Tais e quais: filhos e pais com roupas iguais

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Há lojas especializadas na oferta de roupas iguais para mães e filhas, pais e filhos. Eventualmente vemos famílias com crianças vestidas com o mesmo modelo, tecido e cor que seus adultos de referência, em geral, em situação de festa.

Isso é bom ou é ruim para as crianças? Não podemos dizer que todas elas reajam igual a isso e, também, precisaríamos saber porque os pais optam por vesti-los com roupas iguais às suas. Os desejos dos adultos que estão por trás das decisões sobre o vestuário podem ser mais comprometedores do que o uso das roupas, em si. Podemos garantir que, na maioria dos casos, os ônus dessa estratégia acabem recaindo sobre as crianças. Vaidade exagerada? Valorização dos laços? Importa mostrar o quê, para os outros? Não sabemos.

Será que as crianças percebem e valorizam o uso de roupas iguais às de seus pais?

Sabe-se que a constituição da identidade de cada criança passa por um reconhecimento de si como alguém diferente e único, também em relação aos pais. Sendo assim, embora possamos entender as roupas como um adereço, é preciso pensar no que pensam os pais quando vestem seus filhos como se fossem adultos ou, por um outro ponto de vista, porque se vestem como crianças, já que o vestuário de um e de outro são bastante diferentes.

Uma outra questão se refere a irmãos gêmeos que são vestidos com roupas iguais, o que muitas vezes dificulta até o reconhecimento de cada um, quando são muito parecidos. E há, ainda, aquelas famílias que optam por vestir filhas meninas com roupas iguais e, da mesma forma agem em relação aos filhos homens. Por quê? Para quê?

Bem, os amigos da pracinha pediram para discutirmos esse assunto que poderia, em tese, ser da alçada de cada família, mas que, também, pode expressar alguns desejos, conscientes ou não, desses adultos, que podem acabar por pasteurizar, homogeneizar crianças que são diferentes, embora sejam irmãos, ou pais e filhos.

Escolher a roupa que vestirão é uma questão de honra para a grande maioria das crianças, depois de uma certa idade, e isso acontece cada vez mais cedo. Vemos crianças com dois ou três anos fazendo birra para escolher a roupa que desejam usar. No caso das famílias em que os adultos e as crianças vestem roupas iguais, no mínimo, esses impasses poderão ampliar muito certas questões simples e temporárias na vida delas. Na deles, não sabemos dizer se são igualmente simples e temporárias, parece que não.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

8 brincadeiras ao ar livre

Papo de pracinha (*)

1444722355_88 Em tempos de tantas tecnologias ao alcance das crianças, é cada vez mais comum que elas passem grande parte do seu tempo livre, que já é pouco, emparedadas dentro de suas casas. Sem falar, no emparedamento que também acontece nas escolas, espaços muitas vezes limitados e áridos, ausentes de natureza. Nesse contexto, ir para fora de casa, passear pela cidade, brincar livre e na natureza, em parques, praças, praias etc. é hoje uma prescrição para a saúde e a felicidade das crianças. Nós, adultos, precisamos desfrutar mais do convívio com as crianças na natureza! Interagir com terra, areia, árvores, plantas em geral, bichos, flores etc. nos aproxima da vida, nos torna mais sensíveis, nos traz maior conexão com nosso ser interno e com as nossas crianças. Que tal experimentar incluir mais atividades ao ar livre em família! Aqui vão algumas sugestões de brincadeiras que podemos fazer em praças, parques, ruas fechadas, entre outros espaços públicos abertos.

  1. Contar histórias à sombra de uma árvore – leve uma canga, esteira ou algo semelhante, encontre uma posição confortável e desfrute da leitura de um bom livro junto com sua(s) criança(s).
  1. Passear pelo parque, levando uma bolsa ou um cesto, observar a natureza e coletar sementes, folhas, flores, gravetos, pedrinhas etc. Após a coleta, pode-se organizar o que foi encontrado em pequenos potes ou saquinhos, fazer uma produção artística usando esses materiais naturais, ou então seguir a sugestão da criança.
  1. Fazer bolhas de sabão.
  1. Montar uma cabaninha, usando tecidos amarrados em árvores.
  1. Desenhar no chão com gravetos ou giz.
  1. Brincar de amarelinha, corda, pique (pique árvore, por exemplo), entre outras possibilidades de brincadeiras tradicionais.
  1. Brincar de fazer comidinha, com areia/terra, panelinhas, potinhos, colheres, pás etc.
  1. Brincar de cientista, explorando a natureza com uma lupa.

Conte-nos também suas ideias e as de suas crianças!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Crianças e paralimpíada

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 A olimpíada que aconteceu no Rio de Janeiro foi um sucesso incontestável. As crianças acompanharam, na medida de seus possíveis, a alegria dos jogos, a convivência com pessoas de outros mundos e culturas, além de terem tido contato com nomes de países e de esportes jamais conhecidos.

Chega o tempo da paralimpíada, já que se convencionou que os esportes individuais e coletivos envolvendo atletas com diferentes tipos de deficiências deveriam acontecer depois, não antes e nem simultaneamente. Sob o ponto de vista organizacional talvez não fosse possível essa execução simultânea, numa mesma cidade e nos mesmos espaços pelas adaptações exigidas, mas sob a ótica da valorização dos esportistas e dos esportes poderia ser lindo. Sem contar com a possibilidade de as crianças torcerem pelo seu país, em tempos tão bicudos, sem tantos ídolos.

Enfim, a televisão e a mídia em geral se canaliza para acompanhar os para-atletas, para seus esportes e performances. Discute-se a qualidade das campanhas publicitárias que buscam vender a paralimpíada, de modo sempre mais tímido que a primeira, com ingressos mais baratos também, embora as vendas tenham surpreendido pelo sucesso de público alcançado.  

Nesse cenário, alguns pais e mães revelam viver um dilema interno que flutua entre levar suas crianças aos jogos e, com isso, criar a oportunidade para que elas vejam pessoas felizes, ainda que às vezes mutiladas, com algumas deficiências ou, no sentido oposto, certos pais pensam em poupá-las de cenas e situações que podem “marcá-las para toda a vida. Talvez o futebol seja menos dramático, ou o basquete; já decidi que à natação não vou com eles, nem quero que vejam pela televisão. Sem roupas pode ser muito impactante e impressioná-los muito, embora já tenham oito e 10 anos.”.

E, já que essas mães e pais têm a confiança de abrir seus corações, seus medos e conflitos conosco, nos sentimos fortalecidos para opinar sem querer dar lições de moral, nem de bom comportamento a ninguém.             

Quanto à preocupação sobre as crianças ficarem “chocadas ou muito tristes diante de pessoas com tantas faltas: de visão, de perna etc.? ” Não poderemos dizer de que forma cada uma delas reagirá. Ninguém pode fazer esse tipo de “previsão”.

Podemos ajudar aos adultos dizendo que a paralimpíada poderá ser uma excelente oportunidade para que conversem com suas crianças sobre a diferença entre dificuldade e deficiência num cenário de força e de superação, onde se travam as melhores lutas.  O melhor de tudo parece ser a possibilidade de ver essas pessoas “de verdade e de perto”, atletas que apresentam diferenças visíveis em relação a nós, considerados supostamente “normais”.

Quanto a pergunta se as crianças vão curtir, achamos que sim. Se elas vão ficar impactadas, impressionadas? Pode ser que sim, mas não se pode apostar nisso. Se elas vão aprender muitas coisas novas e importantes para a vida? Com certeza sim.

Muitos pais e educadores estarão levando crianças para assisti-los, aplaudi-los e até para abraçá-los, se for possível.

Quando os pais perguntam sobre o momento certo de apresentar suas crianças à cenas ou pessoas que podem lhes causar susto, dor e medo, precisamos parar para refletir. Infelizmente, as ruas das grandes cidades estão repletas de cadeirantes, de pessoas muito pobres, doentes e ás vezes também mutiladas, eventualmente com curativos enormes nem sempre limpos, e em muitos casos carregando junto suas crianças.  Não foram poucas as vezes em que nossos filhos e tantas crianças com quem trabalhamos nos fizeram perguntas difíceis de responder, sem desânimo e tristeza diante da falta de perspectivas dessas pessoas, quanto à possibilidade de tempos melhores, de alternativas.

Quantas vezes já vimos, em instituições de educação infantil, crianças cadeirantes, ou com deficiências de outras ordens, totalmente integradas ao grupo? Havia aquelas que rezavam para chegar a hora do lanche, quando a cadeira de rodas ficava desocupada, para poderem nela sentar e brincar. Sem constrangimento algum elas disputavam as muletas e as cadeiras de roda. Ninguém deixava de dormir ou tinha medo do contato com essas crianças “diferentes”, beijavam-se e abraçavam-se, embora reconhecessem e até explicitassem suas limitações: “ eu sou amiga dela, mas no pátio, não sou. No pique do pátio, não, porque ela é ruim para correr”. E era verdade.

A televisão também traz para dentro das casas de todos crianças e adultos com deficiência que, ao que parece, não seriam “notados” pela maioria que julga ser a paralimpíada o momento em que seus filhos serão “apresentados às mutilações e deficiências humanas”. Será mesmo?   

E se for? Dependendo da decisão de seus responsáveis, da idade da criança etc., talvez seja um momento único em suas vidas, o de tomar contato com a vida de pessoas inteiras e felizes, de muitos países diferentes, que aqui estão pelo que são e têm, não pelo que lhes falta. Cheios de vida, de energia e de alegria. Por que não?

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Pãe nada, eu sou PAI.

1444722355_88Não por acaso meu amigo reclama – sempre cuidei dos meus filhos. Eles ficaram comigo na separação e, ainda hoje eu recebo duas coisas que me aborrecem – presente de dia das mães e, de quebra, o título de “pãe”. 

Todos conhecemos pais e mães que criam ou criaram sozinhos seus filhos, quando não foram os avós, tios e até mesmo irmãos mais velhos. Não somos juízes, vale lembrar e, de certa forma, esse exercício afirmativo de pôr os eventos da sociedade em discussão pode chegar a criar conflitos e duras críticas, quem sabe? É possível lidar com qualquer crítica quando assumimos um compromisso com a vida feliz de crianças.

Para isso, partimos do óbvio. Se criar os filhos com dois adultos no timão, compartilhando os cuidados, a proteção a educação já é extremamente complicado, pode-se imaginar as dificuldades quando há um único responsável pela tarefa inteira. Essa pessoa, para início de conversa, merece um destaque por sua força, compromisso e amor. Sobram notícias de casos bem sucedidos de crianças que vivem ou viveram essa realidade e que são muito felizes, éticos, adequados e criativos. E, como todo mundo, tem lá seus problemas. Normal.

A questão que preocupa se remete à negação da existência e, como consequência, uma desqualificação da mãe, do pai, ou das duas mães, dos dois pais etc. na  vida de sua criança. Nem falamos aqui de alienação parental, mas da invisibilidade com que algumas adultos buscam envolver a figura que se retirou do casal, como se fosse possível deixar de ser mãe/pai. Sempre que há uma ruptura, e na falta de um dos dois, a criança se ressente e caberá a  cada “arranjo familiar” escolher um modo delicado, porém verdadeiro, para dialogar com ela sobre a história dela e de sua família. E parece ser aqui que se situa o aborrecimento do amigo ao ser chamado de pãe, sem que ele ache qualquer graça nesse título.

Até as professoras, com doçura, escreviam no meu cartão que o presente era para o melhor pãe do mundo. Tive que dizer pra elas que eu nunca fui pãe. Eu sou pai e um pai cotidiano!  Adoramos, sem medo de  dizer essa expressão um tanto pleonástica de “pai cotidiano”: ele é pai o dia todo, o tempo todo e pra vida toda. E acha ruim para seus filhos que eles pensem que não têm mãe. Ela é viva, é saudável, inteligente, bonita, só não somos mais casados e ela não vive perto de nós, diz ele.

Na verdade, nesse caso, a mãe teve uma boa proposta de trabalho em outro país, num momento em que o casal já não estava bem e, assim, ela foi para o exterior tendo o pai mantido aqui os filhos, com ele. Nessa circunstância, o pai se preocupava em não perder seu emprego, ele tinha receio de tirar dos filhos a família extensiva (avós, tios, primos), os amigos da escola  e principalmente, temia os eventuais problemas com a perda do domínio da língua materna, em outro país. Para esse pai isso parecia assustador, não para a mãe das crianças o que, associado aos problemas internos do casal, levou à separação e à viagem dela. Resumidamente é isso e com o maior respeito pela mãe, pelo pai e pela decisão do casal, as crianças ficaram com ele, a mãe foi para um país do mundo oriental e todos vivem felizes. Mas o fato de ter a mãe longe não implica a inexistência dela. Eles têm mãe, esteja ela onde estiver.

Apoiamos a argumentação dele no seguinte sentido – qualquer que seja a mãe ou o pai, em qualquer arranjo familiar, essas pessoas têm nome, têm suas histórias e individualidades mas têm, também, compromissos para a vida toda com suas crianças, para o resto de suas vidas. Não se pode aceitar a existência de ex-mãe, ou ex-pai.

Um viva, caloroso aos pais nesse dia que o comércio criou e que nós aproveitamos para jogar luz sobre esse lugar que não precisaria ser justificado – pai é pai, não pãe.

Chupeta: sim, não, por quê?

Papo de pracinha com colaboração de Irla Mello (*)

1444722355_88É comum encontrar mães e pais, principalmente os de primeira viagem, com muitas dúvidas em relação à educação do seu bebê, mesmo antes de ele nascer. Assim, com frequência somos procuradas por esses novos pais querendo saber o que pensamos sobre vários assuntos relativos à vida do bebê. Como, hoje, a maioria das maternidades têm um rol de coisas que devem fazer parte da bolsa do bebê, naturalmente são levantadas expectativas sobre o uso de determinadas coisas, e uma delas é chupeta. Nesse viés, dá para entender que pais e mães sejam induzidos a pensar e a responder sobre alguns aspectos para os quais ainda não tinham parado para pensar antes.

Como já dissemos algumas vezes, não se pode garantir que nada que seja excelente para a vida de uma criança, será igualmente bom para a vida de uma outra, com duas nobres exceções, o leite materno e o amor, indispensáveis para todas. O uso da chupeta, portanto, poderia ser incluído nessa mesma lógica.

E então, devo levar chupeta? Nós não gostaríamos que ela usasse chupeta. A chupeta é mesmo um foco de contaminação para as crianças? Se ela usar chupeta, vai ficar dentuça e precisará de aparelho dental, no futuro? Fora pressões mais diretas, como: fale a verdade, você ofereceu chupeta aos seus filhos? Fala, fala!

Defendemos que seja cada bebê quem nos diga se a chupeta será adequada e oportuna, ou não. De forma geral, a chupeta pode funcionar como um alento, como algo que acalma a criança. E nem que fosse só por isso, valeria a pena incluí-la no kit maternidade. Segundo a ortodontista Irla Mello, a chupeta pode ser interessante se houver um uso comedido dela, uma vez que esta não é necessária para o desenvolvimento da criança. Assim, para ajudar a estabelecer esse uso comedido, o ideal é que a chupeta seja usada se ela der conforto à criança.

O ideal é que os pais associem seu uso aos momentos de sono, por exemplo, para não criar o hábito de chupar a chupeta o dia inteiro pois o uso muito frequente da chupeta pode, a longo prazo, causar algum tipo de má oclusão, diz ela.

O que mais podemos dizer sobre a chupeta? Bem, para fortalecer a concepção de que cada criança é um ser único, integrado e diferenciado de todos os outros, nunca se pode garantir que ela vá gostar da chupeta como seu irmão, como seu pai que chupou até os sete anos ou coisa parecida. Vamos procurar “ouvir” o bebê? Ele tem muitas cólicas, chora muito? Aceita a chupeta? Não aceita?

É o bebe recém-chegado, sem saber de nada, quem deverá ajudar pai e mãe a resolver muitos desses impasses. Não é pouco comum que os filhos, às vezes mesmo recém-nascidos, venham exigir condutas diferenciadas de seus pais para questões relativamente simples. O casal pode ser favorável à chupeta, por exemplo, e o bebê pode não gostar de chupar chupetas. Isso vale para a escolha da hora melhor do banho, para a escolha das roupas em função da sensação térmica de cada bebê e para tantas outras coisas. E a criança, como ela é?

Sobre o medo de que a chupeta possa facilitar doenças, porque cai no chão, se mistura com chupetas dos amiguinhos na creche, ou na pracinha etc., isso pode acontecer. Mas isso funciona como qualquer outro brinquedo que vá à boca das crianças pequenas que brincam coletivamente. Dessa forma, a chupeta pode ser um foco de infecção se não for higienizada ou esterilizada de forma correta, bem como os brinquedos e mordedores.

Se a criança for usar a chupeta, diz Irla, os pais devem optar por usar chupetas ortodônticas que possuem uma anatomia que se adapta melhor à cavidade bucal da criança e que, por isso, permitem um maior contato da língua com o palato durante a deglutição.

As crianças que usam chupeta necessariamente ficarão dentuças? Não se pode dizer. O que se sabe é que o uso prolongado da chupeta pode provocar danos ao desenvolvimento da arcada dentária da criança, sem que se possa afirmar que isso será uma consequência óbvia em todas elas. Mesmo assim, para evitar isso, sugere-se o uso da chupeta até no máximo 3 ou 4 anos de idade. Depois dos 4 anos, chupeta poderá causar problemas oclusais, principalmente se for usada com muita frequência. Quando o uso é muito intenso ou prolongado, durante e/ou depois da dentição permanente, a criança pode começar a desenvolver alguma deficiência esquelética e/ou dentária o que torna mais difícil a correção dos danos causados, lembra a ortodontista.

Nós, professoras, devemos respeitar as escolhas das famílias e a orientação dos pediatras sem, no entanto, nos omitir. Assim, ao chegar na creche a na escola, ou quando vão para passear na rua, supomos que a criança não precisará ficar o tempo todo de chupeta, também, porque ela deverá experimentar alimentos, beijar, emitir sons e conversar livremente.

Não podemos esquecer que as crianças são todas muito diferentes umas das outras, o que exige uma parceria de mãe e pai muito efetiva, mas flexível, em respeito ao que elas nos dizem, mesmo antes de falar.

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C.Delorme, com a colaboração da ortodontista Irla Mello.

Crianças bem nutridas: crianças saudáveis

Papo de pracinha e Luciana D’Abreu Sarmento (*)

É evidente e muito favorável essa tendência contemporânea de praticar uma alimentação saudável dentro das famílias. Muitos adultos/responsáveis, hoje, têm suas próprias orientações sobre a alimentação adequada para seus/suas filhos/as que, esperançosamente, devem ter sido amamentados/as com leite materno durante um longo período. Só que isso não vale, ainda, para todas as crianças.

No caso dos bebês, sabemos que os seus pais costumam seguir as orientações nutricionais dos pediatras, e deve ser assim mesmo.

No entanto, não é pouco comum encontrarmos bebês e crianças obesas e/ou mal nutridas. Ainda sobrevive, hoje, a mentira de que bebês gordos sejam mais bonitos, mais saudáveis, e melhor alimentados que os outros. Será? Encontramos, também, algumas crianças que embora não precisem, tomem uma ou mais mamadeiras durante a noite, enquanto dormem. Às vezes, também, por medo de que fiquem mal alimentadas na creche ou na escola, os pais lhes oferecem uma mamadeira diária no carro, no caminho. E, ainda, há aquelas que só comem frutas e comida quando liquidificadas. Há as crianças boas de boca, também, que aceitam provar novos alimentos e que comem, tranquilas, mesmo antes de completarem um ano de vida. Valores de família.

Os adultos têm papel primordial nessa relação dos bebês com a alimentação e as crianças percebem logo se existe, ou não, ansiedade nessa tarefa. Toda a orientação dos pediatras podem ir por água abaixo se a família se sentir enfraquecida e insegura, se a família achar que sua criança se alimenta pouco ou mal. Uma das “moedas de troca”, com maior peso, entre as crianças e seus pais está na alimentação e nesse jogo de poder os adultos pagam qualquer preço para que elas comam tudo. No entanto, pode-se dizer que, qualquer que seja a orientação nutricional da família que, em 99% dos casos sejam oferecidas às crianças mais quantidade de comida, as vezes com frequência menor que a indicada, e com qualidade questionável (biscoitos industrializados, balas, frituras etc). Por quê?

Para enriquecer essa conversa e tirar parte das dúvidas convidamos a nutricionista Luciana D´Abreu Sarmento para que tenhamos acesso à informações e esclarecimentos que não costumam ser disponibilizadas pela grande mídia, nem pelas indústrias de alimentos.

Sobre aquela cultura do “suquinho de frutas”, Luciana diz que ela não atende mais às recomendações atuais. Em seu lugar, oferecer as frutas porque os sucos coados e liquidificados perdem as fibras; com isso, o açúcar da fruta (frutose) é absorvido mais rapidamente, caindo na corrente sanguínea e aumentando rapidamente a glicemia (açúcar no sangue), levando o pâncreas a liberar picos de insulina e a trabalhar abruptamente. O uso de suquinhos também pode dificultar a aceitação de água pelo bebê, diminuir o interesse pela mastigação e por outros alimentos.

Sobre a introdução de alimentos sólidos, Luciana reconhece que nem sempre seja tarefa fácil, ainda mais com o uso da colher e do pratinho. Como as crianças não são todas iguais, sugere-se que essas mudanças devam acontecer entre o 6º e o 7º mês de vida do bebê porque seu organismo está preparado para mastigar, deglutir e digerir a comida e, em alguns casos, ele já poderá ser estimulado a pegar a comida com a própria colher. Estando tudo caminhando com tranquilidade, ao 8° e 9° mês a alimentação do bebê pode ir passando gradativamente para a refeição da família com ajuste de consistência, para no 12° mês, a criança estar comendo a comida comum da família. Mas Luciana lembra que não se trata de uma regra, à medida que seja necessário respeitar a individualidade e o tempo de cada criança. A nutricionista nos lembra que as crianças precisam aceitar experimentar alimentos sólidos, novos sabores, aprender a mastigá-los e engoli-los, acostumar com novas texturas. É comum que crianças com predisposição alérgica sejam mais cautelosas e, por isso, seu interesse por alimentos sólidos pode acontecer mais tarde.

Para concluir, buscamos entender melhor por que cresce o número de bebês e crianças que sofrem com a doença chamada de obesidade, e porque ela vem aumentando, tanto nos países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão, quanto naqueles em desenvolvimento como Brasil, onde a obesidade coexiste com a desnutrição infantil. Na infância, os fatores prevalentes para a obesidade são: hábitos alimentares ricos em gorduras e calorias e pobres em fibras, aliado a hábitos sedentários como assistir televisão por muitas horas e jogar vídeo game. O desmame precoce e o consequente emprego de fórmulas lácteas de modo inadequado contribuem para aumento da enfermidade. Outros fatores estariam relacionados ao ambiente familiar, já que filhos de pais obesos têm maiores chances de se tornarem crianças com obesidade.

Os hábitos, comportamentos, os modelos de famílias etc. mudam permanentemente e, com eles, o padrão alimentar também se modifica. As industrias alimentícias passaram a investir num novo perfil familiar que precisaria simplificar as tarefas domésticas, aumentando a praticidade e a comodidade, alem de reduzir o tempo. Esses são os principais argumentos utilizados pelas industrias de alimentos para seduzir os responsáveis e suas crianças no afã de mudarem seus hábitos de consumo, à despeito dos critérios exigidos para uma boa saúde alimentar.

As famílias precisam saber que as crianças que precisam de acompanhamento para tratamento de obesidade não obterão resultados satisfatórios sem a adesão e o apoio de seus pais, com a indicação de que todos da família sigam as orientações. A escola também tem papel fundamental ao valorizar as atividades físicas e uma boa nutrição.

Comer é um ato social que pode envolver vários significados, como: carinho, amor, afeto, recompensa, poder etc. e com isso, muitas vezes uma ida á uma lanchonete de fast food pode simbolizar amor, carinho, recompensa para os adultos, mesmo que a saúde das crianças esteja sendo firmemente comprometida. Portanto, somos nós, adultos, os responsáveis pela boa nutrição e saúde de nossas crianças, não podemos nos omitir nem negligenciar. Isso também é amor.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme (Papo de pracinha) e Luciana d’Abreu Sarmento (nutricionista).

Madrasta: mãe 2 ou namorada do papai?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Manu e Duda são primas, frequentam a mesma escola, têm sete e cinco anos, respectivamente. Elas usam a mesma condução escolar e, nesse dia, Duda estava especialmente feliz. Contou sua novidade para a prima Manu: hoje eu não vou na condução. A namorada do meu pai vem me buscar e nós vamos ao cinema.   Manu, mais velha e em tom quase professoral disse: ela é a sua madrasta, não é a namorada do seu pai. Madrasta é a mulher nova do pai da gente, ma-dras-ta! Duda reclamou: não isso ela não é. Ela namora o meu pai. E, em seguida, começou a chorar.

Qualquer voz adulta, “com força de ponto final”, que desejasse dar um fim ao impasse, seria limitadora no caminho de conhecer como cada uma delas pensa sobre isso, e sobre as diferentes ordenações do mundo adulto. Elas têm o que dizer e precisam ter valorizadas as suas opiniões para sentirem-se seguras, para revelarem-se como crianças e como pessoas que têm formas próprias de ser/estar no mundo, além de serem sujeitos produtores de cultura.

Portanto, não há uma forma mais correta ou mais adequada para se nomear essa mulher que se une a um homem que tem filhos, se é madrasta, ou namorada do pai. É verdade, quando a mãe tem um namorado, e as crianças um padrasto, que seja comum emergirem preconceitos, no entanto, eles parecem ser menores do que quando um homem surge com uma nova namorada. Parece, sem que se diga por isso que a vida do padrasto seja facilitada. No caso da madrasta, sem buscar hierarquizar essa variedade de nomes no sentido de legitimar mais ou menos essas novas relações, não se pode negar o direito de cada pai e de cada mãe de querer apresentar e/ou introduzir uma pessoa nova na vida dos filhos do seu jeito, da sua maneira, embora em nenhum dos casos seja fácil. Vários aspectos intervenientes fazem parte desse processo: a qualidade da relação entre pais e mães, depois de separados; a segurança, maior ou menor, de cada criança em relação ao seus lugares como filho/a; a quantidade e a qualidade de tempo que esses adultos disponibilizam para seus filhos; uma relação respeitosa dos adultos para com seus filhos no sentido de não criticar nem culpar o outro conjugue de qualquer coisa (alienação parental) ; espaço físico organizado, na nova casa de ambos, concretizando a vontade e a importância de ter os filhos próximos, para sempre, a despeito de quem seja a nova companheira ou companheiro de cada um. E muito mais.

A figura da madrasta, na vida de todos, expressa o peso dado a ela pela cultura, ainda hoje. No caso de mulheres com filhos, quando ela deseja refazer sua vida com outro homem, diz-se que ela teve “a sorte de arranjar” (sic) um novo companheiro que poderá vir a ser seu namorado, o namorido, o marido e, quem sabe, um padrasto para seus filhos. Há mulheres com filhos que escolheram não morar na mesma casa com seu novo amor, embora seus filhos o conheçam, gostem de estar juntos, se respeitem e se amem, de verdade. Mas o pai tem o seu lugar garantido, é amado pelos filhos e mantem encontros regulares com eles. Há um pai, sempre. Embora não seja simples, mães e pais podem redesenhar a suas vidas

No caso do pai, dos homens separados que têm filhos, embora esses modelos venham se transformando, a sociedade ainda lhes atribui “um certo bônus” que se expressa numa liberdade consentida maior, ou mais direitos implícitos no que se refere as possibilidades de namoros, de experiências amorosas sem que sejam julgados como são as mulheres. Não por acaso, as madrastas entraram para a história com um peso simbólico bem pesado, mais difícil e muito mais complexo que o dos padrastos. Haja vista a criação do termo “boadrasta”, que eventualmente é usado para quebrar com o instituído culturalmente.

A espaço da madrasta na história se justificou como uma atribuição diferenciada e até mesmo impossível_ a de ocupar o lugar da mãe ausente, em geral, por sua morte. Nesses casos, o homem viúvo poderia voltar a se casar e…. o resto dessa história todo mundo já sabe. Quem não conhece a família Von Trapp que inspirou o filme A Noviça Rebelde? Quem nunca ouviu suas músicas? “The Hills are Alive”, “My Favorite Things”, “Do Re Mi Fa”, “So Long Farewell” e “Edelweiss”? Filme imperdível!

Para concluir, vale dar uma olhada nas histórias clássicas como Cinderela, Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela e Rapunzel, só para começar. Em todas elas a madrasta é a antagonista e atua como uma mulher poderosa, má, fria, competitiva, invejosa, ciumenta, cruel e ardilosa que deseja sempre prejudicar as suas enteadas. Lady Tremaine não suporta que a beleza de Cinderela seja maior que a de suas filhas. A Rainha Má, teve ciúme e inveja doentias de Branca de Neve e os 7 anos, por não admitir que existisse no mundo ninguém mais bela do que ela. A pobre Rapunzel foi sequestrada ainda bebê por sua madrasta Gothel que a escondeu numa torre alta, trancada. Tem ainda a madrasta da história de João e Maria, e tantas outras.

Não faltam histórias encantadas e também, casos reais sobre competição entre madrastas – crianças e jovens, maus–tratos por parte de madrastas e, quanto mais recuarmos no tempo, mais eles aparecerão. Por que será?

Bem, as histórias que se centram nessa tensão entre madrasta e filhos surgiram no sec. XIX quando recaía sobre a mulher-mãe um endeusamento por ela gerar vida em sua barriga, poder alimentar e, garantir a sobrevivência, segurança, bem-estar de sua criança. Nesse lugar, a figura materna foi coroada como de mulheres dadivosas, voltadas para a vida dos filhos, sempre boas, sem defeitos, capazes de amar seus filhos sob quaisquer condições e, assim, insubstituíveis. E são. Mas no passado, qualquer mulher que ousasse ocupar o lugar de madrasta só poderia fazê-lo diante da morte da mãe e, por isso mesmo, essa pessoa “naturalmente” já entraria na vida das crianças com uma desvalia, incapacitada de chegar aos pés das mães “biológicas” sobrando para elas, então, os piores adjetivos e sentimentos como pessoas más, ardilosas, que buscavam ocupar esse lugar irrecuperável e “inocupável”.

Hoje, e pelo menos desde a lei do divórcio no Brasil, as famílias podem se reconfigurar, se redesenhar e se legitimar, sempre, desde que mantenham laços de amor e de compromissos mútuos para com suas crianças. Já podemos enxergar a existência de mães mais ou menos boas, de pais mais ou menos bons, madrastas e padrastos também, como seres humanos que são.

Assim, podemos entender sem criticar, ouvir e respeitar o que dizem a Manu e a Duda, sobre as tensões que expõem na busca por legitimar, pertencer e entender as relações amorosas de seus pais e mães.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Adoção: uma escolha, um ato de amor

Solange Diuana (*)

Não são poucas as dúvidas, os mitos e as lendas que envolvem a adoção de crianças. Há pais que têm filhos biológicos mas pensam em adotar e há, também, os que adotam por não ser possível ter filhos biológicos. Em todos os casos, ter ou não filhos é uma decisão difícil e definitiva já que filhos são para sempre. Para facilitar a vida de quem vê a adoção como uma possibilidade e, também para comemorar o Dia Nacional da Adoção, em 25 de maio, disponibilizamos aqui informações e dicas sobre o percurso necessário para concretizar o seu sonho e o de tantas crianças, respeitando a lei.

A Lei que rege a adoção é o Estatuto da Criança e do Adolescente, também chamado de ECA, de 1990. Consta no ECA que a adoção atribui a condição de filho ao adotado, desligando-o de qualquer vínculo com pais e parentes biológicos. Assim, para que uma criança seja adotada é necessário que ela esteja destituída do poder familiar. Negligência, abandono, violência, abuso, entre outros são motivos que podem levar os pais a perder o poder familiar dos seus filhos.

A adoção é um processo legal que envolve várias etapas, todas com o objetivo de assegurar que a filiação adotiva vá se construir de forma positiva e representar reais vantagens para a criança. Se você deseja adotar uma criança, o primeiro passo é ir à Vara da Infância e da Juventude mais próxima à sua residência para obter as informações necessárias.

Primeiramente, será aberto um processo de habilitação para adoção, mediante a apresentação de documentos, como comprovantes de residência e de renda, atestado de sanidade física e mental, certidões negativas cíveis e criminais, e, se for o caso, certidão de casamento ou de união estável. Na 1ª Vara da Infância da Capital do Rio de Janeiro há Reuniões Informativas, duas vezes por mês, onde as pessoas tomam conhecimento sobre o fluxograma do trâmite jurídico do processo, e muito mais. Nesses encontros há espaço para debates, discussão sobre vídeos, encontros de histórias, conversas abertas sobre quem são as crianças a serem adotadas etc. Quem coordena essas reuniões são uma assistente social e uma psicóloga e, nessa ocasião, também, são disponibilizados: a listagem dos documentos e os endereços onde poderão ser tiradas as certidões. Há, ainda, uma exigência de participação em, pelo menos, quatro reuniões do Grupo de Apoio à Adoção e, assim, o controle quanto à essa participação precisa ficar registrado em um formulário. Depois de aberto o processo, os requerentes serão entrevistados por psicólogo e assistente social.

Atualmente existem aproximadamente 130 grupos de Apoio à Adoção espalhados pelo Brasil. Esses grupos são espaços criados para que pais e candidatos a pais possam trocar experiências, refletir sobre a filiação adotiva de forma a dirimir dúvidas e minimizar ansiedades comuns às pessoas que estão iniciando o processo de adoção, ou que já tenham adotado. Também são espaços de reivindicação e de conquistas para tornar a adoção mais célere e com mais direitos para todos os envolvidos, principalmente as crianças.

A adoção, portanto, é um encontro de crianças que precisam de uma família e de pais que desejam um filho. Esse encontro é a história a partir da qual ambos, pais e filhos, poderão construir fortes vínculos afetivos e reinventar novos modos de vida.

Pode se candidatar à adoção qualquer pessoa maior de idade, independente do estado civil ou da crença religiosa, que deseje transformar uma criança não gerada em filho. Essa pessoa pode ser casada, solteira, divorciada e tem que ser pelo menos 16 anos mais velha que o adotado. Atualmente os casais homoafetivos podem adotar conjuntamente.

Não se pode negar que a entrada de uma nova criança em qualquer família promova desorganizações e necessidade de adaptação de todos os seus membros. A vida passa a girar em torno da “sua majestade o bebê” que ocupa os espaços e os horários de todos. A construção da filiação, biológica ou adotiva, é complexa e nos remete às nossas famílias de origem e ao modo como fomos amados, respeitados e educados. As famílias vão, via de regra, lidar com dificuldades de diferentes ordens até que seus filhos se tornem autônomos, mas o fato de ele ser adotivo por si só não representa a existência de dificuldades a mais. É uma filiação que se inicia de forma diferente, mas não é pior, nem melhor.

A maioria das pessoas busca adotar quando se depara com a impossibilidade de gerar um filho, mas existem àqueles que têm filhos biológicos e querem aumentar a família, ou ter um filho de uma nova relação conjugal. O fato de ter filhos biológicos e adotivos na mesma família por si só não é indicativo de maiores conflitos familiares. O importante é a forma como cada família lida com as diferenças.

É fundamental que as famílias e os filhos adotivos tenham maturidade para lidar com as histórias de origem das crianças, com suas duas famílias e com essas duas realidades distintas, que não podem ser negadas.

Para alcançar mais pessoas, e para desmistificar um pouco adoção, foi criada uma série televisiva, semanal, no GNT onde são exibidas histórias de adoção reais e concretas e que, nem por isso, perdem a magia da chegada de um novo filho, numa família. Assim, a série Histórias de Adoção, do GNT, foi inspirada no livro “Histórias de Adoção: As Mães”, de Ana Amélia Macedo e Solange Diuana. A maioria das famílias que convidamos para participar do programa aceitou o nosso convite, embora algumas, por diferentes motivos, não aceitaram dar o seu depoimento. Muitas famílias estão assistindo aos programas com os seus filhos e costumam dizer que essa é uma excelente oportunidade para, através das histórias reais ali apresentadas, conversar abertamente sobre adoção, sobre a forma como o filho chegou à família e sobretudo, sobre esse amor que se constrói e se fortalece no dia-a-dia.

(*) Solange Diuana é psicóloga e coordenadora do Café com Adoção, da 1ª Vara da Infância, RJ

“Corpinho sim, cabecinha não”: a hora do banho

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Crianças têm sentimentos diferentes em relação ao banho. Em sua maioria, quando já brincam com mais autonomia, não gostam de parar o que estão fazendo para tomar banho. No entanto, depois de iniciado, o banho proporciona tanto prazer e conforto que elas não querem sair dele. Brigam para entrar e, da mesma forma, brigam para sair do banho.

Há as que só tomam banho frio, as que gostam de água bem quentinha, as que gostam de tentar segurar o sabonete que sempre escorrega etc. Há, ainda, os que adoram piscina e os que preferem praia. Tem também a turma do chuveiro e a da banheira. Há os que tem pavor de mar, de chuveiro e de piscina. A água forte que cai do chuveiro direto na cabeça da criança pode ser assustadora, além do sabão ou xampu nos cabelos que podem incomodar aos olhos, mesmo quando não ardem. Pedro, dos dois aos quatro anos, ao ser chamado para tomar banho anunciava logo: corpinho sim, cabecinha não, resistindo sempre.

Respeitados os hábitos e as preferências de cada uma delas, sempre que possível, podemos dizer que em todas as idades, os banhos refrescam, higienizam e relaxam. Há muitas crianças que dormem logo depois do banho, muitas vezes sobre a toalha, antes mesmo de estarem totalmente vestidas.

O que nem sempre passa pela cabeça dos adultos, em casa e nas instituições de educação infantil, é que a hora do banho quase sempre representa um dos poucos momentos, as vezes o único, em que um adulto e uma criança se aproximam, se encontram, se entreolham e conversam. No lugar da correria do dia-a-dia naturalmente, a hora do banho se configura como um cenário propício para conversas descontraídas, para brincadeiras e para contato. Sim, para contato físico. Então, pense conosco por um minuto: como é a hora do banho na sua casa?

Pois é, nas creches e nas escolas o banho nem sempre pode ser demorado. A maioria das atividades são coletivas e o banho precisa ser ágil, o que faz com que muitas vezes aconteça como se fora uma linha de produção industrial, para dar tempo de atender a todas as crianças. A higiene pode até ficar atendida, mas não costuma haver tempo para brincadeiras nem entre as crianças, nem delas com os adultos. Para que a brincadeira, o toque e o contato físico sejam priorizados, a rotina escolar precisa ser repensada para que o banho tenha maior qualidade relacional, contato mais próximo entre o adulto e a criança.

Todos nós adultos, precisamos também estar atentos para não deixar haver desperdício de água potável, além de ser preciso ensinar as crianças a economizá-la. Sem esquecer, ainda, que a hora do banho, que envolve água em pisos lisos (em geral) formam uma dupla imbatível para acidentes graves! Assim, todo cuidado é pouco, mesmo quando existe tempo para brincadeiras!

Então, afinal, o que queremos defender? Aquele banho que promove experiências e sensações. Por exemplo, no caso dos bebês, vale ter tempo para passar a mão e massagear todo o seu corpo, usar uma esponja bem suave, lavar sua cabeça com massagem no couro cabeludo para que ele se sinta confortável e amado. Os adultos precisam, sempre, respeitar o corpo da criança, ouvir e atender às suas preferências, dialogando com ela enquanto vai anunciando o que vai fazer.

Quando já ficam de pé, seja de chuveiro ou de banheira, a higiene pode ser acompanhada de brincadeira e alegria. Há brinquedos que podem ser molhados, lavados, há os que boiam, os que afundam. Há canetinhas coloridas que podem ser usadas para desenhar em azulejos e em plástico, podendo ser limpos com facilidade depois. Nada melhor, também, que uma bacia bem larga, com pouca água que possa ser usada para manter a criança sentada enquanto brinca com certos objetos, com bonecas e com a própria água. Bacias largas não devem ser substituídas por baldes! Cuidado, crianças podem se afogar em baldes com bem pouca agua se ali caírem, de cabeça, e não conseguirem sair rapidamente. Muito cuidado!

Nas creches e escolas, as crianças podem fazer uma farra tomando banho de mangueira em grupo, podem ir ao chuveiro aos pares e em trios, mas sabemos que o banho mais demorado e com contato apurado com o adulto deve ser função dos pais e mães. Em tese, não deve ser papel das creches e escolas cortar as unhas das crianças, nem usar cotonetes em seus ouvidos, por exemplo, mesmo cientes de que muitas crianças só tomam banho fora de casa já que chegam em casa com muito sono, quase na hora de dormir, e assim ficam sem essas e outras vivências preciosas para suas vidas. Em alguns casos é necessário que seja assim e não podemos julgar seus pais por isso.

Mas podemos tentar explicar, aqui, porque é impossível que as crianças saiam impecáveis das creches e das escolas, mesmo depois de terem tomado banho e se alimentado. Não se pode, nem é desejável que as crianças parem de brincar para ir para casa como se fossem para uma festa. Depois do banho, não há como pendurá-las num cabide até a hora de ir para casa. Na verdade, as atividades ao final de cada período costumam ser mais lentas, mas não podem impedir que as crianças interajam umas com as outras, nem com o ambiente, e que assim voltem a se sujar, claro.

O importante é que, sempre que possível, ao chegar em casa as crianças possam tomar um banho com a ajuda do papai ou da mamãe, que sentem à mesa junto com seus pais mesmo que já tenham jantado para perceber que as casas e a instituições que frequentam são espaços diferentes, com suas regras próprias desde que em ambas exista prazer, segurança, atenção e amor para elas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Sobre crianças e adultos: ódio e intolerância

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Um menino de cinco anos deu um chute em uma menina de apenas um ano, numa praça carioca. Embora exista uma boa diferença de idade entre eles, o fato isolado poderia até ser relativizado, entendido como coisa de criança, pelas outras mães e babás que frequentam habitualmente essa pracinha. No entanto, duas outras atitudes assustaram muitos os adultos: a frase dita pela criança maior – detesto criança pequena, elas enchem o saco; e a atitude da mãe desse menino de cinco anos, que assistiu a tudo sem nada dizer, expressando até certa concordância com o que fez e disse seu filho. Não tomar atitude é, em si, uma postura de omissão que pode ser grave. E uma pessoa disse, sem titubear: se precisar vamos chamar a polícia para essa mãe e para esse menino! Uma outra mulher de uns 30 anos, concluiu: já avisei para o meu patrão. Se esse menino tocar na nossa menina vamos todos para a delegacia porque vou partir para cima do filho e da mãe dele.

Em uma outra praça próxima, há apenas alguns balanços para as crianças usarem. As crianças vão se revezando nesses balanços, sempre sob a mediação dos adultos. Muitas reagem, choram mas há adultos que entendem a importância desse revezamento. Até que uma mãe, sentada em um dos balanços, com seu bebê de aproximadamente um ano no colo avisa: pode fazer fila, chorar e espernear. Pode chamar a polícia para me tirar daqui. Eu fico esperando horas para sentar aqui com meu filho e hoje vou ficar até eu cansar, até eu encher o saco de vocês, para vocês verem como é bom ficar aí parado, esperando. Criança grande vai jogar bola, vai brincar do que quiser, de outras coisas. Desiste porque vocês não são os donos dessa praça!

Teríamos aqui inúmeros casos para relatar o que se configura como falta de educação, desequilíbrio emocional e omissão/negligência de adultos em relação às suas crianças. Mas vale lembrar que para esses dois casos, em tempos e espaços diferentes, houve reação. E nos dois casos a polícia foi citada como capaz de equacionar o conflito, amenizar as tensões. Assustador!

Ficamos nos perguntando quais devem ser os limites de compreensão dos adultos em relação às habituais e históricas brigas de crianças, por acreditar que existam intervenções necessárias ao embate em si, à educação da sua criança e das outras, envolvidas no impasse, além das do entorno que ali estão, assistindo sem serem chamadas a opinar.

Como agir ao ver uma criança que mal anda receber um chute de uma criança de cinco anos, que corre livremente pela praça gritando “detestar crianças pequenas”. Claro, impossível analisar o chute sem o peso do termo “detestar”. O que faz uma criança manifestar que detesta outras crianças? O que ela entende por “detestar”? E sua mãe, não repercute internamente essa cena com preocupação, susto e até com tristeza ao ouvir a tal frase do seu filho? É preciso declarar, aqui, que não sabemos como é a vida dessa criança, como funciona a sua família, nem quais são as bases da sua educação. Pode-se dizer que, embora seja desconhecido o cenário global da vida dessa família, que entre mãe e filho não exista compromisso ético, afetivo, nem parceria respeitosa. Onde está presente o adulto, responsável, que tem deveres em relação às suas crianças? Essa relação de responsabilidade para com os filhos ultrapassa qualquer tipo de conforto material que possa ser oferecido a elas. Estamos falando aqui daquele patrimônio imaterial chamado de educação. Educar é difícil, trabalhoso, além de ser um processo relacional. Ou seja, exige interação de diferentes ordens: de adultos com crianças, entre as próprias crianças etc. E, para haver relação, é preciso que se estabeleça visibilidade e respeito ao outro, cada um nos seus diferentes lugares sociais. Além de ser possível ver e respeitar os seus pares, seus próximos, mas, em especial, os seus ímpares, os que são e pensam diferente.

Diante da omissão de certos adultos e, ainda, como parte do cenário político e social atual em que punir se confunde com educar, são os adultos que nos dois casos ameaçam chamar a polícia, para resolver o que são incapazes de fazer. Esses não são casos de polícia.

A mãe sentada no balanço com sua criança, ao avisar que não vai sair de jeito algum, volta a ser punitiva em relação às outras crianças. Ou seja, se foi muito ruim para ela, adulta, esperar pelo balanço para seu bebê, ela devolve com intolerância e grosseria a sua raiva, mostrando-se incapaz de distrair a sua criança até o balanço vagar. E nem estamos discutindo aqui se o balanço deveria ser usado por adultos, numa pracinha para crianças. Essa mãe também fala da polícia, se mostrando mais poderosa que a própria, enquanto ensina às crianças que esperam pelo brinquedo que façam o que ela não soube fazer com seu bebê – buscar outra diversão para tornar a espera mais suave, suportável.

Estamos diante de casos em que a falta de educação, a omissão, a raiva, a vingança, a insegurança e a prepotência se mostram presentes na vida desses adultos demonstrando o tamanho do desafio que eles e todos nós temos e teremos para educar essas e outras crianças.

E pior, até agora não pensamos nessas crianças como sujeitos que têm o que dizer, sobre como entendem a figura de seus pais, dos adultos em geral, da polícia, sobre os cuidados necessários para com outras crianças, menores e maiores, também com adultos, com idosos, com todos os outros. Nem sobre como entendem esse espaço chamado de ‘pracinha’.

Podemos dizer que a figura simbólica da polícia, por exemplo, que supostamente deveria estar relacionada à ordem social necessária para a vida, não é assim entendida por todas as crianças. Muitas delas sentem que a polícia, muitas vezes, é quem traz a desordem, e já sabem, aos cinco anos, que a polícia chega sempre dando tiros, que crianças morrem de balas perdidas, além de outras informações mentirosas, ensinadas pelos adultos, diante de sua incapacidade para educá-las: que a polícia vem e prende as crianças que saem de perto dos seus pais nos shoppings, que a polícia segura a criança e corta o cabelo daquelas que choram para serem penteadas, por exemplo, dentre outras coisas ainda piores. E, sempre que os adultos colocam a figura da polícia na relação com as crianças eles declararam sua incapacidade para gerenciar e educar os próprios filhos.

Crianças precisam de amor, de segurança, de firmeza, de conversa e de acompanhamento permanente de adultos comprometidos com seus direitos e deveres; também que sejam pessoas equilibradas, felizes, que sejam capazes de lhes ensinar a brincar, a rir, a respeitarem-se e também aos outros. Elas não precisam de polícia, mas de adultos inteiros, presentes, amorosos e firmes. A pracinha precisa ser gerenciada por quem ali convive, com generosidade, respeitos e muitas vezes com firmeza, não pela polícia.

Para concluir, lembramos que as construções sociais se dão na convivência, na efervescência da vida social. Assim, nunca somos vítimas apenas dos contextos desastrosos que se configuram e que parecem se impor, como se estivéssemos fora deles. Isso exige pensar no tamanho do desafio de educar para uma vida melhor para todos, para tempos melhores, para a gratidão, o amor e pelo fim dos preconceitos, das injustiças, dos extremismos, do ódio e da intolerância, de toda a ordem.

(*) Autores: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme