8 brincadeiras ao ar livre

Papo de pracinha (*)

1444722355_88 Em tempos de tantas tecnologias ao alcance das crianças, é cada vez mais comum que elas passem grande parte do seu tempo livre, que já é pouco, emparedadas dentro de suas casas. Sem falar, no emparedamento que também acontece nas escolas, espaços muitas vezes limitados e áridos, ausentes de natureza. Nesse contexto, ir para fora de casa, passear pela cidade, brincar livre e na natureza, em parques, praças, praias etc. é hoje uma prescrição para a saúde e a felicidade das crianças. Nós, adultos, precisamos desfrutar mais do convívio com as crianças na natureza! Interagir com terra, areia, árvores, plantas em geral, bichos, flores etc. nos aproxima da vida, nos torna mais sensíveis, nos traz maior conexão com nosso ser interno e com as nossas crianças. Que tal experimentar incluir mais atividades ao ar livre em família! Aqui vão algumas sugestões de brincadeiras que podemos fazer em praças, parques, ruas fechadas, entre outros espaços públicos abertos.

  1. Contar histórias à sombra de uma árvore – leve uma canga, esteira ou algo semelhante, encontre uma posição confortável e desfrute da leitura de um bom livro junto com sua(s) criança(s).
  1. Passear pelo parque, levando uma bolsa ou um cesto, observar a natureza e coletar sementes, folhas, flores, gravetos, pedrinhas etc. Após a coleta, pode-se organizar o que foi encontrado em pequenos potes ou saquinhos, fazer uma produção artística usando esses materiais naturais, ou então seguir a sugestão da criança.
  1. Fazer bolhas de sabão.
  1. Montar uma cabaninha, usando tecidos amarrados em árvores.
  1. Desenhar no chão com gravetos ou giz.
  1. Brincar de amarelinha, corda, pique (pique árvore, por exemplo), entre outras possibilidades de brincadeiras tradicionais.
  1. Brincar de fazer comidinha, com areia/terra, panelinhas, potinhos, colheres, pás etc.
  1. Brincar de cientista, explorando a natureza com uma lupa.

Conte-nos também suas ideias e as de suas crianças!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Mamãe posso ir? Sobre crianças e espaços.

Papo de Pracinha (*)

Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho
O teu pezinho bem juntinho com o meu

(Barbosa Lessa e Paixão Cortês)

1444722355_88Crianças pequenas se deslocam em diferentes espaços, como podem, em cada momento de suas vidas e com isso vão experimentando situações ricas e importantes sobre as quais elas não têm noção real.

Não é pouco comum vermos bebês, as vezes com um ano, ou pouco mais, deitados no chão para tentar enxergar e encontrar objetos que eles mesmos acabaram de jogar debaixo de uma cadeira, mesa ou sofá. Assim que resgatam o objeto de seus desejos, tratam de jogá-los de novo, e assim deixam claro que estão vivendo sobretudo o prazer de jogar em si. Jogar coisas do berço ao chão são experiências de mesma natureza e, não pouco comum, temos que retirar essa criança “de dentro ou embaixo” de alguma cadeira em que entrou sem saber sair.

Essa possibilidade de experimentar diferentes planos espaciais: vertical, horizontal,  lateral etc., é parte do desenvolvimento/aprendizagem de cada criança, de uma  mobilidade física que se amplia e se complexifica, dia-a-dia. Aquele bebezinho que ficava olhando para o teto descobre aos poucos o seu entorno, vira-se pra lá e pra cá, no berço ou num chão limpo e protegido, gira de ponta-cabeça, de bruços e de novo pra cima, senta-se e, aos poucos, vai alongando o corpo para a posição de pé para, em seguida, andar. Nesse contexto, os adultos que interagem com ele terão influência decisiva, tanto pela disponibilidade, atenção total e cuidados, quanto pela oferta de espaços variados às crianças (chão de pracinha, chão de casa comum, blocos de espuma, objetos que rolam etc.), além de tempo, convidando-os a agir, sem nenhuma pressa.

Há aquelas situações em que a criança choraminga ou pede a mão de quem está perto indicando algum medo de cair. Cedam as mãos, ou apenas aquele dedo que dá segurança, quando pedem, porque elas precisam desse apoio.

O que podemos observar sobre isso é que, claro, os riscos de acidente aumentam com as maiores possibilidades de deslocamentos e com a agilidade que vão conquistando a cada dia. Essa movimentação livre, sob a atenção e adultos, é indispensável para elas.

E então, somos convidados pelas crianças a pensar sobre suas relações com os diferentes espaços, numa interlocução com o tempo próprio delas, em cada situação.

O tempo de brincar em cada espaço também é dado pela criança. Repetir incansavelmente uma tentativa de caminhar sobre uma raiz de árvore exposta, em alguma rua ou praça, é altamente desafiador e estimulante. O equilíbrio que lhes falta para a atividade costuma alimentar o desejo de fazer, fazer, fazer de novo, tantas vezes seguidas.

A simples exploração dos “lugares/espaços” do corpo como os pés, lá em baixo, as mãos para cima, o dedinho no nariz e por aí vai, exigem uma movimentação da criança que pode levá-las ao chão, tanto quanto fazê-las explorar o espaço aéreo para que vejam aviões e borboletas. Olhar para cima exige olhar com o corpo todo e, com isso, eventualmente perdem o equilíbrio. Já viram crianças buscando colocar e tirar um simples chapéu na sua cabeça, e na do seu papai? Às vezes, caem sentadas.

Andar sobre as linhas do chão, sem poder pisar nelas, caminhar sobre murinhos baixos, tentar entrar embaixo e dentro de certos objetos como caixas, tentar alcançar planos mais altos, que podem ser uma cadeira, uma caixa vazia ou uma bicicleta de adulto, por exemplo, são explorações espaciais que têm registros temporais.

“Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, como sugere a música, entrar na roda como o Pai Francisco, botar aqui  o pezinho (e não em qualquer lugar), ainda mais quando se pede que seja “bem juntinho com o meu”, brincar de Batatinha-Frita 1 2 3, de Estátua, de correr livremente e de tantas outras brincadeiras faz com que as crianças explorem e se apropriem gradativamente dos espaços. E com isso, das regras de cada um deles (já que não se pode jogar futebol dentro do metrô, por ex.), das caraterísticas de cada um também (já que dentro da piscina não se usa sapato, por ex.), além de precisar aprender a administrar seu tempo em brincadeiras coletivas. Essas, entre tantas outras, são experiências fundamentais para que as crianças sejam livres, seguras, solidárias e éticas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme Continuar lendo Mamãe posso ir? Sobre crianças e espaços.

Madrasta: mãe 2 ou namorada do papai?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Manu e Duda são primas, frequentam a mesma escola, têm sete e cinco anos, respectivamente. Elas usam a mesma condução escolar e, nesse dia, Duda estava especialmente feliz. Contou sua novidade para a prima Manu: hoje eu não vou na condução. A namorada do meu pai vem me buscar e nós vamos ao cinema.   Manu, mais velha e em tom quase professoral disse: ela é a sua madrasta, não é a namorada do seu pai. Madrasta é a mulher nova do pai da gente, ma-dras-ta! Duda reclamou: não isso ela não é. Ela namora o meu pai. E, em seguida, começou a chorar.

Qualquer voz adulta, “com força de ponto final”, que desejasse dar um fim ao impasse, seria limitadora no caminho de conhecer como cada uma delas pensa sobre isso, e sobre as diferentes ordenações do mundo adulto. Elas têm o que dizer e precisam ter valorizadas as suas opiniões para sentirem-se seguras, para revelarem-se como crianças e como pessoas que têm formas próprias de ser/estar no mundo, além de serem sujeitos produtores de cultura.

Portanto, não há uma forma mais correta ou mais adequada para se nomear essa mulher que se une a um homem que tem filhos, se é madrasta, ou namorada do pai. É verdade, quando a mãe tem um namorado, e as crianças um padrasto, que seja comum emergirem preconceitos, no entanto, eles parecem ser menores do que quando um homem surge com uma nova namorada. Parece, sem que se diga por isso que a vida do padrasto seja facilitada. No caso da madrasta, sem buscar hierarquizar essa variedade de nomes no sentido de legitimar mais ou menos essas novas relações, não se pode negar o direito de cada pai e de cada mãe de querer apresentar e/ou introduzir uma pessoa nova na vida dos filhos do seu jeito, da sua maneira, embora em nenhum dos casos seja fácil. Vários aspectos intervenientes fazem parte desse processo: a qualidade da relação entre pais e mães, depois de separados; a segurança, maior ou menor, de cada criança em relação ao seus lugares como filho/a; a quantidade e a qualidade de tempo que esses adultos disponibilizam para seus filhos; uma relação respeitosa dos adultos para com seus filhos no sentido de não criticar nem culpar o outro conjugue de qualquer coisa (alienação parental) ; espaço físico organizado, na nova casa de ambos, concretizando a vontade e a importância de ter os filhos próximos, para sempre, a despeito de quem seja a nova companheira ou companheiro de cada um. E muito mais.

A figura da madrasta, na vida de todos, expressa o peso dado a ela pela cultura, ainda hoje. No caso de mulheres com filhos, quando ela deseja refazer sua vida com outro homem, diz-se que ela teve “a sorte de arranjar” (sic) um novo companheiro que poderá vir a ser seu namorado, o namorido, o marido e, quem sabe, um padrasto para seus filhos. Há mulheres com filhos que escolheram não morar na mesma casa com seu novo amor, embora seus filhos o conheçam, gostem de estar juntos, se respeitem e se amem, de verdade. Mas o pai tem o seu lugar garantido, é amado pelos filhos e mantem encontros regulares com eles. Há um pai, sempre. Embora não seja simples, mães e pais podem redesenhar a suas vidas

No caso do pai, dos homens separados que têm filhos, embora esses modelos venham se transformando, a sociedade ainda lhes atribui “um certo bônus” que se expressa numa liberdade consentida maior, ou mais direitos implícitos no que se refere as possibilidades de namoros, de experiências amorosas sem que sejam julgados como são as mulheres. Não por acaso, as madrastas entraram para a história com um peso simbólico bem pesado, mais difícil e muito mais complexo que o dos padrastos. Haja vista a criação do termo “boadrasta”, que eventualmente é usado para quebrar com o instituído culturalmente.

A espaço da madrasta na história se justificou como uma atribuição diferenciada e até mesmo impossível_ a de ocupar o lugar da mãe ausente, em geral, por sua morte. Nesses casos, o homem viúvo poderia voltar a se casar e…. o resto dessa história todo mundo já sabe. Quem não conhece a família Von Trapp que inspirou o filme A Noviça Rebelde? Quem nunca ouviu suas músicas? “The Hills are Alive”, “My Favorite Things”, “Do Re Mi Fa”, “So Long Farewell” e “Edelweiss”? Filme imperdível!

Para concluir, vale dar uma olhada nas histórias clássicas como Cinderela, Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela e Rapunzel, só para começar. Em todas elas a madrasta é a antagonista e atua como uma mulher poderosa, má, fria, competitiva, invejosa, ciumenta, cruel e ardilosa que deseja sempre prejudicar as suas enteadas. Lady Tremaine não suporta que a beleza de Cinderela seja maior que a de suas filhas. A Rainha Má, teve ciúme e inveja doentias de Branca de Neve e os 7 anos, por não admitir que existisse no mundo ninguém mais bela do que ela. A pobre Rapunzel foi sequestrada ainda bebê por sua madrasta Gothel que a escondeu numa torre alta, trancada. Tem ainda a madrasta da história de João e Maria, e tantas outras.

Não faltam histórias encantadas e também, casos reais sobre competição entre madrastas – crianças e jovens, maus–tratos por parte de madrastas e, quanto mais recuarmos no tempo, mais eles aparecerão. Por que será?

Bem, as histórias que se centram nessa tensão entre madrasta e filhos surgiram no sec. XIX quando recaía sobre a mulher-mãe um endeusamento por ela gerar vida em sua barriga, poder alimentar e, garantir a sobrevivência, segurança, bem-estar de sua criança. Nesse lugar, a figura materna foi coroada como de mulheres dadivosas, voltadas para a vida dos filhos, sempre boas, sem defeitos, capazes de amar seus filhos sob quaisquer condições e, assim, insubstituíveis. E são. Mas no passado, qualquer mulher que ousasse ocupar o lugar de madrasta só poderia fazê-lo diante da morte da mãe e, por isso mesmo, essa pessoa “naturalmente” já entraria na vida das crianças com uma desvalia, incapacitada de chegar aos pés das mães “biológicas” sobrando para elas, então, os piores adjetivos e sentimentos como pessoas más, ardilosas, que buscavam ocupar esse lugar irrecuperável e “inocupável”.

Hoje, e pelo menos desde a lei do divórcio no Brasil, as famílias podem se reconfigurar, se redesenhar e se legitimar, sempre, desde que mantenham laços de amor e de compromissos mútuos para com suas crianças. Já podemos enxergar a existência de mães mais ou menos boas, de pais mais ou menos bons, madrastas e padrastos também, como seres humanos que são.

Assim, podemos entender sem criticar, ouvir e respeitar o que dizem a Manu e a Duda, sobre as tensões que expõem na busca por legitimar, pertencer e entender as relações amorosas de seus pais e mães.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Brincar com liberdade: condição de felicidade!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88A redução crescente dos espaços e tempos de brincadeira livre das crianças vem provocando diversas ações voltadas para a conscientização da sociedade sobre o valor da brincadeira na infância: documentários, vídeos, eventos culturais e científicos, reportagens televisivas, publicações, entre outras iniciativas. Na semana passada, por exemplo, tivemos a Semana Mundial do Brincar, promovida pela Aliança pela Infância, cujo objetivo é mobilizar e sensibilizar famílias, educadores, adultos e brincantes de todas as idades para que ofereçam tempo e espaço ao brincar das crianças.

Que bom que esse movimento em defesa do brincar está acontecendo, precisamos mesmo falar mais e mais sobre isso! Mas precisamos de muito mais ainda para modificar essa realidade que vem se impondo às crianças! As forças que causam a redução e o empobrecimento do brincar livre são avassaladoras e, para enfrenta-las, é necessário elevar as crianças à prioridade que elas merecem ter. Precisamos olhar com mais atenção para as crianças e para o que estamos fazendo delas!

É urgente a compreensão e a garantia, por meio de ações concretas, tanto no nível macro das políticas sociais, culturais, educacionais e urbanas, como no cotidiano das famílias e das instituições de educação infantil, de que o brincar é uma dimensão essencial da vida e, como tal, precisa ser garantida. Para as crianças, o brincar é central para o seu desenvolvimento e interação com o mundo! Quando não é devidamente contemplado, coloca-se em risco o bem-estar e a felicidade das crianças!

Mas de que brincar estamos falando?

Não é do brincar instrumentalizado e didatizado pelos adultos, presente em muitos espaços escolares e também familiares. Sabemos que a preocupação cada vez mais precoce com a escolarização das crianças, ou com a sua formação para um mundo competitivo, tem levado a uma pedagogização do brincar. Os brinquedos/brincadeiras são escolhidos porque desenvolvem isso ou aquilo, ou porque levarão a essa ou àquela aprendizagem. A escola é mestre em usar a brincadeira como recurso para o ensino. Não estamos dizendo que não seja válido usar a ludicidade nas práticas pedagógicas, mas é preciso saber que quando a brincadeira é transformada em instrumento visando a alguma coisa, deixa de ser brincadeira para a criança. A brincadeira não cabe na previsibilidade dos adultos e nem, tampouco, tem um resultado, como um jogo de regras, por exemplo. Talvez por isso, essa brincadeira que liberta, não pode funcionar como estratégia pedagógica.

O que estamos defendendo aqui é o brincar “de verdade”, sem compromisso com resultados. Não se brinca para aprender, ou para alguma coisa. Brinca-se para brincar, brinca-se de boneca para brincar de boneca, e não para preparar-se para a vida adulta. Brinca-se de bombeiro para brincar de bombeiro, e não para preparar-se para ser bombeiro, ou para qualquer outra profissão. Como diz Lydia Hortélio, educadora e musicóloga brasileira, brinca-se para ser feliz. É preciso brincar para afirmar a vida.

E o que é necessário para que o brincar de verdade aconteça?

Tempo – as agendas das crianças lotadas de compromissos e as escolas com suas rotinas voltadas para a escolarização roubam o tempo livre das crianças e, com isso, empobrecem ou até mesmo impedem a experiência do brincar livre. O brincar de verdade precisa de tempo, tempo para projetar, imaginar, experimentar, voltar ao começo, fazer de novo, tempo para a fruição, para girar o mundo para outro lugar, o lugar do faz-de-conta, do livre pensar e agir.

Liberdade – de escolha, movimento, ideias, condução das ações, definição das regras, negociação de conflitos…

Risco – arriscar-se faz parte do brincar. E o brincar permite que a criança se arrisque em um espaço protegido, o da brincadeira. Arriscar-se a subir em árvores, correr, pular, saltar, esconder-se, rodar… Arriscar-se a ser o ladrão, o lobo mau, a bruxa, o forte, o fraco… No brincar livre, as crianças aprendem a avaliar os riscos e a ajustar suas ações.

Autonomia – as crianças também precisam brincar sem a tutela do adulto, tomar decisões por si próprias, fazer as suas escolhas, assumir responsabilidades pelas suas ações, criar formas próprias de brincar.

Envolvimento – engajamento e inteireza fazem parte do brincar livre. A brincadeira cria um mundo próprio, dentro do mundo maior, no qual as crianças se inserem por inteiro, “suspendendo” a realidade durante o tempo do brincar.

Não-produtividade – como já apontado, o brincar livre não tem compromisso com resultados. É importante por si mesmo. Ponto!

Convívio com a natureza – o brincar na e com a natureza favorece a liberdade, incentiva o movimento, a força, a coordenação, a concentração, a imaginação e a criação; e, o que é muito importante, afasta as crianças do consumo, da TV, dos ipads, smartphones e computadores, e também da brincadeira mediada pelos brinquedos de mercado, resgatando a simplicidade e a força dos elementos da natureza como recursos naturais para o brincar. Brincar na e com a natureza favorece a conexão com a vida. Sem deixar de falar no sentimento que desenvolve de amor e proteção à natureza.

Encontro com o outro – brincar com o outro exige e promove a partilha, a aceitação de pensamentos diferentes, a negociação e a coordenação de ideias, a tolerância, a definição e divisão de papeis, promovendo a sociabilidade e a percepção de si e do outro.

Cidades amigas das crianças – As cidades reduziram seus espaços públicos de brincadeira, priorizando o transporte individual, invadindo recursos naturais em prol da especulação imobiliária, diminuindo as calçadas para ampliar as vias de circulação de automóveis… É preciso inverter essa prioridade, criando espaços de brincadeira nas cidades: mais pracinha, pracinhas que acolham crianças de todas as idades, mais natureza, mais autonomia para as crianças, espaços seguros de circulação e de interação com a cidade.

Reconhecemos a dificuldade da maioria das famílias de conciliar a rotina de trabalho com a rotina dos filhos. Mas o pouco que conseguimos estar com nossos filhos, permitindo-nos segui-los nas suas brincadeiras livres, pode significar muito para eles. É muito melhor do que comprar o mais novo brinquedo do mercado, como compensação do tempo em que estivemos longe deles. O brinquedo passa, mas os momentos de intimidade e conexão que acontecem no brincar ficam, e dizem muito para os pequenos, e para os adultos também! Falam de amor, liberdade e felicidade.

Por fim, fica aqui a sugestão: que tal experimentar desacelerar a rotina das crianças e deixá-las brincar mais, livres e sem compromisso? Certamente faremos as crianças mais felizes!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Sobre crianças e adultos: ódio e intolerância

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Um menino de cinco anos deu um chute em uma menina de apenas um ano, numa praça carioca. Embora exista uma boa diferença de idade entre eles, o fato isolado poderia até ser relativizado, entendido como coisa de criança, pelas outras mães e babás que frequentam habitualmente essa pracinha. No entanto, duas outras atitudes assustaram muitos os adultos: a frase dita pela criança maior – detesto criança pequena, elas enchem o saco; e a atitude da mãe desse menino de cinco anos, que assistiu a tudo sem nada dizer, expressando até certa concordância com o que fez e disse seu filho. Não tomar atitude é, em si, uma postura de omissão que pode ser grave. E uma pessoa disse, sem titubear: se precisar vamos chamar a polícia para essa mãe e para esse menino! Uma outra mulher de uns 30 anos, concluiu: já avisei para o meu patrão. Se esse menino tocar na nossa menina vamos todos para a delegacia porque vou partir para cima do filho e da mãe dele.

Em uma outra praça próxima, há apenas alguns balanços para as crianças usarem. As crianças vão se revezando nesses balanços, sempre sob a mediação dos adultos. Muitas reagem, choram mas há adultos que entendem a importância desse revezamento. Até que uma mãe, sentada em um dos balanços, com seu bebê de aproximadamente um ano no colo avisa: pode fazer fila, chorar e espernear. Pode chamar a polícia para me tirar daqui. Eu fico esperando horas para sentar aqui com meu filho e hoje vou ficar até eu cansar, até eu encher o saco de vocês, para vocês verem como é bom ficar aí parado, esperando. Criança grande vai jogar bola, vai brincar do que quiser, de outras coisas. Desiste porque vocês não são os donos dessa praça!

Teríamos aqui inúmeros casos para relatar o que se configura como falta de educação, desequilíbrio emocional e omissão/negligência de adultos em relação às suas crianças. Mas vale lembrar que para esses dois casos, em tempos e espaços diferentes, houve reação. E nos dois casos a polícia foi citada como capaz de equacionar o conflito, amenizar as tensões. Assustador!

Ficamos nos perguntando quais devem ser os limites de compreensão dos adultos em relação às habituais e históricas brigas de crianças, por acreditar que existam intervenções necessárias ao embate em si, à educação da sua criança e das outras, envolvidas no impasse, além das do entorno que ali estão, assistindo sem serem chamadas a opinar.

Como agir ao ver uma criança que mal anda receber um chute de uma criança de cinco anos, que corre livremente pela praça gritando “detestar crianças pequenas”. Claro, impossível analisar o chute sem o peso do termo “detestar”. O que faz uma criança manifestar que detesta outras crianças? O que ela entende por “detestar”? E sua mãe, não repercute internamente essa cena com preocupação, susto e até com tristeza ao ouvir a tal frase do seu filho? É preciso declarar, aqui, que não sabemos como é a vida dessa criança, como funciona a sua família, nem quais são as bases da sua educação. Pode-se dizer que, embora seja desconhecido o cenário global da vida dessa família, que entre mãe e filho não exista compromisso ético, afetivo, nem parceria respeitosa. Onde está presente o adulto, responsável, que tem deveres em relação às suas crianças? Essa relação de responsabilidade para com os filhos ultrapassa qualquer tipo de conforto material que possa ser oferecido a elas. Estamos falando aqui daquele patrimônio imaterial chamado de educação. Educar é difícil, trabalhoso, além de ser um processo relacional. Ou seja, exige interação de diferentes ordens: de adultos com crianças, entre as próprias crianças etc. E, para haver relação, é preciso que se estabeleça visibilidade e respeito ao outro, cada um nos seus diferentes lugares sociais. Além de ser possível ver e respeitar os seus pares, seus próximos, mas, em especial, os seus ímpares, os que são e pensam diferente.

Diante da omissão de certos adultos e, ainda, como parte do cenário político e social atual em que punir se confunde com educar, são os adultos que nos dois casos ameaçam chamar a polícia, para resolver o que são incapazes de fazer. Esses não são casos de polícia.

A mãe sentada no balanço com sua criança, ao avisar que não vai sair de jeito algum, volta a ser punitiva em relação às outras crianças. Ou seja, se foi muito ruim para ela, adulta, esperar pelo balanço para seu bebê, ela devolve com intolerância e grosseria a sua raiva, mostrando-se incapaz de distrair a sua criança até o balanço vagar. E nem estamos discutindo aqui se o balanço deveria ser usado por adultos, numa pracinha para crianças. Essa mãe também fala da polícia, se mostrando mais poderosa que a própria, enquanto ensina às crianças que esperam pelo brinquedo que façam o que ela não soube fazer com seu bebê – buscar outra diversão para tornar a espera mais suave, suportável.

Estamos diante de casos em que a falta de educação, a omissão, a raiva, a vingança, a insegurança e a prepotência se mostram presentes na vida desses adultos demonstrando o tamanho do desafio que eles e todos nós temos e teremos para educar essas e outras crianças.

E pior, até agora não pensamos nessas crianças como sujeitos que têm o que dizer, sobre como entendem a figura de seus pais, dos adultos em geral, da polícia, sobre os cuidados necessários para com outras crianças, menores e maiores, também com adultos, com idosos, com todos os outros. Nem sobre como entendem esse espaço chamado de ‘pracinha’.

Podemos dizer que a figura simbólica da polícia, por exemplo, que supostamente deveria estar relacionada à ordem social necessária para a vida, não é assim entendida por todas as crianças. Muitas delas sentem que a polícia, muitas vezes, é quem traz a desordem, e já sabem, aos cinco anos, que a polícia chega sempre dando tiros, que crianças morrem de balas perdidas, além de outras informações mentirosas, ensinadas pelos adultos, diante de sua incapacidade para educá-las: que a polícia vem e prende as crianças que saem de perto dos seus pais nos shoppings, que a polícia segura a criança e corta o cabelo daquelas que choram para serem penteadas, por exemplo, dentre outras coisas ainda piores. E, sempre que os adultos colocam a figura da polícia na relação com as crianças eles declararam sua incapacidade para gerenciar e educar os próprios filhos.

Crianças precisam de amor, de segurança, de firmeza, de conversa e de acompanhamento permanente de adultos comprometidos com seus direitos e deveres; também que sejam pessoas equilibradas, felizes, que sejam capazes de lhes ensinar a brincar, a rir, a respeitarem-se e também aos outros. Elas não precisam de polícia, mas de adultos inteiros, presentes, amorosos e firmes. A pracinha precisa ser gerenciada por quem ali convive, com generosidade, respeitos e muitas vezes com firmeza, não pela polícia.

Para concluir, lembramos que as construções sociais se dão na convivência, na efervescência da vida social. Assim, nunca somos vítimas apenas dos contextos desastrosos que se configuram e que parecem se impor, como se estivéssemos fora deles. Isso exige pensar no tamanho do desafio de educar para uma vida melhor para todos, para tempos melhores, para a gratidão, o amor e pelo fim dos preconceitos, das injustiças, dos extremismos, do ódio e da intolerância, de toda a ordem.

(*) Autores: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

O que fazem os bebês?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Muitos pais nos perguntam sobre o desenvolvimento dos bebês, principalmente nos primeiros meses de vida. Sentem-se inseguros diante daquele ser que chegou às suas vidas, totalmente dependente deles e, ao mesmo tempo, tão desconhecido. O filósofo espanhol Jorge Larrosa nos fala dessa diferença radical entre o adulto e a criança: As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua. (**). E não é? Para Larrosa, a criança é um enigma que precisa ser desvendado, a partir da nossa abertura para conhecê-la, admirá-la e também nos surpreender com ela! Mas nós, adultos, teimamos em rapidamente enquadrar as crianças em nosso saber, supondo que tudo sabemos sobre elas…

Para além de questões relacionadas aos cuidados com o bebê, como sono, aleitamento, cólicas etc. outras tantas questões começam a surgir na relação pais-bebê. O que o bebê sente e pensa? Como posso brincar com ele? O que faz um bebê com um mês? E com dois, três? Posso dar brinquedinhos? Quais? Coloco o bebê no chão? Ele deve ouvir música? De que tipo? Música clássica? Pode assistir DVD? Galinha Pintadinha? Quando posso colocá-lo no tapetinho de atividades? Por quanto tempo? E por aí vai.

Para tirar essas e outras tantas dúvidas, os pais recorrem à internet, e não faltam sites, blogs, pesquisas e textos científicos, contendo informações, dicas e até mesmo receitas detalhadas do quê fazer. Mas vamos lembrar que o terreno da internet é vasto e movediço, contendo do melhor e do pior! É preciso acessar sites confiáveis. É preciso refletir sobre o que lemos. E, mais importante do que tudo isso, é preciso ir descobrindo junto com o bebê suas preferências, suas possibilidades e limites. Sim, o bebê nos diz muitas coisas com seus movimentos, expressões e reações. Mas, para escutar o que eles dizem, é necessário entrar em conexão com eles e confiar mais na nossa sensibilidade! Afinal, junto com o bebê também está nascendo uma mãe e um pai! E é na relação com o bebê que se aprende a ser pai ou mãe, muito mais do que é possível aprender por meio de manuais, livros, internet e conselhos por aí (e esses existem em abundância!) Claro que as informações são muito importantes, e saber sobre os marcos do desenvolvimento infantil e comportamento de bebês nas suas diferentes idades ajuda a estruturar o cotidiano, e também contribui para que os pais criem possibilidades de interações com o bebê, mas nenhum manual dá conta da complexidade que é o desenvolvimento de uma criança e das relações e significados que vamos construindo com nossos filhos.

Os manuais baseiam-se geralmente numa compreensão do desenvolvimento infantil como etapas que se sucedem em direção ao pensamento adulto. Fomos levados a pensar que existe um percurso, desde o nascimento do bebê, que é previsível, uniforme e universal, como uma linha reta crescente, cujo ponto final é a racionalidade adulta. Mas uma linha em espiral, ou mesmo em forma de rede, seria bem mais adequada para representar esse processo, que não é linear e muito menos universal, uma vez que é função da cultura e das interações entre a criança, o ambiente e as pessoas com quem convive. Não faltam pesquisas e teorias com escalas de desenvolvimento que especificam as capacidades esperadas das crianças em cada idade, independente do contexto sociocultural em que ela se encontra. Quando olhamos para essas escalas, queremos logo saber se nossos filhos correspondem à normalidade ou, até mesmo, se estão “adiantados”, “acelerados”. Felizmente, há outras formas de abordar o desenvolvimento infantil que buscam a compreensão dos processos de desenvolvimento e dos modos particulares como as crianças se desenvolvem nas interações com o ambiente, com a cultura e com as pessoas do seu convívio. Tais estudos dão mais conta da diversidade, da singularidade e da complexidade do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças. Podemos falar sobre eles em outro momento.

Para responder à questão que dá título a esse texto vamos deixar as escalas de lado e tratar aqui de princípios gerais que podem encorajar os pais a descobrir o que fazem os bebês junto com seus bebês: Continuar lendo O que fazem os bebês?

A boca: mordidas, conhecimentos e experiências

Papo de pracinha (*)

1444722355_88  Certo dia, alguém da creche do seu filho lhe telefona e diz: “hoje o Miguel mordeu um amiguinho”. Pode acontecer, também, de o próprio Miguel chegar em casa com o corpo marcado pela mordida de algum amigo. Em geral, pai e mãe correm para olhar a agenda à procura de um bilhete que, na maioria das vezes, contém um pedido de desculpas da professora e outras informações que não respondem nem a uma pequena parcela das angústias dos pais. Costuma ser assim.
Há muitas condutas diferentes utilizadas pelas instituições para tratar esses casos. Via de regra, as famílias são avisadas do ocorrido, algo que não acontece quando as crianças se batem, quando há chutes, empurrões ou puxões de cabelos entre elas. Por quê? Existem motivos variados, mas um deles, claramente, já justifica tal conduta: o fato de a mordida deixar marcas no corpo das crianças – e também na cabeça dos adultos, ainda que de outra natureza. “Seria meu filho agressivo para chegar a morder os amigos? O que será que ele fez para levar essa mordida? Não havia nenhum adulto perto, que pudesse evitar esse fato desagradável? ” E as cabeças não param de funcionar. Vamos tentar aqui refletir sobre alguns pontos que julgamos importantes para quebrar alguns mitos e responder a uma parte das perguntas.
O primeiro deles consiste numa relação difusa e, na grande maioria dos casos, bastante equivocada, que atrela as mordidas à agressividade. Algumas crianças – não todas – costumam morder, como forma de conhecer e experimentar tudo o que existe ao seu redor e, nesse viés, o corpo do amigo também pode parecer interessante. Nem sempre as mordidas resultam de disputas e conflitos entre as crianças.
Vamos lembrar aqui que há pais, mães, tios etc. que brincam de dar pequenas mordidas nas crianças e que oferecem seus corpos: braços, dedos das mãos, o queixo etc. para a criança brincar de morder e, com isso, sem perceber, estimulam esse tipo de atividade.
Um segundo ponto se refere a uma incapacidade temporária de as crianças negociarem, dialogarem e resolverem seus conflitos “conversando”. Nesse caso, as ações físicas em relação aos outros são a forma que usam para equacionar seus impasses de modo imediato, com os recursos de que dispõem: uns puxam cabelos dos outros, alguns dão chutes, outros deitam no chão e choram alto, uns empurram e outros mordem. Nesse caso, a mordida é um recurso utilizado em caso de disputa, tanto quanto os demais recursos que conhecemos, todos igualmente “desagradáveis”, mas são os possíveis, naquele momento. Crianças saudáveis passam por essa experiência devido a impossibilidade de ver o outro: o desejo, os espaços, os objetos e as demandas dos amigos. Eles querem saciar as suas demandas e de modo rápido. Essa aprendizagem na trilha da ética, da partilha e das negociações leva algum tempo e exige mediação de adultos. Os embates que as crianças travam entre si, “desastrosos” aos olhos dos adultos, embora não sejam desejáveis, também contribuem para encontrarem outras formas de luta. Todos ficam muito sentidos; chora quem morde, quem é mordido, quem começou a bater e quem deu sequência. E essas “brigas” valem como uma oportunidade para tomarem seus próprios pulsos, para descobrirem-se como seres de desejos.
Não defendemos a equação de conflitos “na mão ou no braço” mas reconhecemos essa fase como natural, superável e de muita aprendizagem.
Um terceiro ponto, também causado pelo fato de a mordida deixar marcas, é o natural envolvimento dos pais em impasses que eram das crianças, das experiências delas com o seu grupo, sob a orientação de um adulto que se espera habilitado para fazer essa mediação. Isso eventualmente pode fazer com que uma ocorrência comum, habitual e relativamente simples entre crianças passe a ter uma dimensão muito maior que o necessário. E o fantasma parece continuar a ser a agressividade e a violência entre crianças. Só quando se mordem? Por quê?
Já vimos adultos desestruturados que, na porta da creche e da pré-escola, aguardavam a chegada de determinada criança para questioná-la diretamente sobre uma mordida em seu filho. Há casos ainda mais dramáticos, em que o desrespeito e o desequilíbrio ocasionaram agressões verbais e até físicas dirigidas a determinada criança e a seus pais (sic!).
Como alternativa, propomos que pais e educadores se organizem e que se reúnam para conversar sobre a vida das crianças, sobre as suas experiências com outras crianças, sobre a(s) forma(s) como constituem conhecimentos sobre si e sobre o outro. Nesse espaço, é possível também estabelecer condutas entre os adultos, pais e instituição, para minimizar estresses, determinar rotinas, esclarecer dúvidas, o que deverá gerar mais segurança para todos.
Crianças não são SEMPRE doces, nem SEMPRE brigonas ou agressivas, nem SEMPRE ativas ou passivas. Em geral, não existe SEMPRE quando falamos de crianças e de seres humanos. Elas estão em movimento permanente de mudanças a partir de experiências, individuais e coletivas, no caminho de aprender a resolver as coisas de forma mais suave e mais dialógica. Só que esse processo precisa ser vivido por elas. E alguma agressividade é indispensável para a vida, sem ser necessariamente ruim. Sem alguma agressividade, por exemplo, nenhuma criança mergulharia da borda de uma piscina, nem brincaria de Dança das Cadeiras, não é mesmo.
Para concluir, vale lembrar que, desde que nascem, as crianças já têm a boca como o seu esquema mais bem organizado. Nascem podendo sugar, mamar e embora já abram os olhinhos e assustem-se com determinados barulhos, os sentidos começam a se organizar e a se articular aos poucos. Cada um desses sentidos tem características e percursos de desenvolvimento próprios, com ritmos específicos, mas, aos poucos, eles vão se articulando uns com os outros para virem a funcionar de modo interligado. Como assim? Somos capazes de sentir o gosto diante do cheiro de um churrasco, por exemplo. Também sabemos que a boca e os dentes podem auxiliar as pessoas em situações inusitadas: ao segurar lápis ou caneta, para assoviar, para sonorizar e imitar sons, até para certos deficientes físicos virem a escrever. A boca é imprescindível para beijar, para expressar afeto em conexão com mãos, braços e olhos.
Desse modo, embora nós adultos fiquemos muito desapontados quando nossas crianças mordem ou são mordidas, precisamos conversar entre nós, também com educadores, sobre os processos de socialização, de subjetivação, de constituição de conhecimentos delas, num contraponto com as nossas histórias pessoais, para ser possível não demonizar as mordidas nem as crianças que mordem, durante certa fase de suas vidas. Em caso de exagero e de permanência longa demais nessa fase, torna-se necessário conhecer a criança, sua família, o contexto e buscar entender cada caso.

(*)  Angela Meyer Borba e Maria  Inês de C. Delorme

Adaptação: tempo de olhar para as interações entre as crianças

Bernadete Mourão (*)

O início do calendário escolar marca também, para muitos de nós, uma temporada de tensões relativas ao ingresso das crianças pequenas às unidades de educação infantil, e é a este respeito que trazemos algumas ideias que podem contribuir para pensar este momento delicado que é o da adaptação.

Se nos reportarmos às nossas próprias lembranças de adultos ingressando em um novo ambiente (na universidade ou no trabalho, por exemplo), certamente, a maioria de nós, conferirá grande valor à formação de vínculos com colegas na construção do nosso bem-estar nesses espaços. Vínculos que vão, paulatinamente, participando de um sentimento de pertencimento ao grupo e que nos permitem inserções felizes. Este exemplo, pode nos ajudar, como analogia, a nos deslocar para a posição da criança recém-ingressa em uma creche ou pré-escola ou mesmo no momento de seu reinício após longas férias, permitindo uma reflexão quanto ao valor que deveríamos atribuir ao papel das interações entre as crianças na Educação Infantil. É claro que não é apenas a vinculação afetiva o único elemento a ser considerado na avaliação da qualidade de um espaço, mas isto importa muito para a criança. Vale lembrar que quando conversamos com crianças e perguntamos sobre o que elas mais gostam na creche ou na pré-escola, a quase totalidade delas se refere ao brincar. E este brincar, se bem observarmos, dificilmente acontece solitariamente, como pode ser frequente nos lares, mas sempre com os colegas. É comum colocarmos o foco de nossas preocupações apenas nos adultos das creches e pré-escolas e especialmente nas professoras e nos professores. Esquecemo-nos de valorizar a importância da formação do grupo, das interações que ocorrem entre as crianças e que participam do bem-estar delas na creche e na pré-escola e que, portanto, envolvem seu interesse em lá estar e permanecer. Em geral, apenas valorizamos as relações do adulto com a criança como promotora de segurança, bem estar e de desenvolvimento. Mais ainda, tendemos a reconhecer como majoritariamente importantes os vínculos afetivos da criança voltados aos adultos. Claro que é fundamental um profissional bem formado para um projeto de Educação Infantil de qualidade. E, atrelado à formação, sua capacidade de empatia (especialmente com crianças), atitude de acolhimento, de abertura ao diálogo para uma escuta atenta ao que dizem as crianças (com palavras, risos, choros, recusas, gestos e expressões) e senso de responsabilidade. Assim, longe de colocar o papel da professora e do professor em segundo plano, apenas se está propondo aqui um ajuste no olhar à criança que ingressa no ambiente da creche ou pré-escola que inclua as interações com seus pares.

Para ilustrar esta argumentação, vou contar duas histórias de crianças de aproximadamente três anos e que aconteceram anos atrás, em uma Unidade de Educação Infantil, de que participava. Nesta, o planejamento do período de ingresso de novas crianças (a qual chamávamos de inserção em contraponto ao termo adaptação) incluía a participação dos responsáveis. Inicialmente, cada responsável ficava junto a sua criança na sala de atividades, acompanhando e/ou realizando as propostas feitas pelas professoras (não tínhamos salas de aula porque não eram aulas, mas atividades que realizávamos com crianças de menos de seis anos de idade). Posteriormente, no momento em que o educador já considerasse possível o afastamento do responsável, este permanecia na Unidade, mas em outro local no qual a criança poderia encontrá-lo, caso solicitasse. Certa vez, uma criança precisou que sua mãe ficasse mais de um mês na recepção, dada sua insegurança quanto ao seu afastamento. Em um belo dia de sol, embora igual a tantos outros, o inesperado fez acontecer o ponto de viragem desta história, relatado à equipe pelo próprio pai, observador atento da cena que havia se passado: naquele dia o filho havia chegado atrasado e, quando os colegas o avistaram do pátio externo, começaram a chamar alto pelo seu nome. Ali a magia se realizou e todos “foram felizes para sempre”. Fim da história e começo de uma outra livre de inseguranças. A nosso ver, o fim de uma história e o início da outra relacionaram-se com a recepção esfuziante, espontânea e coletiva, que permitiu que a criança vislumbrasse de modo inequívoco o quanto era querida pelo grupo, re-significando para ela suas noções de pertencimento àquele grupo ao qual passou a integrar, desde então, de forma tranquila e plena.

Nossa segunda e última história deu-se no período de retorno das longas férias de fim de ano e é sobre uma criança que se recusava a ir para sua sala e deixar sua mãe ir embora da creche. Durante meia hora, a recusa aos convites dos adultos era total e absoluta até surgir em cena uma colega que acabara de chegar à creche. Neste momento, as duas crianças se entreolharam. A menina que chegava, sem nada saber o que estava acontecendo, em seu caminho em direção à sala, espontaneamente, fez um gesto com a mão (abrindo a palma da mão e levantando os dedos), que claramente indicava: “- Vem comigo”. O menino que até então era só certeza de recusa, claramente entrou em conflito quanto à decisão tomada. Esboçou um aceite: virou o corpo em direção à menina e deu alguns passos. Por alguns instantes, todos que participávamos da cena, pensamos que a decisão seria revertida. Embora não tenha sido, apenas mais adiante, a dúvida que o convite da colega claramente produziu no menino indica a força das relações que acontecem entre as crianças e que muitas vezes passam despercebidas ao olhar comum.

A partir de tudo que se disse até aqui, fica o convite para um olhar sobre o valor das interações entre as crianças neste delicado período que marca o começo da construção de um mundo novo para crianças e adultos.

(*) Bernadete Mourão, colaboradora do Papo de pracinha, é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – Niterói, e doutora em Psicologia pela USP.