A entrada das crianças na creche ou na pré-escola: quem se adapta a quem? [repost]

1444722355_88Nossa conversa de hoje é sobre a entrada das crianças, pela primeira vez, numa instituição de Educação Infantil, processo bastante delicado e que geralmente coincide com esse momento que estamos vivendo: o início do calendário escolar.

Essa experiência é vivida pelas famílias de diferentes formas e geralmente envolve uma mistura de sentimentos que podem incluir: expectativa, alegria, preocupação, ansiedade, medo, culpa etc. Muitas perguntas e dúvidas surgem, já na escolha da unidade e, principalmente, durante o processo de entrada, trazendo muitos filtros para o olhar dos pais sobre esse novo espaço: como os adultos cuidarão do meu filho ou da minha filha? Atenderão às suas necessidades? Lhe darão afeto e carinho? O espaço é seguro? Meu filho conseguirá ficar longe de nós? Chorará muito? A alimentação é bem cuidada? Comerá bem? Pegará muitas viroses? O que as crianças fazem nesse espaço?

Essa última pergunta, que muitas vezes ocupa um lugar menos importante diante das demais preocupações mencionadas acima – relacionadas a questões de segurança, alimentação, bem-estar e afeto – é de extrema importância, até mesmo para a garantia desses aspectos e, também, para esse momento da entrada da criança numa unidade de Educação Infantil. O que elas fazem nesse espaço pode atraí-las e convidá-las a ali permanecer, ou não! Organizar, dinamizar e acompanhar o que a criança faz numa unidade de Educação Infantil é uma responsabilidade que se situa do campo específico da Educação. Nesse sentido, chamamos a atenção para o papel fundamental do professor na organização do cotidiano das crianças e na condução da dinâmica desse  encontro entre as crianças e destas com os adultos, os espaços e os objetos. Obviamente que isso se faz em parceria com os demais profissionais que fazem parte da equipe, lembrando que porteiro, equipe da cozinha e da limpeza, pessoal da administração, especialistas de diversas áreas e auxiliares são todos educadores.

Não é difícil dimensionar a importância do momento da entrada de um(a) filho(a) numa Creche ou Pré-Escola, geralmente chamado de adaptação, para as crianças e também para as suas famílias: as crianças estarão entrando em um mundo onde tudo é novo e que constituirá o início de sua experiência escolar; estará uma parte do seu dia (muitas vezes a maior parte) num espaço diferente da sua casa, das suas referências, interagindo com outros adultos, outras crianças, objetos e espaços; viverá provavelmente a sua primeira experiência coletiva fora da família, compartilhando um espaço regulado por regras próprias e onde criará novos vínculos com adultos e crianças. Os pais, por sua vez, estarão passando para terceiros os cuidados e  a educação de sua criança e precisarão construir uma relação de confiança com  a equipe e a proposta da unidade que escolheram. Isso não é pouca coisa!

Será que adaptação é a melhor palavra para nomear esse momento? Vamos pensar: adaptação é um termo associado a uma ideia de passividade, de conformidade a um contexto pré-estabelecido. Na verdade, o termo é coerente com muitas práticas e concepções na Educação Infantil, nas quais as crianças precisam se adequar ao que está posto, não tendo a sua singularidade e modos próprios de ser, agir e sentir contemplados no processo de entrada na creche ou pré-escola. Já temos hoje algumas experiências na Educação Infantil que nomeiam esse  processo de outras formas, tais como acolhimento, ambientação ou inserção, enfatizando um movimento de receber a criança, de preparar a sua entrada, de incluí-la com sua presença ativa e singular naquele espaço. É importante lembrar também que a entrada de novas crianças também provoca alterações no espaço, nos adultos e nas relações entre as crianças.

Como esse momento é planejado pelas instituições? Algumas organizam pequenos grupos em períodos que aumentam progressivamente e que variam de acordo com a faixa etária: quanto menor a criança menos tempo ficam inicialmente: geralmente 1 hora no primeiro dia, aumentando o tempo a cada dia até completar o período em que a criança ficará na unidade. Isso se justifica por se  entender que as crianças precisam lidar com muitas informações novas desse novo espaço e que é preciso não sobrecarregá-las, fazendo com que fiquem tempo suficiente para quererem voltar no outro dia. Algumas unidades incluem os pais no mesmo espaço que as crianças, em um período de tempo que varia entre uma a duas semanas, planejando com estes o seu afastamento, à medida que sentem que a criança pode ficar sozinha junto ao seu grupo. Neste caso, geralmente os pais ainda permanecem na escola durante um tempo, de modo que possam ser acessados sempre que a criança solicitar, até que possam sair quando a criança se sente segura de ficar sem eles. Isso facilita a construção de uma relação de confiança e de segurança nesse novo espaço, tanto para as crianças como para suas famílias. Outras preferem que os pais fiquem desde o início em um espaço diferente daquele em que a criança ficará, permitindo apenas que fiquem na escola. Sabemos, portanto, que existem diversas formas de receber as novas crianças e suas famílias nas unidades de Educação Infantil, mas uma coisa é certa: é fundamental haver um planejamento e um respeito e cuidado para que esse momento seja o mais tranquilo possível para a criança, suas famílias e a instituição.

É comum o foco do processo de acolhimento se voltar prioritariamente para a criação de vínculos afetivos entre a criança e um adulto, esquecendo-se de valorizar outros aspectos que também são fundamentais para a ambientação da criança. Esta é um sujeito competente, que não está presente apenas para receber o que lhe oferecem, mas está ali ativamente estabelecendo relações com esse novo espaço, interagindo com os objetos, pessoas e experiências que ali vive. É claro que os vínculos com os adultos (o professor e os demais profissionais que compõem a equipe) são fundamentais, pois é imprescindível que estes se coloquem próximos às crianças, com atitude de empatia e de escuta para com elas, apoiando-as a ingressar nesse novo ambiente! Mas os vínculos adulto-criança não podem ser o único foco desse processo, é necessário valorizar outros aspectos. Vejamos alguns deles:

