias revigoram-se, mas não é só isso. Os cientistas dizem que não se pode dizer que o cérebro repouse durante o sono. Tudo indica que ele trabalhe fazendo certos tipos de seleção, de combinações, conexões de várias ordens, além de nos permitir sonhar. O sono é tão precioso que empresas estão criando espaços para que seus funcionários possam fazer uma sesta após o almoço, algo entre 30 min e 1 hora, para que se sintam mais dispostos, revigorados e, também, para que trabalhem mais e melhor. Mas, quando tratamos de crianças, não estamos falando de linhas de produção em série, em quem faz mais, em menos tempo, tem algum tipo de bônus. Podemos dizer que a gestão do tempo das crianças seja, às vezes, cruel e desrespeitosa para com elas. Isso é um outro assunto cáustico- a agenda de algumas crianças! Ufa!

Nós adultos somos os que permitimos, ou cerceamos, acesso, espaços e tempos dentro dos quais as crianças podem transitar. Mesmo sem dizer, claramente, o que pode ou não, já deixamos estabelecidos na organização que damos às nossas vidas e às delas o que achamos oportuno, razoável e desejável para a vida delas, na maioria das vezes, sem ouvi-las, senti-las, nem as conhecer no que elas podem trazer de novo para nós: mães, pais, avós e professores.

Por que elas precisam mudar seu ritmo biológico e dormir menos, ou não dormir depois do almoço, em torno dos três anos de vida? Em nome de quê?

O que fazem os bebês?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Muitos pais nos perguntam sobre o desenvolvimento dos bebês, principalmente nos primeiros meses de vida. Sentem-se inseguros diante daquele ser que chegou às suas vidas, totalmente dependente deles e, ao mesmo tempo, tão desconhecido. O filósofo espanhol Jorge Larrosa nos fala dessa diferença radical entre o adulto e a criança: As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua. (**). E não é? Para Larrosa, a criança é um enigma que precisa ser desvendado, a partir da nossa abertura para conhecê-la, admirá-la e também nos surpreender com ela! Mas nós, adultos, teimamos em rapidamente enquadrar as crianças em nosso saber, supondo que tudo sabemos sobre elas…

Para além de questões relacionadas aos cuidados com o bebê, como sono, aleitamento, cólicas etc. outras tantas questões começam a surgir na relação pais-bebê. O que o bebê sente e pensa? Como posso brincar com ele? O que faz um bebê com um mês? E com dois, três? Posso dar brinquedinhos? Quais? Coloco o bebê no chão? Ele deve ouvir música? De que tipo? Música clássica? Pode assistir DVD? Galinha Pintadinha? Quando posso colocá-lo no tapetinho de atividades? Por quanto tempo? E por aí vai.

Para tirar essas e outras tantas dúvidas, os pais recorrem à internet, e não faltam sites, blogs, pesquisas e textos científicos, contendo informações, dicas e até mesmo receitas detalhadas do quê fazer. Mas vamos lembrar que o terreno da internet é vasto e movediço, contendo do melhor e do pior! É preciso acessar sites confiáveis. É preciso refletir sobre o que lemos. E, mais importante do que tudo isso, é preciso ir descobrindo junto com o bebê suas preferências, suas possibilidades e limites. Sim, o bebê nos diz muitas coisas com seus movimentos, expressões e reações. Mas, para escutar o que eles dizem, é necessário entrar em conexão com eles e confiar mais na nossa sensibilidade! Afinal, junto com o bebê também está nascendo uma mãe e um pai! E é na relação com o bebê que se aprende a ser pai ou mãe, muito mais do que é possível aprender por meio de manuais, livros, internet e conselhos por aí (e esses existem em abundância!) Claro que as informações são muito importantes, e saber sobre os marcos do desenvolvimento infantil e comportamento de bebês nas suas diferentes idades ajuda a estruturar o cotidiano, e também contribui para que os pais criem possibilidades de interações com o bebê, mas nenhum manual dá conta da complexidade que é o desenvolvimento de uma criança e das relações e significados que vamos construindo com nossos filhos.

Os manuais baseiam-se geralmente numa compreensão do desenvolvimento infantil como etapas que se sucedem em direção ao pensamento adulto. Fomos levados a pensar que existe um percurso, desde o nascimento do bebê, que é previsível, uniforme e universal, como uma linha reta crescente, cujo ponto final é a racionalidade adulta. Mas uma linha em espiral, ou mesmo em forma de rede, seria bem mais adequada para representar esse processo, que não é linear e muito menos universal, uma vez que é função da cultura e das interações entre a criança, o ambiente e as pessoas com quem convive. Não faltam pesquisas e teorias com escalas de desenvolvimento que especificam as capacidades esperadas das crianças em cada idade, independente do contexto sociocultural em que ela se encontra. Quando olhamos para essas escalas, queremos logo saber se nossos filhos correspondem à normalidade ou, até mesmo, se estão “adiantados”, “acelerados”. Felizmente, há outras formas de abordar o desenvolvimento infantil que buscam a compreensão dos processos de desenvolvimento e dos modos particulares como as crianças se desenvolvem nas interações com o ambiente, com a cultura e com as pessoas do seu convívio. Tais estudos dão mais conta da diversidade, da singularidade e da complexidade do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças. Podemos falar sobre eles em outro momento.

Para responder à questão que dá título a esse texto vamos deixar as escalas de lado e tratar aqui de princípios gerais que podem encorajar os pais a descobrir o que fazem os bebês junto com seus bebês: Continuar lendo O que fazem os bebês?

Crianças em férias: tédio? Descanso? Alegria?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88É verão, faz calor e as crianças estão de férias da creche ou da pré-escola. Quando os pais conseguem também tirar férias do trabalho e fazer um passeio maior, reunindo a família, essa época pode ser de alegria e de felicidade para todos, mas nem sempre acontece assim.

Na idade que, em geral, homens e mulheres têm filhos pequenos é comum que exista um grupo grande em cada empresa com as mesmas características e demandas. Assim, marcar as férias profissionais junto com as férias das crianças nem sempre é fácil. A empresa não pode parar no verão, dizem os chefes, com as suas razões.

Mas as crianças não escolhem seus períodos de férias e, assim, quase todas as pré-escolas têm férias numa mesma época, embora ainda existam algumas poucas creches que sequer têm férias coletivas, o que pode auxiliar aos pais, mas gera muitos outros problemas para a instituição e às vezes, também, para as crianças.

Todos precisam ter um período de descanso: pais, empregados domésticos, babás, funcionários que trabalham nas creches, nas escolas e professores.

A casa que sitia a creche, ou a escola, precisa de pequenas obras de manutenção e de reparos como pintura, limpeza de caixas d’água, desinfecção, dedetização etc. Pode-se imaginar que as instituições que funcionam direto, sem qualquer período de descanso, como algumas creches, têm o desafio de fazer essa manutenção e os reparos com as crianças presentes, além de ser necessário dar férias aos professores e funcionários durante o período regular de trabalho, ao longo do ano letivo. Isso é muito complicado na dinâmica cotidiana das instituições que trabalham com crianças.

Enfim, embora o termo “férias” indique um “período de repouso necessário para que o corpo humano funcione com toda a sua potencialidade”, eventualmente a administração do período de férias das crianças pode não ser suave nem livre de estresses para os adultos. Há crianças que gostam e querem repousar, quando isso significa quebrar a rotina e não acordar cedo todos os dias, por exemplo. Há aquelas que choram de saudades dos amigos e da escola. Por que será? Continuar lendo Crianças em férias: tédio? Descanso? Alegria?