O susto do Papai Noel: terá que fazer dinheiro!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 O Papai Noel e a árvore de natal com suas bolas coloridas estão presentes na televisão, nas vitrines dos shoppings, nos supermercados e nas casas de todos, com mais ou menos detalhes e adornos.

As crianças, como produtoras e consumidoras de cultura, sonham em ganhar presentes e acreditam, enquanto podem, na magia do natal. E fazem suas cartinhas! Algumas famílias ainda estimulam isso e muitas instituições de educação infantil também.

Como fazemos todos os anos, procuramos ler respeitosamente algumas cartinhas de crianças contendo os seus pedidos, nunca para criticá-las, mas para entender por onde passam os seus desejos e sonhos.

Pelos pedidos, embora elas ainda acreditem que o bom velhinho fabrique artesanalmente, auxiliado por duendes, anõezinhos e elfos, os presentes solicitados por crianças do mundo todo, o que elas pedem nem sempre se coaduna com a crença que defendem. E no mundo mágico da infância isso pode ser perfeitamente compreendido.

Nesse ano, vivendo com os adultos uma imensa crise econômica e financeira no Brasil, as cartinhas parecem expressar o momento e buscar soluções, ainda que pessoais. As crianças, pela primeira vez com tanta intensidade, pedem explicitamente para “ganhar dinheiro” do Papai Noel: uns pedem vinte reais, há quem peça apenas dez reais e, ainda, um menino de 7 anos que pede um milhão de reais, e nada mais. Há também crianças que pedem brinquedos, ás vezes muitos e caros, duas que pedem um iphone 7 e uma menina que pede para ganhar um violão.

O fato de 35% das cartinhas das crianças expressarem o pedido para “ganhar dinheiro” pode representar alguma “novidade” para nós: pais, avós, educadores e psicólogos. E pode instalar uma preocupação e, também, uma tarefa. O que podemos fazer para que as nossas crianças sejam mais felizes, já que todos vivemos numa sociedade que estimula o consumo desenfreado? De que modo devemos educar as nossas crianças para que elas não acumulem frustrações desde tão cedo e até mesmo uma decepção com a figura Papai Noel? Como é a relação de cada um de nós, adultos, com o dinheiro?

Dinheiro muito, pouco ou o necessário? Não sabemos dizer. Todos gostamos do poder de compra que ele nos proporciona. Precisamos pensar nas representações simbólicas envolvidas nessa relação cotidiana com o dinheiro, com sua falta e no que ele proporciona: poder? Carros? Sucesso material? Felicidade?  Amor? Saúde? Solidariedade? E o que mais?

Nosso compromisso com as crianças exige tensionar, o tempo todo, a “cultura material da felicidade”, sem esquecer que, em geral, quanto mais se tem, mais se quer ter e, nesse caso, os conceitos “de pouco e de muito” precisam se relativizar. Está mais do que na hora de tentar responder, cada família a seu modo, a pergunta popularizada pela música do Frejat “Amor para Recomeçar”: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem? ”

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

Celebridades “homemade”: crianças youtubers.

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Não acreditamos que exista um único pai, mãe ou educador que, em sã consciência, negue as benesses das novas mídias à vida contemporânea, incluindo nela as crianças. 

Para muitas delas, a sua imagem gravada no celular é uma possibilidade de verem-se “como a um outro”, além de ser possível guardar essa imagem, compará-la, editá-la etc. e de remetê-la para a vovó e para o primo, que moram longe. Só poder falar pelo celular com outras pessoas é uma conquista e uma troca rica, para crianças também.

A popularização dos meios digitais permite a muitas famílias terem em casa ferramentas atuais de comunicação, de pesquisa e de produção de conteúdo dentro de suas casas, em família.     

Como tudo, em exagero ou sem a orientação de adultos sensíveis, o veneno e o antídoto podem ser faces de uma mesma moeda. Como sempre, cabe aos adultos responsáveis refletirem sob os usos da televisão, de jogos e vídeos, de celulares e computadores, também sobre todos os exageros que podem acontecer em todas as áreas da vida. Ler demais, comer demais, estudar demais, jogar demais ou de menos, sempre implica acender aquela luz amarela que indica – o que há com ela, a criança? O que se passa conosco, sua família? Somos sistêmicos e integrados como grupo familiar, qualquer que seja o formato da família.

Nesse contexto, surpreende a produção cada vez maior de vídeos produzidos por crianças, postados no Youtube onde expõem suas rotinas de vida, oferecem aconselhamentos e tentam pautar a vida de suas amiguinhas (sim, parece vir se configurando como uma prática mais feminina), chegando a gravar como deve ser feita uma maquiagem. Há canais que têm o nome da menina-protagonista, dedicado às outras, meninas com mais de um milhão de visualizações.

Não conhecemos tudo o que está sendo disponibilizado na internet, a cada segundo, mas uma das coisas muito preocupantes consiste na participação de pais e mães, os responsáveis, na produção, gravação e veiculação das celebridades em que desejam transformar as suas crianças.  

Por quê? Para quê? Já não bastam as projeções narcísicas que, sem perceber, todos colocamos sobre nossos filhos supondo, imaginando e desejando que sejam mais brilhantes do que nós, mais e melhores em tudo? Projetamos coisas tão majestosas que já é sempre difícil lidar com o que eles de fato são, num contraponto com o que idealizamos para eles: mega, uber geniais.

É importante destacar que a “entrada” das crianças nas mídias sociais como Youtube, Facebook etc. só é possível se os adultos forjarem suas reais identidades, descumprindo a proibição legal, por serem crianças e como tal, vulneráveis. Nesse caso, além de os pais estimularem essa atuação, acabam atribuindo-se o direito de traçar seus destinos, de estabelecer escolhas para suas vidas, desde tão cedo. Além de desleal para com elas, nos parece covarde por ser altamente desrespeitoso em relação aos direitos delas, já estabelecidos. Vale a pena conhecer a Convenção do Direitos das Crianças, da ONU.

Para enriquecer o debate, lembramos que há, hoje, dados reais associando pedofilia ao consumo, em geral fortemente relacionados à vida das meninas, facilitados pelo acesso às suas vidas por meio das redes sociais. Aumenta a cada ano o investimento na produção e venda de sutiãs e maquiagens para crianças, por exemplo, demonstrando um forte apelo para transformar meninas em mulheres, precocemente, e por consequência disso, em objetos.

Mais do que participar dessa conduta, junto com as filhas, seus responsáveis vêm investindo e se orgulham de que sejam reconhecidas nas ruas, por outras crianças e adultos. Em muitos casos, essas crianças youtubers começam também a ganhar dinheiro pelo que apresentam nas redes sociais, caracterizando o nefasto trabalho infantil que nos preocupa tanto.

Por que as rotinas de nossas filhas meninas devem estar disponíveis como num big brother, numa fase de suas vidas em que não podem ainda ter responsabilidade sobre a globalidade de suas ações? Em que isso pode ser bom para elas? E para suas mães? 

Precisamos nos reunir, tentar cooptar amigos e a sociedade organizada para pensar sobre o que queremos de nossas crianças? Sobre o que oferecemos a elas e como estamos encaminhando suas vidas no sentido de serem, desde cedo, o que não são, desvalorizando os espaços livres de contato físico com outras crianças e com a natureza? 

Esse tipo de atitude e comportamento em relação às crianças já cobra, diariamente, preços muito altos delas mesmas, e de outras crianças. As celebridades “homemade” não podem viver como crianças como deveriam, podendo escolher seus brinquedos e brincadeiras junto com outras crianças, dentro de casa, nas pracinhas e em outros espaços da cidade. As crianças que assistem a esses vídeos no youtube, por sua vez, passam a sonhar em se tornarem conhecidas nas ruas, sonham em aparecer para todos e serem aplaudidas por isso. E pior, seriam os adultos–responsáveis, nos dois casos, os produtores do sucesso-relâmpago de umas, e do fracasso e da falta de oportunidade de outras, ao não permitirem o mesmo para suas meninas.

Não faltam exemplos de crianças que tiveram a experiência de sucesso-relâmpago na televisão e no cinema muito cedo, antes do aparecimento dessas novas mídias, que passaram o resto de suas vidas “em descompasso”, com dores e distúrbios graves de comportamento pela dificuldade de “digerir” o declínio, ou a falta eventual de sucesso, na juventude e na vida adulta.  Poucos, muito poucos, mantêm sucesso público por toda uma vida e não se enganem, eles também sofrem, têm dores e perdas complicadas.

Há o caso da menina Valentina, de apenas 12 anos, que foi assediada e desrespeitada apenas por aparecer em um programa de televisão sobre culinária. 

Para concluir, lembramos que é dever dos adultos (responsáveis) proteger as crianças de todo o tipo de exposição e, nesse bojo, cabe não facilitar o acesso delas a vida dessas outras crianças que escapam da infância, por condução de seus responsáveis, via youtube. Essas crianças não devem servir como modelos e nem precisam ser apresentadas às outras de idade semelhante, pelos adultos. Isso pode e deve ser evitado, em respeito a todas elas.

(*)Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

As crianças e as fotografias na escola

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Nada revolucionou tanto as nossas vidas como a popularização da fotografia por meio das câmeras agregadas aos aparelhos de telefonia celular.

A fotografia digital, criada pelos menos 100 anos depois da fotografia revelada “no papel” permite, hoje, que a grande maioria da população seja autora de seus registros, um/a fotografo/a habilitado/a a selecionar cenas e pessoas, e sob que ângulos estas serão perpetuadas. Ou não, pois são tiradas mais fotografias, hoje, e um sem número delas é apagada, mas isso é um outro papo para um outro dia, na pracinha.

A fotografia funciona como registro documental, artístico e afetivo valiosos. Adultos e crianças, também nas instituições de educação infantil podem fotografar o crescimento de uma planta ali semeada (documental), fotografar “os chãos do outono” com as folhas e flores caídas (artístico) e, sobretudo, uma ida ao teatro com os amigos, por exemplo.

Os registros afetivos são deliciosos, e até necessários, porque permitem ao grupo a criação de um acervo que robustece uma narrativa muito particular, onde cada criança enriquece a imagem com detalhes e questões que a foto, em si, não poderia capturar. As fotos podem confirmar o que dizem os textos escritos e, também, questioná-los.

Nesse percurso, é importante valorizar o envolvimento crescente das crianças diante da prerrogativa acessível de elas poderem escolher o objeto a ser fotografado, tirar a sua foto, observar, comparar, apagar ou expor suas fotografias. Chegamos a defender que toda sala de atividades de educação infantil deveria dispor de máquinas digitais simples e/ou celulares para que professores e crianças montassem o seu próprio baú de memórias que poderia, com baixo custo, ir para a casa de todo o grupo depois de salvas em um DVD.

Susan Sontag, em seu livro Ensaios sobre a Fotografia (1981: 04), defende que fotografar-se, também ao outro e ao mundo, em última análise, “não deixa de ser uma

tentativa de apropriação da coisa fotografada. É envolver- se em uma certa relação com o mundo que se assemelha com o conhecimento – e por conseguinte com o poder. (…) A fotografia brinca com a escala do mundo, pode ser reduzida, ampliada, cortada, recortada, consertada e distorcida. Envelhece ao ser infestada pelas doenças comuns aos objetos feitos de papel; desaparece; valoriza-se, é comprada e vendida; é reproduzida”. Nesse sentido, ao tomar a fotografia como uma apropriação da coisa fotografada, várias questões éticas e legais acabam sendo envolvidas. E para esse diálogo, trazemos aqui o caso dos fotógrafos que vendem aos pais as fotos de seus filhos, tiradas nas creches, pré-escolas e escolas. E sobre isso, vale dizer que desconhecemos o pai ou mãe que não se encante com as fotos do grupo de seu filho, com os imãs de geladeira, os calendários e tudo o mais que recebem. Mesmo que a foto em si não consiga capturar o melhor sorriso de cada um deles, os pais em geral querem ter aquela foto, querem guardar para sempre aquela lembrança. No entanto, a forma como essas fotos acontecem, nem sempre se coadunam com o que a instituição e a família defendem para as suas crianças.

Um primeiro ponto se refere a uma autorização necessária de direito de uso de imagem, mesmo quando ela tem como objetivo a venda ao seus pais. Eles precisam autorizar as fotografias embora aconteça, hoje, de a maioria das instituições facilitar o seu próprio trabalho pedindo, já no ato de matrícula, que os pais deixem assinada uma autorização para fotos de suas crianças para fins pré-determinados.

Um segundo ponto se refere ao fato de haver crianças que têm autorização de seus responsáveis para as fotografias, se tiradas dentro da instituição, e elas não quererem e não gostarem de tirar fotografias. Já vimos crianças chorando muito porque não queriam se deixar fotografar e que precisariam, nesse caso, ser respeitadas.

O terceiro e pior ponto, ao nosso ver, se refere ao fato de os fotógrafos que vão às escolas serem “os donos” dessas imagens impressas em papel, e estas precisam ser enviadas aos pais. Nesse caso, a questão se torna bastante complicada.

As crianças se sentem muito mal de não comprar aquelas fotos. Recebem-nas em geral dentro de um envelope e os profissionais que tiraram essas fotos costumam passar pela instituição, quando não falam direto com o grupo de crianças, pedindo o pagamento ou a devolução do pequeno acervo enviado.

Sabemos que existe, hoje, e já não era sem tempo, uma proibição de propaganda e de venda direto para crianças, mas, muitas vezes, a intermediação desatenta da instituição, acaba favorecendo que isso aconteça, o que agora é crime[i].

Sendo assim, diante do valor desse registro de imagem maravilhoso, do respeito ao trabalho dos fotógrafos e das pessoas que fazem a gestão da escola, deixamos aqui algumas sugestões, certas de que muitas pessoas antes de nós já pensaram nisso.

Não seria possível ir tirando fotos dos grupos, de suas interações e de suas atividades durante o período, com a participação das crianças, como uma prática pedagógica rica, para evitar o registro das fotos pasteurizadas que exige delas que fiquem estáticas, com um sorriso fake para “verem o passarinho”?

Uma outra sugestão, no caso de serem tiradas fotos de grupos de crianças arrumadas, bem penteadas e organizadas, esse material não poderia ser entregue direto para os pais, sem que essa venda seja intermediada pelas crianças? Acho que isso seria totalmente possível e que caminharia no sentido do respeito a elas e aos seus direitos já instituídos.

Para concluir, vale lembrar que nenhum de nós gosta de perder a relação de pertencimento em relação ao grupo de que é parte, seja ele de amigos, do grupo trabalho, da igreja ou do clube. E as crianças, por razões óbvias, lidam muito mal em situações dessa natureza. Não comprar algo que está sendo oferecido a todos os seus amigos pela instituição que frequenta pode soar desigual e muito ameaçador. E isso não acontece apenas com as fotografias, mas também com ingressos de teatros e de eventos que são a elas oferecidos, diretamente ou pela agenda.

Creches e pré-escolas não podem ser espaços de compra e venda, e se possível, deveriam evitar que imagens de suas crianças virasse mercadoria. Isso é pedir muito?

[i] Resolução 163 do Conanda, parág.2º “Considera-se abusiva a publicidade e comunicação mercadoló- gica no interior de creches e das instituições escolares da educação infantil e fundamental, inclusive em seus uniformes escolares ou materiais didáticos.”

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Imagem: Luíza Gueiros

 

Reencontro na pracinha em 2016

Olá, amigos de praça!

Que alegria retomar as atividades do blog! Para esse reencontro escolhemos destacar certas questões que pautam o nosso trabalho, desde sempre, e que marcaram nossos papos na pracinha em 2015. Assim, escolhemos cinco temas mega importantes em defesa da alegria, da segurança e do bom desenvolvimento para todas as crianças, e também do apoio e espaço de debate para suas famílias, professores e profissionais. Esses cinco assuntos foram campeões de acessos e podem ser encontrados lá no Banco da Praça, seção do Papo de Pracinha em que postamos nossos textos autorais. É só clicar nos links!

O primeiro tema se refere ao fortalecimento dos pais e responsáveis nas decisões, escolhas e no acompanhamento responsável da vida dos seus filhos. O que é melhor para os seus filhos?, de 17/10.

O segundo aborda uma questão prática que naturalmente faz parte da vida de todas as crianças: o que são brinquedos e o que as crianças pensam sobre eles. O que é brinquedo? As crianças respondem!, de 13/10.

O terceiro se refere ao que acreditamos, apoiamos e no que investimos quando o assunto é festa de aniversário de nossas crianças. Os aniversários e as festas-espetáculo, de 03/12

O quarto tema é sobre a decisão de matricular os filhos numa creche e as dificuldades para escolher a instituição que atende melhor a cada uma das famílias. A difícil escolha da creche, de 05/11

O quinto e penúltimo tema se refere a outra decisão muito difícil, sobre a escolha da pré-escola. Que aspectos devem ser valorizados? Bem, pais e mães maduros e unidos em relação a vida de seus filhos precisam vencer esse impasse juntos e, para isso, levantamos questões pensando em ajudá-los. Pré-escola: aprender mais e cada vez mais cedo?, de 12/11

Por último? Bem, convidamos você a nos contar três assuntos que gostaria de debater aqui na pracinha, junto conosco. Isso ajuda a enriquecer nossa conversa e fortalece o vínculo entre todos os que sentam conosco nessa pracinha. Vai ser ótimo ouvir suas contribuições!

Equipe do Papo de Pracinha

Xeque-mate no Papai Noel


Papo de pracinha (*)

Não se trata de nostalgia. Andar para a frente e ir vivendo cada dia é o que nos resta, a todos: crianças e adultos.  A efervescência da vida social é responsável por novas formas de ser, viver, se comportar e desejar. Geramos mudanças e somos impactados por elas. Produzimos e consumimos cultura, porque essa é a dinâmica da vida social, sempre em movimento.

Nessa mesma dinâmica, as festas de Natal e seus símbolos mais tradicionais vieram se transformando. As árvores já foram naturais, artificiais, douradas, prateadas. As bolas deixaram de ser frágeis, multicoloridas e até cilíndricas para se tornarem inquebráveis, substituídas por pequenas caixinhas penduráveis, carinhas de Papai Noel de resina, retratos em corações e por aí vai. A ceia precisou também se adaptar às rendas familiares e aos climas mais quentes, mas mantém – sabe-se lá por quê! – a tradição da ave à mesa (peru, chester ou frango mesmo), do presunto, da farofa, dos bolinhos de bacalhau. Mesmo aqueles de menor poder aquisitivo ou de outras religiões, a despeito de comemorarem o Natal desse ou daquele modo, sabem dizer como deveria ser uma festa tipicamente “natalina”.  As músicas típicas se mantêm vivas, passam de boca-a-boca nas famílias, são relembradas nas rádios e nas escolas, ajudando a manter vivo o encanto dessa festa.  Não há mais sapatinhos em janelas, parece.

O Papai Noel permanece gordo, bem disposto, portando as cores vermelho e branco. Os adultos continuam divulgando, pela televisão, em casa e, também nas escolas que o papai Noel ainda fabrica, manualmente, durante o ano, auxiliado por duendes, anõezinhos e elfos, os presentes solicitados pelas crianças do mundo todo, e que chegam a ele por meio das cartinhas que elas escrevem. Assim, não apenas no mundo cristão, celebra-se o Natal, que tem na distribuição dos presentes para as crianças o seu ápice. Sim, para elas, o encanto, a magia e a surpresa de ter o Papai Noel em suas casas deixando seus presentes é algo muito emocionante. E, como não poderia deixar de ser, ele só passa nas casas quando as crianças dormem e, como precisa ser, só vê os seus rastros quem nele acredita.

A figura do Papai Noel parece ter se originado na Turquia, inspirada num bispo de nome Nicolau, que foi transformado em santo pela Igreja Católica. Em função dos relatos de milagres a ele atribuídos, os alemães relacionaram a imagem de São Nicolau ao Natal, e depois disso Papai Noel ganhou o mundo. Suas roupas nem sempre foram nas cores vermelha e branca. Originalmente, ele se vestia de verde escuro e marrom. Apenas em 1931, ele se consagrou com o modelo que veste até hoje. Sim, a Coca-Cola foi a responsável por esse padrão universal da figura do bom velhinho, inclusive pelo gorro vermelho com pompom branco. A ideia era, claro, aumentar as vendas do refrigerante no inverno. O sucesso dessa campanha foi tão grande que espalhou essa imagem pelo mundo, ampliando exponencialmente a relação entre os interesses puramente comerciais e as festas natalinas.

Seria ingênuo pensar que o marketing voltado para fins comerciais não tenha relação estreita com a cultura. E, por vários motivos, em diferentes culturas, as festas e celebrações, não apenas as natalinas, não escapam dos aspectos que movem a vida contemporânea: o ter em detrimento do ser, a descartabilidade no lugar da sustentabilidade, o comprar no lugar do fazer/criar etc. Não se trata de nenhuma novidade, inclusive esse tem sido um papo recorrente na nossa pracinha. O consumismo desenfreado, alimentado pela adultização das nossas crianças, sublinhado e negritado pela mídia, se faz presente no dia-a-dia das crianças e de suas famílias, dando corpo ao que entendemos como “a cultura material da felicidade”. E, em tempos de Natal, tudo isso se adensa, de modo coletivo, tornando as crianças ainda mais vorazes para pedir e desejar presentes que até o Papai Noel duvida. Precisamos pensar e mais uma vez tentar responder: o que estamos alimentando em nossas crianças?

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Os aniversários e as festas-espetáculo

Papo de pracinha (*)

Volta e meia nos deparamos no caótico transito da nossa cidade com chamativas limusines, um tipo de carro-espetáculo ou festa de aniversário ambulante. Decoradas internamente para criar um cenário de celebridades ou princesas, esses veículos oferecem filmes, música e comes e bebes, com direito a guaraná servido em taça de espumante.

Há tempos, esse jeito estranho de celebrar aniversários tem “circulado” na nossa cidade. O que levaria uma menina a desejar ter a sua festa em um espaço ambulante fechado e limitado, no caótico trânsito do Rio de Janeiro, com algumas poucas amigas escolhidas a dedo (8 a 10)? O que fazem ali dentro? Conversam, comem, bebem e, quem sabe, brincam(será?) um pouco também. O que mais?

Ser a protagonista de um passeio-festa de limusine, automóvel equipado com teto solar, luzes, som, decoração, e viver algumas horas como celebridade parece consagrar a aniversariante – e também suas convidadas – como estrela-glamorosa-linda-poderosa, modelo de beleza-celebridade dos padrões de consumo da moda! Essa parece ser a motivação principal dessa festa e não o encontro para brincar, conversar e celebrar entre amigos a alegria de completar mais um ano de vida!

Esse modelo de festa, assim como outros tantos, como salão de beleza, top-model, cinema, casa de festas, fazem parte de uma indústria especializada em festa teens e infantis. Mais um dos produtos da lógica do consumo que tudo invade! Espetáculo e ostentação transformaram-se nos parâmetros para a organização da festa: decorações temáticas cada vez mais sofisticadas, brindes especiais, animações e atrações…Sem falar da música, supostamente utilizada como pano de fundo para tornar o ambiente alegre, mas que acaba se tornando a protagonista da festa junto “com o luxo e riqueza”, porque impede qualquer tipo de conversa pelo volume praticado– de bebês a jovens.

E assim, o evento festa de aniversário torna-se especial e caro, muito caro!. Muitas crianças aderiram a tais modelos, e suas famílias também. É comum ouvir os pais dizerem que preferem contratar festas desse tipo porque não dá trabalho e oferece segurança! E pior, há pais que competem entre si sobre qual é a melhor festa “ostentação”. O que esperar então dos filhos de pais que pensam assim?

Hoje, até mesmo festas simples que aconteciam pelo prazer de estar com os amigos, como a festa do pijama, em que todos se reúnem na casa do aniversariante para brincar, assistir filmes, conversar e dormir juntos, já entrou na indústria de festas e já se organiza com kits de pijamas ou camisolas com o nome do aniversariante, lembrancinhas e outros apetrechos tornando dispendioso o que era simples e barato. O pior é que o valor que se cria no grupo, em torno do aspecto material, leva a que todos queiram ter a sua festa dentro dos modelos em voga.

As festas parecem seguir um protocolo que uniformiza tudo, deixando muitas vezes o sentido original da comemoração de aniversário em segundo plano. A diferenciação entre uma e outra festa se faz no mais, cada vez mais (e mais caro!): animadores, shows, cenários super-coloridos, DJs, mesas lotadas de doces e enfeites, brinquedos, brindes etc.?

Na maioria das festas, nem se entrega mais o presente nas mãos do aniversariante, que muitas vezes fica sem saber quem deu o quê. Onde fica a emoção e a surpresa de presentear e ser presenteado? Hoje, já podemos até escolher – ou melhor, selecionar – algo que antecipadamente sabemos que vai agradar o aniversariante, pois ele próprio fez sua lista de presentes! Sim, nas festas de crianças e adolescentes já existem listas de presentes, como é usual nas festas de casamentos. Prático, não? Mais um protocolo adicionando burocracia e reduzindo delicadeza, singularidade e sensibilidade!

E assim, vamos abandonando a surpresa e a sensação de expectativa, de alegria ou de frustração envolvidas no receber e oferecer um presente. Sob a ótica utilitarista e consumista, vamos abandonando o sentido original de presentear, que é a manifestação de carinho em relação ao outro, e também o sentido de celebrar as datas que marcam momentos importantes na nossa vida, como é o caso do aniversário, que é compartilhar a nossa alegria com os amigos fortalecendo os vínculos de afeto, respeito e amizade.

Do que realmente a criança precisa? O que a torna feliz? O que é importante para que ela cresça cultivando valores humanos? O que esse tipo de festa pode trazer para a criança? Precisamos fazer essas perguntas, do contrário, podemos facilmente nos enredar na lógica do consumo.

Mas ainda bem que existe resistência a tudo isso. Há um movimento que se contrapõe às festas-espetáculo e que aposta na simplicidade e nas relações de amizade e convivência. Temos relatos de festas infantis em que o foco da comemoração está no encontro das crianças e nas brincadeiras coletivas. Brincadeiras da nossa cultura, como pular corda, amarelinha, elástico, mamãe posso ir etc., ou nas brincadeiras inventadas pelas crianças com materiais simples e variados. Esperamos que muito mais crianças e famílias resgatem e criem formas de comemoração mais sensíveis e menos consumistas, baseadas no encontro com o outro e na alegria de viver mais um ano de vida, celebrando esse momento com simplicidade e, nem por isso de modo menos feliz, ou melhor, e por isso mesmo de modo mais feliz!

Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante (Renato Russo)

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

O que é brinquedo? As crianças respondem!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Desde o tempo em que eu era professora de crianças pequenas, me divirto (e aprendo!) observando as crianças brincando ou brincando com elas. O que mais me encanta é a inventividade e autonomia com que elas brincam! Já na minha primeira experiência como professora me convenci que, para conhecer mesmo as crianças, é preciso entrar na sua lógica, penetrar nos seus mundos. É como até hoje tento entender as crianças: escutando-as com atenção e levando-as a sério!

Mateus, criança que conheço desde bebê, hoje tem 12 anos, e ainda brinca de uma brincadeira muito própria, que o acompanha desde muito pequeno. É tão curioso observá-lo brincando com sua coleção de lápis de cor, encenando diferentes histórias que vão sendo “desenhadas” por suas mãos e imaginação! Com lápis de diferentes cores entre os dedos de ambas as mãos, e movimentos velozes em todas as direções, Mateus transforma esses objetos – feitos para desenhar, colorir, riscar ou escrever – em protagonistas de uma partida de futebol ou então de uma batalha entre heróis e monstros. E cada um daqueles lápis é um personagem específico, que não se confunde com outros, ele sempre soube muito bem quem é quem. Às vezes bem baixinho, outras elevando o tom de voz, Mateus narra e inventa o que está acontecendo ali: um mundo imaginário que ele cria, no qual tem liberdade de definir papéis e cenários, criar histórias, escolher vencedores e perdedores, enfrentar catástrofes, superar medos, experimentar sofrimentos e alegrias e, o melhor, voltar em segurança para o mesmo ponto em que iniciou sua aventura!

Lembro-me que, na minha infância, eu colecionava lápis de cor. Mas só os que ficavam bem pequenos, os cotoquinhos, como eu os chamava! Não me lembro se eu inventava-lhes personagens, acho que não. Minha atração maior era a estética que se produzia quando se juntavam aqueles pequenos pedaços de madeira com diferentes cores e tamanhos. Com eles, eu fazia diferentes composições, enfileirando-os, dispondo-os de diferentes maneiras, construindo casas, florestas etc.

O que tem em comum essas brincadeiras? Objetos que se transformam em brinquedos; brincadeiras que dão novos sentidos aos objetos. Um mundo próprio imaginado e criado pelas crianças.

Nem sempre o brinquedo, para a criança, é aquele objeto produzido industrialmente ou artesanalmente como brinquedo. Quem nunca viu uma criança pequena deixar de lado o brinquedo que ganhou de presente, porque se interessou muito mais em brincar com o papel de presente e/ou com a caixa onde veio o brinquedo? Para a surpresa e decepção do adulto, que acha que vai arrasar com a sua escolha, o brinquedo muitas vezes é desprezado pela criança, que prefere interagir com um simples papel e uma caixa! Estes ganham existência de brinquedos, por meio dos gestos da criança – amassar, rasgar, jogar, empurrar, fechar etc.- e do prazer da exploração de texturas, sons e formas. Do ponto de vista da criança, pode ser muito mais bacana essa ação exploratória de diferentes materiais do que, por exemplo, um lindo, caro e colorido brinquedo sonoro, cuja função se reduz a produzir um som ao apertar-lhe um dispositivo!

O que é brinquedo para a criança? O que é brinquedo para os pais? O que é brinquedo para a escola? Será que quando os adultos criam ou escolhem brinquedos para as crianças sabem o que elas desejam? O que faz de um objeto um brinquedo? Continuar lendo O que é brinquedo? As crianças respondem!