Educar com liberdade não é educar sem limites: vamos falar da escola?

(*) Papo de pracinha

texto_proprio Como prometemos, para concluir a nossa série de textos “Educar com liberdade não é educar sem limites”, falaremos hoje da escola, ou melhor, do que esperar na prática de escolas que apostam em suas propostas educativas na liberdade, na participação e na autonomia das crianças. E, mais uma vez, traremos as contribuições de algumas de nossas leitoras.

O que observar para além do discurso sobre a proposta pedagógica da instituição? O que observar no espaço? Na rotina? Nas atividades? Nas interações?

Já comentamos que as opções de escolas nessa linha não são muitas e, além disso, entre as propostas existentes, muitas vezes há uma certa confusão na prática do que significa a liberdade, o diálogo, a participação da criança na construção dos limites e possibilidades de atuação no espaço e nas relações com seus pares e com os adultos. Mas como perceber isso? Diante das dificuldades de fazer essa escolha, é melhor optar pelo já conhecido?

Para C. (educadora), o mais importante é que os pais procurem uma escola que tenha uma metodologia e um projeto Politico Pedagógico que se aproxime da forma que eles veem o mundo. Se em casa propõem uma educação mais autoritária, uma escola dessa forma será bem vinda e o oposto também é verdadeiro.  Digo isso, pois muitas vezes os pais escolhem pela proximidade, preço e outros fatores, mas depois ficam insatisfeitos, questionando o trabalho e deixando a criança insegura por perceber que os pais não confiam na escola.

C. toca num ponto importante que é a confiança que os pais precisam ter na escola, para que seus filhos, e eles também, se sintam bem naquele espaço e possam estabelecer uma relação de parceria com a instituição. Mas essa escolha, para a maioria das leitoras que nos enviaram contribuições, foi/é difícil. Algumas, mesmo adotando na educação dos seus filhos uma prática mais democrática e baseada na participação e no diálogo, optaram por escolas mais tradicionais. No entanto, essa opção foi consciente, em função das referências que os pais tinham de pessoas que passaram pela escola e que hoje valorizam suas famílias e cultivam suas amizades. Além disso, possuem lembranças cheias de amor da escola, do incentivo ao esporte e contato com a natureza (T. mãe). Outras mães buscaram escolas que se aproximassem mais de sua forma de educar, priorizando uma maior liberdade para suas crianças.

A. (mãe e professora universitária), por exemplo, nos falou do longo processo de escolha de escola para o seu filho de 10 meses, com visitas a todas as instituições das redondezas e muitas surpresas com os discursos: os discursos são muito parecidos, os termos do campo acadêmico como construtivismo, protagonismo infantil, cultura do lúdico e autonomia do pensamento estavam tanto em creches que prezavam por esses princípios como em creches nas quais a distribuição do espaço e as produções expostas nas paredes indicavam que as práticas estavam centradas na pouca participação das crianças ou preparação para o ensino fundamental.

Essa é uma questão bastante complicada, pois realmente os discursos de muitas escolas hoje são quase uniformizados!  Como identificar o que cada instituição realmente pratica em termos de educação?

A. continua: outro aspecto que também chamou nossa atenção foi a excessiva assepsia de algumas instituições que pareciam não ter crianças em seus ambientes. E, ainda assim, adotam o discurso do lúdico! É preciso mesmo desconfiar, como fez A., quando nos deparamos com escolas assim, pois onde há crianças brincando, não tem como estar tudo em perfeita ordem! Há uma bagunça que é inerente à brincadeira, às ações e interações entre as crianças. Por exemplo: seu filho sai da escola sempre com a blusa limpinha? Desconfie se isso for verdade! Certamente, os adultos devem estar conduzindo as suas mãos nas suas produções, para não haver sujeira e para expor “trabalhinhos” lindos nos murais! Mas o que é beleza quando se trata das produções das crianças? Pensem sobre isso!

Após esse primeiro reconhecimento das escolas que ficam no entorno de casa,  A. e o marido decidiram priorizar observar alguns aspectos nas outras visitas que fizeram:   se a organização das salas dava espaço para as interações entre as crianças, a natureza dos trabalhos expostos nos murais, a presença e o acesso de livros e o estado dos brinquedos; livros perfeitinhos e brinquedos ‘quase como saídos das suas caixas’ nos indicavam o pouco manuseio por parte das crianças. A escola escolhida tem pouco espaço físico, mas optou por substituir as paredes das salas por cortinas, assim, as crianças têm a oportunidade de transitar pelos ambientes e escolher as atividades que mais lhe interessam, isso também indica a proximidade entre nosso filho e todos os adultos e crianças da escola, para além de sua turma. É uma escola que, como todas as outras, apresenta contradições, mas o que chamou atenção positivamente é que essas contradições não são ocultadas das famílias. Essa é uma creche também que não estimula o consumo e tanto na escola como fora dela as festas e outros eventos são simples, centrados nas crianças. O uso do uniforme não é obrigatório e a criança pode chegar ao longo do turno, o que nos permite respeitar o horário do sono e chegar por exemplo quase “uma hora atrasados”.  

A. destaca alguns aspectos fundamentais a serem observados na rotina e nos espaços organizados pelas escolas: a possibilidade de movimentação livre e exploração dos materiais pelas crianças, de escolha de atividades e de interações entre as crianças e destas com os adultos. Outro aspecto, que também consideramos muito importante, no mundo em que vivemos, cada vez mais materialista e competitivo, é o não incentivo ao consumo e uma aposta na simplicidade, nas relações sociais afetivas e cooperativas.

Diante dessas questões, vamos trazer aqui alguns aspectos que, a nosso ver, deveriam estar presentes em escolas mais “abertas” à liberdade e à participação das crianças. De forma alguma queremos uniformizar ou trazer receitas de como desenvolver uma educação mais democrática. O mundo é muito complexo e contraditório para tanto! São apenas princípios que nos dão um caminho para a reflexão e para a construção de um olhar sensível para essa questão:

  1. A oposição a uma educação autoritária não significa o apagamento da figura do professor/do adulto! Este precisa ter uma presença segura, generosa e responsável, que desafia as crianças para a autonomia e a liberdade e, ao mesmo tempo, assegura o seu bem-estar e a sua segurança.
  2. O professor precisa atuar tanto na perspectiva individual como coletiva, garantindo o atendimento às necessidades de cada criança e uma relação com os outros e com os espaços, de respeito e de participação.
  3. As escolhas e as decisões das crianças precisam ser feitas com base em limites e possibilidades claros para todos e que se constroem com a participação delas. A garantia de um espaço de liberdade para as crianças exige que os adultos lhes forneçam as referências necessárias para que elas se situem naquele espaço e possam realizar suas escolhas e descobertas.
  4. A autonomia e a participação não se alcançam de uma hora para outra, mas sim por meio da experiência de tomar parte nas decisões que afetam o seu cotidiano, aprendendo a assumir as consequências da sua decisão. Assim, é preciso que a escola ofereça oportunidades diversas para que as crianças expressem suas opiniões, sentimentos e conhecimentos e, ao mesmo tempo, que os adultos saibam escutá-las verdadeiramente.
  5. É preciso haver espaço e tempo para o brincar livre, pois esta é a atividade central da criança, constituindo o principal modo pelo qual ela conhece a si mesma e o mundo ao seu redor.
  6. As crianças precisam exercer o seu direito de curiosamente explorar o ambiente ao seu redor, acessar conhecimentos que lhes permitam compreender o mundo e reelaborá-los/construir novos conhecimentos a partir de suas ferramentas e liberdade para pensar. Para tanto, é importante que tenham autonomia para agir e ferramentas, materiais e informações ao seu dispor para fazer suas escolhas, associações e reinvenções.
  7. Para criar é preciso ter referências e materiais variados. Estes são contornos a partir dos quais a criança ganha confiança e liberdade para pensar e se expressar criativamente.
  8. É fundamental favorecer e respeitar a livre expressão da criança, nas suas diferentes linguagens! A beleza do trabalho na educação infantil envolve a singularidade e a riqueza das produções das crianças: através da fala, do corpo, do desenho, da pintura, das construções, entre outras possibilidades.
  9. É importante a escola se abrir para fora, ocupando também os espaços da cidade, principalmente oferecendo à criança o convívio com a natureza, na perspectiva de promover uma relação sensível com o mundo e de cuidado com o ambiente e a cidade em que vive.

Com tudo isso, vemos como é grande e diferenciada a responsabilidade do professor que atua com crianças nas instituições de educação infantil! Ele não pode ser apenas a “tia” carinhosa que cuida bem das crianças! É preciso, entre outros aspectos, que ele conheça o desenvolvimento infantil, seja sensível à cultura infantil e compreenda os processos de aprendizagem da criança. Nosso próximo texto falará sobre isso. Não percam!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

A “escolha de Sophia”: o olhar preconceituoso do adulto.

(*) Papo de Pracinha

Sobre notícia do portal Globo.com em 04.04.2017

texto_proprio Viralizou pela internet a história da linda Sophia Benner que escolheu, numa loja de brinquedos, uma boneca negra e não branca como ela é.

O fato de essa notícia ter sido destaque na mídia, para nós, por si só, não engrandece a escolha dessa criança nem justifica o olhar dos adultos para a escolha dela. Quando acompanhamos e estudamos crianças podemos verificar que os seus desejos, seus medos, suas escolhas não expressam linearmente o que seus pais, os seus adultos de referência e até a mídia esperam dela. E crianças de uma mesma família, de mesmo gênero e de idades semelhantes poderiam fazer escolhas bastante diferenciadas.

Para demonstrar a nossa preocupação, precisamos destacar algumas questões. A primeira delas consiste no fato de as crianças não serem uma audiência homogênea, pasteurizada e, portanto, não se submeterem aos padrões impostos pelos adultos, nem pela mídia, sem reservas. Nesse caso, a pequena Sophia foi levada a uma loja para escolher um brinquedo e nenhum de nós pode afirmar categoricamente o porquê de sua escolha, nem os valores que estão por trás dessa escolha. Quem disse que os brinquedos devem ser semelhantes aos seus donos, para encantá-los?

Bem, a atitude da Sophia soa bonita, sim. Sugere uma proximidade importante entre crianças e pessoas de diferentes etnias, sim. Mas sem o olhar preconceituoso dos adultos que a cercam, essa notícia não teria esse destaque.

Ninguém se prendeu ao objeto da sua escolha (por que uma boneca), o preço do presente (possibilidades reais de compra), se seria a boneca pesada demais ou leve para ser carregada pela menina? Se poderia tomar banho com Sophia, ou não? Se a boneca tem cabelo para ser penteado, ou não? E nem, tampouco, se seria bom para a vida de sua criança presenteá-la por ter se libertado das fraldas, coisa que não depende apenas da sua educação nem da sua vontade, mas de maturações de outra ordem.

Olhos preconceituosos questionaram a escolha de Sophia. A vendedora acusa que “ela poderia escolher uma boneca de presente e optou por um brinquedo de cor diferente da sua”, o que para nós é bastante curioso, no mínimo! E seguiu confrontando a escolha da criança: “tem certeza que é essa que você quer, querida? Ela não se parece com você. Temos muitas outras que se parecem mais com você”.

Sophia, com apenas 2 anos, respondeu: “Sim, ela se parece comigo. Ela é uma médica, como eu sou uma médica. Eu sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Você vê o cabelo bonito dela? E o estetoscópio dela?”, respondeu Sophia, admirada com o novo brinquedo. E muitos vivas para a Sophia que soube explicar muito bem a sua escolha, sem ter dado destaque à cor da pele da boneca, tal como fizeram a vendedora e também sua mãe. Os olhos preconceituosos desses adultos justificaram espalhar a atitude da Sophia pela internet mesmo sem terem “escutado” a criança, os motivos de sua escolha. Bacana é perceber que os dois anos de vida não a impediram de contestar a vendedora.

Ponto para Sophia por saber brigar pelo que quer. Bobo e preconceituoso dar destaque à escolha da criança sem que a questão étnica estivesse em pauta em sua vida, no auge dos seus dois anos de vida. Quem quer fazer sucesso com essa notícia?

Leia na íntegra aqui.

Imagem (fonte): Reprodução Facebook

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Tais e quais: filhos e pais com roupas iguais

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Há lojas especializadas na oferta de roupas iguais para mães e filhas, pais e filhos. Eventualmente vemos famílias com crianças vestidas com o mesmo modelo, tecido e cor que seus adultos de referência, em geral, em situação de festa.

Isso é bom ou é ruim para as crianças? Não podemos dizer que todas elas reajam igual a isso e, também, precisaríamos saber porque os pais optam por vesti-los com roupas iguais às suas. Os desejos dos adultos que estão por trás das decisões sobre o vestuário podem ser mais comprometedores do que o uso das roupas, em si. Podemos garantir que, na maioria dos casos, os ônus dessa estratégia acabem recaindo sobre as crianças. Vaidade exagerada? Valorização dos laços? Importa mostrar o quê, para os outros? Não sabemos.

Será que as crianças percebem e valorizam o uso de roupas iguais às de seus pais?

Sabe-se que a constituição da identidade de cada criança passa por um reconhecimento de si como alguém diferente e único, também em relação aos pais. Sendo assim, embora possamos entender as roupas como um adereço, é preciso pensar no que pensam os pais quando vestem seus filhos como se fossem adultos ou, por um outro ponto de vista, porque se vestem como crianças, já que o vestuário de um e de outro são bastante diferentes.

Uma outra questão se refere a irmãos gêmeos que são vestidos com roupas iguais, o que muitas vezes dificulta até o reconhecimento de cada um, quando são muito parecidos. E há, ainda, aquelas famílias que optam por vestir filhas meninas com roupas iguais e, da mesma forma agem em relação aos filhos homens. Por quê? Para quê?

Bem, os amigos da pracinha pediram para discutirmos esse assunto que poderia, em tese, ser da alçada de cada família, mas que, também, pode expressar alguns desejos, conscientes ou não, desses adultos, que podem acabar por pasteurizar, homogeneizar crianças que são diferentes, embora sejam irmãos, ou pais e filhos.

Escolher a roupa que vestirão é uma questão de honra para a grande maioria das crianças, depois de uma certa idade, e isso acontece cada vez mais cedo. Vemos crianças com dois ou três anos fazendo birra para escolher a roupa que desejam usar. No caso das famílias em que os adultos e as crianças vestem roupas iguais, no mínimo, esses impasses poderão ampliar muito certas questões simples e temporárias na vida delas. Na deles, não sabemos dizer se são igualmente simples e temporárias, parece que não.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Coaching para crianças: sim ou não?

 

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioTermos novos surgem para designar coisas novas, coisas antigas e, também, para nomear combinações do antigo com o novo.

Falar em coaching, hoje, exige uma definição complementar que ilustre a que se destina, ou seja, que esclareça sobre todas as suas modalidades: pessoal, profissional, nutricional, financeiro, para performance, equipes, lideranças, esportes, empreendedorismo, para concursos, para tantas outras coisas e, também, para crianças.

O termo coaching (como um treinamento, uma consultoria, uma mentoria) vem sendo usado para designar um processo que deve ser orientado por um coach (tutor, treinador, mentor) e que tem uma metodologia que pode ser aplicada aos mais variados aspectos da vida humana. O termo usado, inicialmente nos esportes, parece agregar conhecimentos de áreas diferenciadas do saber como a Administração, a Psicologia, a Educação.  Vale informar que todas as informações sobre coachs e coaching para crianças citadas aqui foram recolhidas em diferentes sites da internet, em nome de pessoas ou grupos que defendem o uso da referida metodologia com crianças. Em todos os casos, o coaching tem como objetivo ajudar as pessoas a traçarem rotas, prevendo seus passos e percalços para acelerar a conquista de determinados resultados. Nesse sentido, torna-se importante entender de que maneira isso pode ser benéfico para a vida das crianças. É preciso lembrar que podemos chamar de crianças, tanto quem acabou de nascer, quanto quem vai completar ainda 12 anos de idade, como indica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Não há dúvida de que pais e mães, irmãos, amigos, terapeutas e educadores podem funcionar como “bons coachs” desde que seja relativizada a impressão de que tudo pode estar “sob controle” o tempo todo, já que há variáveis que podem vir a exigir mudança de metas, por exemplo, durante os percursos.

Para tentar responder a isso, é preciso lembrar que crianças de mesma idade não são iguais, não têm os mesmos sonhos, temperamentos nem histórias de vida e,  assim,  não há metodologia adequada e nem benéfica a todas as crianças de uma mesma idade. As propostas de coaching para crianças a que tivemos acesso são organizada por faixa etária.

Outro fator importante a ser considerado é que o pensamento infantil costuma funcionar fortemente em função de desejos muito intensos e imediatos. As complexas noções de tempo e de espaço, que demoram para serem constituídas e, assim, poderem funcionar como “operações do pensamento”, dificultam a compreensão das crianças sobre as possibilidades reais de atendimento de muitos dos seus desejos. Nesse processo, elas vão viver conquistas e frustrações, vão precisar aprender a negociar, flexibilizar e redimensionar metas e objetivos para um mundo possível, seguro, ético e mais feliz, para eles próprios e para os outros.

Educar integralmente uma criança para a vida exige, além de favorecer o acesso aos conhecimentos historicamente construídos, fazer com que ela conheça seus limites, suas possibilidades, para que desenvolva inteligência e sensibilidade em variadas dimensões. Se quisermos concordar com Gardner, as inteligências seriam sete: Inteligência Linguística, Inteligência Musical, Inteligência Lógico-Matemática, Inteligência Espacial, Inteligência Cenestésica, Inteligência Interpessoal e Inteligência Intrapessoal.  A combinação de algumas dessas inteligências, já que para Gardner poucos têm as sete desenvolvidas, em doses diferenciadas e subjetivas, ajudaria cada criança a ter sonhos e a buscar realizar os que forem possíveis.

Também não há lugar mais para os antigos testes de QI que retratam uma ideia unitária, numérica e descontextualizada de inteligência, usada para comparar crianças em função de um número, maior ou menor, com vistas ao sucesso escolar. E sabemos todos, pais e profissionais, que, nos dias de hoje, não funcionam como gênios aqueles seres isolados, mesmo que altamente capacitados, que não tenham ampla possibilidade de compartilhar, de defender suas ideias, de lidar bem com críticas e oposições, de conhecer e administrar suas emoções. Isso, até no senso comum, hoje, já é conhecido como “Inteligência Emocional” ou Inteligência Social, tal como um dia a nomeou o psicólogo americano Daniel Goleman.

Se consideramos que crianças são curiosas e estão em permanente estado de aprendizado, de desenvolvimento e de mudanças, precisamos refletir se elas precisam de coachs para desenvolverem-se ou, em seu lugar, da convivência com outras crianças e com adultos que sejam seus guias, desafiadores, orientadores e protetores.

A alta competitividade que caracteriza o mundo moderno sugere que os processos de educação voltados para crianças não devam se voltar para treiná-las para que sejam os maiores, os melhores, nem líderes, até porque “aprender de verdade” não resulta de treinamentos de habilidades, nem em lideranças fabricadas.

Para conseguir alcançar sonhos e objetivos no campo pessoal e profissional, as crianças precisam ser, antes de mais nada, e sobretudo crianças, com direito a lutar pelo que querem e, também a chorar diante das frustrações que fatalmente acontecerão.

Adultos atentos, afetuosos e disponíveis internamente para acompanhar a infância das crianças, em família e na escola são seus guias preferenciais e não seus coachs.

“Trata-se da melhor e mais eficaz metodologia de desenvolvimento e capacitação humana existente na atualidade”: é o que anunciam, como um poderoso método que “promove mudanças permanentes e leva à conquista efetiva de sonhos e objetivos no âmbito pessoal e profissional”. Efetivamente, crianças não precisam de coachs para o seu desenvolvimento e aprendizagem, nem para promover mudanças de comportamentos. Em caso de distúrbios nos comportamentos infantis como ansiedade, apatia, insegurança excessiva etc., os adultos devem procurar bons profissionais da área de Psicologia para ajudá-las, junto com os professores da creche ou da escola, e não coachs.

Muito mais do que um coach, as crianças precisam de adultos – os pais, principalmente – que possam acompanhá-las e apoiá-las nos seus processos de construção de conhecimentos, habilidades e experiências, contribuindo para que constituam uma imagem positiva de si mesmas e ferramentas para compreender o mundo, atuar sobre ele de forma criativa, responsável e solidária e, sobretudo, para serem felizes!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

O Rio não é uma Cidade Educadora! Sabia?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Vocês sabiam que existe uma Rede Brasileira de Cidades Educadoras, composta de quatorze cidades: Belo Horizonte, Campo Novo do Parecis, Caxias do Sul, Dourados, Jequié, Montes Claros, Porto Alegre, Santiago, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São Paulo e Sorocaba? Ha várias cidades da América Latina que também compartilham esse conceito, em países como: Chile, Argentina, Colômbia, México, Uruguai, Bolívia e Equador.  Mas o Rio não é uma delas. Por que não? Como, não?

Bem, esse movimento se iniciou em 1990, durante o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras, em Barcelona e se fortaleceu em 1994, em Bolonha, Itália. Desde então, há um acordo firmado entre um grupo de cidades “representadas por seus governos locais, que pactuam o objetivo comum de trabalhar juntas em projetos e atividades para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, a partir da sua participação ativa na utilização e evolução da própria cidade e de acordo com a carta aprovada das Cidades Educadoras. ” (Na internet, http://portal.mec.gov.br/)

Para ser tornar uma Cidade Educadora o Rio precisaria se comprometer com princípios básicos que tomassem a cidade “como espaço de cultura, educando a escola e todos que circulam em seus espaços, e a escola, como palco do espetáculo da vida, educando a cidade numa troca de saberes e de competências” (Gadotti, 2016, p.133-134). E essa cidade que educa, segundo o mesmo autor, é uma cidade que valoriza o protagonismo de todos, que investe numa formação permanente “para e pela cidadania, além de suas funções tradicionais: econômica, social, política e de prestação de serviços. ”. E, nessa perspectiva, a Cidade Educadora é, mesmo, também um direito de todos.

Os princípios que regem as Cidades Educadoras são: trabalhar a escola como espaço comunitário, trabalhar a cidade como grande espaço educador, aprender na cidade, com a cidade e com as pessoas, valorizar o aprendizado vivencial e priorizar a formação de valores, pontos cruciais para a transformação que o Rio precisa.

No caso do Brasil, o Rio, junto com São Paulo, permanece sendo polo produtor, consumidor e disseminador de cultura, não por ser mais importante do que outras cidades, mas, principalmente, pela ação das mídias hegemônicas que tentam pautar a vida do país, pelo Sudeste, o que não é bom.  Precisamos aprender com outras Cidades Educadoras que já estão à nossa frente, promovendo suas mudanças e voltar o olhar para nossa cidade.  E isso é pra já!

O Papo de Pracinha apoia essa ideia. O Papo de Pracinha vem desenvolvendo ações variadas de modo a mudar esse cenário! Você quer nos ajudar? Como?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Luiza Gueiros

O susto do Papai Noel: terá que fazer dinheiro!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 O Papai Noel e a árvore de natal com suas bolas coloridas estão presentes na televisão, nas vitrines dos shoppings, nos supermercados e nas casas de todos, com mais ou menos detalhes e adornos.

As crianças, como produtoras e consumidoras de cultura, sonham em ganhar presentes e acreditam, enquanto podem, na magia do natal. E fazem suas cartinhas! Algumas famílias ainda estimulam isso e muitas instituições de educação infantil também.

Como fazemos todos os anos, procuramos ler respeitosamente algumas cartinhas de crianças contendo os seus pedidos, nunca para criticá-las, mas para entender por onde passam os seus desejos e sonhos.

Pelos pedidos, embora elas ainda acreditem que o bom velhinho fabrique artesanalmente, auxiliado por duendes, anõezinhos e elfos, os presentes solicitados por crianças do mundo todo, o que elas pedem nem sempre se coaduna com a crença que defendem. E no mundo mágico da infância isso pode ser perfeitamente compreendido.

Nesse ano, vivendo com os adultos uma imensa crise econômica e financeira no Brasil, as cartinhas parecem expressar o momento e buscar soluções, ainda que pessoais. As crianças, pela primeira vez com tanta intensidade, pedem explicitamente para “ganhar dinheiro” do Papai Noel: uns pedem vinte reais, há quem peça apenas dez reais e, ainda, um menino de 7 anos que pede um milhão de reais, e nada mais. Há também crianças que pedem brinquedos, ás vezes muitos e caros, duas que pedem um iphone 7 e uma menina que pede para ganhar um violão.

O fato de 35% das cartinhas das crianças expressarem o pedido para “ganhar dinheiro” pode representar alguma “novidade” para nós: pais, avós, educadores e psicólogos. E pode instalar uma preocupação e, também, uma tarefa. O que podemos fazer para que as nossas crianças sejam mais felizes, já que todos vivemos numa sociedade que estimula o consumo desenfreado? De que modo devemos educar as nossas crianças para que elas não acumulem frustrações desde tão cedo e até mesmo uma decepção com a figura Papai Noel? Como é a relação de cada um de nós, adultos, com o dinheiro?

Dinheiro muito, pouco ou o necessário? Não sabemos dizer. Todos gostamos do poder de compra que ele nos proporciona. Precisamos pensar nas representações simbólicas envolvidas nessa relação cotidiana com o dinheiro, com sua falta e no que ele proporciona: poder? Carros? Sucesso material? Felicidade?  Amor? Saúde? Solidariedade? E o que mais?

Nosso compromisso com as crianças exige tensionar, o tempo todo, a “cultura material da felicidade”, sem esquecer que, em geral, quanto mais se tem, mais se quer ter e, nesse caso, os conceitos “de pouco e de muito” precisam se relativizar. Está mais do que na hora de tentar responder, cada família a seu modo, a pergunta popularizada pela música do Frejat “Amor para Recomeçar”: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem? ”

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

Brincar com água: leveza e imaginação

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Brincar de fazer barquinhos de diferentes materiais para navegar na água, tomar banho de mangueira, sentir a chuva caindo no corpo, pisar, deslizar e escorregar na água, tomar banho de mar, rio ou piscina, jogar pedra no rio e observar os desenhos que ali surgem, encher potinhos de diferentes tamanhos e formas, dar banho nas bonecas ou nos bichos, misturar água e terra, experimentar o que flutua e o que afunda, fazer barulhos e espuma batendo mãos e pés na água… São tantas possibilidades! Quem não gosta?

Brincar com água produz uma sensação corpórea direta e uma conexão interior, vividas pela maioria das crianças com grande prazer e curiosidade. A leveza e a fluidez vivenciadas no contato e nas ações que as crianças desenvolvem com a natureza desse elemento, provocam a entrega da criança e a experimentação de ações e combinações que levam à criação de novas formas de brincar e sentir.

O projeto Território do Brincar registrou em diferentes comunidades e regiões do Brasil – rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral – o brincar livre e espontâneo das crianças. Em Acupe, na Bahia, uma brincadeira comum das crianças é construir as “tamancas” (barcos com velas semelhantes aos usados pelos pescadores da região) e fazê-las navegar pelo rio ao sabor da direção do vento. Para tanto, usam sola de chinelo de borracha, tampinha de garrafa, pedaços de varetas e sacola plástica de embalagem. E na experiência de fazer seus barcos e com eles brincar, a criança observa o movimento do barco, a força e o movimento da água, o peso e a direção do vento e, com isso, acumula conhecimentos valiosos para o brincar e sobre a natureza. A partir do vídeo abaixo, podemos sentir o quanto a brincadeira com os barcos promove conexão entre a criança e a natureza. É preciso olhar para a natureza com atenção, respeitá-la, compreendê-la e preservá-la para brincar com o que ela nos oferece.

O brincar na natureza provoca a imaginação da criança! Ao observar e entrar em contato com seus elementos a criança vai tecendo o seu processo de brincadeira e criação. O brinquedo não está dado e pronto, mas se cria na relação com a natureza!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

E agora eu era…princesa, herói ou formiguinha?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 Ser outros, muitos outros: bicho, gente, mau, bom, bonito, feio, herói, bandido, bruxa, fantasma, monstro, adulto, homem, mulher, bebê… Quem não se lembra da magia que é se fantasiar e fazer de conta que somos outros?

Fantasias ajudam as crianças a dar asas a imaginação e  a compor novos personagens e histórias. Experimentando ser outros numa realidade de faz-de-conta, a criança se reconhece e reflete sobre o mundo em que vive, além de inventar outras lógicas, que desafiam o mundo real. A brincadeira de faz-de-conta é um exercício de criação para as crianças.  E não precisamos achar que, se ela está imitando o bandido ou brincando de comidinha, será ladra ou chefe de cozinha, como se a  brincadeira infantil fosse uma preparação para o desempenho de futuros papéis. Ela está apenas experimentando ser outros, sem deixar de ser quem é, vivendo com intensidade o seu tempo de ser criança. Ela está aprendendo a lidar com as emoções, as diferenças, as dificuldades, no espaço protegido da imaginação e da brincadeira.

É comum vermos as crianças fantasiadas de princesas ou super-heróis nas ruas, escolas e festas infantis. Mas é preciso que as crianças também possam ser formiguinhas frágeis, pássaros, gatos ou cachorros, corajosos ou assustados, monstros horripilantes, dragões, bruxos, fadas ou o que a imaginação mandar. Muitos personagens da mídia carregam valores, padrões e regras relativas a gênero, beleza e modos de ser e agir, sobre os quais precisamos refletir.  No mínimo, esses personagens precisam de contrapontos, para que as crianças experimentem outras possibilidades de ser. Defendemos, nesse sentido, que as crianças tenham acesso a literatura, música, cinema, teatro e desenhos animados que fujam desses estereótipos, para que tenham referências culturais diversas, que lhes permitam criar diferentes personagens e histórias, sem ficar presas ao universo pré-estabelecido de um personagem. Nesse sentido, é interessante que as crianças também tenham acesso a fantasias fora dos padrões de consumo e da mídia. Outra possibilidade é criar fantasias junto com as crianças, com máscaras de papel, pedaços de tecidos, adereços diversos, maquiagem, roupas e acessórios de adultos, entre outras possibilidades. Nós, adultos, também nos divertimos nessa brincadeira. Bora lá?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Fotos: Luiza Gueiros

Crianças, a natureza está lá fora!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88É sabido que ao longo da história os homens foram criando recursos e ferramentas para ampliar seus movimentos e sua ação sobre os espaços como aconteceu, por exemplo, com a escada para aumentar sua altura, o ancinho para ampliar a ação de mãos e braços e a corda, para amarrações e para laçar animais em movimento.

As crianças que têm a oportunidade de brincar em contato com a natureza podem, não só sofisticar algumas dessas criações, como também descobrir, experimentar ações individuais e coletivas importantes como: correr livremente, saltar pedras e obstáculos, andar sobre pés de latas ou pernas de pau, subir em árvores, cavar a terra, usar a corda para amarrações e para pular. E quando percebem que suas vozes produzem vibrações e ecos? Chega a ser mágico.

Ao ar livre elas podem soltar pipa (em áreas sem fios elétricos), observar a dança das folhas secas ao vento, a direção do vento, as cores e formatos diferentes de árvores e folhas, o balé das bolas de sabão.   Experimentar com seu próprio corpo, seus desejos, suas histórias.

A natureza nunca se porta da mesma forma, mesmo em espaços já conhecidos. O ambiente natural convida as crianças a desenvolver sua percepção, sensibilidade, a capacidade de inventar e de descobrir respeitosamente, a sentir o cheiro da chuva,  a se conectar com os movimentos do mundo vivo e natural de que são parte. Isso é Papo de Pracinha.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme