Cidade brincante

Hoje o Papo de Pracinha compartilha o texto da coluna de Luiz Antonio Simas no jornal O Globo, onde ele defende, assim como nós, a importância da participação das crianças e suas brincadeiras na vida das cidades. Leia abaixo na íntegra.

 


Luiz Antonio Simas – O Globo – 02/11/2017

A cidade e as crianças

A rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo

Sonho com um projeto que pretendo colocar em prática quando o tempo permitir: escrever um manual com as regras fabulares da amarelinha, da carniça, do jogo de botão, do preguinho, do pique-bandeira, do passaraio, das cirandas cirandinhas, do lenço-atrás, do futebol em ladeiras, do queimado e das variantes da bola de gude. O título está pronto: “Ecologia amorosa das brincadeiras de rua”.

Alguém há de perguntar se brincadeiras infantis têm lugar em um caderno de cultura. Eu devolvo de prima: por que não? Cultura não se restringe a evento e nem é um terreiro onde só os adultos dançam. Cultura é a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca: as maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, silenciar, gritar e brincar.

O léxico de diversas brincadeiras e folganças de rua me parece importantíssimo para uma gramática afetiva da cultura brasileira. Exemplifico: no “Dicionário Português”, de Cândido de Oliveira, a expressão “carniça” tem como uma de suas acepções a de “pessoa que é objeto de motejos”. Luiz da Câmara Cascudo afirma a mesma coisa. Certamente vem daí a expressão “pular carniça” para a brincadeira infantil que hoje anda quase desaparecida nas cidades. Na Idade Média britânica registra-se a brincadeira do leap-frog (saltar sobre a rã), com característica similar ao folguedo que, com os portugueses, chegou ao Brasil.

Outro exemplo é o do jogo do caxangá, o da música “Escravos de Jó”. Esse “jó” da canção vem do quimbundo “njó”, casa. Escravos de jó são, portanto, os escravos de casa. Caxangá é um jogo de pedrinhas e tabuleiro. Tem gente que acha que o jó é uma pessoa; quem sabe o da Bíblia, que sofreu feito doido as provações de Jeová.

Educação infantil deve priorizar a criança brincando com espaço e tomando um “não!” pela cara de vez em quando, para saber que não é dona do mundo, mas pode se divertir nele sem culpas. Os nossos dias de indelicadezas maltratam a falange de erê. A “adultização” de meninas e meninos é acompanhada pela infantilização dos adultos e a agonia da rua como lugar de encontro, derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens, redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças — quando não são as vítimas principais do abandono, da desigualdade social, da intolerância e da violência urbana — acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias e escolas.

A limitação das amizades de escola é evidente: os alunos da mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é geralmente normativa, padroniza comportamentos e domestica os corpos. E a diferença? A rua poderia resolver isso. Se a escola normatiza, a rua deveria ser o lugar capaz de permitir o convívio entre os diferentes. Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e a experiência da escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto e confinadas entre muros concretos e imaginários; erguidos com a dureza de cimentos, preconceitos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a que proporciona a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas. Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não fará.

Em certa ocasião, fui com meu moleque a uma praça reformada — a Xavier de Brito, na Usina — e perguntei para a garotada se eles tinham sido consultados sobre a reforma, para saber se a disposição dos brinquedos estava nos conformes. Nenhum foi ouvido. Os donos do poder desconsideram que a cidade é também um espaço em que as crianças vivem e brincam.

A cidade em que a criança não toca o rebu é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar a questão como urgente e necessária; antes que restem aos erês apenas aplicativos que rodem o pião que não tem mais chão, pulem amarelinhas virtuais e empinem a pipa que não conhece o céu.

Pedagogia infantil, insisto, é deixar a criança brincar e desenvolver aptidões ludicamente. O resto é formar gente triste para os currais do mercado de trabalho. A criança precisa da arrelia das brincadeiras, e a humanização do mundo passa pelo encantamento radical da rua como um espaço de folguedo, flozô e furdunço.

 

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O Rio não é uma Cidade Educadora! Sabia?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Vocês sabiam que existe uma Rede Brasileira de Cidades Educadoras, composta de quatorze cidades: Belo Horizonte, Campo Novo do Parecis, Caxias do Sul, Dourados, Jequié, Montes Claros, Porto Alegre, Santiago, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São Paulo e Sorocaba? Ha várias cidades da América Latina que também compartilham esse conceito, em países como: Chile, Argentina, Colômbia, México, Uruguai, Bolívia e Equador.  Mas o Rio não é uma delas. Por que não? Como, não?

Bem, esse movimento se iniciou em 1990, durante o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras, em Barcelona e se fortaleceu em 1994, em Bolonha, Itália. Desde então, há um acordo firmado entre um grupo de cidades “representadas por seus governos locais, que pactuam o objetivo comum de trabalhar juntas em projetos e atividades para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, a partir da sua participação ativa na utilização e evolução da própria cidade e de acordo com a carta aprovada das Cidades Educadoras. ” (Na internet, http://portal.mec.gov.br/)

Para ser tornar uma Cidade Educadora o Rio precisaria se comprometer com princípios básicos que tomassem a cidade “como espaço de cultura, educando a escola e todos que circulam em seus espaços, e a escola, como palco do espetáculo da vida, educando a cidade numa troca de saberes e de competências” (Gadotti, 2016, p.133-134). E essa cidade que educa, segundo o mesmo autor, é uma cidade que valoriza o protagonismo de todos, que investe numa formação permanente “para e pela cidadania, além de suas funções tradicionais: econômica, social, política e de prestação de serviços. ”. E, nessa perspectiva, a Cidade Educadora é, mesmo, também um direito de todos.

Os princípios que regem as Cidades Educadoras são: trabalhar a escola como espaço comunitário, trabalhar a cidade como grande espaço educador, aprender na cidade, com a cidade e com as pessoas, valorizar o aprendizado vivencial e priorizar a formação de valores, pontos cruciais para a transformação que o Rio precisa.

No caso do Brasil, o Rio, junto com São Paulo, permanece sendo polo produtor, consumidor e disseminador de cultura, não por ser mais importante do que outras cidades, mas, principalmente, pela ação das mídias hegemônicas que tentam pautar a vida do país, pelo Sudeste, o que não é bom.  Precisamos aprender com outras Cidades Educadoras que já estão à nossa frente, promovendo suas mudanças e voltar o olhar para nossa cidade.  E isso é pra já!

O Papo de Pracinha apoia essa ideia. O Papo de Pracinha vem desenvolvendo ações variadas de modo a mudar esse cenário! Você quer nos ajudar? Como?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Luiza Gueiros