  • As interações entre as crianças: estas concorrem para o desenvolvimento e bem-estar delas e para a sua motivação em estar nesse espaço e fazer parte desse grupo.
  • A organização do espaço: deve favorecer as interações, a brincadeira e a autonomia das crianças, contendo mobiliário, objetos e brinquedos interessantes que convidem as crianças a manipulá-los e a fazer suas descobertas, bem como propostas de atividades que promovam o desenvolvimento da criança em suas diferentes dimensões; o espaço deve ser seguro e atraente permitindo que as crianças reconheçam nele as possibilidades de explorar e brincar.
  • Sistema de referência: o adulto é uma referência para a criança, mas faz parte de um sistema de referência organizado com muito cuidado, que inclui os espaços, os tempos, os objetos e a presença dos professores e demais profissionais.
  • O educador desempenha a função de apoiar, facilitar e ampliar as relações entre a criança e o ambiente, a partir de um senso de responsabilidade e respeito por ela.
  • Relação de confiança e aliança entre a equipe e os pais: a educação e o cuidado da criança serão compartilhados pela família e pela instituição, principalmente pelos professores responsáveis pelos grupos, por isso, é imprescindível a escuta mútua.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

A difícil escolha da creche [repost]

1444722355_88O bebê nasceu, já passou o momento mais difícil dos primeiros meses, o encantamento dos pais cresce a cada dia, mas cresce também a preocupação com o que está por vir. A licença-maternidade vai acabar, logo logo a mãe estará trabalhando. O pai nem teve licença, só uma semaninha quando o bebê nasceu! O que fazer? Creche ou babá? Deixar com a vovó? Do que meu bebê precisa para se sentir bem, feliz e se desenvolver plenamente?

A decisão pela creche, em maior ou menor grau, vem sempre carregada de sofrimento e insegurança. Afinal, é a primeira separação mãe-bebê após os nove meses de gestação e os primeiros meses de intensos cuidados! Mas vamos lembrar que também é um momento importante e necessário para a mãe, de retomada de suas atividades produtivas (para além de cuidar do seu bebê), e para a criança pode significar uma oportunidade de ampliar seus horizontes, já que passará a interagir com outras crianças e adultos, explorar outros espaços e objetos, e participar de atividades variadas.

Mas como escolher a creche? Qual a melhor? Qual o custo? Poderei pagar? Período parcial ou integral? Perto de casa ou perto do trabalho da mãe ou do pai?

Muitas famílias já fazem essa escolha no período da gestação. Hoje, conseguir uma vaga não é tão simples, é preciso que a reserva seja feita com antecedência. É assim que funciona nas creches privadas. Nas públicas, a questão é ainda mais complicada, já que a oferta de creches é muito pequena diante da demanda existente. A inscrição é feita em uma das creches da rede e depois é preciso sorte, uma vez que as vagas são preenchidas por meio de sorteio.

Visitar creches para observar o espaço e conversar sobre a proposta é um caminho fundamental para se fazer uma boa escolha. Mas o que observar? Para responder a essa questão, é preciso primeiro responder a outra: o que estamos buscando para o nosso(a) filho (a)?

A escolha de uma creche, onde a criança ficará grande parte do dia convivendo com outras crianças e adultos, e aprendendo com estes sobre o mundo em que vive, não é algo simples. Envolve valores, ideais e as referências que temos das nossas experiências pessoais relacionadas à escola. Sem falar nos sentimentos de ansiedade, medo e insegurança já mencionados acima.

O que queremos para os nossos filhos? Como queremos vê-los crescer? Como desejamos que eles vivam a sua infância? Que relações queremos que eles tenham com a escola, com as pessoas, com a vida? O que significa para nós uma creche: um espaço que oferece os cuidados básicos necessários à saúde e à segurança das crianças ou, muito além disso, um lugar em que a criança possa se desenvolver de forma integral e viver plenamente a experiência de ser criança?

Há muitos pais que já se preocupam desde aí com a escolarização da criança. É de assustar, mas há pais que já escolhem a creche pensando na preparação da criança para a alfabetização, e até mesmo para o vestibular e para o mercado de trabalho. Já viram propagandas de instituições de educação infantil com os dizeres: daqui sairão engenheiros, advogados, médicos… estampando imagens de crianças com diplomas nas mãos? E não faltam espaços de educação infantil que enchem as crianças, desde pequenas, com exercícios de cobrir letras e numerais, colorir figuras, entre outras atividades que não fazem nenhum sentido para elas.

O que devemos observar, perguntar, numa visita a uma creche? Dependendo da forma como respondemos a essas questões – filosóficas – criamos as lentes que irão nos ajudar na nossa escolha. De diferentes formas, essas questões se materializam em aspectos mais concretos do cotidiano desses espaços.

Uma primeira e grande preocupação que a maioria das mães têm se refere aos cuidados: a creche é limpa? Arejada? Bem iluminada? Existem adultos competentes e em número suficiente para cuidar do bebê? Ele terá atenção individualizada? Como será o sono, a alimentação e o banho? O espaço é seguro? etc. etc. etc. Alguns pais limitam suas preocupações a esses aspectos, que costumam ser chamados de “cuidados” – e que não significam pouca coisa! Mas os cuidados não se separam de um modo de educar, de compreender a criança. Não basta a creche ser limpa, ter local adequado para o banho, ter uma alimentação planejada por nutricionistas competentes, entre outros aspectos. É importante conhecer a forma como os adultos interagem com a criança no banho, nas refeições, no sono e nas demais atividades que ocorrem na creche. Essas atividades ocorrem de forma burocrática, como uma linha de montagem, ou são realizadas como atividade educativa, de forma acolhedora e afetuosa, respeitando a singularidade das crianças, ou seja, levando em conta suas preferências e particularidades? Como é a rotina da creche?

É preciso lembrar também que as crianças não são só um corpo que necessita de cuidados. São sujeitos que estão se conhecendo e conhecendo o mundo, são curiosas, precisam de oportunidades de observar, refletir, descobrir …. E aí, outras tantas perguntas fervilham: Como meu bebê será tratado? Será respeitado nas suas escolhas e no seu modo de ser? Terá autonomia e liberdade para brincar e se expressar em diferentes linguagens, descobrir o mundo com alegria e respeito ao outro? Terá oportunidades de explorar a natureza? Terá espaço para ser criança?

A criança precisa estar inteira nas instituições de educação infantil, o que significa estar ali, de corpo presente, com toda a sua vitalidade, curiosidade, movimentos espontâneos e brincadeiras, nos corredores, nas salas, nos parquinhos etc.. É a criança, com suas particularidades, que precisamos enxergar nas produções expostas nos murais (e não um conjunto de trabalhinhos formatados e iguais), e também no tipo de atividades propostas, no mobiliário e na estética do espaço. Enxergar verdadeiramente a criança é muito diferente de olhá-la como um projeto de adulto, que precisa ser preparado para se tornar racional e competente, como muitas creches e pré-escolas fazem. É preciso enxergar a potência da criança e sua diferença radical em relação ao adulto, levando em conta a sua lógica própria, os seus modos peculiares de pensar, ser e agir no mundo.

É preciso, principalmente, reconhecer a brincadeira como aquilo de mais sério que a criança faz! Adentrar o espaço da creche e ver crianças brincando felizes já é um bom indício da proposta educativa de uma creche. E o que mais? Esse é apenas o início da conversa, ainda temos muitos assuntos, mas fica para o próximo papo.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

O Papo de Pracinha visita Reggio Emilia

(*)Papo de Pracinha

texto_proprioReggio Emília é uma parte da Itália que fica na região da Emilia-Romana.  Com a cidade em ruínas, ao final da segunda guerra mundial, a dramática situação mobilizou, em um grupo de pessoas, o desejo e a necessidade de reconstruir a cidade a partir de uma atenção voltada para as crianças pequenas. Dessa forma, a partir de uma imensa mobilização comunitária, foi construída a Escola 25 Aprille. Nessa empreitada, estava Loris Malaguzzi, um jovem pedagogo que, desde então, passou a ocupar lugar central na construção do Programa Pedagógico de Reggio e na difusão dessa experiência pelo mundo. Hoje, a abordagem de Reggio Emilia engloba uma rede pública municipal de 12 creches e 21 pré-escolas, e inspira muitas escolas, em diferentes partes do mundo. (Disponível na internet no site Reggio Children e no Educação Integral)

A abordagem Reggio Emilia tem como fundamento uma visão da criança como ser potente e sujeito de direitos, que aprende e se desenvolve a partir das relações com os outros. Para termos acesso, ainda que inicial, a esse rico ideário pedagógico, divulgamos aqui alguns pilares nobres em Reggio Emilia, que também o são para a comunidade do Papo de Pracinha. O texto abaixo foi construído por adultos e crianças, juntos e pode ser encontrado no Centro de Formação de Reggio, para interessados e visitantes, com o título de Direitos Naturais de Meninos e Meninas, integrados com os Direitos Naturais mais amplos.

OS DIREITOS NATURAIS DE MENINOS E MENINAS

de Gianfranco Zavalloni, versão para o português de Lena Chianello.

DIREITO AO ÓCIO

de viver momentos de tempo não programados pelos adultos

DIREITO A SE SUJAR

de brincar com a areia, com a terra, com a grama, com as folhas, as pedras, com os raminhos

DIREITO AOS CHEIROS

de perceber o gosto dos cheiros, reconhecer o perfume ofertado pela natureza

DIREITO AO DIÁLOGO

de escutar e de poder ter a palavra, de arguir e de dialogar

DIREITO AO USO DAS MÃOS

de pregar pregos, de serrar e cortar lenha, de lixar e colar, moldar a argila, ler acordes, acender uma fogueira

DIREITO A UM BOM COMEÇO

a comer alimentos saudáveis desde seu nascimento, beber água limpa e respirar ar puro

DIREITO À RUA

A brincar livremente na pracinha, a caminhar pelas ruas

DIREITO AO SELVAGEM

a ter um refúgio nas matas, de ter um bambuzal para se esconder, árvores para subir

DIREITO AO SILÊNCIO

de escutar o assovio do vento, o canto dos pássaros, o borbulhar da água

DIREITO ÀS PAISAGENS

a ver o nascer e o pô do Sol, de admirar na noite a lua e as estrelas

INTEGRAÇÃO AOS DIREITOS NATURAIS

dI Stefano Sturioni

DIREITO À BELEZA

de viver, de frequentar e transformar os lugares marcados por esse valor educativo irreprimível

DIREITO ÀS COISAS NOJENTAS

de aproximar-se, de conhecer animais desprezados pelos adultos, como aranhas, sapos e serpentes

DIREITO DE RALAR OS JOELHOS

sem que o papai e a mamãe façam psicodramas, ameaçando amiguinhos e professores

DIREITO ÀS PESQUISAS E ÀS EXPLORAÇÕES

dialogando com o imprevisível, traçando mapas, coleta de repetição enchendo a casa com coleções, criação de animais

DIREITO À UTOPIA

de imaginar e de habitar mundos diferentes daqueles pensados por eles, frequentando o desconhecido, o invisível, o divergente, o implausível, o desejado…

DIREITO À COMPLEXIDADE

de não serem enganados por explicações banais e simplicistas da realidade das coisas, dos fenômenos, da vida, tendo reconhecidas suas próprias interpretações, os saberes e as competências conquistadas.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Reprodução

As crianças, suas famílias e as instituições.

(*) Papo de pracinha

texto_proprio A turma da pracinha está atenta e apoia os movimentos que aproximam crianças da natureza, elas de suas mães e pais em espaços diferenciados que não se caracterizam necessariamente como uma escola. Defendemos também o direito a brincadeira livre, sem qualquer expectativa em relação a resultados e a objetivos outros que não sejam a brincadeira por ela mesma. Brincar por brincar.

Com ou sem exigência de uso de uniforme, com horário rígido ou flexível e com diferenciadas propostas há espaços de educação infantil com propostas educativas bastante variadas, de ação voltada para crianças a partir de 12, 18 ou 24 meses que não se caracterizam efetivamente como uma creche. Nem com uma escola. O que são?

Nesse viés, há bastante opção, pelo menos nas grandes capitais, para as famílias escolherem e elas têm, sempre, muitas preocupações e expectativas legítimas em relação a esse espaço que receberá seu filho/a, às vezes, ainda, quase um bebê.

Sim, quase um bebê no que se refere a uma autonomia psicomotora e espacial, o que exige uma atenção enorme em relação a esse espaço coletivo: é arejado e limpo? Seguro? Convida as crianças a brincarem juntas?

O espaço adequado para as crianças por si só, precisa ser estimulador, precisa ter sido pensado e estar organizado de maneira adequada para a ação das crianças. Sobre esse aspecto, também, há muito o que observar porque não basta o espaço ser grande, bonito e arborizado, embora só esses quesitos já indiquem um cenário desejável para a convivência de crianças.

São quase bebês, também, muitas vezes, no que se refere à linguagem e às possibilidades de explicitarem necessidades, desejos, medos. A maioria não sabe dizer com clareza o que quer: água? Está com sede? Bateu a cabeça? Sono? Xixi? Quer aquele carrinho vermelho?

Sim, bebês e crianças bem pequenas não são ainda capazes de perceber a importância e o bônus de brincar com outras crianças que, eventualmente, são as que disputam brinquedos, objetos e espaços, instalam conflitos nesse espaço embora sejam chamados de amigos. E tudo indica que são e que serão mesmo.

Só a partir dessas poucas variáveis listadas aqui já se pode imaginar quantas questões envolvem essa relação de crianças em instituições de educação infantil. Tantos outros aspectos não precisam ser citados para que se perceba quantas equações diárias, nessa rotina diária de encontros precisarão ser resolvidas. Quer ver? Uma criança de 18 meses por exemplo, chega dormindo. Quem recebe? Onde ela deitará? Quem ficará perto dela para que não acorde assustada, num espaço desconhecido e sozinha?

E então, as crianças chegam nessas instituições para iniciar um processo de experimentação totalmente novo, que pode ser chamado de acolhimento, já tendo sido conhecido como sendo de adaptação, e surgem questões. Muitas questões. Em geral, elas escaparam às entrevistas entre pais-instituição, como por exemplo: como será a dinâmica “institucional” (seja na creche, na pré-escola, em núcleos ou espaços de educação infantil) diária, da criança com esses novos adultos e com outras crianças nesse novo espaço?

Ninguém pode dizer como cada criança vivenciará esse momento, nem uma forma mais segura e confortável que valha para todas. Mas os profissionais precisam se reunir para organizar, planejar e antecipar coisas que podem acontecer até de um modo totalmente diferente do pensando, mas precisam ser “pré-pensados”.

O que temos observado e escutado, na pracinha, se refere a um certo despreparo eventual, mesclado pela defesa de um espontaneismo, que se assemelha a uma soltura em “nome de liberdade” que não abraça algumas crianças, não as estimula sempre, ou não a todas, a se lançarem ao novo.  Às vezes faltam adultos disponíveis ali, sentados em rodas com outras crianças, com livros de histórias, fantoches, bolas etc., que recebam as crianças nesse novo espaço. Sim, é preciso ter quem as receba, e sempre uma mesma pessoa, no caso do adulto, para que criem vínculos sentindo-se seguros para ir e vir, enquanto precisarem.

Essa soltura exagerada sugere, não podemos afirmar, a existência de certos equívocos básicos, comuns e um deles nós queremos evidenciar aqui: a crença de que um professor possa ser substituído por outros profissionais igualmente importantes, por melhores que todos sejam: artistas plásticos, estudantes e profissionais de psicologia etc.

A ação com crianças em instituições de educação infantil exige a presença, o olhar e a atuação de um professor não apenas pelos aspectos legais que o exigem, mas porque deve ser esse o profissional que tem o dever de oficio de delinear e de dar contornos às ações importantes para a vida das crianças. Esse deve ser o loccus, por excelência, dos profissionais de educação que, junto com psicólogos, nutricionistas, artistas plásticos, músicos etc., devem integrar uma equipe que precisa ter, NECESSARIAMENTE, um pedagogo de referência, pelo menos, para cada grupo de crianças.

Pouco ou nada adianta a luta que todos estamos fazendo pela defesa dos direitos das crianças de participação, de brincadeira livre, de ocupação dos espaços da cidade, de brincadeira na natureza e tantos outros, se não conseguirmos entender as responsabilidades diferenciadas de adultos-profissionais em cada um desses tempos e espaços: médicos nos hospitais, garis limpando as ruas e praças, nutricionistas cuidando da qualidade da alimentação, arquitetos pensando espaços, psicólogos em ação etc., e professores de educação infantil em cada grupamento de crianças, não sozinhos, mas capitaneando uma equipe que tenha um olhar diferenciado e complementar para enriquecer a vida das crianças que frequentam essas instituições.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

O que perturba as crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio A psicóloga Jennifer Delgado Suárez escreveu, para a Revista Pazes (maio, 2017) um artigo onde analisa criticamente o que pode ser perturbador e angustiante na vida das crianças contemporâneas.

Na mesma linha de pensamento do Papo de Pracinha, ela sugere uma educação que não funcione nos extremos, no excesso nem na falta, sempre que possível.

No afã de “preparar” as crianças para a vida, e em nome do amor que têm pelos filhos, muitas vezes os adultos acabam desrespeitando os ritmos, os desejos e direitos das crianças que deixam de brincar livremente e passam a não ter tempo para desenvolver o pensamento mágico e a imaginação.

Sugerimos a leitura e uma ampla discussão sobre o que a autora chama como “os quatro pilares do excesso”.  Vamos lá?  O banco da praça nos aguarda.


Os quatro excessos da educação moderna que perturbam as crianças

Por Revista Pazes  – MPor Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

Quando nossos avós eram pequenos, eles tinham apenas um casaco de frio para o inverno. Apenas um! Naquela época de vacas magras, já era luxo ter um. Exatamente por isso a criançada cuidava dele como se fosse um tesouro precioso. Naquela época bastava a consciência de se ter o mínimo indispensável. E, acima de tudo, as crianças tinham consciência do valor e da importância de suas coisas.

Muita água correu por baixo da ponte, acabamos nos transformando em pessoas mais sofisticadas. Agora prezamos pelas várias opções e queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que desejarem, ou, caso seja possível, muito mais. Não percebemos que esse mimo excessivo ajuda a criar um ambiente propício para transtornos psicológicos.

De fato, foi demonstrado que o excesso de estresse durante a infância aumenta a probabilidade de que as crianças venham a desenvolver problemas psicológicos. Assim, uma criança sistemática pode ser empurrada para ativar um comportamento obsessivo. Uma criança sonhadora, sempre com a cabeça nas nuvens, pode perder a sua capacidade de concentração.

Neste sentido, Kim Payne, professor e conselheiro norte-americano, conduziu uma experiência interessante em que simplificou a vida de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Depois de apenas quatro meses, 68% destes pequeninos passaram a ser considerados clinicamente funcionais. Eles também mostraram um aumento de 37% em suas habilidades acadêmicas e cognitivas, um efeito que não poderia coincidir com a medicação prescrita para esta desordem, o Ritalin.

Estes resultados são, em parte, extremamente reveladores e, mais que isto, também são um pouco assustadores, porque nos fazem pensar se realmente estamos criando para nossos filhos um ambiente saudável, mental e emocionalmente.

O que estamos fazendo de errado e como podemos corrigir isto?

Quando o “muito” se transforma em “demais”?

No início de sua carreira, este professor trabalhou como voluntário em campos de refugiados, onde teve que lidar com crianças que sofrem de estresse pós-traumático. Payne constatou que essas crianças se mostravam nervosas, hiperativas e tremendamente ansiosas, como se pressentissem que algo de ruim fosse acontecer de uma hora para a outra. Elas também eram amedrontadas em excesso, temendo qualquer novidade, o desconhecido, como se tivessem perdido a curiosidade inata das crianças.

Anos mais tarde, Payne constatou que muitas das crianças que precisavam de sua ajuda mostravam os mesmos comportamentos que os pequenos que vinham de países em guerra. No entanto, o estranho é que estas crianças viviam na Inglaterra, abraçados por um ambiente completamente seguro. Qual a razão que os levava a exibir os sintomas típicos de estresse das crianças pós-traumáticas?

O professor pensa que as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, mentalmente vivem em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo. A exposição à muitos estímulos provoca um estresse acumulado que obriga as crianças a desenvolverem estratégias que as façam se sentir mais seguras.

Na verdade, as crianças de hoje estão expostas a um fluxo constante de informações que não são capazes de processar. Elas são forçadas ao crescimento rápido, já que os adultos depositam muitas expectativas sobre elas, forçando-as a assumir papéis que realmente não condizem com a realidade infantil. Assim, o cérebro imaturo das crianças é incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela nova educação, por conseguinte, um grande estresse ocorre, com as óbvias consequências negativas.

Os quatro pilares do excesso.

Como pais, nós normalmente queremos dar o melhor para os nossos filhos. E pensamos que, se o pouco é bom, o mais só pode ser melhor. Portanto, vamos implementar um modelo de paternidade superprotetora, nós forçamos os filhos a participar de uma infinidade de atividades que, em teoria, ajudam a preparar os pequenos para a vida.

Como se isso não fosse suficiente, nós enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação.

Payne ressalta que estes são os quatro pilares do excesso que forma a educação atual das crianças:
1 – Excesso de coisas.
2 – Excesso de opções.
3 – Excesso de informações.
4 – Excesso de rapidez.

Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta.

Gradualmente, a sociedade foi corroendo as qualidades que tornam o período da infância algo mágico, tanto que alguns psicólogos se referem a esse fenômeno como a “guerra contra a infância”. Basta pensar que, nas últimas duas décadas, as crianças perderam uma média de 12 horas por semana de tempo livre. Mesmo as escolas e jardins de infância assumiram uma orientação mais acadêmica.

No entanto, um estudo realizado na Universidade do Texas revelou que quando as crianças brincam com esportes bem estruturados, elas se tornam adultos menos criativos, em comparação com jovens que tiveram mais tempo livre para criar suas próprias brincadeiras. Na verdade, os psicólogos têm notado que a maneira moderna de jogar gera ansiedade e depressão. Obviamente, não é apenas o jogo mais ou menos estruturado, mas também a falta de tempo.

Simplificar a infância.

A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário:

– Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada.
– Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados.

– Passar um tempo de qualidade com eles é o melhor presente que os pais podem dar.

– Criar um espaço tranquilo em suas vidas onde eles podem se refugiar do caos e aliviar o estresse diário.

– Garantir tempo suficiente de sono e descanso.

– Reduzir a quantidade de informações, certificando-se de que esta seja sempre compreensível e adequada à sua idade, o que envolve um uso mais racional da tecnologia.

– Simplifique o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança.

– Reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixe que elas sejam simplesmente crianças.
Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos, entretanto, então, permita que elas vivam plenamente a infância.

Texto publicado em espanhol no site Rincón de la Psicología, traduzido e adaptado pela Revista Pazes.


(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Escolas “single sex”: por quê, para que e para quem?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioA vida não cabe mais apenas no mundo que se equilibrou, falsamente, durante anos, séculos, entre homens, mulheres e seus dois mundos. Tantas vezes vimos até homens versus mulheres, dependendo da situação e da cultura.

Homens, mulheres, transgêneros, homossexuais e toda a gama de nomes que conhecemos para qualificar pessoas, “gentes” já são restritivas por si sós e o que sabemos é que as dimensões: cognitiva, intelectual, emocional, física etc. podem ser diferentes entre pessoas de mesmo gênero e orientação. Assim, tempos de brincar e ocupação de espaços para meninos e meninas separadamente podem também estar sendo altamente desrespeitosos entre os meninos e as meninas que são todos bastante diferentes entre si.

Nesse viés, não encontramos explicação cientifica nem “humanitária” para a separação das turmas de ensino fundamental por gênero.  Como tendência, denominada “inovadora pelos seus defensores”, vem crescendo nos EUA que não primam por excelência em Educação e, portanto, merece ser melhor avaliada para ser possível defender qualquer tipo de segregacionismo como positivo,  em processos educativos e na vida em geral.

Isto posto e diante de tudo o que temos assistido como degradante em relação ao respeito, à ética, à vida planetária, à solidariedade e ao amor, pedimos que as famílias e a sociedade reflitam sobre “como caminha a humanidade” para lutar para manter ou mudar o que está posto.  Comecemos respondendo às três perguntas iniciais: por quê, para que e para quem.

Leiam abaixo a matéria do O Globo, onde são apresentadas as opiniões de pesquisadores e especialistas sobre escolas que estão optando por separar turmas de acordo com o gênero.


O Globo – por Paula Ferreira em 28/07/017

Especialistas criticam método de ensino que divide alunos por gênero

Tendência de escolas ‘single sex’ se espalha pelo mundo

RIO — Há mais de 40 anos, o Colégio Santa Marcelina, no Alto da Boa Vista, no Rio, decidiu aceitar meninos nas salas de aula antes ocupadas só por meninas. Um pouco depois, há quase 30 anos, o Colégio Militar do Rio aprovou o ingresso feminino em suas classes. Esse movimento em direção a turmas mistas, no entanto, não é uma unanimidade, conforme mostrou O GLOBO na edição de quinta-feira com a história da escola Porto Real, na Barra, que divide os alunos de acordo com o gênero. Especialistas afirmam que a separação dos estudantes é um atraso e implica em uma formação deficiente dos alunos, que não aprendem a conviver com as diferenças.

Com cada vez mais adeptos ao redor do mundo, o modelo que aposta em uma educação personalizada para cada gênero ganhou força nos Estados Unidos a partir de 2002, quando uma lei permitiu que agências educacionais locais usassem fundos públicos — destinados a “programas inovadores”— para apoiar escolas que separavam estudantes por gênero. De acordo com dados da Associação Nacional para Educação Pública Single Sex (Nasspe, na sigla em inglês), criada no mesmo ano da nova legislação, em 2002 apenas uma dúzia de escolas públicas oferecia o serviço. Mas menos de uma década depois, em 2011, pelo menos 506 instituições públicas dos EUA tinham atividades do tipo. E mesmo com a nova norma, essas instituições são alvo constante de ações que questionam o modelo single sex, argumentando que a prática é segregacionista.

CONVIVÊNCIA E CONFLITO

Se, por um lado, os adeptos do método argumentam, principalmente, que ele impulsiona o desempenho dos estudantes, os especialistas defendem que os resultados não são o principal indicador de uma educação bem sucedida.

— O desempenho é apenas uma das dimensões que interessam à sociedade. Mas o que interessa, de fato, é que tenhamos cidadãos que consigam conviver. A convivência envolve conflito, aliança, negociação, dor, alegria. Essa forma de educação vai contra as necessidades de uma sociedade que precisa avançar no tratamento da diversidade — critica Denise Carreira, doutora em Educação pela USP. — Observo que há uma modernização do discurso da segregação. O discurso novo diz “vamos separar, porque assim vamos desenvolver as meninas para as ciências exatas e os meninos para outras áreas”. É uma modernização ancorada na neurociência que acaba alimentando a segregação. O argumento pautado em questões biológicas já foi usado por vários regimes segregacionistas ao longo da História.

A pesquisadora afirma ainda que o surgimento de mais escolas que separam os alunos por gênero está relacionado ao contexto global atual:

— Isso tem a ver com o crescimento do conservadorismo não só no Brasil, mas no mundo. Ao mesmo tempo que muitos setores exigem convivência na diversidade, outros mantêm a intolerância. É um retrocesso.

Fernando Seffner, coordenador da linha de pesquisa sobre Educação, Sexualidade e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também se posiciona contra a educação single sex.

— Muitos estudos, além de filmes e a própria literatura, mostram que o nível de violência entre os alunos em escolas só de meninos ou só de meninas é maior que na escola mista. Um menino que, por exemplo, não goste de jogar futebol, terá uma chance muito maior de sofrer violência nesse ambiente.

Só na Espanha — país de origem do criador da Educação Personalizada, Victor García Hoz —, segundo a Associação Europeia de Educação Single Sex (Easse, na sigla em inglês), há ao menos 219 centros de estudo que oferecem educação diferenciada em algumas de suas etapas, todos privados, mas alguns com subsídio público. Na América Latina, o modelo criado por Hoz começou a ganhar popularidade a partir dos anos 2000. Secretário geral da Associação Latino-americana de Centros de Educação Diferenciada (Alced), Ricardo Carranco afirma que a tendência é que esse tipo de escola se espalhe pelo continente.

— A América Latina está, cada vez mais, crescendo nessa área e apostando no tema da educação diferenciada por sexos. Entre outras nações, Argentina, Peru, México, Honduras, Costa Rica, Equador têm colégios de reconhecido prestígio acadêmico e social, emoldurados pelos princípios pedagógicos da educação diferenciada por sexos — afirma Carranco. — Sem dúvida, o Brasil é uma terra fértil para projetos educativos como esses. A riqueza cultural e social do país facilita o florescimento desse tipo de projeto.

Em 1995, a Escola Catamarã, em São Paulo, foi fundada sob o projeto pedagógico de Hoz. Atualmente, além dela, o Colégio do Bosque Mananciais, em Curitiba, que foi criado em 2010, virou símbolo da educação diferenciada por sexo no país. A escola oferece a educação single sex a partir do 2º ano do ensino fundamental até o ensino médio. Os alunos são divididos em duas unidades, uma para meninos e outra para meninas.

— É um único projeto educativo porque o conteúdo programático é o mesmo. O que muda é apenas a forma e o entorno de aprendizagem, um entorno que leva em consideração as naturais diferenças dos meninos e das meninas, como nível de maturidade ou facilidades de cada grupo para umas disciplinas específicas. É sabido e comprovado, por exemplo, que as meninas obtêm melhores resultados em português e literatura e os meninos em matemática e ciências — argumenta Leandro Pogere, diretor geral do colégio.

Já a diretora pedagógica do Colégio Santa Marcelina, que em 1975 decidiu abandonar as aulas restritas a apenas um dos sexos, Irmã Carmen é taxativa:

— No nosso pensamento pedagógico, consideramos que a presença de meninos e meninas estudando juntos é fundamental. Para aprender matemática, história e português, com certeza não faz diferença. Mas para aprender a viver bem, acho fundamental.

Colaborou Clarissa Pains

Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/especialistas-criticam-metodo-de-ensino-que-divide-alunos-por-genero-21639984#ixzz4pMhYxW7z


(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

Você pratica uma educação inclusiva com suas crianças: não sexista, não racista e não homofóbica?

(*) Papo de Pracinha

  1. Menino e menina participam da vida da família, podem cozinhar, ajudam na arrumação dos brinquedos e dos espaços onde brincam?
  2. Depois das atividades escolares a menina fica em casa ajudando no serviço doméstico e o menino pode sair para brincar?
  3. Seu filho pode chorar e apresentar medos sem que isso o desqualifique como pessoa?
  4. Sua filha pode jogar futebol e brincar livremente junto com meninos? As meninas também podem ir a estádios de futebol e defender um time, por exemplo?
  5. Seu filho ou sua filha podem usar roupas e adereços de todas as cores?
  6. Você e suas crianças convivem sem preconceitos com casais homoafetivos?
  7. Você pensa que homossexualidade seja uma doença que contamine pessoas por meio de convivência?
  8. Você aceita ver seu filho beijando os amigos e as filhas fazendo o mesmo, com outras meninas?
  9. Você respeita as diferenças entre meninos e meninas sem desqualificar um ou outro? Meninas são “frágeis e doces”, enquanto os meninos são “maliciosos e aproveitadores”?
  10. Você faz comentários jocosos e desrespeitosos sobre comportamento de homens e de mulheres, suas etnias, orientações sexuais e comportamentos na frente de seus filhos?

Você tem clareza sobre como pensa e educa seus filhos, nessas questões? Quer conversar mais? Vem com a gente, procure a turma do Papo de Pracinha.

 

“Devolvam o tempo do brincar na Educação Infantil”

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioO Papo de Pracinha trouxe para o banco da praça essa reflexão oportuna e bem sustentada, postada no blog Educando Tudo Muda, da Ana Lucia Machado, em 19 de julho de 2017.

Como nós, ela defende a brincadeira como a atividade primordial das crianças e que, portanto, precisa ser garantida pelos adultos e pelo poder público.

Vamos ler? Sem pressa porque é bem bacana.


DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Educando tudo muda, autora Ana Lucia Machado em 19/07/2017

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

Analisando o cenário atual da Educação Infantil, a sociedade faz um apelo: devolvam o tempo do brincar na Educação Infantil. Não podemos aceitar as recentes mudanças impostas pelo MEC de escolarização da Educação Infantil. Leia aqui.

Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, na escola, na rua, com amigos da vizinhança, com primos, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, andando de bicicleta pelo bairro, e assim  descobrindo e explorando o mundo.

Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções e histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, amarelinha, casinha, médico, professora, etc… Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirasse do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida na pré-escola e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

POR QUE TANTA PRESSA EM ALFABETIZAR AS CRIANÇAS?

Crianças de 4, 5 anos, ainda ávidas por correr, pular, girar, são requisitadas para atividades cognitivas que exigem um corpo estático e destreza em habilidades ainda em desenvolvimento na criança, como a coordenação motora fina. Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, fala que “A criança aprende o mundo com todo seu corpo, não  apenas com os dedos de uma mão”.

alfabetização-precoce-2-300x200Autoridades escolares diminuíram o intervalo do recreio para criar espaço para mais conteúdo curricular. Em algumas escolas as crianças não podem mais correr. Com isso os consultórios de psicologia estão cada dia mais cheio de crianças com problemas de falta de concentração, ansiedade, e vários transtornos.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

AFINAL, O QUE É A ALFABETIZAÇÃO? 

Paulo Freire sempre advertiu que alfabetizar é antes de mais nada conscientizar. Ele falava da conscientização do “mundo vida”, onde a criança vive, onde ela se encontra e o que a rodeia. Dizia que primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras”.

Em outras palavras é o que fala também a jornalista especialista em neurociências e neuropsicologia Michelle Müller: “Antes de generalizar o aprendizado das palavras ou apressar a alfabetização, é preciso ter em mente que a leitura de mundo dos pequenos acontece de muitas maneiras. Um bebê, por exemplo, lê com o corpo, com os ouvidos, com as mãos, a partir da exploração tátil, sonora e visual das coisas.

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O psicolinguista colombiano Evelio Cabrejo Parra, explica que “o bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que ele está tratando de construir significado à sua maneira”.  Parra defende que desenvolvemos a linguagem desde bebês, e vê  a ‘alfabetização’ como um processo sutil anterior à fala e à escrita, que tem início por meio da escuta.

A experiência dos finlandeses, que não começam uma instrução formal de leitura antes de 7 anos de idade, revela que “a base para o início da alfabetização é que as crianças tenham atenção e ouçam … que elas tenham falado e conversado, que as pessoas tenham discutido [coisas] com elas … Que elas tenham feito perguntas e recebido respostas”.

 

alfabetização-precoce-4-300x138Beatriz Gayotto, pedagoga pelo Instituto Singularidades, e professora de Ensino Fundamental do Estado de São Paulo, adverti  que “o enfoque do trabalho da Educação Infantil deve ser a socialização da criança, o desenvolvimento das habilidades de ouvir, de se expressar e de negociar. A Educação Infantil deve aumentar os horizontes culturais das crianças, resgatar as canções, histórias e brincadeiras que elas conheceram em casa e ampliar seu repertório com o dos colegas e com aquele que a professora apresenta, tanto da cultura regional como da mundial”.

  • Habilidades motoras e domínio espacial, adquirido na exercitação do correr, saltar, rodar, equilibrar-se em troncos de árvores, perna de pau, trepa-trepa, etc…
  • Interação social, conquistado pelas brincadeiras e jogos em grupos, em casa e na escola
  • Expressão oral, saber dialogar, contar uma história, facilitado por repertório de canções, histórias, versos, parlendas, aprendidos em casa, na escola
  • Escuta, exercitado por ouvir histórias em casa, na escola
  • Registros de ideias e vivências artísticas por meio de desenhos, pinturas e colagens
  • Saber contar os números, exercitado nas brincadeiras de esconde-esconde, pular corda, nas compras com a família, na cozinha com os pais no preparo de receitas culinárias, etc…
  • Autonomia no cuidado pessoal e de seus pertences
  • Internalização de rotina e ritmo

Na contra mão da aceleração…

Bibi-natureza-300x225especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Um dos grandes aliados da criança na primeira infância, como força de aprendizagem, é o brincar livre. Entretanto, infelizmente na sociedade contemporânea o brincar livre está em declínio, as novas gerações estão sendo privadas deste tempo e espaço de brincar.  Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar das crianças e seus prejuízos.

Brincar é substrato para a vida,  é o motor da infância que garante a potência para a vida adulta. Brincando  a criança desenvolve competências que serão requisitadas mais tarde nas relações interpessoais e de trabalho. Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. Ele é essencial para o desenvolvimento infantil integral e saudável, e segue tendo sua importância ao longo da vida adulta, porque afinal somos seres lúdicos.

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

O brincar tem origem na curiosidade e necessidade de exploração da criança para construção do seu próprio mundo, sua identidade, a imagem de si e a compreensão do mundo que a cerca. Ele ensina tudo o que os pequenos precisam aprender sobre a dinâmica interna e estrutura do seu próprio corpo. Quando brinca a criança está inteira na brincadeira, pois brinca com todo o seu ser. Brincando ela experimenta o estado de flow, e assim desenvolve a capacidade de concentração, necessária para o processo de alfabetização.

Quando meus filhos tiveram que ir para escola, optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais. Conto minha experiência em detalhes aqui.

Quando compartilhei minha história com os leitores do Educando Tudo Muda, dezenas de pais e educadores se manifestaram, expressando suas angústias e inquietações por meio de comentários no blog e nas redes sociais. Vale a pena ler esses comentários, como o da mãe Viviane Silva, e da professora Grace Vania Loguercio Budke:

“Oi Ana….amei seu texto sou estudante de pedagogia e tenho 2 filhos um 7 anos completos e outra com 5 anos, ambos estudam em escola pública e na escola pública o ensino vem mudando por exemplo os professores de EMEI agora que é o pré não precisa mais iniciar a alfabetização, tudo para deixar a criança brincar porém vem o estado e muda tudo, pq agora a criança inicia no ensino fundamental com 6anos, não tive problemas com meu filho pois faz aniversário em Maio então entrou no primeiro ano com 7 anos completos, mas já estou mega triste pois minha filha vai para o ensino fundamental com 6 pois ela faz aniversário em dezembro como completa 7 no ano seguinte já vai para o primeiro ano, eu acho tudo mais precoce nela, mas na alfabetização é bem claro q ela não está madura o suficiente, meu filho quando saiu ja estava lendo pequenas palavras mas isso foi sendo progresso dele sozinho, ir juntando as letrinhas q ia aprendendo, mas ele já estava para completar 7 anos, o que ainda não acontece com a minha filha ela ainda não despertou esse interesse pq não está na idade certa ainda, vai ser forçada a aprender e se alfabetizar 1 anos antes sem necessidade. Falei com a escola, pra ela ficar mais 1 ano na EMEI e isso não é possível, devido a demanda e tb pq a lei é essa agora, o primeiro ano é considerado a iniciação e ela está apta. Enfim, triste mas é a nossa realidade”.

“Sempre me questiono… Por quê alfabetizar antes dos sete anos??? Como professora presenciei angustiada a frustração de alunos imaturos e com sérios problemas de  relacionamento com o mundo exterior, por terem deixado os anos lúdicos por compromissos e hora para brincar. O bum!!!! Disso tudo se dá na pré adolescência lá pela quinta ou sexta serie. A desculpa de pais ansiosos é que hoje os pequenos já dominam a era digital!!!etc,etc. Que hoje é diferente. Sim, mas para eles antes dos 7 anos tudo ainda é brinquedo, sem compromisso , horário e confinamento de sala de aula”.

É preciso questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, respeitando as etapas de seu desenvolvimento. Tudo a seu tempo.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado


 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

INFÂNCIA FORA DA ASA

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEsse é o título do primeiro livro do Papo de Pracinha. Por que “Infância Fora da Asa”? Manoel de Barros, nosso querido poeta, que tanto valoriza a infância e a natureza, foi nossa inspiração, com seus versos que traduzem muito do que pensamos. Ele diz:  “Poesia é voar fora da asa”. E o que isso nos diz sobre a infância e as crianças? Para nós, as crianças são seres poéticos, que não se enquadram em molduras e modelos. São seres carregados de poesia nos seus modos de pensar e agir sobre o mundo, cujo percurso não pode ser previsto, posto que é sempre inusitado, desconhecido, inesperado, curioso, imaginativo e brincante. Crianças rompem frequentemente com os limites que nós, adultos, definimos para elas. Crianças voam fora da asa. Assim, a Infância precisa ser pensada fora da asa, de um modo inteiro e sensível, que contemple suas diferentes dimensões e especificidades, para além do olhar adulto que a aprisiona. É preciso ir além do instituído, é preciso voar fora da asa.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme


texto_proprioOs melhores textos do Papo de Pracinha vão virar livro, mas para que isso aconteça precisamos da sua colaboração. Participe. Colabore. Você não vai perder, não é? Clique aqui e saiba como.

Sobre o que dizem os psicólogos de Harvard: “Pais que criam bons filhos fazem essas 5 coisas”

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioVale a leitura dessa pesquisa feita pelos psicólogos de Harvard, traduzida e publicada pelo blog Papo de Pai em 21/04/2017.

“Psicólogos de Harvard revelam: Pais que criam bons filhos fazem essas 5 coisas”

Concordamos inteiramente com o que dizem os psicólogos de Harvard. Lembramos, ainda, que autonomia, dignidade e vida colaborativa são valores importantes que se constituem na relação cotidiana das crianças com seus adultos de referência, preferencialmente, sua família, embora não só dentro dela.

Assim, no lugar de verticalizarem autoritariamente as relações que estabelecem com suas crianças, sem perderem seu lugar diferenciado como pais e responsáveis, propomos que os adultos falem menos, que se expliquem e que se imponham também menos e que, em seu lugar, escutem, compreendam, divirjam mas que dialoguem permitindo que elas cresçam sentido-se amadas e importantes dentro da sua família.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme