“Transtorno do Déficit de Natureza”: vamos salvar nossas crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Quais são suas memórias de infância ligadas à natureza? Olhar o movimento que as pedrinhas jogadas fazem nas águas dos rios e lagos? Observar o caminho das formigas? Contemplar as folhas balançando ao vento? Tomar banho de rio? Inventar histórias tendo como palco rios, bambuzais, praias, quintais? Correr atrás de galinhas e patos? Fazer castelos de areia na praia? Brincar na terra de fazer comidinha? Lambuzar o corpo de lama?

E nossas crianças, será que mais tarde terão lembranças de experiências com a natureza?

Para o jornalista americano Richard Louv, as crianças da sociedade contemporânea, predominantemente urbana, estão sofrendo hoje de Transtorno do Déficit de Natureza! Ele criou esse termo para chamar a atenção sobre os prejuízos, físicos e mentais, associados a uma vida desconectada da natureza.  Em entrevista ao Instituto Alana[1], ele destaca, entre outros prejuízos, a redução do uso dos sentidos, dificuldades de atenção, taxas mais altas de doenças como miopia, obesidade infantil e adulta e  deficiência de vitamina D. Louv escreveu oito livros abordando temas relacionando família, natureza e comunidade, e é co-fundador do Children & Nature Network (Rede Criança e Natureza), uma organização internacional que desenvolve um movimento para conectar pessoas e comunidades com a natureza. A rede atua junto a líderes urbanos, para  que tornem as suas cidades melhores para as crianças e adultos, e também para a saúde da própria natureza e do nosso Planeta. A rede também divulga estudos que mostram os benefícios econômicos que a reconexão com a natureza pode trazer, como economias potenciais de vidas e de dinheiro, através da redução de doenças respiratórias, do sedentarismo e de problemas de saúde mental.

Nós, do Papo de Pracinha, temos defendido que as crianças precisam ter garantido o seu direito de brincar ao ar livre. As experiências de brincar livre em contato direto com a natureza são fundamentais para a saúde física e mental das crianças, promovendo o seu desenvolvimento em suas múltiplas dimensões. O brincar na natureza favorece, entre outros aspectos, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia, os processos de decisão, o olhar sensível sobre as coisas, a colaboração, a inclusão e o respeito às diferenças de idade, gênero e etnia. Por isso, nossos lemas têm sido: bora brincar lá fora! ou Crianças: ocupem as cidades!

Sabemos que o modelo de crescimento das cidades vem se fazendo a partir de uma lógica que privilegia a ampliação de edificações e vias/espaços para os automóveis e, como consequência, destrói/cobre áreas verdes e rios. A realidade para a maioria de nós, é que passamos a maior parte do nosso tempo, adultos e crianças, na escola, em casa ou no trabalho, em ambientes destituídos de natureza, muitas vezes predominantemente digitais. Claro que não podemos negar os avanços benéficos da tecnologia, mas é preciso que compensemos esse tempo com mais natureza, se não quisermos adoecer ou criar nossas crianças em total desconexão com a vida que pulsa na natureza e com o que ela nos oferece de saúde e bem-estar.

Mas não podemos ficar apenas lamentando essas perdas e esse déficit! Temos saídas, e algumas iniciativas vêm buscando promover essa aproximação das  pessoas e das cidades com a natureza. Você conhece alguma? Vamos nos aproximar dessas inovações que acontecem aqui e no mundo? Nossa ideia é trazer para o Papo de Pracinha alguns exemplos de cidades que se reestruturaram para oferecer mais natureza para as pessoas ou projetos mais específicos relacionados à natureza. Para aguçar a nossa curiosidade e provocar algumas reflexões, poderíamos nos perguntar:

  • Como seria a nossa cidade se elegesse dentro de suas prioridades a conexão das pessoas, especialmente das crianças, com a natureza?
  • E se as escolas tivessem como princípio e eixo organizador do seu espaço e de seu currículo a experiência direta com a natureza?
  • Como seria a saúde da população de uma cidade se a natureza estivesse nas prescrições de saúde das pessoas, desde o seu nascimento?
  • Que natureza ainda existe debaixo das ruas da nossa cidade? (conheça o Projeto Rios e Ruas)
  • O que eu posso fazer no plano individual/familiar para trazer mais natureza para a minha vida e a das crianças?

Quem quiser nos contar sobre alguma iniciativa, use esse espaço – blog ou facebook – ou nosso email: papodepacinha@gmail.com. Vamos adorar compartilhar essas experiências com nossos leitores.

Antes de encerrar nosso papo de hoje, gostaríamos de citar o Projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana, que vem desenvolvendo algumas iniciativas bacanas na cidade do Rio de Janeiro. Além de produzir publicações e seminários para discussão do tema, criaram algumas ferramentas: (1) os Grupos Natureza e Família, com um Guia Passo a Passo para ajudar as famílias a organizarem grupos que se encontrem para brincar com suas crianças em parques ou praças, fazer piquenique, fazer trilhas e caminhadas, fazer passeios guiados com foco em aspectos da natureza, entre outras possibilidades; (2) O Movimento Boa Praça  disponibiliza um manual que incentiva o uso e a apropriação de áreas verdes públicas; (3) o GPS da Natureza que ajuda crianças de todas as idades e suas famílias a descobrirem atividades divertidas ao ar livre, na área em questão, por meio de sugestões, como praia, unidade de conservação, incluindo previsão de duração e do clima.

Viver tendo uma relação direta com a natureza ensina as crianças, sobretudo, que somos uma pequena parte desse planeta vivo, imenso e rico, repleto de outros tipos de vida da qual dependemos, todos. E torna possível viver em regime de colaboração e respeito ativos num sistema integrado do qual dependemos todos uns dos outros.


[1] “Cidades mais ricas em natureza” – Entrevista com Richard Louv – Publicação do Instituto Alana – Criança e Natureza.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Crianças, a natureza está lá fora!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88É sabido que ao longo da história os homens foram criando recursos e ferramentas para ampliar seus movimentos e sua ação sobre os espaços como aconteceu, por exemplo, com a escada para aumentar sua altura, o ancinho para ampliar a ação de mãos e braços e a corda, para amarrações e para laçar animais em movimento.

As crianças que têm a oportunidade de brincar em contato com a natureza podem, não só sofisticar algumas dessas criações, como também descobrir, experimentar ações individuais e coletivas importantes como: correr livremente, saltar pedras e obstáculos, andar sobre pés de latas ou pernas de pau, subir em árvores, cavar a terra, usar a corda para amarrações e para pular. E quando percebem que suas vozes produzem vibrações e ecos? Chega a ser mágico.

Ao ar livre elas podem soltar pipa (em áreas sem fios elétricos), observar a dança das folhas secas ao vento, a direção do vento, as cores e formatos diferentes de árvores e folhas, o balé das bolas de sabão.   Experimentar com seu próprio corpo, seus desejos, suas histórias.

A natureza nunca se porta da mesma forma, mesmo em espaços já conhecidos. O ambiente natural convida as crianças a desenvolver sua percepção, sensibilidade, a capacidade de inventar e de descobrir respeitosamente, a sentir o cheiro da chuva,  a se conectar com os movimentos do mundo vivo e natural de que são parte. Isso é Papo de Pracinha.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Crianças na natureza

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Vocês acreditam que o contato direto de crianças com a natureza as convidam para a criação artística e para um relaxamento que contribui para o seu equilíbrio interior? Os espaços naturais convidam as crianças a se relacionar com eles. A natureza permite, por exemplo, que as crianças observem e que sejam sensíveis às diferentes formas de árvores e de folhas, às cores presentes nas plantas e nas flores, nos pássaros e até mesmo no céu.

O Papo de Pracinha acredita que brincar em espaços abertos ajuda a quebrar com a visão consumista e reduzida do mundo, que só tem servido para gerar competição e tristeza nas crianças.

Vamos essa semana brincar com liberdade, com os pés descalços na terra onde se pode pisar para tentar ouvir os sons do vento?  O Papo de Pracinha vai e apoia o vídeo do Instituto Alana nesse passeio.

Fonte: Instituto Alana (Youtube)

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Brincar com liberdade: condição de felicidade!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88A redução crescente dos espaços e tempos de brincadeira livre das crianças vem provocando diversas ações voltadas para a conscientização da sociedade sobre o valor da brincadeira na infância: documentários, vídeos, eventos culturais e científicos, reportagens televisivas, publicações, entre outras iniciativas. Na semana passada, por exemplo, tivemos a Semana Mundial do Brincar, promovida pela Aliança pela Infância, cujo objetivo é mobilizar e sensibilizar famílias, educadores, adultos e brincantes de todas as idades para que ofereçam tempo e espaço ao brincar das crianças.

Que bom que esse movimento em defesa do brincar está acontecendo, precisamos mesmo falar mais e mais sobre isso! Mas precisamos de muito mais ainda para modificar essa realidade que vem se impondo às crianças! As forças que causam a redução e o empobrecimento do brincar livre são avassaladoras e, para enfrenta-las, é necessário elevar as crianças à prioridade que elas merecem ter. Precisamos olhar com mais atenção para as crianças e para o que estamos fazendo delas!

É urgente a compreensão e a garantia, por meio de ações concretas, tanto no nível macro das políticas sociais, culturais, educacionais e urbanas, como no cotidiano das famílias e das instituições de educação infantil, de que o brincar é uma dimensão essencial da vida e, como tal, precisa ser garantida. Para as crianças, o brincar é central para o seu desenvolvimento e interação com o mundo! Quando não é devidamente contemplado, coloca-se em risco o bem-estar e a felicidade das crianças!

Mas de que brincar estamos falando?

Não é do brincar instrumentalizado e didatizado pelos adultos, presente em muitos espaços escolares e também familiares. Sabemos que a preocupação cada vez mais precoce com a escolarização das crianças, ou com a sua formação para um mundo competitivo, tem levado a uma pedagogização do brincar. Os brinquedos/brincadeiras são escolhidos porque desenvolvem isso ou aquilo, ou porque levarão a essa ou àquela aprendizagem. A escola é mestre em usar a brincadeira como recurso para o ensino. Não estamos dizendo que não seja válido usar a ludicidade nas práticas pedagógicas, mas é preciso saber que quando a brincadeira é transformada em instrumento visando a alguma coisa, deixa de ser brincadeira para a criança. A brincadeira não cabe na previsibilidade dos adultos e nem, tampouco, tem um resultado, como um jogo de regras, por exemplo. Talvez por isso, essa brincadeira que liberta, não pode funcionar como estratégia pedagógica.

O que estamos defendendo aqui é o brincar “de verdade”, sem compromisso com resultados. Não se brinca para aprender, ou para alguma coisa. Brinca-se para brincar, brinca-se de boneca para brincar de boneca, e não para preparar-se para a vida adulta. Brinca-se de bombeiro para brincar de bombeiro, e não para preparar-se para ser bombeiro, ou para qualquer outra profissão. Como diz Lydia Hortélio, educadora e musicóloga brasileira, brinca-se para ser feliz. É preciso brincar para afirmar a vida.

E o que é necessário para que o brincar de verdade aconteça?

Tempo – as agendas das crianças lotadas de compromissos e as escolas com suas rotinas voltadas para a escolarização roubam o tempo livre das crianças e, com isso, empobrecem ou até mesmo impedem a experiência do brincar livre. O brincar de verdade precisa de tempo, tempo para projetar, imaginar, experimentar, voltar ao começo, fazer de novo, tempo para a fruição, para girar o mundo para outro lugar, o lugar do faz-de-conta, do livre pensar e agir.

Liberdade – de escolha, movimento, ideias, condução das ações, definição das regras, negociação de conflitos…

Risco – arriscar-se faz parte do brincar. E o brincar permite que a criança se arrisque em um espaço protegido, o da brincadeira. Arriscar-se a subir em árvores, correr, pular, saltar, esconder-se, rodar… Arriscar-se a ser o ladrão, o lobo mau, a bruxa, o forte, o fraco… No brincar livre, as crianças aprendem a avaliar os riscos e a ajustar suas ações.

Autonomia – as crianças também precisam brincar sem a tutela do adulto, tomar decisões por si próprias, fazer as suas escolhas, assumir responsabilidades pelas suas ações, criar formas próprias de brincar.

Envolvimento – engajamento e inteireza fazem parte do brincar livre. A brincadeira cria um mundo próprio, dentro do mundo maior, no qual as crianças se inserem por inteiro, “suspendendo” a realidade durante o tempo do brincar.

Não-produtividade – como já apontado, o brincar livre não tem compromisso com resultados. É importante por si mesmo. Ponto!

Convívio com a natureza – o brincar na e com a natureza favorece a liberdade, incentiva o movimento, a força, a coordenação, a concentração, a imaginação e a criação; e, o que é muito importante, afasta as crianças do consumo, da TV, dos ipads, smartphones e computadores, e também da brincadeira mediada pelos brinquedos de mercado, resgatando a simplicidade e a força dos elementos da natureza como recursos naturais para o brincar. Brincar na e com a natureza favorece a conexão com a vida. Sem deixar de falar no sentimento que desenvolve de amor e proteção à natureza.

Encontro com o outro – brincar com o outro exige e promove a partilha, a aceitação de pensamentos diferentes, a negociação e a coordenação de ideias, a tolerância, a definição e divisão de papeis, promovendo a sociabilidade e a percepção de si e do outro.

Cidades amigas das crianças – As cidades reduziram seus espaços públicos de brincadeira, priorizando o transporte individual, invadindo recursos naturais em prol da especulação imobiliária, diminuindo as calçadas para ampliar as vias de circulação de automóveis… É preciso inverter essa prioridade, criando espaços de brincadeira nas cidades: mais pracinha, pracinhas que acolham crianças de todas as idades, mais natureza, mais autonomia para as crianças, espaços seguros de circulação e de interação com a cidade.

Reconhecemos a dificuldade da maioria das famílias de conciliar a rotina de trabalho com a rotina dos filhos. Mas o pouco que conseguimos estar com nossos filhos, permitindo-nos segui-los nas suas brincadeiras livres, pode significar muito para eles. É muito melhor do que comprar o mais novo brinquedo do mercado, como compensação do tempo em que estivemos longe deles. O brinquedo passa, mas os momentos de intimidade e conexão que acontecem no brincar ficam, e dizem muito para os pequenos, e para os adultos também! Falam de amor, liberdade e felicidade.

Por fim, fica aqui a sugestão: que tal experimentar desacelerar a rotina das crianças e deixá-las brincar mais, livres e sem compromisso? Certamente faremos as crianças mais felizes!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme