Quando os filhos são postos na vitrine

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio  Filma eu, filma eu! Quero ver eu aí, no seu celular! Deixa, deixa. Não é joguinho não, quero ver eu aí.  Abordagens assim ultrapassam as paredes de casa, da família e são parte do discurso de crianças bem pequenas, às vezes ainda com dois anos, nas ruas, nas escolas, nos supermercados. O que isso quer dizer? Que nós, adultos, já ensinamos a elas um valor contemporâneo, em que “ser” implica poder “ser visto” nas redes sociais.

Pais, mães, babás, às vezes, até professores de crianças estão igualmente imersos no mundo onde a imagem representada ocupa a centralidade das experiências adultas e infantis. Assim, quando há adultos próximos de crianças, porém com mãos, olhos e alma fixados nos ipads, notebooks e celulares dizemos a eles: estamos ocupados com algo muito importante, que nos envolve o tempo todo e que não nos deixa livres para dialogar, brincar e nem para ficar olhando para nada mais.  As crianças tanto passam a supor que essas tecnologias possam ser fascinantes, como de fato são, como passam a ser altamente desejadas por elas. Claro, estamos reclamando dos exageros, mas parece que os adultos andam exagerando mesmo, ou não? E as possíveis consequências para a vida das crianças e de suas famílias não são difíceis de imaginar.

 As cenas representadas valem mais do que as experiências, em si.

Muitas vezes, os adultos criam cenários e circunstâncias que funcionam como pseudoacontecimentos ou pseudoeventos (Boorstin[1], 1961) envolvendo suas crianças. Esses episódios, cada vez mais comuns, escapam completamente dos critérios de espontaneidade, ao contrário, são forjados pelos adultos para terem efeito como uma imagem de suas crianças que seja “comestível, desfrutável, vendável” nas redes, sendo em sua origem, elas apenas auto satisfatórias.

Vale apena destacar aqui ainda aqueles casos onde os pais produzem suas crianças como mulheres adultas, com roupas colantes, maquiagem, erotizando ao máximo as suas meninas.  Crime.

Com isso, mais do que brincar, experimentar, inventar, transformar e descobrir, que são experiências necessárias para a vida das crianças, adultos e crianças comprometem a liberdade das brincadeiras em nome das “melhores imagens e representações” de suas experiências. E sempre são os adultos, em geral as mães, que “empresariam e exploram” a imagem de suas crianças, não as suas próprias.

Para “fazerem sucesso”, têm seus cenários muito reduzidos, suas experiências restritas, os horizontes das brincadeiras limitados em função do olhar do adulto que as empresaria.

É o que vemos quando encontramos adultos que usam seu celular como uma máquina para registrar momentos e imagens da sua criança no balanço, no banho, fazendo dever de casa, almoçando, dormindo e até fazendo cocô no banheiro. O registro não é para perpetuar essas imagens para a vida dessa criança e da família, e sim para divulgá-las nas redes sociais e, com isso, dizer uma “mentira perversa” para as crianças: você nasceu para ser uma celebridade; eu, sua mãe e/ou seu pai (em geral, a tarefa é mais feminina) esperamos que você alimente a sua vida e a dos outros com sua individualidade. Incitamos assim que crianças e adultos fortaleçam mais e mais uma idolatria de suas individualidades, sendo introduzidos pelas suas famílias na cultura do consumo sem reservas.

As crianças são convidadas a serem jovens antes da hora e os idosos, ao contrário, não podem deixar de ser jovens.  E sem espaço para experiências verdadeiras mas para a “produção de celebridades” como entretenimento humano, pensado e concretizado pelas famílias como sendo um produto cultural de massas. Ali não há sofrimento, frustrações nem dores, só brilho e uma competição permanentemente em pauta.

Nenhum adulto que poste demais as imagens de seus filhos sonha para que eles tenham, apenas, aqueles quinze minutos de fama propostos por Andy Warhol. Há que ser famoso o tempo todo e desde a mais tenra idade.  Exagero nosso? Pensamos que não!

 Imagens significativas e perpetuadas ou imagens descartadas?

Mais uma questão a ser discutida se refere ao fato de que as crianças vão crescer e, logo ali na frente, elas podem sentir vergonha e constrangimento dessa exposição a que foram submetidas, dessa divulgação de sua vida cotidiana, ordinária, sem que elas tenham sido ouvidas e sem condições de prever a globalidade da consequência dessa vitrine onde expõem a vida delas.

Já se sabe que diante dessa fome de imagens e da cultura da produção de celebridades infantis, dentro de casa, vem morrendo aquele acervo de imagens digitalizadas que poderiam vir a ser acessadas pelas crianças, mais tarde, como um registro pitoresco de suas histórias. As máquinas digitais facilitaram o serviço de todos, as imagens tornaram-se fáceis de serem feitas, de serem produzidas, alteradas com o uso de filtros, photoshops, e todas são rapidamente veiculadas. As crianças dizem: minha mãe já apagou isso do celular dela. Não tem mais, agora são outras.

Na era do consumo e da descartabilidade, como acontece com o Facebook, “passa um rolo” que faz com que umas imagens deem lugar a outras e, com isso, alimenta-se nos adultos a necessidade de produzir novas imagens para sua substituição, rápida, nas redes.

Por que os adultos agem assim com suas crianças?

Não podemos responder por todos, mas uma grande parte projeta em suas crianças um brilho e uma expectativa de destaque, de sucesso dentro do grupo social, que talvez desejassem ter.

Esquecemos que hoje as celebridades se afastaram da identificação com os grandes feitos, não se destacam espontaneamente por uma ação ou comportamento digno de uma notoriedade. Hoje, as celebridades são produzidas da noite para o dia e são esquecidas, também, no mesmo ritmo.  São criadas para serem consumidas. Isso é bom para as crianças?

Crianças são seres muito especiais, diferentes entre si embora demonstrem gostar de coisas semelhantes em cada momento da vida. O estimulo à espontaneidade, à criatividade e à singularidade não se dão quando as crianças competem individualmente desde cedo, e nem quando a beleza de suas vidas, o improvável que as caracteriza, o inusitado e o inesperado precisam dar lugar a uma encenação de vida, que não é vida. Encenação para o outro ver.

Isso é bom para as crianças?

No Maranhão, há uma sabedoria popular que diz assim: “a casa que tem criança, deus visita todo dia”.   Não há nenhum tipo de religiosidade embutido propriamente nessa frase apenas a defesa de que as crianças iluminam o mundo porque trazem em si sua aura livre e sem amarras, representam a surpresa da vida, fazem as perguntas que os adultos não fazem mais; elas agem como se fossem animais e personalidades, reais e imaginários, rolam, pulam tremem, cantam e dançam num ritual diário de ludicidade e de alegria, de magia e de imaginação.  Elas merecem os nossos olhos e ouvidos atentos, parceiros, ao mesmo tempo em que os enriquecem, quando vemos que elas brincam sozinhas, com outras crianças e com adultos. Isso é bom para as crianças!

O que notamos é que, enquanto seus pais seguram holofotes e esticam tapetes vermelhos para dar destaque às suas crianças, eles esquecem de vê-las como crianças ordinárias que são, com o direito de viver simplesmente, sem qualquer compromisso com o sucesso nas redes. Nesses casos, os pais perdem o tempo de brincar com elas e de deixá-las serem como são.

E vocês, o que pensam sobre isso?

 


[1] Boorstin, Daniel J. (1961) The Image: A Guide to Pseudo-events in America. Ele foi um historiador, professor, advogado e escritor norte-americano (1914- 2004).

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

Os dois lados dos grupos de whatsapp de mães e pais da escola

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Outro dia conversávamos com um amigo sobre filhos, mais especificamente sobre o contexto da escola, e um dos temas debatidos foi sobre os grupos de whatsapp de mães/pais da escola dos filhos. Ele dizia o quanto estava incomodado com algumas coisas que vinham acontecendo no grupo de mães da turma de um dos filhos, o mais velho (7 anos), a partir de uma situação que havia ocorrido na escola, de desentendimento entre seu filho e um colega de  turma. Ele comentou sobre a interferência das mães em relação ao fato ocorrido, bem como sobre o quanto aquela discussão entre elas havia exposto o filho, e a outra criança também, que passaram a ser alvo de julgamentos precipitados e recomendações quanto à conduta dos pais e da escola em relação às crianças.  Ficou tão aborrecido que sugeriu que a esposa saísse do grupo, com o que ela não concordou, argumentando que, se o fizesse, não saberia mais o que estaria acontecendo na escola no âmbito da turma de seu filho. Nosso amigo é da opinião que esses grupos podem trazer mais prejuízos do que vantagens e, ao comparar com o seu tempo de escola, lembra que o cotidiano da sua turma era mais preservado, não tendo tanta interferência dos pais. Quando os problemas surgiam, na maioria das vezes, eram resolvidos ali entre os alunos, não ultrapassando os muros da escola.

O problema é que hoje, com as redes digitais, a vida na escola ultrapassa em muito, e de forma quase instantânea, os limites da escola. Para o mal e para o bem! São muitas questões envolvidas no uso do Facebook, Instagram, WhastApp, Youtube, entre outras possibilidades. Mas hoje nossa conversa é sobre o uso do whatsapp pelos grupos de pais no contexto escolar.

Os grupos de whatsapp de mães e pais são uma realidade cada vez mais presente. A entrada nesses grupos é quase compulsória e inevitável. Mas quais são os objetivos e limites desses grupos? A que servem? Em princípio, são criados para troca de informações sobre o dia a dia dos filhos na escola, contribuindo para que cheguem a todos, de forma rápida, informações e assuntos que envolvem combinados, festas de aniversário, programas culturais, alertas sobre doenças contagiosas, promovendo uma relação colaborativa entre os pais.  Se antes o encontro, a conversa, as programações (e também as “fococas”) aconteciam na porta da escola, entre as mães que tinham mais disponibilidade de levar e/ou buscar seus filhos, hoje a conversa foi ampliada, envolvendo também aqueles pais e mães que não podem levar e buscar seus filhos todos os dias na escola.

Mas precisamos levar em conta que, volta e meia, aparecem, nesses grupos, temas/conversas que geram desconfortos, constrangimentos, intrigas, desavenças… É preciso refletir também sobre os aspectos negativos dessa nova forma de comunicação, para que tenhamos um uso mais cuidadoso dessa ferramenta, não é mesmo?

O bom uso do whatsapp

 Já mencionamos acima vários aspectos positivos desses grupos, que funcionam como um  meio eficaz e prático de comunicação entre as famílias, facilitador da conexão, da troca de experiências, da colaboração, da informação, da organização de programas nos finais de semana e feriados, do esclarecimento de dúvidas sobre tarefas de casa e outros acontecimentos da escola.

Quando funciona com esse objetivo, é uma poderosa ferramenta de colaboração e aproximação entre as famílias e, também, entre as crianças. Além disso, promove possibilidades de participação na vida escolar dos filhos para todas as famílias, incluindo as que têm pouco tempo para estar presente no levar e buscar ou nas reuniões de pais.

 Mas até onde vão os limites do whatsapp?

 Quem pertence a grupos “temáticos” diversos de whatsapp sabe que é muito comum receber mensagens desprovidas de “bom senso”, como as que espalham correntes, vídeos, fotos, piadas, desejos de bom-dia ou assuntos relacionados a política, causando um excesso de conteúdo no seu aplicativo que perturbam e prejudicam a leitura de mensagens pertinentes ao objetivo principal do grupo. Isso é um aspecto comum a muitos tipos de grupos, como família, amigos, trabalho etc., não escapando, a alguns grupos no contexto escolar. Temos relatos que indicam isso. Mas esse talvez seja o menor dos aspectos negativos, uma vez que pode incomodar os membros do grupo, mas não envolve diretamente as crianças.

Encher o grupo com o envio de fotos dos filhos em passeios também é algo que acontece algumas vezes, transformando as “dicas de atividades” em exibicionismo e marketing pessoal. Outra questão relacionada a fotos é quando se coloca a foto de um evento em que nem todas as crianças foram convidadas, podendo gerar sentimentos de exclusão desnecessários.

Outro aspecto diz respeito às observações ou queixas, compartilhadas no grupo, em relação às práticas escolares.  Ao mesmo tempo em que  muitas dessas observações podem ser bastante úteis e servir de alerta para as famílias cobrarem da escola um trabalho mais cuidadoso com seus filhos, também podem ser fruto de interpretações equivocadas e exageros por parte de quem a expõe, gerando inseguranças e insatisfações desnecessárias nos demais, e que poderiam ser evitadas se o primeiro canal de comunicação para conversar sobre essas questões fosse a escola. A “lupa” ou a “lente” que interpreta uma cena ou uma frase, retirando-a do contexto, pode estar criando uma realidade distorcida que rapidamente pode se espalhar e se tornar “verdade”. Uma provocação de uma criança para a outra nem sempre é bullying, uma criança que agride a outra nem sempre é violenta ou uma ameaça, uma criança que está sozinha afastada do grupo, nem sempre foi excluída, uma fala mais incisiva de um professor para uma criança nem sempre é imprópria, entre outros exemplos. Antes de compartilhar e espalhar no grupo interpretações retiradas de uma situação parcialmente conhecida, que tal conversar com os profissionais da escola primeiro para questioná-los ou sanar as suas dúvidas?

Há ainda um aspecto bastante problemático, que tem a ver com situações semelhantes à relatada no início do texto, que são aquelas que expõem as crianças, trazendo para o grupo assuntos (muitas vezes frutos de interpretações equivocadas) ou fatos não totalmente conhecidos, que podem gerar julgamentos, desrespeito e indisposições entre os adultos, entre as crianças e, também, entre os adultos e as crianças. Desse modo, cria-se no grupo formas de controle/repressão por parte dos pais, que querem palpitar sobre tudo o que envolve seus filhos, não economizando em julgamentos e recomendações para a solução dos problemas que surgem.  Isso configura-se, muitas vezes, como uma espécie de bullying materno/paterno, gerando até mesmo exclusões de crianças e seus pais de atividades organizadas pelo grupo.

Levantamos aqui diferentes aspectos, mas há um elemento comum a essas diferentes situações, inerente à própria ferramenta, que nos ajuda nessa reflexão. A rapidez no repasse das informações, reconhecida como um valor (saber rápido, saber primeiro)  muitas vezes é responsável pela sua superficialidade na divulgação e, também, na análise, que deveria ser mais profunda, comprovando que o tempo pode ser um inimigo das reflexões sensíveis e contextualizadas sobre ações de crianças e de suas famílias. Todos precisamos conviver por segundos, horas ou dias antes de ser contra ou a favor de qualquer coisa. O tempo do whatsapp é quase imediato sendo que poucas coisas são entendidas e, muito menos, equacionadas imediatamente. O tempo da urgência que o whattsap estabelece propõe uma ingestão de coisas sem mastigação, sem digestão e, com isso, criamos outros tipos de urgência em relação à vida de nossas crianças. Quem nos ajuda a estabelecer a relação entre o que é urgente e o que é importante  para as nossas vidas e de nossas crianças?

E você, quais são as suas experiências nesses grupos? Que questionamentos você tem sobre o tema? Vamos nos arriscar, em um próximo texto, a elencar alguns caminhos e limites que possam orientar os pais/escolas no uso dessa ferramenta. Para tanto, gostaríamos da sua colaboração. Vamos lá?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

INFÂNCIA FORA DA ASA

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEsse é o título do primeiro livro do Papo de Pracinha. Por que “Infância Fora da Asa”? Manoel de Barros, nosso querido poeta, que tanto valoriza a infância e a natureza, foi nossa inspiração, com seus versos que traduzem muito do que pensamos. Ele diz:  “Poesia é voar fora da asa”. E o que isso nos diz sobre a infância e as crianças? Para nós, as crianças são seres poéticos, que não se enquadram em molduras e modelos. São seres carregados de poesia nos seus modos de pensar e agir sobre o mundo, cujo percurso não pode ser previsto, posto que é sempre inusitado, desconhecido, inesperado, curioso, imaginativo e brincante. Crianças rompem frequentemente com os limites que nós, adultos, definimos para elas. Crianças voam fora da asa. Assim, a Infância precisa ser pensada fora da asa, de um modo inteiro e sensível, que contemple suas diferentes dimensões e especificidades, para além do olhar adulto que a aprisiona. É preciso ir além do instituído, é preciso voar fora da asa.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme


texto_proprioOs melhores textos do Papo de Pracinha vão virar livro, mas para que isso aconteça precisamos da sua colaboração. Participe. Colabore. Você não vai perder, não é? Clique aqui e saiba como.

Educar com liberdade não é educar sem limites: continuando a conversa.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioNosso texto da semana passada Educar com liberdade não é educar sem limites mexeu com muita gente! Falamos sobre a tensão entre garantir a liberdade e a necessidade de colocar limites para a criança. Liberdade, para que ela possa fazer suas escolhas e participar daquilo que lhe diz respeito, e limites, para que ela possa participar da vida coletiva, se relacionar com os outros e atuar no mundo de forma solidária e responsável. Esse é um tema polêmico e ao mesmo tempo muito presente para pais e mães que pensam/refletem/decidem sobre a educação de seus filhos, buscando coerência com seus valores e com o que desejam para eles, no presente e no futuro.

Fizemos algumas perguntas aos leitores: de que forma definir limites, sem ferir o respeito às crianças e cercear as suas possibilidades de autonomia e participação? Qual a relação entre liberdade e limites? Que tipo de participação a criança pequena pode ter nas escolhas e rotinas da sua vida cotidiana, na escola ou na família? É possível construir a autonomia da criança desde pequena? Ficamos felizes com as contribuições que recebemos e traremos aqui algumas delas para continuar as nossas reflexões.

Comecemos com B. (mãe e psicóloga):

Este texto do Papo de Pracinha nos chega na mesma semana em que o jogo “Baleia Azul” tomou conta da mídia e das redes sociais suscitando questões  diretamente ligadas ao tema da liberdade na educação de crianças e jovens. A este respeito, um meme que se tornou viral foi o de um chinelo azul onde, em tom jocoso, pais eram convocados a resolverem o problema de supostos suicídios e auto-mutilações ligados ao jogo através de chineladas!

 chinelo azul

 O fato de o meme ter se tornado viral indica a alta receptividade que o castigo tem na nossa cultura como concepção de prática educativa eficiente, onde ainda impera o antigo dito popular “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Assim, talvez, uma pista para compreender a rejeição por escolas que conferem mais liberdade e autonomia aos alunos possa estar na nossa tradição cultural autoritária representada pelo sucesso da piada “do chinelo azul.

B. chama a nossa atenção para a cultura do castigo, tão impregnada nos modos de pensar a educação de crianças e jovens. Frases como “é de pequeno que se torce o pepino”, “não há nada que uma boa chinelada não resolva” são mesmo comumente usadas para ressaltar/valorizar/justificar o poder dos adultos e o modo como estes subjugam as crianças, pregando e praticando uma educação que não admite qualquer grau de liberdade ou participação delas. Concordamos que, efetivamente, essa seja uma das razões para a rejeição por escolas que têm a liberdade e a autonomia como princípios. Neste caso, em função de uma oposição radical a esses princípios.

Mas, mesmo os adultos que se opõem a uma educação autoritária, aquela em que a criança não tem voz, muitas vezes se assustam com a liberdade das crianças, pois isso implica lidar com a imprevisibilidade, a abertura para o novo, a descontinuidade e a perda do seu próprio poder de controle. Para conferir liberdade às crianças é preciso que os adultos abram mão do porto seguro do seu controle e da ordem, geralmente baseados em normas arbitrárias definidas sem a participação das crianças. Ainda que esta ordem sempre possa ser desviada ou questionada pelas crianças, provocando rupturas nas práticas disciplinares, os modelos autoritários de educação representam, sem dúvida, um caminho conhecido e previsível e, talvez, mais  seguro (pelo menos aparentemente) para os adultos. O fato é que muitos pais optam por caminhos mais conhecidos (muitas vezes parecidos com os que eles trilharam) e as escolas “tradicionais” aparecem como uma opção mais confortável.

Vejam o que diz F. (mãe): É importante estimular a autonomia através de tarefas do dia a dia para que a criança adquira auto confiança! Mas em relação à escola, prefiro errar para mais do que para menos quando o assunto é disciplina e cobrança. Acredito que talvez percamos em criatividade, mas ter a possibilidade da criança confundir liberdade com falta de respeito ou de responsabilidade, me faz optar pelas tradicionais. Nesse caso, F. demonstra uma preocupação com algo que comentamos no texto anterior, que é “a dificuldade percebida em muitas dessas escolas de colocar em prática a liberdade como eixo do trabalho com as crianças. Não é incomum que, nessa busca de construir práticas que atendam aos princípios de liberdade, respeito e  participação das crianças, o trabalho educativo se apresente pouco estruturado e a  liberdade seja confundida com ausência de limites.”

É interessante observar também que a mãe F. se coloca no lugar de quem erraria sempre nessa escolha, para mais ou para menos, como ela diz. Mas perguntamos: o que é mais e o que é menos quando o assunto é disciplina? Ou liberdade e limites?

Agora vejam como aquele primeiro comentário, de B. (mãe, psicóloga), tem a ver com o que diz T. (mãe).

(…) posso dizer uma coisa, deixar os filhos terem um mínimo de autonomia e escolhas em suas vidas assusta a maioria das pessoas, eu e meu marido somos frequentemente vistos como pais “easy going” demais, e eu não concordo! Acho importante eles [as crianças] poderem tomar decisões, ainda que pequenas.

Eu e P.(pai) concordamos que nossos filhos devem aprender experimentando, vivenciando e isso normalmente ocorre por suas próprias decisões, após esclarecermos as  consequências (boas e ruins) de suas possibilidades de escolha. Exemplo: [ se querem ] correr de chinelos de dedo, explicamos que existe um risco maior de se “estabacar” com a cara no chão, e eles decidem se correrão ou não esse risco. Óbvio, não expomos nossos filhos a riscos graves, como entrar na piscina com ou sem boia quando não sabe nadar, nem transferimos a responsabilidade de  decidir sobre algo que eles não são capazes de decidir. [Mas] tentamos criar nossos filhos de forma livre dentro dos limites que estabelecemos para eles, e há espaço pra que eles possam avaliar e tomar suas pequenas mas importantes decisões. 

 T. sente o incômodo que a sua forma de educar provoca nas pessoas, chegando a ser vista como “easy going”, “liberais e inconsequentes” Talvez isso se deva a termos ainda como modelo de educação dominante o do “chinelo azul”. Será?

O que T. e P. demonstram considerar importante é envolver as crianças, sempre que possível,  nas decisões sobre o que lhes diz respeito, promovendo o exercício da escolha, da participação e da responsabilidade pelo que fazem. E isso é algo fundamental para a conquista da autonomia da criança. Por que não deixá-la participar da decisão sobre a melhor forma e hora de guardar os brinquedos, da escolha da roupa que irá vestir, a hora em que vai fazer a pesquisa ou tarefa de casa, também quando servem-se nos pratos, na hora das refeições, entre outras possibilidades?

T. comenta sobre a dificuldade que percebe em muitos pais em relação à colocação de limites para os filhos, e pensa que existe, de um lado, uma preguiça de lidar com a consequência de um SIM LIVRE e , por outro lado, também existe o desconforto de um NÃO NECESSÁRIO. E fecha essa ideia dizendo Educar dá trabalho.

Sim, dá mesmo, exige sobretudo a presença amorosa, generosa e segura dos pais, estimulando a autonomia, a liberdade e a participação das crianças e, ao mesmo tempo, dando-lhes os contornos/limites necessários para que tenham uma boa, democrática, respeitosa e responsável relação com os outros e com os espaços em que se inserem.

Em relação à escolha da escola, a mãe T. lembra que:

Muitos pais optam por escolas “fortes” por conta do mercado de trabalho que está cada vez mais concorrido etc., e tomam a decisão de colocar seus filhos de 6 anos em escolas que irão iniciar o processo de treinamento para o vestibular já na alfabetização, com muitos testes, muitos deveres de casa, com crianças lendo em duas línguas e escrevendo com letra cursiva e bastão com 5 anos. Filhos com futuro garantido, pais satisfeitos! Eu discordo disso. (…) Criança tem que brincar, sonhar, correr e, sim, aprender a ler e a escrever, mas de forma orgânica, sem competições e cobranças extremas. E sobre a sua escolha de escola, diz: eu pensei muito nas referências que tenho hoje e infelizmente não tive nenhuma referência de escolas mais “liberais”. Em contrapartida, tive somente referências positivas da escola onde ele estuda  hoje e o que mais importou foi ver que os ex-alunos que conheço dessa escola são pessoas que valorizam suas famílias e cultivam suas amizades. Além disso, possuem lembranças cheias de amor da escola, do incentivo ao esporte e contato com a natureza. Isso ultrapassou qualquer dúvida que eu tivesse e superou as questões que eu tinha sobre ser uma escola religiosa. A decisão foi acertada, pois meu filho está super adaptado e feliz.

 Chamamos a atenção para algumas expressões significativas e bastante arraigadas na nossa sociedade, que polarizam as escolas entre “fortes e fracas”, as decisões de pai e mãe “erradas para mais ou para menos”, quando falamos em liberdade, em autonomia e em limites na vida escolar. Vamos retomar essa discussão com o que nos foi dito por alguns/algumas educadoras para tentar oferecer ainda outros elementos para enriquecer a reflexão.

Ficamos nos perguntando se, e em que medida, precisaríamos conhecer mais sobre como se dá o processo de aprender, como as crianças constituem conhecimentos novos na relação com a experiência com outras crianças, pautadas nas interações sociais e na linguagem que sustenta e organiza o pensamento. Ao conversarem umas com as outras, saindo dos lugares estabelecidos para elas, para ir ao encontro de outras crianças com quem desejam falar, poderia ser  considerado como desobediência? Ou como falta de limites e de disciplina? E caladinhos e sentados, aprenderiam mais e melhor? São pontos importantes que precisamos levantar!

Há muito ainda o que dizer sobre o tema e na próxima semana pretendemos continuar o debate colocando foco maior nas escolas, no que se refere aos princípios de autonomia, participação e liberdade, no qual traremos outras contribuições dos leitores.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Tapas, mordidas e puxões de cabelo entre crianças.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Uma mãe, amiga da pracinha nos procurou com alguma preocupação. Ela foi chamada na “escola” do filho, que tem quase dois anos, para tentar entender, junto com a professora, o que está acontecendo, pois ele está batendo nos amigos às vezes e, também, batendo com a cabeça no chão e na parede, quando contrariado.

Existe uma tendência. Quase sempre, quando a escola chama os pais para conversar sobre seus filhos, na grande maioria das vezes, é feito o anúncio de algum problema em relação à criança. É sempre assim? Deve ser assim? Pois é, sabemos que não. Defendemos a parceria e a proximidade casa-escola para gerenciar essas questões, que não necessariamente significam um problema da criança, podendo estar relacionado com o próprio processo de desenvolvimento ou com relações que se constroem no contexto da própria escola. Na verdade, as próprias crianças, mesmo com quatro ou cinco anos,  já sabem que um convite para os pais irem à escola pode ser indicativo de problemas. Isso é fato, acontece muito ainda,  mas pode ser diferente.

Sair da escola do seu filho/a com uma batata quente na mão e alguns sustos no coração não é simples, nem confortável. Vários motivos levam a mãe e/ou o pai a pensar que morder, empurrar, puxar cabelos e até bater a cabeça na parede etc. são consequências diretas de “problemas em casa” que podem ser resolvidos pelos pais. Mas não é assim. E, nesse processo, os adultos tomam para si certas responsabilidades mescladas de culpas que não existem, ou que são hiperdimensionadas devido a um conjunto de fantasias equivocadas que são construídas culturalmente. Seriam os filhos um rebatimento direto do que são seu pai e sua mãe?  Seriam os seus filhos crianças que agem de “forma errada” (???) porque estão longe do controle dos adultos? Seriam eles agressivos ou violentos porque começam a apresentar certos comportamentos nem sempre doces, ternos e conciliadores?

Na nossa opinião, as escolas de crianças poderiam se antecipar e conversar com os pais desmistificando certos medos e preocupações dos adultos diante de alguns comportamentos que são bastante comuns entre as crianças, sem rotulá-las e sem colocá-las em “formas de comportamentos previstos” para cada idade, não se trata disso.

Crianças em geral a partir de 18 meses começam a perceber a sua potência e força para lutar pelo que querem e, se possível, alcançar seus objetivos com agilidade. Vale o aqui e o agora, para elas. Em segundos, a bola que todos disputavam pode estar abandonada num canto da sala. E todos estarem atrás de uma panelinha, velha e quebradinha. Acontece.

Nem sempre as formas que as crianças desenvolvem para “impor sua vontade” são delicadas devido a sua incapacidade temporária para negociar, para entender o seu desejo e o dos amigos, e mais, para conseguir transformar isso tudo em linguagem socialmente compreensível, em linguagem produtiva que permita pactos e acordos.

Crianças em torno dos dois anos e, às vezes, até bem mais tarde, procuram resolver impasses e atender aos seus desejos com o corpo, com o esquema melhor organizado que dispõem. E, vamos combinar, que embora isso não indique agressividade, nós adultos nos aborrecemos, queríamos ter filhos gostosos e educados, quase uns “Ghandis” quando, na verdade, na hora da mordida, do empurrão e da cabeçada nada disso esteja exatamente em jogo.

Para concluir, mãe amiga da pracinha, pedimos a você que não aceite esse lugar comum de mulher e mãe de filhos de faz-de-conta, filhos de livros de poesia, suaves e cor de rosa, sempre.

Alguma agressividade usada na hora certa e sob o controle da sua criança, aos poucos, vai permitir que ela ande de bicicleta, jogue futebol na praça, mergulhe numa piscina. Alguma agressividade será sempre necessária para ser possível viver.  Converse com a sua criança sem expectativas outras, sem exageros e sem pressão, dê-lhe amor e tenha firmeza, sempre que necessário.  Parabéns, ele é bem normal e saudável.

Sobre mordidas, saiba mais aqui: A boca: mordidas, conhecimentos e experiências.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

“Transtorno do Déficit de Natureza”: vamos salvar nossas crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Quais são suas memórias de infância ligadas à natureza? Olhar o movimento que as pedrinhas jogadas fazem nas águas dos rios e lagos? Observar o caminho das formigas? Contemplar as folhas balançando ao vento? Tomar banho de rio? Inventar histórias tendo como palco rios, bambuzais, praias, quintais? Correr atrás de galinhas e patos? Fazer castelos de areia na praia? Brincar na terra de fazer comidinha? Lambuzar o corpo de lama?

E nossas crianças, será que mais tarde terão lembranças de experiências com a natureza?

Para o jornalista americano Richard Louv, as crianças da sociedade contemporânea, predominantemente urbana, estão sofrendo hoje de Transtorno do Déficit de Natureza! Ele criou esse termo para chamar a atenção sobre os prejuízos, físicos e mentais, associados a uma vida desconectada da natureza.  Em entrevista ao Instituto Alana[1], ele destaca, entre outros prejuízos, a redução do uso dos sentidos, dificuldades de atenção, taxas mais altas de doenças como miopia, obesidade infantil e adulta e  deficiência de vitamina D. Louv escreveu oito livros abordando temas relacionando família, natureza e comunidade, e é co-fundador do Children & Nature Network (Rede Criança e Natureza), uma organização internacional que desenvolve um movimento para conectar pessoas e comunidades com a natureza. A rede atua junto a líderes urbanos, para  que tornem as suas cidades melhores para as crianças e adultos, e também para a saúde da própria natureza e do nosso Planeta. A rede também divulga estudos que mostram os benefícios econômicos que a reconexão com a natureza pode trazer, como economias potenciais de vidas e de dinheiro, através da redução de doenças respiratórias, do sedentarismo e de problemas de saúde mental.

Nós, do Papo de Pracinha, temos defendido que as crianças precisam ter garantido o seu direito de brincar ao ar livre. As experiências de brincar livre em contato direto com a natureza são fundamentais para a saúde física e mental das crianças, promovendo o seu desenvolvimento em suas múltiplas dimensões. O brincar na natureza favorece, entre outros aspectos, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia, os processos de decisão, o olhar sensível sobre as coisas, a colaboração, a inclusão e o respeito às diferenças de idade, gênero e etnia. Por isso, nossos lemas têm sido: bora brincar lá fora! ou Crianças: ocupem as cidades!

Sabemos que o modelo de crescimento das cidades vem se fazendo a partir de uma lógica que privilegia a ampliação de edificações e vias/espaços para os automóveis e, como consequência, destrói/cobre áreas verdes e rios. A realidade para a maioria de nós, é que passamos a maior parte do nosso tempo, adultos e crianças, na escola, em casa ou no trabalho, em ambientes destituídos de natureza, muitas vezes predominantemente digitais. Claro que não podemos negar os avanços benéficos da tecnologia, mas é preciso que compensemos esse tempo com mais natureza, se não quisermos adoecer ou criar nossas crianças em total desconexão com a vida que pulsa na natureza e com o que ela nos oferece de saúde e bem-estar.

Mas não podemos ficar apenas lamentando essas perdas e esse déficit! Temos saídas, e algumas iniciativas vêm buscando promover essa aproximação das  pessoas e das cidades com a natureza. Você conhece alguma? Vamos nos aproximar dessas inovações que acontecem aqui e no mundo? Nossa ideia é trazer para o Papo de Pracinha alguns exemplos de cidades que se reestruturaram para oferecer mais natureza para as pessoas ou projetos mais específicos relacionados à natureza. Para aguçar a nossa curiosidade e provocar algumas reflexões, poderíamos nos perguntar:

  • Como seria a nossa cidade se elegesse dentro de suas prioridades a conexão das pessoas, especialmente das crianças, com a natureza?
  • E se as escolas tivessem como princípio e eixo organizador do seu espaço e de seu currículo a experiência direta com a natureza?
  • Como seria a saúde da população de uma cidade se a natureza estivesse nas prescrições de saúde das pessoas, desde o seu nascimento?
  • Que natureza ainda existe debaixo das ruas da nossa cidade? (conheça o Projeto Rios e Ruas)
  • O que eu posso fazer no plano individual/familiar para trazer mais natureza para a minha vida e a das crianças?

Quem quiser nos contar sobre alguma iniciativa, use esse espaço – blog ou facebook – ou nosso email: papodepacinha@gmail.com. Vamos adorar compartilhar essas experiências com nossos leitores.

Antes de encerrar nosso papo de hoje, gostaríamos de citar o Projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana, que vem desenvolvendo algumas iniciativas bacanas na cidade do Rio de Janeiro. Além de produzir publicações e seminários para discussão do tema, criaram algumas ferramentas: (1) os Grupos Natureza e Família, com um Guia Passo a Passo para ajudar as famílias a organizarem grupos que se encontrem para brincar com suas crianças em parques ou praças, fazer piquenique, fazer trilhas e caminhadas, fazer passeios guiados com foco em aspectos da natureza, entre outras possibilidades; (2) O Movimento Boa Praça  disponibiliza um manual que incentiva o uso e a apropriação de áreas verdes públicas; (3) o GPS da Natureza que ajuda crianças de todas as idades e suas famílias a descobrirem atividades divertidas ao ar livre, na área em questão, por meio de sugestões, como praia, unidade de conservação, incluindo previsão de duração e do clima.

Viver tendo uma relação direta com a natureza ensina as crianças, sobretudo, que somos uma pequena parte desse planeta vivo, imenso e rico, repleto de outros tipos de vida da qual dependemos, todos. E torna possível viver em regime de colaboração e respeito ativos num sistema integrado do qual dependemos todos uns dos outros.


[1] “Cidades mais ricas em natureza” – Entrevista com Richard Louv – Publicação do Instituto Alana – Criança e Natureza.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Carnaval na pracinha: máscaras, rabos e Ladybug

(*) Papo de Pracinha

1444722355_88As pracinhas e as ruas foram tomadas pelas festas de momo e, com elas, as crianças se fizeram presentes com sua alegria, usando fantasias interessantes, criativas e fresquinhas. Só que não, ou nem sempre.  Os palhaços, piratas, baianas, bailarinas e melindrosas tradicionais estiveram presentes, como sempre, e a cada ano em menor escala, dando espaço para os super-heróis, heroínas e vilãs da televisão e do cinema. Mas houve novidades, e lindas.

A campeã desse carnaval foi a heroína (podemos chamar assim?), Ladybug que vem encantando adultos e crianças pelos canais a cabo da televisão por meio da série de animação Miraculous Ladybug. Nada contra, mas se pode comprovar que a televisão ainda é um meio de distração e de entretenimento de muitas crianças, por muitas horas e cada vez mais cedo. E também de adultos porque conhecem a mocinha, destacam o bom gosto de sua roupa e compram (ou fazem, ou mandam fazer) a fantasia, tal e qual.  É uma graça mesmo já que usa uma cor forte, o vermelho, e as bolinhas pretas que lembram uma joaninha, sem faltar a máscara que encanta, seduz e torna tudo mais mágico ainda.

Para quem não conhece, a série em questão tem a cidade de Paris como cenário, e esta é protegida por dois personagens fortes, com superpoderes, diante da ameaça de risco, do mal. De um lado, a menina Marinette Dupain Cheng que se transforma em Ladybug, com o poder da sorte e, de outro, seu amigo e amor da escola, Adrien, que se transforma em Cat Noir, com o poder da má sorte. Esse antagonismo de poderes entre eles é desconhecido por ambos, ou seja, eles não sabem do poder de transformação do outro. Cat Noir este ano, quase não veio ao Rio.

Mas, interessa-nos aqui conversar sobre a fantasia em si, sobre a possibilidade de ser sem ser, de agir como se fosse um herói, um pássaro ou um avião, como uma prerrogativa característica do mundo das crianças que alcança os adultos, que pode ser mais ou menos alimentada, estimulada por eles, desde que sempre respeitando cada criança.

Há aquelas crianças mais soltas, que podemos chamar carinhosamente como “mais exibidas” que entram facilmente nas brincadeiras, que aceitam roupas, adereços e maquiagens etc. Mas há outras que não se sentem bem assim e que rejeitam a fantasia. Isso não é motivo para não participar da festa que, pelo calor carioca, exige uma roupa fresca e confortável, sempre, para todos.  Há famílias e casais que se fantasiam junto com suas crianças e assim a festa se torna mais interessante ainda para as crianças, já que agrega um núcleo de afetos pela fantasia e pela alegria da festa.  Há também os que não gostam de carnaval e que fogem dele, e esses precisam ser igualmente respeitados, mas aqui, dessa vez, estamos pensando nos que gostam e participam da festa, junto com suas crianças.

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Os super-heróis não faltam às festas, nunca, sejam eles: o Super Homem, o Batman, o Hulk (esse já tem idade!), o Woody, do Toy Story com chapéu, blusa quadriculada, calça comprida, e tantos outros. Todos muito bonitos e alegres, quando usados por crianças que se mostram felizes dentro de suas fantasias.  Será que elas se identificam com os personagens que vestem e que passam a ser, nessas festas?

Nós queremos exaltar aqui as crianças e famílias que não estiveram usando as fantasias mais caras, nem as mais brilhosas, talvez, mas aquelas que criativamente fizeram a partir de uma combinação de elementos que produziu personagens inusitados, diferenciados e engraçados. Esse também foi o carnaval da magia da criação. Vimos mães, pais e filhos com roupas de palhaço coloridas, fresquinhas e maquiagens onde cada um carregava nas mãos, por exemplo, um “objeto circense” se é que podemos chamar assim: um prato num canudo grosso para a criança palhacinha se passar pelo equilibrador de pratos, o pai carregava dois malabares e a mãe, pasmem, tinha uma perna de pau mais baixa que o comum, mas ela as usava belamente, dançantemente.

Também foi o carnaval dos rabos e mascaras. Amamos!  Basta um rabo de macaco bem elaborado, preso com um elástico na cintura, um shortinho marrom, sem camisa e a máscara de macaco. Sensacional, resultado do trabalho de artistas, com orelhas e buraco nos olhos. Eram macacos, ativos e felizes.  Vimos também dinossauros nessa mesma onda, mãe e filho com rabos maravilhosos e bem feitos, lindos.

Bem as máscaras de pássaros e as asas coloridas, mais uma vez, encantaram a turma da pracinha pelo capricho, pela criatividade, beleza e originalidade.

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Queremos aplaudir, portanto, artistas e artesãos como a Fécula (www.fecula.tanlup.com), na criação dos mais lindos rabos, que coloriram e animaram a festa. E, também, aplaudir a turma da Elefoa (www.facebook.com/elefoa e @elefoa), que vem colorindo os corpos das crianças com as asas de aves mais lindas do mundo. Parabéns.

E, para fechar o carnaval com uma brincadeira, daríamos o Prêmio Papo de Pracinha àqueles que se pautaram em critérios de originalidade, beleza e conforto pautados no respeito pelas crianças.  E, ainda bem, não faltaram confetes, serpentinas nem as melhores marchinhas!

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(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

A entrada das crianças na creche ou na pré-escola: quem se adapta a quem?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Nossa conversa de hoje é sobre a entrada das crianças, pela primeira vez, numa instituição de Educação Infantil, processo bastante delicado e que geralmente coincide com esse momento que estamos vivendo: o início do calendário escolar.

Essa experiência é vivida pelas famílias de diferentes formas e geralmente envolve uma mistura de sentimentos que podem incluir: expectativa, alegria, preocupação, ansiedade, medo, culpa etc. Muitas perguntas e dúvidas surgem, já na escolha da unidade e, principalmente, durante o processo de entrada, trazendo muitos filtros para o olhar dos pais sobre esse novo espaço: como os adultos cuidarão do meu filho ou da minha filha? Atenderão às suas necessidades? Lhe darão afeto e carinho? O espaço é seguro? Meu filho conseguirá ficar longe de nós? Chorará muito? A alimentação é bem cuidada? Comerá bem? Pegará muitas viroses? O que as crianças fazem nesse espaço?

Essa última pergunta, que muitas vezes ocupa um lugar menos importante diante das demais preocupações mencionadas acima – relacionadas a questões de segurança, alimentação, bem-estar e afeto – é de extrema importância, até mesmo para a garantia desses aspectos e, também, para esse momento da entrada da criança numa unidade de Educação Infantil. O que elas fazem nesse espaço pode atraí-las e convidá-las a ali permanecer, ou não! Organizar, dinamizar e acompanhar o que a criança faz numa unidade de Educação Infantil é uma responsabilidade que se situa do campo específico da Educação. Nesse sentido, chamamos a atenção para o papel fundamental do professor na organização do cotidiano das crianças e na condução da dinâmica desse  encontro entre as crianças e destas com os adultos, os espaços e os objetos. Obviamente que isso se faz em parceria com os demais profissionais que fazem parte da equipe, lembrando que porteiro, equipe da cozinha e da limpeza, pessoal da administração, especialistas de diversas áreas e auxiliares são todos educadores.

Não é difícil dimensionar a importância do momento da entrada de um(a) filho(a) numa Creche ou Pré-Escola, geralmente chamado de adaptação, para as crianças e também para as suas famílias: as crianças estarão entrando em um mundo onde tudo é novo e que constituirá o início de sua experiência escolar; estará uma parte do seu dia (muitas vezes a maior parte) num espaço diferente da sua casa, das suas referências, interagindo com outros adultos, outras crianças, objetos e espaços; viverá provavelmente a sua primeira experiência coletiva fora da família, compartilhando um espaço regulado por regras próprias e onde criará novos vínculos com adultos e crianças. Os pais, por sua vez, estarão passando para terceiros os cuidados e  a educação de sua criança e precisarão construir uma relação de confiança com  a equipe e a proposta da unidade que escolheram. Isso não é pouca coisa!

Será que adaptação é a melhor palavra para nomear esse momento? Vamos pensar: adaptação é um termo associado a uma ideia de passividade, de conformidade a um contexto pré-estabelecido. Na verdade, o termo é coerente com muitas práticas e concepções na Educação Infantil, nas quais as crianças precisam se adequar ao que está posto, não tendo a sua singularidade e modos próprios de ser, agir e sentir contemplados no processo de entrada na creche ou pré-escola. Já temos hoje algumas experiências na Educação Infantil que nomeiam esse  processo de outras formas, tais como acolhimento, ambientação ou inserção, enfatizando um movimento de receber a criança, de preparar a sua entrada, de incluí-la com sua presença ativa e singular naquele espaço. É importante lembrar também que a entrada de novas crianças também provoca alterações no espaço, nos adultos e nas relações entre as crianças.

Como esse momento é planejado pelas instituições? Algumas organizam pequenos grupos em períodos que aumentam progressivamente e que variam de acordo com a faixa etária: quanto menor a criança menos tempo ficam inicialmente: geralmente 1 hora no primeiro dia, aumentando o tempo a cada dia até completar o período em que a criança ficará na unidade. Isso se justifica por se  entender que as crianças precisam lidar com muitas informações novas desse novo espaço e que é preciso não sobrecarregá-las, fazendo com que fiquem tempo suficiente para quererem voltar no outro dia. Algumas unidades incluem os pais no mesmo espaço que as crianças, em um período de tempo que varia entre uma a duas semanas, planejando com estes o seu afastamento, à medida que sentem que a criança pode ficar sozinha junto ao seu grupo. Neste caso, geralmente os pais ainda permanecem na escola durante um tempo, de modo que possam ser acessados sempre que a criança solicitar, até que possam sair quando a criança se sente segura de ficar sem eles. Isso facilita a construção de uma relação de confiança e de segurança nesse novo espaço, tanto para as crianças como para suas famílias. Outras preferem que os pais fiquem desde o início em um espaço diferente daquele em que a criança ficará, permitindo apenas que fiquem na escola. Sabemos, portanto, que existem diversas formas de receber as novas crianças e suas famílias nas unidades de Educação Infantil, mas uma coisa é certa: é fundamental haver um planejamento e um respeito e cuidado para que esse momento seja o mais tranquilo possível para a criança, suas famílias e a instituição.

É comum o foco do processo de acolhimento se voltar prioritariamente para a criação de vínculos afetivos entre a criança e um adulto, esquecendo-se de valorizar outros aspectos que também são fundamentais para a ambientação da criança. Esta é um sujeito competente, que não está presente apenas para receber o que lhe oferecem, mas está ali ativamente estabelecendo relações com esse novo espaço, interagindo com os objetos, pessoas e experiências que ali vive. É claro que os vínculos com os adultos (o professor e os demais profissionais que compõem a equipe) são fundamentais, pois é imprescindível que estes se coloquem próximos às crianças, com atitude de empatia e de escuta para com elas, apoiando-as a ingressar nesse novo ambiente! Mas os vínculos adulto-criança não podem ser o único foco desse processo, é necessário valorizar outros aspectos. Vejamos alguns deles:

  • As interações entre as crianças: estas concorrem para o desenvolvimento e bem-estar delas e para a sua motivação em estar nesse espaço e fazer parte desse grupo.
  • A organização do espaço: deve favorecer as interações, a brincadeira e a autonomia das crianças, contendo mobiliário, objetos e brinquedos interessantes que convidem as crianças a manipulá-los e a fazer suas descobertas, bem como propostas de atividades que promovam o desenvolvimento da criança em suas diferentes dimensões; o espaço deve ser seguro e atraente permitindo que as crianças reconheçam nele as possibilidades de explorar e brincar.
  • Sistema de referência: o adulto é uma referência para a criança, mas faz parte de um sistema de referência organizado com muito cuidado, que inclui os espaços, os tempos, os objetos e a presença dos professores e demais profissionais.
  • O educador desempenha a função de apoiar, facilitar e ampliar as relações entre a criança e o ambiente, a partir de um senso de responsabilidade e respeito por ela.
  • Relação de confiança e aliança entre a equipe e os pais: a educação e o cuidado da criança serão compartilhados pela família e pela instituição, principalmente pelos professores responsáveis pelos grupos, por isso, é imprescindível a escuta mútua.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme