O que perturba as crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio A psicóloga Jennifer Delgado Suárez escreveu, para a Revista Pazes (maio, 2017) um artigo onde analisa criticamente o que pode ser perturbador e angustiante na vida das crianças contemporâneas.

Na mesma linha de pensamento do Papo de Pracinha, ela sugere uma educação que não funcione nos extremos, no excesso nem na falta, sempre que possível.

No afã de “preparar” as crianças para a vida, e em nome do amor que têm pelos filhos, muitas vezes os adultos acabam desrespeitando os ritmos, os desejos e direitos das crianças que deixam de brincar livremente e passam a não ter tempo para desenvolver o pensamento mágico e a imaginação.

Sugerimos a leitura e uma ampla discussão sobre o que a autora chama como “os quatro pilares do excesso”.  Vamos lá?  O banco da praça nos aguarda.


Os quatro excessos da educação moderna que perturbam as crianças

Por Revista Pazes  – MPor Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

Quando nossos avós eram pequenos, eles tinham apenas um casaco de frio para o inverno. Apenas um! Naquela época de vacas magras, já era luxo ter um. Exatamente por isso a criançada cuidava dele como se fosse um tesouro precioso. Naquela época bastava a consciência de se ter o mínimo indispensável. E, acima de tudo, as crianças tinham consciência do valor e da importância de suas coisas.

Muita água correu por baixo da ponte, acabamos nos transformando em pessoas mais sofisticadas. Agora prezamos pelas várias opções e queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que desejarem, ou, caso seja possível, muito mais. Não percebemos que esse mimo excessivo ajuda a criar um ambiente propício para transtornos psicológicos.

De fato, foi demonstrado que o excesso de estresse durante a infância aumenta a probabilidade de que as crianças venham a desenvolver problemas psicológicos. Assim, uma criança sistemática pode ser empurrada para ativar um comportamento obsessivo. Uma criança sonhadora, sempre com a cabeça nas nuvens, pode perder a sua capacidade de concentração.

Neste sentido, Kim Payne, professor e conselheiro norte-americano, conduziu uma experiência interessante em que simplificou a vida de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Depois de apenas quatro meses, 68% destes pequeninos passaram a ser considerados clinicamente funcionais. Eles também mostraram um aumento de 37% em suas habilidades acadêmicas e cognitivas, um efeito que não poderia coincidir com a medicação prescrita para esta desordem, o Ritalin.

Estes resultados são, em parte, extremamente reveladores e, mais que isto, também são um pouco assustadores, porque nos fazem pensar se realmente estamos criando para nossos filhos um ambiente saudável, mental e emocionalmente.

O que estamos fazendo de errado e como podemos corrigir isto?

Quando o “muito” se transforma em “demais”?

No início de sua carreira, este professor trabalhou como voluntário em campos de refugiados, onde teve que lidar com crianças que sofrem de estresse pós-traumático. Payne constatou que essas crianças se mostravam nervosas, hiperativas e tremendamente ansiosas, como se pressentissem que algo de ruim fosse acontecer de uma hora para a outra. Elas também eram amedrontadas em excesso, temendo qualquer novidade, o desconhecido, como se tivessem perdido a curiosidade inata das crianças.

Anos mais tarde, Payne constatou que muitas das crianças que precisavam de sua ajuda mostravam os mesmos comportamentos que os pequenos que vinham de países em guerra. No entanto, o estranho é que estas crianças viviam na Inglaterra, abraçados por um ambiente completamente seguro. Qual a razão que os levava a exibir os sintomas típicos de estresse das crianças pós-traumáticas?

O professor pensa que as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, mentalmente vivem em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo. A exposição à muitos estímulos provoca um estresse acumulado que obriga as crianças a desenvolverem estratégias que as façam se sentir mais seguras.

Na verdade, as crianças de hoje estão expostas a um fluxo constante de informações que não são capazes de processar. Elas são forçadas ao crescimento rápido, já que os adultos depositam muitas expectativas sobre elas, forçando-as a assumir papéis que realmente não condizem com a realidade infantil. Assim, o cérebro imaturo das crianças é incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela nova educação, por conseguinte, um grande estresse ocorre, com as óbvias consequências negativas.

Os quatro pilares do excesso.

Como pais, nós normalmente queremos dar o melhor para os nossos filhos. E pensamos que, se o pouco é bom, o mais só pode ser melhor. Portanto, vamos implementar um modelo de paternidade superprotetora, nós forçamos os filhos a participar de uma infinidade de atividades que, em teoria, ajudam a preparar os pequenos para a vida.

Como se isso não fosse suficiente, nós enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação.

Payne ressalta que estes são os quatro pilares do excesso que forma a educação atual das crianças:
1 – Excesso de coisas.
2 – Excesso de opções.
3 – Excesso de informações.
4 – Excesso de rapidez.

Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta.

Gradualmente, a sociedade foi corroendo as qualidades que tornam o período da infância algo mágico, tanto que alguns psicólogos se referem a esse fenômeno como a “guerra contra a infância”. Basta pensar que, nas últimas duas décadas, as crianças perderam uma média de 12 horas por semana de tempo livre. Mesmo as escolas e jardins de infância assumiram uma orientação mais acadêmica.

No entanto, um estudo realizado na Universidade do Texas revelou que quando as crianças brincam com esportes bem estruturados, elas se tornam adultos menos criativos, em comparação com jovens que tiveram mais tempo livre para criar suas próprias brincadeiras. Na verdade, os psicólogos têm notado que a maneira moderna de jogar gera ansiedade e depressão. Obviamente, não é apenas o jogo mais ou menos estruturado, mas também a falta de tempo.

Simplificar a infância.

A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário:

– Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada.
– Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados.

– Passar um tempo de qualidade com eles é o melhor presente que os pais podem dar.

– Criar um espaço tranquilo em suas vidas onde eles podem se refugiar do caos e aliviar o estresse diário.

– Garantir tempo suficiente de sono e descanso.

– Reduzir a quantidade de informações, certificando-se de que esta seja sempre compreensível e adequada à sua idade, o que envolve um uso mais racional da tecnologia.

– Simplifique o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança.

– Reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixe que elas sejam simplesmente crianças.
Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos, entretanto, então, permita que elas vivam plenamente a infância.

Texto publicado em espanhol no site Rincón de la Psicología, traduzido e adaptado pela Revista Pazes.


(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

INFÂNCIA FORA DA ASA

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEsse é o título do primeiro livro do Papo de Pracinha. Por que “Infância Fora da Asa”? Manoel de Barros, nosso querido poeta, que tanto valoriza a infância e a natureza, foi nossa inspiração, com seus versos que traduzem muito do que pensamos. Ele diz:  “Poesia é voar fora da asa”. E o que isso nos diz sobre a infância e as crianças? Para nós, as crianças são seres poéticos, que não se enquadram em molduras e modelos. São seres carregados de poesia nos seus modos de pensar e agir sobre o mundo, cujo percurso não pode ser previsto, posto que é sempre inusitado, desconhecido, inesperado, curioso, imaginativo e brincante. Crianças rompem frequentemente com os limites que nós, adultos, definimos para elas. Crianças voam fora da asa. Assim, a Infância precisa ser pensada fora da asa, de um modo inteiro e sensível, que contemple suas diferentes dimensões e especificidades, para além do olhar adulto que a aprisiona. É preciso ir além do instituído, é preciso voar fora da asa.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme


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Carnaval na pracinha: máscaras, rabos e Ladybug

(*) Papo de Pracinha

1444722355_88As pracinhas e as ruas foram tomadas pelas festas de momo e, com elas, as crianças se fizeram presentes com sua alegria, usando fantasias interessantes, criativas e fresquinhas. Só que não, ou nem sempre.  Os palhaços, piratas, baianas, bailarinas e melindrosas tradicionais estiveram presentes, como sempre, e a cada ano em menor escala, dando espaço para os super-heróis, heroínas e vilãs da televisão e do cinema. Mas houve novidades, e lindas.

A campeã desse carnaval foi a heroína (podemos chamar assim?), Ladybug que vem encantando adultos e crianças pelos canais a cabo da televisão por meio da série de animação Miraculous Ladybug. Nada contra, mas se pode comprovar que a televisão ainda é um meio de distração e de entretenimento de muitas crianças, por muitas horas e cada vez mais cedo. E também de adultos porque conhecem a mocinha, destacam o bom gosto de sua roupa e compram (ou fazem, ou mandam fazer) a fantasia, tal e qual.  É uma graça mesmo já que usa uma cor forte, o vermelho, e as bolinhas pretas que lembram uma joaninha, sem faltar a máscara que encanta, seduz e torna tudo mais mágico ainda.

Para quem não conhece, a série em questão tem a cidade de Paris como cenário, e esta é protegida por dois personagens fortes, com superpoderes, diante da ameaça de risco, do mal. De um lado, a menina Marinette Dupain Cheng que se transforma em Ladybug, com o poder da sorte e, de outro, seu amigo e amor da escola, Adrien, que se transforma em Cat Noir, com o poder da má sorte. Esse antagonismo de poderes entre eles é desconhecido por ambos, ou seja, eles não sabem do poder de transformação do outro. Cat Noir este ano, quase não veio ao Rio.

Mas, interessa-nos aqui conversar sobre a fantasia em si, sobre a possibilidade de ser sem ser, de agir como se fosse um herói, um pássaro ou um avião, como uma prerrogativa característica do mundo das crianças que alcança os adultos, que pode ser mais ou menos alimentada, estimulada por eles, desde que sempre respeitando cada criança.

Há aquelas crianças mais soltas, que podemos chamar carinhosamente como “mais exibidas” que entram facilmente nas brincadeiras, que aceitam roupas, adereços e maquiagens etc. Mas há outras que não se sentem bem assim e que rejeitam a fantasia. Isso não é motivo para não participar da festa que, pelo calor carioca, exige uma roupa fresca e confortável, sempre, para todos.  Há famílias e casais que se fantasiam junto com suas crianças e assim a festa se torna mais interessante ainda para as crianças, já que agrega um núcleo de afetos pela fantasia e pela alegria da festa.  Há também os que não gostam de carnaval e que fogem dele, e esses precisam ser igualmente respeitados, mas aqui, dessa vez, estamos pensando nos que gostam e participam da festa, junto com suas crianças.

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Os super-heróis não faltam às festas, nunca, sejam eles: o Super Homem, o Batman, o Hulk (esse já tem idade!), o Woody, do Toy Story com chapéu, blusa quadriculada, calça comprida, e tantos outros. Todos muito bonitos e alegres, quando usados por crianças que se mostram felizes dentro de suas fantasias.  Será que elas se identificam com os personagens que vestem e que passam a ser, nessas festas?

Nós queremos exaltar aqui as crianças e famílias que não estiveram usando as fantasias mais caras, nem as mais brilhosas, talvez, mas aquelas que criativamente fizeram a partir de uma combinação de elementos que produziu personagens inusitados, diferenciados e engraçados. Esse também foi o carnaval da magia da criação. Vimos mães, pais e filhos com roupas de palhaço coloridas, fresquinhas e maquiagens onde cada um carregava nas mãos, por exemplo, um “objeto circense” se é que podemos chamar assim: um prato num canudo grosso para a criança palhacinha se passar pelo equilibrador de pratos, o pai carregava dois malabares e a mãe, pasmem, tinha uma perna de pau mais baixa que o comum, mas ela as usava belamente, dançantemente.

Também foi o carnaval dos rabos e mascaras. Amamos!  Basta um rabo de macaco bem elaborado, preso com um elástico na cintura, um shortinho marrom, sem camisa e a máscara de macaco. Sensacional, resultado do trabalho de artistas, com orelhas e buraco nos olhos. Eram macacos, ativos e felizes.  Vimos também dinossauros nessa mesma onda, mãe e filho com rabos maravilhosos e bem feitos, lindos.

Bem as máscaras de pássaros e as asas coloridas, mais uma vez, encantaram a turma da pracinha pelo capricho, pela criatividade, beleza e originalidade.

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Queremos aplaudir, portanto, artistas e artesãos como a Fécula (www.fecula.tanlup.com), na criação dos mais lindos rabos, que coloriram e animaram a festa. E, também, aplaudir a turma da Elefoa (www.facebook.com/elefoa e @elefoa), que vem colorindo os corpos das crianças com as asas de aves mais lindas do mundo. Parabéns.

E, para fechar o carnaval com uma brincadeira, daríamos o Prêmio Papo de Pracinha àqueles que se pautaram em critérios de originalidade, beleza e conforto pautados no respeito pelas crianças.  E, ainda bem, não faltaram confetes, serpentinas nem as melhores marchinhas!

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(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

O Rio não é uma Cidade Educadora! Sabia?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Vocês sabiam que existe uma Rede Brasileira de Cidades Educadoras, composta de quatorze cidades: Belo Horizonte, Campo Novo do Parecis, Caxias do Sul, Dourados, Jequié, Montes Claros, Porto Alegre, Santiago, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São Paulo e Sorocaba? Ha várias cidades da América Latina que também compartilham esse conceito, em países como: Chile, Argentina, Colômbia, México, Uruguai, Bolívia e Equador.  Mas o Rio não é uma delas. Por que não? Como, não?

Bem, esse movimento se iniciou em 1990, durante o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras, em Barcelona e se fortaleceu em 1994, em Bolonha, Itália. Desde então, há um acordo firmado entre um grupo de cidades “representadas por seus governos locais, que pactuam o objetivo comum de trabalhar juntas em projetos e atividades para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, a partir da sua participação ativa na utilização e evolução da própria cidade e de acordo com a carta aprovada das Cidades Educadoras. ” (Na internet, http://portal.mec.gov.br/)

Para ser tornar uma Cidade Educadora o Rio precisaria se comprometer com princípios básicos que tomassem a cidade “como espaço de cultura, educando a escola e todos que circulam em seus espaços, e a escola, como palco do espetáculo da vida, educando a cidade numa troca de saberes e de competências” (Gadotti, 2016, p.133-134). E essa cidade que educa, segundo o mesmo autor, é uma cidade que valoriza o protagonismo de todos, que investe numa formação permanente “para e pela cidadania, além de suas funções tradicionais: econômica, social, política e de prestação de serviços. ”. E, nessa perspectiva, a Cidade Educadora é, mesmo, também um direito de todos.

Os princípios que regem as Cidades Educadoras são: trabalhar a escola como espaço comunitário, trabalhar a cidade como grande espaço educador, aprender na cidade, com a cidade e com as pessoas, valorizar o aprendizado vivencial e priorizar a formação de valores, pontos cruciais para a transformação que o Rio precisa.

No caso do Brasil, o Rio, junto com São Paulo, permanece sendo polo produtor, consumidor e disseminador de cultura, não por ser mais importante do que outras cidades, mas, principalmente, pela ação das mídias hegemônicas que tentam pautar a vida do país, pelo Sudeste, o que não é bom.  Precisamos aprender com outras Cidades Educadoras que já estão à nossa frente, promovendo suas mudanças e voltar o olhar para nossa cidade.  E isso é pra já!

O Papo de Pracinha apoia essa ideia. O Papo de Pracinha vem desenvolvendo ações variadas de modo a mudar esse cenário! Você quer nos ajudar? Como?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Luiza Gueiros

As crianças amam fazer comidinhas!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Não se pode afirmar que todas gostem das mesmas brincadeiras, pois as crianças têm suas preferências. Também é difícil, muitas vezes, encontrar explicações racionais que justifiquem seus desejos.  No entanto, para entender o envolvimento delas em diferentes brincadeiras, podemos levar em conta alguns aspectos que são comuns aos seus modos de brincar, como a curiosidade, a experiência transformadora, as combinações, as descobertas e as invenções.

Terra, água, gravetos, sementes, folhas, pedrinhas, potes variados transformam-se nas mãos das crianças em feijão, carne, arroz e outras comidinhas produzidas e inventadas magicamente por elas, em diferentes contextos imaginários onde servem/comem suas produções: festas de aniversário, casamentos, restaurante, cafés etc.  A criança experimenta texturas diferentes e o poder que tem de, com seus gestos e movimentos, transformar os materiais. Ao jogar água na terra, vê a água “desaparecer” e surgir a terra molhada, material que oferece outras possibilidades de manipulação, assumindo diferentes formas e significados a partir das ações de verter, misturar, enformar etc. Aqui estamos falando do brincar na natureza, em parques, praças e outros locais onde encontramos esses materiais. Mas e dentro de casa, também dá pra brincar de comidinha de uma forma interessante? Sim, podemos permitir às crianças misturar pó de café e água, um pouquinho de leite em pó, arroz etc., em panelinhas, potinhos ou outros recipientes pequenos, para que possam fazer suas misturas criativas, descobertas e invenções de cardápios. Por que não?

Muitas vezes, os adultos impedem esse tipo de brincadeira porque faz sujeira no ambiente, na roupa e até mesmo no corpo da criança. Aqui temos que resgatar o antigo provérbio que indica ser impossível fazer omeletes sem quebrar ovos.  De verdade, poder se sujar ao manipular “alimentos” é parte da vida de quem cozinha, de quem bota a mão na massa. E brincar  de verdade, experimentar os diferentes materiais, sem se sujar, é quase impossível. Para brincar, é preciso ter liberdade de se sujar, se for necessário.

Outra preocupação é quanto à segurança. Fogões acesos, fornos quentes, panelas aquecidas etc. são causadores de acidentes graves e, para preveni-los, procuramos manter as crianças afastadas da cozinha. Talvez esse impedimento seja uma fonte de curiosidade da criança em relação a esse espaço mágico que é a cozinha, onde se produz tantas coisas gostosas! Mas podemos criar o ambiente da cozinha em outros espaços, montando junto com as crianças a sua “cozinha” de faz-de-conta: caixas podem virar fogão, recipientes de plástico panelinhas, pratos, colheres de pau atendem muito bem às crianças.

O Papo de Pracinha defende que as crianças estreitem cada vez mais a sua relação com a natureza, dando-lhes a oportunidade de explorar seus diferentes elementos e com eles fazer suas experimentações e criações. É preciso levá-las para brincar ao ar livre nas praças e nos espaços públicos e deixá-las mexer na terra, coletar folhas, pedras… E, quando estiverem em casa, que tal convidá-las a brincar de forma ativa, criativa, inventiva e imaginativa? Bora lá fazer comidinha?

Boas comidinhas são Papo de Pracinha.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme