Escolas “single sex”: por quê, para que e para quem?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioA vida não cabe mais apenas no mundo que se equilibrou, falsamente, durante anos, séculos, entre homens, mulheres e seus dois mundos. Tantas vezes vimos até homens versus mulheres, dependendo da situação e da cultura.

Homens, mulheres, transgêneros, homossexuais e toda a gama de nomes que conhecemos para qualificar pessoas, “gentes” já são restritivas por si sós e o que sabemos é que as dimensões: cognitiva, intelectual, emocional, física etc. podem ser diferentes entre pessoas de mesmo gênero e orientação. Assim, tempos de brincar e ocupação de espaços para meninos e meninas separadamente podem também estar sendo altamente desrespeitosos entre os meninos e as meninas que são todos bastante diferentes entre si.

Nesse viés, não encontramos explicação cientifica nem “humanitária” para a separação das turmas de ensino fundamental por gênero.  Como tendência, denominada “inovadora pelos seus defensores”, vem crescendo nos EUA que não primam por excelência em Educação e, portanto, merece ser melhor avaliada para ser possível defender qualquer tipo de segregacionismo como positivo,  em processos educativos e na vida em geral.

Isto posto e diante de tudo o que temos assistido como degradante em relação ao respeito, à ética, à vida planetária, à solidariedade e ao amor, pedimos que as famílias e a sociedade reflitam sobre “como caminha a humanidade” para lutar para manter ou mudar o que está posto.  Comecemos respondendo às três perguntas iniciais: por quê, para que e para quem.

Leiam abaixo a matéria do O Globo, onde são apresentadas as opiniões de pesquisadores e especialistas sobre escolas que estão optando por separar turmas de acordo com o gênero.


O Globo – por Paula Ferreira em 28/07/017

Especialistas criticam método de ensino que divide alunos por gênero

Tendência de escolas ‘single sex’ se espalha pelo mundo

RIO — Há mais de 40 anos, o Colégio Santa Marcelina, no Alto da Boa Vista, no Rio, decidiu aceitar meninos nas salas de aula antes ocupadas só por meninas. Um pouco depois, há quase 30 anos, o Colégio Militar do Rio aprovou o ingresso feminino em suas classes. Esse movimento em direção a turmas mistas, no entanto, não é uma unanimidade, conforme mostrou O GLOBO na edição de quinta-feira com a história da escola Porto Real, na Barra, que divide os alunos de acordo com o gênero. Especialistas afirmam que a separação dos estudantes é um atraso e implica em uma formação deficiente dos alunos, que não aprendem a conviver com as diferenças.

Com cada vez mais adeptos ao redor do mundo, o modelo que aposta em uma educação personalizada para cada gênero ganhou força nos Estados Unidos a partir de 2002, quando uma lei permitiu que agências educacionais locais usassem fundos públicos — destinados a “programas inovadores”— para apoiar escolas que separavam estudantes por gênero. De acordo com dados da Associação Nacional para Educação Pública Single Sex (Nasspe, na sigla em inglês), criada no mesmo ano da nova legislação, em 2002 apenas uma dúzia de escolas públicas oferecia o serviço. Mas menos de uma década depois, em 2011, pelo menos 506 instituições públicas dos EUA tinham atividades do tipo. E mesmo com a nova norma, essas instituições são alvo constante de ações que questionam o modelo single sex, argumentando que a prática é segregacionista.

CONVIVÊNCIA E CONFLITO

Se, por um lado, os adeptos do método argumentam, principalmente, que ele impulsiona o desempenho dos estudantes, os especialistas defendem que os resultados não são o principal indicador de uma educação bem sucedida.

— O desempenho é apenas uma das dimensões que interessam à sociedade. Mas o que interessa, de fato, é que tenhamos cidadãos que consigam conviver. A convivência envolve conflito, aliança, negociação, dor, alegria. Essa forma de educação vai contra as necessidades de uma sociedade que precisa avançar no tratamento da diversidade — critica Denise Carreira, doutora em Educação pela USP. — Observo que há uma modernização do discurso da segregação. O discurso novo diz “vamos separar, porque assim vamos desenvolver as meninas para as ciências exatas e os meninos para outras áreas”. É uma modernização ancorada na neurociência que acaba alimentando a segregação. O argumento pautado em questões biológicas já foi usado por vários regimes segregacionistas ao longo da História.

A pesquisadora afirma ainda que o surgimento de mais escolas que separam os alunos por gênero está relacionado ao contexto global atual:

— Isso tem a ver com o crescimento do conservadorismo não só no Brasil, mas no mundo. Ao mesmo tempo que muitos setores exigem convivência na diversidade, outros mantêm a intolerância. É um retrocesso.

Fernando Seffner, coordenador da linha de pesquisa sobre Educação, Sexualidade e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também se posiciona contra a educação single sex.

— Muitos estudos, além de filmes e a própria literatura, mostram que o nível de violência entre os alunos em escolas só de meninos ou só de meninas é maior que na escola mista. Um menino que, por exemplo, não goste de jogar futebol, terá uma chance muito maior de sofrer violência nesse ambiente.

Só na Espanha — país de origem do criador da Educação Personalizada, Victor García Hoz —, segundo a Associação Europeia de Educação Single Sex (Easse, na sigla em inglês), há ao menos 219 centros de estudo que oferecem educação diferenciada em algumas de suas etapas, todos privados, mas alguns com subsídio público. Na América Latina, o modelo criado por Hoz começou a ganhar popularidade a partir dos anos 2000. Secretário geral da Associação Latino-americana de Centros de Educação Diferenciada (Alced), Ricardo Carranco afirma que a tendência é que esse tipo de escola se espalhe pelo continente.

— A América Latina está, cada vez mais, crescendo nessa área e apostando no tema da educação diferenciada por sexos. Entre outras nações, Argentina, Peru, México, Honduras, Costa Rica, Equador têm colégios de reconhecido prestígio acadêmico e social, emoldurados pelos princípios pedagógicos da educação diferenciada por sexos — afirma Carranco. — Sem dúvida, o Brasil é uma terra fértil para projetos educativos como esses. A riqueza cultural e social do país facilita o florescimento desse tipo de projeto.

Em 1995, a Escola Catamarã, em São Paulo, foi fundada sob o projeto pedagógico de Hoz. Atualmente, além dela, o Colégio do Bosque Mananciais, em Curitiba, que foi criado em 2010, virou símbolo da educação diferenciada por sexo no país. A escola oferece a educação single sex a partir do 2º ano do ensino fundamental até o ensino médio. Os alunos são divididos em duas unidades, uma para meninos e outra para meninas.

— É um único projeto educativo porque o conteúdo programático é o mesmo. O que muda é apenas a forma e o entorno de aprendizagem, um entorno que leva em consideração as naturais diferenças dos meninos e das meninas, como nível de maturidade ou facilidades de cada grupo para umas disciplinas específicas. É sabido e comprovado, por exemplo, que as meninas obtêm melhores resultados em português e literatura e os meninos em matemática e ciências — argumenta Leandro Pogere, diretor geral do colégio.

Já a diretora pedagógica do Colégio Santa Marcelina, que em 1975 decidiu abandonar as aulas restritas a apenas um dos sexos, Irmã Carmen é taxativa:

— No nosso pensamento pedagógico, consideramos que a presença de meninos e meninas estudando juntos é fundamental. Para aprender matemática, história e português, com certeza não faz diferença. Mas para aprender a viver bem, acho fundamental.

Colaborou Clarissa Pains

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(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas

Papo de pracinha (*)

No início do mês de outubro do corrente ano, o portal de notícias globo.com publicou uma matéria, por ocasião da festa de Halloween nos EUA, sobre um pai americano de 28 anos, que aceitou o pedido de seu filho, um menino de 3 anos, para vesti-lo como a princesa Elsa, do filme Frozen. E, para apoiar o filho e acompanhá-lo à festa das bruxas, ele mesmo decidiu vestir-se de Anna, a outra princesa do filme. Para defender-se da chuva de possíveis críticas, Paul Henson se antecipou, dizendo: “fiquem com seus preconceitos masculinos e suas fantasias infantis ‘quadradas’. O Dia das Bruxas é sobre crianças que fingem ser seus personagens favoritos. Isso vai ser assim mesmo, esta semana ele quer ser uma princesa”.

Na verdade, as crianças e os poetas são tacitamente “autorizados” pela sociedade para “agirem como se”, para vestirem-se de quem não são. Chico Buarque, e não só ele, canta e retrata a alma feminina lindamente sem ter sua masculinidade ameaçada. No entanto, se um menino de três anos, que tem a ludicidade e o pensamento mágico como um direito de expressão e de linguagem, deseja vestir-se de princesa, em geral pais e mães reagem por sentirem-se ameaçados, como homem, como mulher e como pais. Um menino que quer ser e agir como se fosse uma princesa e, também, uma menina, que deseja ganhar uma bola de futebol e uma chuteira, certamente, serão impedidos pelos adultos e com certeza não terão possibilidade de entender o porquê dessa proibição.

Costumo observar as crianças. Estive vendo um grupo formado por Isabela, com três anos e seus cinco primos. Eles se encontram com frequência na casa ampla dos avós onde há um pula-pula daqueles bem bacanas, além de um campo de futebol histórico, que vem acolhendo gerações de jogadores: pais, filhos, netos e amigos, para rolar a bola.

Isabela brinca com um “harém “ às avessas, sendo a mais nova dos primos. Os meninos a cercam e ela demonstra não aceitar para si o lugar de menininha frágil, doce, nem desprotegida. Ao contrário, ela é bastante decidida, resolvida e forte para enfrentar os impasses “do seu jeito”: entra em campo e disputa as bolas entre os primos e os amiguinhos.

Pude perceber naquela tarde, o imenso encanto dela e desses meninos diante de um brinquedo novo para as crianças, uma casinha de bonecas. O sucesso foi total, as crianças entravam e saíam dela, cantavam, ficavam de pé lá dentro, faziam comidinhas, disputavam espaços e brigavam entre si; todos usavam as panelinhas com pedras e pedaços de folhas, e disputavam o controle da porta. Todos queriam mandar e determinar quem poderia sair e entrar para brincar nessa casinha.

Numa circunstância de impasse entre as crianças, um adulto gritou de longe: saiam daí meninos, a casa é da Isabela que é menina. Esse discurso me surpreendeu a ponto de querer saber mais sobre a tal casa de bonecas dentro daquela família, os usos possíveis para todos, ou só para alguns. E fiquei mais feliz do que poderia imaginar. Continuar lendo Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas