A entrada das crianças na creche ou na pré-escola: quem se adapta a quem?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Nossa conversa de hoje é sobre a entrada das crianças, pela primeira vez, numa instituição de Educação Infantil, processo bastante delicado e que geralmente coincide com esse momento que estamos vivendo: o início do calendário escolar.

Essa experiência é vivida pelas famílias de diferentes formas e geralmente envolve uma mistura de sentimentos que podem incluir: expectativa, alegria, preocupação, ansiedade, medo, culpa etc. Muitas perguntas e dúvidas surgem, já na escolha da unidade e, principalmente, durante o processo de entrada, trazendo muitos filtros para o olhar dos pais sobre esse novo espaço: como os adultos cuidarão do meu filho ou da minha filha? Atenderão às suas necessidades? Lhe darão afeto e carinho? O espaço é seguro? Meu filho conseguirá ficar longe de nós? Chorará muito? A alimentação é bem cuidada? Comerá bem? Pegará muitas viroses? O que as crianças fazem nesse espaço?

Essa última pergunta, que muitas vezes ocupa um lugar menos importante diante das demais preocupações mencionadas acima – relacionadas a questões de segurança, alimentação, bem-estar e afeto – é de extrema importância, até mesmo para a garantia desses aspectos e, também, para esse momento da entrada da criança numa unidade de Educação Infantil. O que elas fazem nesse espaço pode atraí-las e convidá-las a ali permanecer, ou não! Organizar, dinamizar e acompanhar o que a criança faz numa unidade de Educação Infantil é uma responsabilidade que se situa do campo específico da Educação. Nesse sentido, chamamos a atenção para o papel fundamental do professor na organização do cotidiano das crianças e na condução da dinâmica desse  encontro entre as crianças e destas com os adultos, os espaços e os objetos. Obviamente que isso se faz em parceria com os demais profissionais que fazem parte da equipe, lembrando que porteiro, equipe da cozinha e da limpeza, pessoal da administração, especialistas de diversas áreas e auxiliares são todos educadores.

Não é difícil dimensionar a importância do momento da entrada de um(a) filho(a) numa Creche ou Pré-Escola, geralmente chamado de adaptação, para as crianças e também para as suas famílias: as crianças estarão entrando em um mundo onde tudo é novo e que constituirá o início de sua experiência escolar; estará uma parte do seu dia (muitas vezes a maior parte) num espaço diferente da sua casa, das suas referências, interagindo com outros adultos, outras crianças, objetos e espaços; viverá provavelmente a sua primeira experiência coletiva fora da família, compartilhando um espaço regulado por regras próprias e onde criará novos vínculos com adultos e crianças. Os pais, por sua vez, estarão passando para terceiros os cuidados e  a educação de sua criança e precisarão construir uma relação de confiança com  a equipe e a proposta da unidade que escolheram. Isso não é pouca coisa!

Será que adaptação é a melhor palavra para nomear esse momento? Vamos pensar: adaptação é um termo associado a uma ideia de passividade, de conformidade a um contexto pré-estabelecido. Na verdade, o termo é coerente com muitas práticas e concepções na Educação Infantil, nas quais as crianças precisam se adequar ao que está posto, não tendo a sua singularidade e modos próprios de ser, agir e sentir contemplados no processo de entrada na creche ou pré-escola. Já temos hoje algumas experiências na Educação Infantil que nomeiam esse  processo de outras formas, tais como acolhimento, ambientação ou inserção, enfatizando um movimento de receber a criança, de preparar a sua entrada, de incluí-la com sua presença ativa e singular naquele espaço. É importante lembrar também que a entrada de novas crianças também provoca alterações no espaço, nos adultos e nas relações entre as crianças.

Como esse momento é planejado pelas instituições? Algumas organizam pequenos grupos em períodos que aumentam progressivamente e que variam de acordo com a faixa etária: quanto menor a criança menos tempo ficam inicialmente: geralmente 1 hora no primeiro dia, aumentando o tempo a cada dia até completar o período em que a criança ficará na unidade. Isso se justifica por se  entender que as crianças precisam lidar com muitas informações novas desse novo espaço e que é preciso não sobrecarregá-las, fazendo com que fiquem tempo suficiente para quererem voltar no outro dia. Algumas unidades incluem os pais no mesmo espaço que as crianças, em um período de tempo que varia entre uma a duas semanas, planejando com estes o seu afastamento, à medida que sentem que a criança pode ficar sozinha junto ao seu grupo. Neste caso, geralmente os pais ainda permanecem na escola durante um tempo, de modo que possam ser acessados sempre que a criança solicitar, até que possam sair quando a criança se sente segura de ficar sem eles. Isso facilita a construção de uma relação de confiança e de segurança nesse novo espaço, tanto para as crianças como para suas famílias. Outras preferem que os pais fiquem desde o início em um espaço diferente daquele em que a criança ficará, permitindo apenas que fiquem na escola. Sabemos, portanto, que existem diversas formas de receber as novas crianças e suas famílias nas unidades de Educação Infantil, mas uma coisa é certa: é fundamental haver um planejamento e um respeito e cuidado para que esse momento seja o mais tranquilo possível para a criança, suas famílias e a instituição.

É comum o foco do processo de acolhimento se voltar prioritariamente para a criação de vínculos afetivos entre a criança e um adulto, esquecendo-se de valorizar outros aspectos que também são fundamentais para a ambientação da criança. Esta é um sujeito competente, que não está presente apenas para receber o que lhe oferecem, mas está ali ativamente estabelecendo relações com esse novo espaço, interagindo com os objetos, pessoas e experiências que ali vive. É claro que os vínculos com os adultos (o professor e os demais profissionais que compõem a equipe) são fundamentais, pois é imprescindível que estes se coloquem próximos às crianças, com atitude de empatia e de escuta para com elas, apoiando-as a ingressar nesse novo ambiente! Mas os vínculos adulto-criança não podem ser o único foco desse processo, é necessário valorizar outros aspectos. Vejamos alguns deles:

  • As interações entre as crianças: estas concorrem para o desenvolvimento e bem-estar delas e para a sua motivação em estar nesse espaço e fazer parte desse grupo.
  • A organização do espaço: deve favorecer as interações, a brincadeira e a autonomia das crianças, contendo mobiliário, objetos e brinquedos interessantes que convidem as crianças a manipulá-los e a fazer suas descobertas, bem como propostas de atividades que promovam o desenvolvimento da criança em suas diferentes dimensões; o espaço deve ser seguro e atraente permitindo que as crianças reconheçam nele as possibilidades de explorar e brincar.
  • Sistema de referência: o adulto é uma referência para a criança, mas faz parte de um sistema de referência organizado com muito cuidado, que inclui os espaços, os tempos, os objetos e a presença dos professores e demais profissionais.
  • O educador desempenha a função de apoiar, facilitar e ampliar as relações entre a criança e o ambiente, a partir de um senso de responsabilidade e respeito por ela.
  • Relação de confiança e aliança entre a equipe e os pais: a educação e o cuidado da criança serão compartilhados pela família e pela instituição, principalmente pelos professores responsáveis pelos grupos, por isso, é imprescindível a escuta mútua.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

“Corpinho sim, cabecinha não”: a hora do banho

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Crianças têm sentimentos diferentes em relação ao banho. Em sua maioria, quando já brincam com mais autonomia, não gostam de parar o que estão fazendo para tomar banho. No entanto, depois de iniciado, o banho proporciona tanto prazer e conforto que elas não querem sair dele. Brigam para entrar e, da mesma forma, brigam para sair do banho.

Há as que só tomam banho frio, as que gostam de água bem quentinha, as que gostam de tentar segurar o sabonete que sempre escorrega etc. Há, ainda, os que adoram piscina e os que preferem praia. Tem também a turma do chuveiro e a da banheira. Há os que tem pavor de mar, de chuveiro e de piscina. A água forte que cai do chuveiro direto na cabeça da criança pode ser assustadora, além do sabão ou xampu nos cabelos que podem incomodar aos olhos, mesmo quando não ardem. Pedro, dos dois aos quatro anos, ao ser chamado para tomar banho anunciava logo: corpinho sim, cabecinha não, resistindo sempre.

Respeitados os hábitos e as preferências de cada uma delas, sempre que possível, podemos dizer que em todas as idades, os banhos refrescam, higienizam e relaxam. Há muitas crianças que dormem logo depois do banho, muitas vezes sobre a toalha, antes mesmo de estarem totalmente vestidas.

O que nem sempre passa pela cabeça dos adultos, em casa e nas instituições de educação infantil, é que a hora do banho quase sempre representa um dos poucos momentos, as vezes o único, em que um adulto e uma criança se aproximam, se encontram, se entreolham e conversam. No lugar da correria do dia-a-dia naturalmente, a hora do banho se configura como um cenário propício para conversas descontraídas, para brincadeiras e para contato. Sim, para contato físico. Então, pense conosco por um minuto: como é a hora do banho na sua casa?

Pois é, nas creches e nas escolas o banho nem sempre pode ser demorado. A maioria das atividades são coletivas e o banho precisa ser ágil, o que faz com que muitas vezes aconteça como se fora uma linha de produção industrial, para dar tempo de atender a todas as crianças. A higiene pode até ficar atendida, mas não costuma haver tempo para brincadeiras nem entre as crianças, nem delas com os adultos. Para que a brincadeira, o toque e o contato físico sejam priorizados, a rotina escolar precisa ser repensada para que o banho tenha maior qualidade relacional, contato mais próximo entre o adulto e a criança.

Todos nós adultos, precisamos também estar atentos para não deixar haver desperdício de água potável, além de ser preciso ensinar as crianças a economizá-la. Sem esquecer, ainda, que a hora do banho, que envolve água em pisos lisos (em geral) formam uma dupla imbatível para acidentes graves! Assim, todo cuidado é pouco, mesmo quando existe tempo para brincadeiras!

Então, afinal, o que queremos defender? Aquele banho que promove experiências e sensações. Por exemplo, no caso dos bebês, vale ter tempo para passar a mão e massagear todo o seu corpo, usar uma esponja bem suave, lavar sua cabeça com massagem no couro cabeludo para que ele se sinta confortável e amado. Os adultos precisam, sempre, respeitar o corpo da criança, ouvir e atender às suas preferências, dialogando com ela enquanto vai anunciando o que vai fazer.

Quando já ficam de pé, seja de chuveiro ou de banheira, a higiene pode ser acompanhada de brincadeira e alegria. Há brinquedos que podem ser molhados, lavados, há os que boiam, os que afundam. Há canetinhas coloridas que podem ser usadas para desenhar em azulejos e em plástico, podendo ser limpos com facilidade depois. Nada melhor, também, que uma bacia bem larga, com pouca água que possa ser usada para manter a criança sentada enquanto brinca com certos objetos, com bonecas e com a própria água. Bacias largas não devem ser substituídas por baldes! Cuidado, crianças podem se afogar em baldes com bem pouca agua se ali caírem, de cabeça, e não conseguirem sair rapidamente. Muito cuidado!

Nas creches e escolas, as crianças podem fazer uma farra tomando banho de mangueira em grupo, podem ir ao chuveiro aos pares e em trios, mas sabemos que o banho mais demorado e com contato apurado com o adulto deve ser função dos pais e mães. Em tese, não deve ser papel das creches e escolas cortar as unhas das crianças, nem usar cotonetes em seus ouvidos, por exemplo, mesmo cientes de que muitas crianças só tomam banho fora de casa já que chegam em casa com muito sono, quase na hora de dormir, e assim ficam sem essas e outras vivências preciosas para suas vidas. Em alguns casos é necessário que seja assim e não podemos julgar seus pais por isso.

Mas podemos tentar explicar, aqui, porque é impossível que as crianças saiam impecáveis das creches e das escolas, mesmo depois de terem tomado banho e se alimentado. Não se pode, nem é desejável que as crianças parem de brincar para ir para casa como se fossem para uma festa. Depois do banho, não há como pendurá-las num cabide até a hora de ir para casa. Na verdade, as atividades ao final de cada período costumam ser mais lentas, mas não podem impedir que as crianças interajam umas com as outras, nem com o ambiente, e que assim voltem a se sujar, claro.

O importante é que, sempre que possível, ao chegar em casa as crianças possam tomar um banho com a ajuda do papai ou da mamãe, que sentem à mesa junto com seus pais mesmo que já tenham jantado para perceber que as casas e a instituições que frequentam são espaços diferentes, com suas regras próprias desde que em ambas exista prazer, segurança, atenção e amor para elas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

A boca: mordidas, conhecimentos e experiências

Papo de pracinha (*)

1444722355_88  Certo dia, alguém da creche do seu filho lhe telefona e diz: “hoje o Miguel mordeu um amiguinho”. Pode acontecer, também, de o próprio Miguel chegar em casa com o corpo marcado pela mordida de algum amigo. Em geral, pai e mãe correm para olhar a agenda à procura de um bilhete que, na maioria das vezes, contém um pedido de desculpas da professora e outras informações que não respondem nem a uma pequena parcela das angústias dos pais. Costuma ser assim.
Há muitas condutas diferentes utilizadas pelas instituições para tratar esses casos. Via de regra, as famílias são avisadas do ocorrido, algo que não acontece quando as crianças se batem, quando há chutes, empurrões ou puxões de cabelos entre elas. Por quê? Existem motivos variados, mas um deles, claramente, já justifica tal conduta: o fato de a mordida deixar marcas no corpo das crianças – e também na cabeça dos adultos, ainda que de outra natureza. “Seria meu filho agressivo para chegar a morder os amigos? O que será que ele fez para levar essa mordida? Não havia nenhum adulto perto, que pudesse evitar esse fato desagradável? ” E as cabeças não param de funcionar. Vamos tentar aqui refletir sobre alguns pontos que julgamos importantes para quebrar alguns mitos e responder a uma parte das perguntas.
O primeiro deles consiste numa relação difusa e, na grande maioria dos casos, bastante equivocada, que atrela as mordidas à agressividade. Algumas crianças – não todas – costumam morder, como forma de conhecer e experimentar tudo o que existe ao seu redor e, nesse viés, o corpo do amigo também pode parecer interessante. Nem sempre as mordidas resultam de disputas e conflitos entre as crianças.
Vamos lembrar aqui que há pais, mães, tios etc. que brincam de dar pequenas mordidas nas crianças e que oferecem seus corpos: braços, dedos das mãos, o queixo etc. para a criança brincar de morder e, com isso, sem perceber, estimulam esse tipo de atividade.
Um segundo ponto se refere a uma incapacidade temporária de as crianças negociarem, dialogarem e resolverem seus conflitos “conversando”. Nesse caso, as ações físicas em relação aos outros são a forma que usam para equacionar seus impasses de modo imediato, com os recursos de que dispõem: uns puxam cabelos dos outros, alguns dão chutes, outros deitam no chão e choram alto, uns empurram e outros mordem. Nesse caso, a mordida é um recurso utilizado em caso de disputa, tanto quanto os demais recursos que conhecemos, todos igualmente “desagradáveis”, mas são os possíveis, naquele momento. Crianças saudáveis passam por essa experiência devido a impossibilidade de ver o outro: o desejo, os espaços, os objetos e as demandas dos amigos. Eles querem saciar as suas demandas e de modo rápido. Essa aprendizagem na trilha da ética, da partilha e das negociações leva algum tempo e exige mediação de adultos. Os embates que as crianças travam entre si, “desastrosos” aos olhos dos adultos, embora não sejam desejáveis, também contribuem para encontrarem outras formas de luta. Todos ficam muito sentidos; chora quem morde, quem é mordido, quem começou a bater e quem deu sequência. E essas “brigas” valem como uma oportunidade para tomarem seus próprios pulsos, para descobrirem-se como seres de desejos.
Não defendemos a equação de conflitos “na mão ou no braço” mas reconhecemos essa fase como natural, superável e de muita aprendizagem.
Um terceiro ponto, também causado pelo fato de a mordida deixar marcas, é o natural envolvimento dos pais em impasses que eram das crianças, das experiências delas com o seu grupo, sob a orientação de um adulto que se espera habilitado para fazer essa mediação. Isso eventualmente pode fazer com que uma ocorrência comum, habitual e relativamente simples entre crianças passe a ter uma dimensão muito maior que o necessário. E o fantasma parece continuar a ser a agressividade e a violência entre crianças. Só quando se mordem? Por quê?
Já vimos adultos desestruturados que, na porta da creche e da pré-escola, aguardavam a chegada de determinada criança para questioná-la diretamente sobre uma mordida em seu filho. Há casos ainda mais dramáticos, em que o desrespeito e o desequilíbrio ocasionaram agressões verbais e até físicas dirigidas a determinada criança e a seus pais (sic!).
Como alternativa, propomos que pais e educadores se organizem e que se reúnam para conversar sobre a vida das crianças, sobre as suas experiências com outras crianças, sobre a(s) forma(s) como constituem conhecimentos sobre si e sobre o outro. Nesse espaço, é possível também estabelecer condutas entre os adultos, pais e instituição, para minimizar estresses, determinar rotinas, esclarecer dúvidas, o que deverá gerar mais segurança para todos.
Crianças não são SEMPRE doces, nem SEMPRE brigonas ou agressivas, nem SEMPRE ativas ou passivas. Em geral, não existe SEMPRE quando falamos de crianças e de seres humanos. Elas estão em movimento permanente de mudanças a partir de experiências, individuais e coletivas, no caminho de aprender a resolver as coisas de forma mais suave e mais dialógica. Só que esse processo precisa ser vivido por elas. E alguma agressividade é indispensável para a vida, sem ser necessariamente ruim. Sem alguma agressividade, por exemplo, nenhuma criança mergulharia da borda de uma piscina, nem brincaria de Dança das Cadeiras, não é mesmo.
Para concluir, vale lembrar que, desde que nascem, as crianças já têm a boca como o seu esquema mais bem organizado. Nascem podendo sugar, mamar e embora já abram os olhinhos e assustem-se com determinados barulhos, os sentidos começam a se organizar e a se articular aos poucos. Cada um desses sentidos tem características e percursos de desenvolvimento próprios, com ritmos específicos, mas, aos poucos, eles vão se articulando uns com os outros para virem a funcionar de modo interligado. Como assim? Somos capazes de sentir o gosto diante do cheiro de um churrasco, por exemplo. Também sabemos que a boca e os dentes podem auxiliar as pessoas em situações inusitadas: ao segurar lápis ou caneta, para assoviar, para sonorizar e imitar sons, até para certos deficientes físicos virem a escrever. A boca é imprescindível para beijar, para expressar afeto em conexão com mãos, braços e olhos.
Desse modo, embora nós adultos fiquemos muito desapontados quando nossas crianças mordem ou são mordidas, precisamos conversar entre nós, também com educadores, sobre os processos de socialização, de subjetivação, de constituição de conhecimentos delas, num contraponto com as nossas histórias pessoais, para ser possível não demonizar as mordidas nem as crianças que mordem, durante certa fase de suas vidas. Em caso de exagero e de permanência longa demais nessa fase, torna-se necessário conhecer a criança, sua família, o contexto e buscar entender cada caso.

(*)  Angela Meyer Borba e Maria  Inês de C. Delorme

Adaptação: tempo de olhar para as interações entre as crianças

Bernadete Mourão (*)

O início do calendário escolar marca também, para muitos de nós, uma temporada de tensões relativas ao ingresso das crianças pequenas às unidades de educação infantil, e é a este respeito que trazemos algumas ideias que podem contribuir para pensar este momento delicado que é o da adaptação.

Se nos reportarmos às nossas próprias lembranças de adultos ingressando em um novo ambiente (na universidade ou no trabalho, por exemplo), certamente, a maioria de nós, conferirá grande valor à formação de vínculos com colegas na construção do nosso bem-estar nesses espaços. Vínculos que vão, paulatinamente, participando de um sentimento de pertencimento ao grupo e que nos permitem inserções felizes. Este exemplo, pode nos ajudar, como analogia, a nos deslocar para a posição da criança recém-ingressa em uma creche ou pré-escola ou mesmo no momento de seu reinício após longas férias, permitindo uma reflexão quanto ao valor que deveríamos atribuir ao papel das interações entre as crianças na Educação Infantil. É claro que não é apenas a vinculação afetiva o único elemento a ser considerado na avaliação da qualidade de um espaço, mas isto importa muito para a criança. Vale lembrar que quando conversamos com crianças e perguntamos sobre o que elas mais gostam na creche ou na pré-escola, a quase totalidade delas se refere ao brincar. E este brincar, se bem observarmos, dificilmente acontece solitariamente, como pode ser frequente nos lares, mas sempre com os colegas. É comum colocarmos o foco de nossas preocupações apenas nos adultos das creches e pré-escolas e especialmente nas professoras e nos professores. Esquecemo-nos de valorizar a importância da formação do grupo, das interações que ocorrem entre as crianças e que participam do bem-estar delas na creche e na pré-escola e que, portanto, envolvem seu interesse em lá estar e permanecer. Em geral, apenas valorizamos as relações do adulto com a criança como promotora de segurança, bem estar e de desenvolvimento. Mais ainda, tendemos a reconhecer como majoritariamente importantes os vínculos afetivos da criança voltados aos adultos. Claro que é fundamental um profissional bem formado para um projeto de Educação Infantil de qualidade. E, atrelado à formação, sua capacidade de empatia (especialmente com crianças), atitude de acolhimento, de abertura ao diálogo para uma escuta atenta ao que dizem as crianças (com palavras, risos, choros, recusas, gestos e expressões) e senso de responsabilidade. Assim, longe de colocar o papel da professora e do professor em segundo plano, apenas se está propondo aqui um ajuste no olhar à criança que ingressa no ambiente da creche ou pré-escola que inclua as interações com seus pares.

Para ilustrar esta argumentação, vou contar duas histórias de crianças de aproximadamente três anos e que aconteceram anos atrás, em uma Unidade de Educação Infantil, de que participava. Nesta, o planejamento do período de ingresso de novas crianças (a qual chamávamos de inserção em contraponto ao termo adaptação) incluía a participação dos responsáveis. Inicialmente, cada responsável ficava junto a sua criança na sala de atividades, acompanhando e/ou realizando as propostas feitas pelas professoras (não tínhamos salas de aula porque não eram aulas, mas atividades que realizávamos com crianças de menos de seis anos de idade). Posteriormente, no momento em que o educador já considerasse possível o afastamento do responsável, este permanecia na Unidade, mas em outro local no qual a criança poderia encontrá-lo, caso solicitasse. Certa vez, uma criança precisou que sua mãe ficasse mais de um mês na recepção, dada sua insegurança quanto ao seu afastamento. Em um belo dia de sol, embora igual a tantos outros, o inesperado fez acontecer o ponto de viragem desta história, relatado à equipe pelo próprio pai, observador atento da cena que havia se passado: naquele dia o filho havia chegado atrasado e, quando os colegas o avistaram do pátio externo, começaram a chamar alto pelo seu nome. Ali a magia se realizou e todos “foram felizes para sempre”. Fim da história e começo de uma outra livre de inseguranças. A nosso ver, o fim de uma história e o início da outra relacionaram-se com a recepção esfuziante, espontânea e coletiva, que permitiu que a criança vislumbrasse de modo inequívoco o quanto era querida pelo grupo, re-significando para ela suas noções de pertencimento àquele grupo ao qual passou a integrar, desde então, de forma tranquila e plena.

Nossa segunda e última história deu-se no período de retorno das longas férias de fim de ano e é sobre uma criança que se recusava a ir para sua sala e deixar sua mãe ir embora da creche. Durante meia hora, a recusa aos convites dos adultos era total e absoluta até surgir em cena uma colega que acabara de chegar à creche. Neste momento, as duas crianças se entreolharam. A menina que chegava, sem nada saber o que estava acontecendo, em seu caminho em direção à sala, espontaneamente, fez um gesto com a mão (abrindo a palma da mão e levantando os dedos), que claramente indicava: “- Vem comigo”. O menino que até então era só certeza de recusa, claramente entrou em conflito quanto à decisão tomada. Esboçou um aceite: virou o corpo em direção à menina e deu alguns passos. Por alguns instantes, todos que participávamos da cena, pensamos que a decisão seria revertida. Embora não tenha sido, apenas mais adiante, a dúvida que o convite da colega claramente produziu no menino indica a força das relações que acontecem entre as crianças e que muitas vezes passam despercebidas ao olhar comum.

A partir de tudo que se disse até aqui, fica o convite para um olhar sobre o valor das interações entre as crianças neste delicado período que marca o começo da construção de um mundo novo para crianças e adultos.

(*) Bernadete Mourão, colaboradora do Papo de pracinha, é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – Niterói, e doutora em Psicologia pela USP.

Nosso sonho para as crianças em 2016

Papo de pracinha (*)

1. O tempo correrá a favor das crianças, que não precisarão mais cumprir agendas lotadas, podendo se entregar às brincadeiras e ao exercício da imaginação, da invenção e da criação.

  1. As crianças não mais serão colocadas dentro de “caixas “ que formatam e limitam seus pensamentos e ações; ao contrário, poderão pensar livremente e virar o mundo de ponta cabeça!
  1. As crianças terão voz e vez para se expressarem em suas muitas linguagens.
  1. Os adultos olharão com atenção para as crianças e compreenderão seus modos próprios de pensar e agir sobre o mundo, convidando-as a participar das decisões sobre os assuntos que lhes dizem respeito.
  1. As famílias, nas suas diversas formações, serão o porto seguro das crianças, fornecendo-lhes amor, afeto, proteção e apoio ao seu desenvolvimento integral.
  1. As crianças serão prioridade nas políticas públicas de segurança, educação e saúde, e terão garantidos os seus direitos a serviços de saúde e de educação de qualidade, sejam elas negras, brancas, indígenas, quilombolas, do campo ou da cidade.
  1. As escolas não mais colocarão as crianças em formas (/ô/ ou /ó/) uniformizadoras, e não mais encherão os seus cérebros com informações sem sentido; as escolas serão espaços de encontro entre adultos e crianças, e entre a arte, a cultura e a ciência.
  1. As escolas serão espaços de vida, de acolhimento, de afeto e de oportunidades de potencializar a curiosidade e a capacidade de imaginação e criação das crianças; a busca do conhecimento será uma aventura empreendida com autonomia e sensibilidade pelas crianças e adultos, em parceria.
  1. As crianças terão acesso às criações em todas as linguagens artísticas, ampliando e diversificando o seu repertório cultural.
  1. As brincadeiras de rua invadirão as ruas e praças das cidades, reunindo crianças e adultos pelo prazer de brincar e de compartilhar memórias e experiências.
  1. Novas praças serão criadas e as já existentes revitalizadas, a partir das necessidades reais das crianças e dos adultos, recuperando a sua função de lugar de encontros, conversas, brincadeiras, jogos, contemplação e convivência com a natureza .
  1. As crianças terão mais contato com a natureza, e poderão desfrutar da sua riqueza para apreciá-la com sensibilidade, para criar e brincar com seus elementos, e também para aprender a dela cuidar.
  1. As crianças terão proteção contra as formas de manipulação exercidas pelo mercado e pela propaganda.
  1. As crianças não precisarão dos mais novos e caros brinquedos do mercado para serem felizes! Brincarão com diferentes materiais usando a sua inventividade, aprenderão as brincadeiras da nossa cultura e usarão os brinquedos como meios e não como fins em si mesmos.
  1. As crianças serão protegidas de todas as formas de violência, abandono, crueldade e exploração.
  1. As cidades enxergarão as crianças, incluindo-as nas suas políticas urbanas, criando e mantendo espaços apropriados de circulação, cultura e lazer para elas.
  1. As crianças viverão suas infâncias com plenitude, nos ensinando a olhar o mundo de forma mais simples e sensível!

Feliz 2016!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Pré-escolas: aprender mais e cada vez mais cedo?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Tudo é muito rápido, e quando os pais menos esperam já é hora de mudar a rotina de suas crianças. Aos 3 anos e 11 meses é preciso pensar na pré-escola que frequentarão a partir dos 4 anos, até os 5 anos e 11 meses. Isso vale para todas, as que estão em casa com babás, vovós e, também, para as que já frequentavam creches.

Sim, há uma lei que obriga que todas as crianças brasileiras sejam matriculadas na educação básica a partir dos quatro anos de idade. A mesma Lei nº 12.796/2013 estabelece que a educação infantil, para crianças de 4 e 5 anos, deverá ser organizada com carga horária mínima anual de 800 horas, distribuída por no mínimo 200 dias letivos. Ou seja, pelo menos por quatro horas diárias para o turno parcial e sete horas para a jornada integral.

Por que é importante que os pais e responsáveis saibam disso? Bem, no nosso país é comum o pensamento equivocado de que as leis devam valer apenas para as instituições públicas e não, para as particulares. A primeira etapa da educação básica, que inclui as creches e pré-escolas, é de responsabilidade municipal, sejam elas públicas, particulares, conveniadas e comunitárias. Assim, as crianças completam 4 anos e uma pequena parte delas poderá continuar na instituição que já frequentavam antes, agora nas turmas de educação infantil. Às vezes há Continuar lendo Pré-escolas: aprender mais e cada vez mais cedo?