Celebridades “homemade”: crianças youtubers.

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Não acreditamos que exista um único pai, mãe ou educador que, em sã consciência, negue as benesses das novas mídias à vida contemporânea, incluindo nela as crianças. 

Para muitas delas, a sua imagem gravada no celular é uma possibilidade de verem-se “como a um outro”, além de ser possível guardar essa imagem, compará-la, editá-la etc. e de remetê-la para a vovó e para o primo, que moram longe. Só poder falar pelo celular com outras pessoas é uma conquista e uma troca rica, para crianças também.

A popularização dos meios digitais permite a muitas famílias terem em casa ferramentas atuais de comunicação, de pesquisa e de produção de conteúdo dentro de suas casas, em família.     

Como tudo, em exagero ou sem a orientação de adultos sensíveis, o veneno e o antídoto podem ser faces de uma mesma moeda. Como sempre, cabe aos adultos responsáveis refletirem sob os usos da televisão, de jogos e vídeos, de celulares e computadores, também sobre todos os exageros que podem acontecer em todas as áreas da vida. Ler demais, comer demais, estudar demais, jogar demais ou de menos, sempre implica acender aquela luz amarela que indica – o que há com ela, a criança? O que se passa conosco, sua família? Somos sistêmicos e integrados como grupo familiar, qualquer que seja o formato da família.

Nesse contexto, surpreende a produção cada vez maior de vídeos produzidos por crianças, postados no Youtube onde expõem suas rotinas de vida, oferecem aconselhamentos e tentam pautar a vida de suas amiguinhas (sim, parece vir se configurando como uma prática mais feminina), chegando a gravar como deve ser feita uma maquiagem. Há canais que têm o nome da menina-protagonista, dedicado às outras, meninas com mais de um milhão de visualizações.

Não conhecemos tudo o que está sendo disponibilizado na internet, a cada segundo, mas uma das coisas muito preocupantes consiste na participação de pais e mães, os responsáveis, na produção, gravação e veiculação das celebridades em que desejam transformar as suas crianças.  

Por quê? Para quê? Já não bastam as projeções narcísicas que, sem perceber, todos colocamos sobre nossos filhos supondo, imaginando e desejando que sejam mais brilhantes do que nós, mais e melhores em tudo? Projetamos coisas tão majestosas que já é sempre difícil lidar com o que eles de fato são, num contraponto com o que idealizamos para eles: mega, uber geniais.

É importante destacar que a “entrada” das crianças nas mídias sociais como Youtube, Facebook etc. só é possível se os adultos forjarem suas reais identidades, descumprindo a proibição legal, por serem crianças e como tal, vulneráveis. Nesse caso, além de os pais estimularem essa atuação, acabam atribuindo-se o direito de traçar seus destinos, de estabelecer escolhas para suas vidas, desde tão cedo. Além de desleal para com elas, nos parece covarde por ser altamente desrespeitoso em relação aos direitos delas, já estabelecidos. Vale a pena conhecer a Convenção do Direitos das Crianças, da ONU.

Para enriquecer o debate, lembramos que há, hoje, dados reais associando pedofilia ao consumo, em geral fortemente relacionados à vida das meninas, facilitados pelo acesso às suas vidas por meio das redes sociais. Aumenta a cada ano o investimento na produção e venda de sutiãs e maquiagens para crianças, por exemplo, demonstrando um forte apelo para transformar meninas em mulheres, precocemente, e por consequência disso, em objetos.

Mais do que participar dessa conduta, junto com as filhas, seus responsáveis vêm investindo e se orgulham de que sejam reconhecidas nas ruas, por outras crianças e adultos. Em muitos casos, essas crianças youtubers começam também a ganhar dinheiro pelo que apresentam nas redes sociais, caracterizando o nefasto trabalho infantil que nos preocupa tanto.

Por que as rotinas de nossas filhas meninas devem estar disponíveis como num big brother, numa fase de suas vidas em que não podem ainda ter responsabilidade sobre a globalidade de suas ações? Em que isso pode ser bom para elas? E para suas mães? 

Precisamos nos reunir, tentar cooptar amigos e a sociedade organizada para pensar sobre o que queremos de nossas crianças? Sobre o que oferecemos a elas e como estamos encaminhando suas vidas no sentido de serem, desde cedo, o que não são, desvalorizando os espaços livres de contato físico com outras crianças e com a natureza? 

Esse tipo de atitude e comportamento em relação às crianças já cobra, diariamente, preços muito altos delas mesmas, e de outras crianças. As celebridades “homemade” não podem viver como crianças como deveriam, podendo escolher seus brinquedos e brincadeiras junto com outras crianças, dentro de casa, nas pracinhas e em outros espaços da cidade. As crianças que assistem a esses vídeos no youtube, por sua vez, passam a sonhar em se tornarem conhecidas nas ruas, sonham em aparecer para todos e serem aplaudidas por isso. E pior, seriam os adultos–responsáveis, nos dois casos, os produtores do sucesso-relâmpago de umas, e do fracasso e da falta de oportunidade de outras, ao não permitirem o mesmo para suas meninas.

Não faltam exemplos de crianças que tiveram a experiência de sucesso-relâmpago na televisão e no cinema muito cedo, antes do aparecimento dessas novas mídias, que passaram o resto de suas vidas “em descompasso”, com dores e distúrbios graves de comportamento pela dificuldade de “digerir” o declínio, ou a falta eventual de sucesso, na juventude e na vida adulta.  Poucos, muito poucos, mantêm sucesso público por toda uma vida e não se enganem, eles também sofrem, têm dores e perdas complicadas.

Há o caso da menina Valentina, de apenas 12 anos, que foi assediada e desrespeitada apenas por aparecer em um programa de televisão sobre culinária. 

Para concluir, lembramos que é dever dos adultos (responsáveis) proteger as crianças de todo o tipo de exposição e, nesse bojo, cabe não facilitar o acesso delas a vida dessas outras crianças que escapam da infância, por condução de seus responsáveis, via youtube. Essas crianças não devem servir como modelos e nem precisam ser apresentadas às outras de idade semelhante, pelos adultos. Isso pode e deve ser evitado, em respeito a todas elas.

(*)Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

As crianças, os adultos e as mídias

(*) Papo de pracinha

1444722355_88É visível a aproximação de crianças muito pequenas com as mídias digitais. Algumas, com dois ou três anos já manipulam ipads, smartphones e tablets, quando não estão com o controle remoto da televisão, ou do vídeo, em suas mãos, em casa. Há bebês que ficam algumas horas paralisados diante da televisão, sem reclamar e, às vezes, ali mesmo dormem. O que costuma acontecer é que quando os adultos querem ter um pouco de sossego à mesa de um restaurante, para dirigir seu automóvel, ou na hora de assistir a um jogo de futebol, por exemplo, eles entregam seus dispositivos, como tablets e smartphones, para as crianças se distraírem.

Essa relação de crianças tão pequenas com a televisão, os computadores e todas as outras mídias vem sendo motivo de preocupação de pais, pedagogos, pediatras e psicólogos, além de ser o foco de pesquisas por todo o mundo. Parece ser a Inglaterra um rico celeiro de estudos sobre esse tema, tendo como representante principal a profa. dra. Sonia Livingstone[1], do Department of Media and Communication da London School of Economics and Political Science (LSE). Ela vem buscando entender, junto às famílias britânicas, a função das tecnologias digitais em suas vidas e os desafios que os pais enfrentam para administrar o uso da mídia com as crianças pequenas. Inegavelmente, diz Livingstone, existe uma “alteração da ecologia da infância” e os reflexos disso precisam ser estudados.

Claro, não queremos propor nenhuma equiparação entre o Brasil e a Inglaterra, mas sugerir que pais, responsáveis e pedagogos conheçam parte desse trabalho e que tirem proveito deles.

Segundo a pesquisadora, os pais apresentam uma contradição entre o medo que dizem ter, e as atitudes que tomam. Quando esses pais narram um dia muito interessante com suas crianças, não está nele incluída nenhuma mídia digital. Eles relatam como um dia produtivo aquele onde, juntos, leem livros com boas histórias, quando vão ao parque, quando jogam ao ar livre, ou usando tabuleiro e, algumas vezes, quando praticam atividades de arte. No entanto, quando a pesquisadora pergunta a esses mesmos pais (de crianças de três a oito anos) sobre o que pensam sobre o contato de suas crianças com as mídias digitais, eles afirmam favorecer esse acesso e reconhecem que entregam seus dispositivos nas mãos de seus filhos, embora tenham sempre muita dúvida sobre os usos que eles fazem deles. Apesar da preocupação e do medo, eles os compram com entusiasmo e os entregam às suas crianças. O medo e a preocupação que sentem não são impeditivos, como demostram pela forma como agem.

E mais, a grande maioria desses pais afirma que gostaria que suas crianças, com três ou quatro anos, conhecessem sites divertidos, criativos, que ampliassem suas estruturas cognitivas, desde que essa não fosse uma tarefa deles, mas das escolas das crianças. Algumas delas o fazem, ainda que a maioria, não.

O que se observa é que na Inglaterra, também no Brasil, as mídias servem como alternativas úteis e eficientes para ocupar as crianças quando os adultos estão ocupados, ou cansados, e estes admitem essa conduta “contraditória”. Geralmente sem supervisão do que fazem com os smartphones e os tablets, as crianças mostram adorar esses momentos, por significar ​que podem fazer o que realmente gostam, sem que os adultos estabeleçam qualquer controle.

Não cabe a nós criticar os pais e responsáveis e nem, muito menos, dizer como eles devem agir em relação aos seus filhos. O que podemos dizer é que até os dois anos de idade, pelo menos, não existe qualquer indicação para que crianças vejam televisão, nem para terem acesso a smartphones e tablets. Como seu tempo de interesse ainda é bastante curto em relação aos brinquedos, às brincadeiras, às experiências de toda ordem, o fato de ficarem olhando firmemente para a televisão não significa que isso lhes faça bem, embora cause-lhes algum fascínio. Os médicos dizem que, no mínimo, ver Tv é perda de tempo porque as crianças precisariam de muito mais estímulos do que os que a Tv lhes oferece, ainda mais no momento em que sua ação sobre/no mundo exigiria deslocamentos, movimentos variados, conversas e relação com outras crianças e adultos. Elas podem ouvir boas músicas e histórias em Cds, por exemplo, enquanto se deslocam livremente.

A partir dos dois anos, embora seja complicado trabalhar com idades, talvez elas possam, não dissemos que “devam”, ver desenhos animados na televisão, ver alguns vídeos de histórias encantadas, curtas e movimentadas, coloridas, sem exagero quanto ao volume do som, nunca por muito tempo seguido.

“Mas elas pedem para mexer no meu celular. Elas adoram o tablet, querem jogar usando o tablet”, dizem seus pais. É verdade, mesmo reconhecendo ser até certo ponto inevitável, elas querem o que os adultos a sua volta valorizam, usam e lhes apresentam quando estão juntos. Não se trata de esconder esses dispositivos das crianças da mesma forma que dirigimos automóvel, usamos facas e canetas cotidianamente, na frente delas. Só que não ficamos horas e horas mexendo em facas e em canetas, não as levamos para passeios, quando estamos juntos. E se for o caso, sabemos dizer não para as crianças, quando elas nos solicitam certas coisas impróprias e inadequadas.

Quem ainda não recebeu um telefonema inesperado de uma criança bem pequena que teclou, teclou e conseguiu discar? Quantas vezes não falamos com orgulho, para amigos que uma criança de dois anos já consegue tirar foto usando o tablet? Continuar lendo As crianças, os adultos e as mídias