Mamãe posso ir? Sobre crianças e espaços.

Papo de Pracinha (*)

Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho
O teu pezinho bem juntinho com o meu

(Barbosa Lessa e Paixão Cortês)

1444722355_88Crianças pequenas se deslocam em diferentes espaços, como podem, em cada momento de suas vidas e com isso vão experimentando situações ricas e importantes sobre as quais elas não têm noção real.

Não é pouco comum vermos bebês, as vezes com um ano, ou pouco mais, deitados no chão para tentar enxergar e encontrar objetos que eles mesmos acabaram de jogar debaixo de uma cadeira, mesa ou sofá. Assim que resgatam o objeto de seus desejos, tratam de jogá-los de novo, e assim deixam claro que estão vivendo sobretudo o prazer de jogar em si. Jogar coisas do berço ao chão são experiências de mesma natureza e, não pouco comum, temos que retirar essa criança “de dentro ou embaixo” de alguma cadeira em que entrou sem saber sair.

Essa possibilidade de experimentar diferentes planos espaciais: vertical, horizontal,  lateral etc., é parte do desenvolvimento/aprendizagem de cada criança, de uma  mobilidade física que se amplia e se complexifica, dia-a-dia. Aquele bebezinho que ficava olhando para o teto descobre aos poucos o seu entorno, vira-se pra lá e pra cá, no berço ou num chão limpo e protegido, gira de ponta-cabeça, de bruços e de novo pra cima, senta-se e, aos poucos, vai alongando o corpo para a posição de pé para, em seguida, andar. Nesse contexto, os adultos que interagem com ele terão influência decisiva, tanto pela disponibilidade, atenção total e cuidados, quanto pela oferta de espaços variados às crianças (chão de pracinha, chão de casa comum, blocos de espuma, objetos que rolam etc.), além de tempo, convidando-os a agir, sem nenhuma pressa.

Há aquelas situações em que a criança choraminga ou pede a mão de quem está perto indicando algum medo de cair. Cedam as mãos, ou apenas aquele dedo que dá segurança, quando pedem, porque elas precisam desse apoio.

O que podemos observar sobre isso é que, claro, os riscos de acidente aumentam com as maiores possibilidades de deslocamentos e com a agilidade que vão conquistando a cada dia. Essa movimentação livre, sob a atenção e adultos, é indispensável para elas.

E então, somos convidados pelas crianças a pensar sobre suas relações com os diferentes espaços, numa interlocução com o tempo próprio delas, em cada situação.

O tempo de brincar em cada espaço também é dado pela criança. Repetir incansavelmente uma tentativa de caminhar sobre uma raiz de árvore exposta, em alguma rua ou praça, é altamente desafiador e estimulante. O equilíbrio que lhes falta para a atividade costuma alimentar o desejo de fazer, fazer, fazer de novo, tantas vezes seguidas.

A simples exploração dos “lugares/espaços” do corpo como os pés, lá em baixo, as mãos para cima, o dedinho no nariz e por aí vai, exigem uma movimentação da criança que pode levá-las ao chão, tanto quanto fazê-las explorar o espaço aéreo para que vejam aviões e borboletas. Olhar para cima exige olhar com o corpo todo e, com isso, eventualmente perdem o equilíbrio. Já viram crianças buscando colocar e tirar um simples chapéu na sua cabeça, e na do seu papai? Às vezes, caem sentadas.

Andar sobre as linhas do chão, sem poder pisar nelas, caminhar sobre murinhos baixos, tentar entrar embaixo e dentro de certos objetos como caixas, tentar alcançar planos mais altos, que podem ser uma cadeira, uma caixa vazia ou uma bicicleta de adulto, por exemplo, são explorações espaciais que têm registros temporais.

“Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, como sugere a música, entrar na roda como o Pai Francisco, botar aqui  o pezinho (e não em qualquer lugar), ainda mais quando se pede que seja “bem juntinho com o meu”, brincar de Batatinha-Frita 1 2 3, de Estátua, de correr livremente e de tantas outras brincadeiras faz com que as crianças explorem e se apropriem gradativamente dos espaços. E com isso, das regras de cada um deles (já que não se pode jogar futebol dentro do metrô, por ex.), das caraterísticas de cada um também (já que dentro da piscina não se usa sapato, por ex.), além de precisar aprender a administrar seu tempo em brincadeiras coletivas. Essas, entre tantas outras, são experiências fundamentais para que as crianças sejam livres, seguras, solidárias e éticas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme Continuar lendo Mamãe posso ir? Sobre crianças e espaços.

Brincar com liberdade: condição de felicidade!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88A redução crescente dos espaços e tempos de brincadeira livre das crianças vem provocando diversas ações voltadas para a conscientização da sociedade sobre o valor da brincadeira na infância: documentários, vídeos, eventos culturais e científicos, reportagens televisivas, publicações, entre outras iniciativas. Na semana passada, por exemplo, tivemos a Semana Mundial do Brincar, promovida pela Aliança pela Infância, cujo objetivo é mobilizar e sensibilizar famílias, educadores, adultos e brincantes de todas as idades para que ofereçam tempo e espaço ao brincar das crianças.

Que bom que esse movimento em defesa do brincar está acontecendo, precisamos mesmo falar mais e mais sobre isso! Mas precisamos de muito mais ainda para modificar essa realidade que vem se impondo às crianças! As forças que causam a redução e o empobrecimento do brincar livre são avassaladoras e, para enfrenta-las, é necessário elevar as crianças à prioridade que elas merecem ter. Precisamos olhar com mais atenção para as crianças e para o que estamos fazendo delas!

É urgente a compreensão e a garantia, por meio de ações concretas, tanto no nível macro das políticas sociais, culturais, educacionais e urbanas, como no cotidiano das famílias e das instituições de educação infantil, de que o brincar é uma dimensão essencial da vida e, como tal, precisa ser garantida. Para as crianças, o brincar é central para o seu desenvolvimento e interação com o mundo! Quando não é devidamente contemplado, coloca-se em risco o bem-estar e a felicidade das crianças!

Mas de que brincar estamos falando?

Não é do brincar instrumentalizado e didatizado pelos adultos, presente em muitos espaços escolares e também familiares. Sabemos que a preocupação cada vez mais precoce com a escolarização das crianças, ou com a sua formação para um mundo competitivo, tem levado a uma pedagogização do brincar. Os brinquedos/brincadeiras são escolhidos porque desenvolvem isso ou aquilo, ou porque levarão a essa ou àquela aprendizagem. A escola é mestre em usar a brincadeira como recurso para o ensino. Não estamos dizendo que não seja válido usar a ludicidade nas práticas pedagógicas, mas é preciso saber que quando a brincadeira é transformada em instrumento visando a alguma coisa, deixa de ser brincadeira para a criança. A brincadeira não cabe na previsibilidade dos adultos e nem, tampouco, tem um resultado, como um jogo de regras, por exemplo. Talvez por isso, essa brincadeira que liberta, não pode funcionar como estratégia pedagógica.

O que estamos defendendo aqui é o brincar “de verdade”, sem compromisso com resultados. Não se brinca para aprender, ou para alguma coisa. Brinca-se para brincar, brinca-se de boneca para brincar de boneca, e não para preparar-se para a vida adulta. Brinca-se de bombeiro para brincar de bombeiro, e não para preparar-se para ser bombeiro, ou para qualquer outra profissão. Como diz Lydia Hortélio, educadora e musicóloga brasileira, brinca-se para ser feliz. É preciso brincar para afirmar a vida.

E o que é necessário para que o brincar de verdade aconteça?

Tempo – as agendas das crianças lotadas de compromissos e as escolas com suas rotinas voltadas para a escolarização roubam o tempo livre das crianças e, com isso, empobrecem ou até mesmo impedem a experiência do brincar livre. O brincar de verdade precisa de tempo, tempo para projetar, imaginar, experimentar, voltar ao começo, fazer de novo, tempo para a fruição, para girar o mundo para outro lugar, o lugar do faz-de-conta, do livre pensar e agir.

Liberdade – de escolha, movimento, ideias, condução das ações, definição das regras, negociação de conflitos…

Risco – arriscar-se faz parte do brincar. E o brincar permite que a criança se arrisque em um espaço protegido, o da brincadeira. Arriscar-se a subir em árvores, correr, pular, saltar, esconder-se, rodar… Arriscar-se a ser o ladrão, o lobo mau, a bruxa, o forte, o fraco… No brincar livre, as crianças aprendem a avaliar os riscos e a ajustar suas ações.

Autonomia – as crianças também precisam brincar sem a tutela do adulto, tomar decisões por si próprias, fazer as suas escolhas, assumir responsabilidades pelas suas ações, criar formas próprias de brincar.

Envolvimento – engajamento e inteireza fazem parte do brincar livre. A brincadeira cria um mundo próprio, dentro do mundo maior, no qual as crianças se inserem por inteiro, “suspendendo” a realidade durante o tempo do brincar.

Não-produtividade – como já apontado, o brincar livre não tem compromisso com resultados. É importante por si mesmo. Ponto!

Convívio com a natureza – o brincar na e com a natureza favorece a liberdade, incentiva o movimento, a força, a coordenação, a concentração, a imaginação e a criação; e, o que é muito importante, afasta as crianças do consumo, da TV, dos ipads, smartphones e computadores, e também da brincadeira mediada pelos brinquedos de mercado, resgatando a simplicidade e a força dos elementos da natureza como recursos naturais para o brincar. Brincar na e com a natureza favorece a conexão com a vida. Sem deixar de falar no sentimento que desenvolve de amor e proteção à natureza.

Encontro com o outro – brincar com o outro exige e promove a partilha, a aceitação de pensamentos diferentes, a negociação e a coordenação de ideias, a tolerância, a definição e divisão de papeis, promovendo a sociabilidade e a percepção de si e do outro.

Cidades amigas das crianças – As cidades reduziram seus espaços públicos de brincadeira, priorizando o transporte individual, invadindo recursos naturais em prol da especulação imobiliária, diminuindo as calçadas para ampliar as vias de circulação de automóveis… É preciso inverter essa prioridade, criando espaços de brincadeira nas cidades: mais pracinha, pracinhas que acolham crianças de todas as idades, mais natureza, mais autonomia para as crianças, espaços seguros de circulação e de interação com a cidade.

Reconhecemos a dificuldade da maioria das famílias de conciliar a rotina de trabalho com a rotina dos filhos. Mas o pouco que conseguimos estar com nossos filhos, permitindo-nos segui-los nas suas brincadeiras livres, pode significar muito para eles. É muito melhor do que comprar o mais novo brinquedo do mercado, como compensação do tempo em que estivemos longe deles. O brinquedo passa, mas os momentos de intimidade e conexão que acontecem no brincar ficam, e dizem muito para os pequenos, e para os adultos também! Falam de amor, liberdade e felicidade.

Por fim, fica aqui a sugestão: que tal experimentar desacelerar a rotina das crianças e deixá-las brincar mais, livres e sem compromisso? Certamente faremos as crianças mais felizes!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Reencontro na pracinha em 2016

Olá, amigos de praça!

Que alegria retomar as atividades do blog! Para esse reencontro escolhemos destacar certas questões que pautam o nosso trabalho, desde sempre, e que marcaram nossos papos na pracinha em 2015. Assim, escolhemos cinco temas mega importantes em defesa da alegria, da segurança e do bom desenvolvimento para todas as crianças, e também do apoio e espaço de debate para suas famílias, professores e profissionais. Esses cinco assuntos foram campeões de acessos e podem ser encontrados lá no Banco da Praça, seção do Papo de Pracinha em que postamos nossos textos autorais. É só clicar nos links!

O primeiro tema se refere ao fortalecimento dos pais e responsáveis nas decisões, escolhas e no acompanhamento responsável da vida dos seus filhos. O que é melhor para os seus filhos?, de 17/10.

O segundo aborda uma questão prática que naturalmente faz parte da vida de todas as crianças: o que são brinquedos e o que as crianças pensam sobre eles. O que é brinquedo? As crianças respondem!, de 13/10.

O terceiro se refere ao que acreditamos, apoiamos e no que investimos quando o assunto é festa de aniversário de nossas crianças. Os aniversários e as festas-espetáculo, de 03/12

O quarto tema é sobre a decisão de matricular os filhos numa creche e as dificuldades para escolher a instituição que atende melhor a cada uma das famílias. A difícil escolha da creche, de 05/11

O quinto e penúltimo tema se refere a outra decisão muito difícil, sobre a escolha da pré-escola. Que aspectos devem ser valorizados? Bem, pais e mães maduros e unidos em relação a vida de seus filhos precisam vencer esse impasse juntos e, para isso, levantamos questões pensando em ajudá-los. Pré-escola: aprender mais e cada vez mais cedo?, de 12/11

Por último? Bem, convidamos você a nos contar três assuntos que gostaria de debater aqui na pracinha, junto conosco. Isso ajuda a enriquecer nossa conversa e fortalece o vínculo entre todos os que sentam conosco nessa pracinha. Vai ser ótimo ouvir suas contribuições!

Equipe do Papo de Pracinha

Nosso sonho para as crianças em 2016

Papo de pracinha (*)

1. O tempo correrá a favor das crianças, que não precisarão mais cumprir agendas lotadas, podendo se entregar às brincadeiras e ao exercício da imaginação, da invenção e da criação.

  1. As crianças não mais serão colocadas dentro de “caixas “ que formatam e limitam seus pensamentos e ações; ao contrário, poderão pensar livremente e virar o mundo de ponta cabeça!
  1. As crianças terão voz e vez para se expressarem em suas muitas linguagens.
  1. Os adultos olharão com atenção para as crianças e compreenderão seus modos próprios de pensar e agir sobre o mundo, convidando-as a participar das decisões sobre os assuntos que lhes dizem respeito.
  1. As famílias, nas suas diversas formações, serão o porto seguro das crianças, fornecendo-lhes amor, afeto, proteção e apoio ao seu desenvolvimento integral.
  1. As crianças serão prioridade nas políticas públicas de segurança, educação e saúde, e terão garantidos os seus direitos a serviços de saúde e de educação de qualidade, sejam elas negras, brancas, indígenas, quilombolas, do campo ou da cidade.
  1. As escolas não mais colocarão as crianças em formas (/ô/ ou /ó/) uniformizadoras, e não mais encherão os seus cérebros com informações sem sentido; as escolas serão espaços de encontro entre adultos e crianças, e entre a arte, a cultura e a ciência.
  1. As escolas serão espaços de vida, de acolhimento, de afeto e de oportunidades de potencializar a curiosidade e a capacidade de imaginação e criação das crianças; a busca do conhecimento será uma aventura empreendida com autonomia e sensibilidade pelas crianças e adultos, em parceria.
  1. As crianças terão acesso às criações em todas as linguagens artísticas, ampliando e diversificando o seu repertório cultural.
  1. As brincadeiras de rua invadirão as ruas e praças das cidades, reunindo crianças e adultos pelo prazer de brincar e de compartilhar memórias e experiências.
  1. Novas praças serão criadas e as já existentes revitalizadas, a partir das necessidades reais das crianças e dos adultos, recuperando a sua função de lugar de encontros, conversas, brincadeiras, jogos, contemplação e convivência com a natureza .
  1. As crianças terão mais contato com a natureza, e poderão desfrutar da sua riqueza para apreciá-la com sensibilidade, para criar e brincar com seus elementos, e também para aprender a dela cuidar.
  1. As crianças terão proteção contra as formas de manipulação exercidas pelo mercado e pela propaganda.
  1. As crianças não precisarão dos mais novos e caros brinquedos do mercado para serem felizes! Brincarão com diferentes materiais usando a sua inventividade, aprenderão as brincadeiras da nossa cultura e usarão os brinquedos como meios e não como fins em si mesmos.
  1. As crianças serão protegidas de todas as formas de violência, abandono, crueldade e exploração.
  1. As cidades enxergarão as crianças, incluindo-as nas suas políticas urbanas, criando e mantendo espaços apropriados de circulação, cultura e lazer para elas.
  1. As crianças viverão suas infâncias com plenitude, nos ensinando a olhar o mundo de forma mais simples e sensível!

Feliz 2016!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Xeque-mate no Papai Noel


Papo de pracinha (*)

Não se trata de nostalgia. Andar para a frente e ir vivendo cada dia é o que nos resta, a todos: crianças e adultos.  A efervescência da vida social é responsável por novas formas de ser, viver, se comportar e desejar. Geramos mudanças e somos impactados por elas. Produzimos e consumimos cultura, porque essa é a dinâmica da vida social, sempre em movimento.

Nessa mesma dinâmica, as festas de Natal e seus símbolos mais tradicionais vieram se transformando. As árvores já foram naturais, artificiais, douradas, prateadas. As bolas deixaram de ser frágeis, multicoloridas e até cilíndricas para se tornarem inquebráveis, substituídas por pequenas caixinhas penduráveis, carinhas de Papai Noel de resina, retratos em corações e por aí vai. A ceia precisou também se adaptar às rendas familiares e aos climas mais quentes, mas mantém – sabe-se lá por quê! – a tradição da ave à mesa (peru, chester ou frango mesmo), do presunto, da farofa, dos bolinhos de bacalhau. Mesmo aqueles de menor poder aquisitivo ou de outras religiões, a despeito de comemorarem o Natal desse ou daquele modo, sabem dizer como deveria ser uma festa tipicamente “natalina”.  As músicas típicas se mantêm vivas, passam de boca-a-boca nas famílias, são relembradas nas rádios e nas escolas, ajudando a manter vivo o encanto dessa festa.  Não há mais sapatinhos em janelas, parece.

O Papai Noel permanece gordo, bem disposto, portando as cores vermelho e branco. Os adultos continuam divulgando, pela televisão, em casa e, também nas escolas que o papai Noel ainda fabrica, manualmente, durante o ano, auxiliado por duendes, anõezinhos e elfos, os presentes solicitados pelas crianças do mundo todo, e que chegam a ele por meio das cartinhas que elas escrevem. Assim, não apenas no mundo cristão, celebra-se o Natal, que tem na distribuição dos presentes para as crianças o seu ápice. Sim, para elas, o encanto, a magia e a surpresa de ter o Papai Noel em suas casas deixando seus presentes é algo muito emocionante. E, como não poderia deixar de ser, ele só passa nas casas quando as crianças dormem e, como precisa ser, só vê os seus rastros quem nele acredita.

A figura do Papai Noel parece ter se originado na Turquia, inspirada num bispo de nome Nicolau, que foi transformado em santo pela Igreja Católica. Em função dos relatos de milagres a ele atribuídos, os alemães relacionaram a imagem de São Nicolau ao Natal, e depois disso Papai Noel ganhou o mundo. Suas roupas nem sempre foram nas cores vermelha e branca. Originalmente, ele se vestia de verde escuro e marrom. Apenas em 1931, ele se consagrou com o modelo que veste até hoje. Sim, a Coca-Cola foi a responsável por esse padrão universal da figura do bom velhinho, inclusive pelo gorro vermelho com pompom branco. A ideia era, claro, aumentar as vendas do refrigerante no inverno. O sucesso dessa campanha foi tão grande que espalhou essa imagem pelo mundo, ampliando exponencialmente a relação entre os interesses puramente comerciais e as festas natalinas.

Seria ingênuo pensar que o marketing voltado para fins comerciais não tenha relação estreita com a cultura. E, por vários motivos, em diferentes culturas, as festas e celebrações, não apenas as natalinas, não escapam dos aspectos que movem a vida contemporânea: o ter em detrimento do ser, a descartabilidade no lugar da sustentabilidade, o comprar no lugar do fazer/criar etc. Não se trata de nenhuma novidade, inclusive esse tem sido um papo recorrente na nossa pracinha. O consumismo desenfreado, alimentado pela adultização das nossas crianças, sublinhado e negritado pela mídia, se faz presente no dia-a-dia das crianças e de suas famílias, dando corpo ao que entendemos como “a cultura material da felicidade”. E, em tempos de Natal, tudo isso se adensa, de modo coletivo, tornando as crianças ainda mais vorazes para pedir e desejar presentes que até o Papai Noel duvida. Precisamos pensar e mais uma vez tentar responder: o que estamos alimentando em nossas crianças?

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Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas

Papo de pracinha (*)

No início do mês de outubro do corrente ano, o portal de notícias globo.com publicou uma matéria, por ocasião da festa de Halloween nos EUA, sobre um pai americano de 28 anos, que aceitou o pedido de seu filho, um menino de 3 anos, para vesti-lo como a princesa Elsa, do filme Frozen. E, para apoiar o filho e acompanhá-lo à festa das bruxas, ele mesmo decidiu vestir-se de Anna, a outra princesa do filme. Para defender-se da chuva de possíveis críticas, Paul Henson se antecipou, dizendo: “fiquem com seus preconceitos masculinos e suas fantasias infantis ‘quadradas’. O Dia das Bruxas é sobre crianças que fingem ser seus personagens favoritos. Isso vai ser assim mesmo, esta semana ele quer ser uma princesa”.

Na verdade, as crianças e os poetas são tacitamente “autorizados” pela sociedade para “agirem como se”, para vestirem-se de quem não são. Chico Buarque, e não só ele, canta e retrata a alma feminina lindamente sem ter sua masculinidade ameaçada. No entanto, se um menino de três anos, que tem a ludicidade e o pensamento mágico como um direito de expressão e de linguagem, deseja vestir-se de princesa, em geral pais e mães reagem por sentirem-se ameaçados, como homem, como mulher e como pais. Um menino que quer ser e agir como se fosse uma princesa e, também, uma menina, que deseja ganhar uma bola de futebol e uma chuteira, certamente, serão impedidos pelos adultos e com certeza não terão possibilidade de entender o porquê dessa proibição.

Costumo observar as crianças. Estive vendo um grupo formado por Isabela, com três anos e seus cinco primos. Eles se encontram com frequência na casa ampla dos avós onde há um pula-pula daqueles bem bacanas, além de um campo de futebol histórico, que vem acolhendo gerações de jogadores: pais, filhos, netos e amigos, para rolar a bola.

Isabela brinca com um “harém “ às avessas, sendo a mais nova dos primos. Os meninos a cercam e ela demonstra não aceitar para si o lugar de menininha frágil, doce, nem desprotegida. Ao contrário, ela é bastante decidida, resolvida e forte para enfrentar os impasses “do seu jeito”: entra em campo e disputa as bolas entre os primos e os amiguinhos.

Pude perceber naquela tarde, o imenso encanto dela e desses meninos diante de um brinquedo novo para as crianças, uma casinha de bonecas. O sucesso foi total, as crianças entravam e saíam dela, cantavam, ficavam de pé lá dentro, faziam comidinhas, disputavam espaços e brigavam entre si; todos usavam as panelinhas com pedras e pedaços de folhas, e disputavam o controle da porta. Todos queriam mandar e determinar quem poderia sair e entrar para brincar nessa casinha.

Numa circunstância de impasse entre as crianças, um adulto gritou de longe: saiam daí meninos, a casa é da Isabela que é menina. Esse discurso me surpreendeu a ponto de querer saber mais sobre a tal casa de bonecas dentro daquela família, os usos possíveis para todos, ou só para alguns. E fiquei mais feliz do que poderia imaginar. Continuar lendo Casinha de bonecas: encanto para meninos e meninas

O que é brinquedo? As crianças respondem!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Desde o tempo em que eu era professora de crianças pequenas, me divirto (e aprendo!) observando as crianças brincando ou brincando com elas. O que mais me encanta é a inventividade e autonomia com que elas brincam! Já na minha primeira experiência como professora me convenci que, para conhecer mesmo as crianças, é preciso entrar na sua lógica, penetrar nos seus mundos. É como até hoje tento entender as crianças: escutando-as com atenção e levando-as a sério!

Mateus, criança que conheço desde bebê, hoje tem 12 anos, e ainda brinca de uma brincadeira muito própria, que o acompanha desde muito pequeno. É tão curioso observá-lo brincando com sua coleção de lápis de cor, encenando diferentes histórias que vão sendo “desenhadas” por suas mãos e imaginação! Com lápis de diferentes cores entre os dedos de ambas as mãos, e movimentos velozes em todas as direções, Mateus transforma esses objetos – feitos para desenhar, colorir, riscar ou escrever – em protagonistas de uma partida de futebol ou então de uma batalha entre heróis e monstros. E cada um daqueles lápis é um personagem específico, que não se confunde com outros, ele sempre soube muito bem quem é quem. Às vezes bem baixinho, outras elevando o tom de voz, Mateus narra e inventa o que está acontecendo ali: um mundo imaginário que ele cria, no qual tem liberdade de definir papéis e cenários, criar histórias, escolher vencedores e perdedores, enfrentar catástrofes, superar medos, experimentar sofrimentos e alegrias e, o melhor, voltar em segurança para o mesmo ponto em que iniciou sua aventura!

Lembro-me que, na minha infância, eu colecionava lápis de cor. Mas só os que ficavam bem pequenos, os cotoquinhos, como eu os chamava! Não me lembro se eu inventava-lhes personagens, acho que não. Minha atração maior era a estética que se produzia quando se juntavam aqueles pequenos pedaços de madeira com diferentes cores e tamanhos. Com eles, eu fazia diferentes composições, enfileirando-os, dispondo-os de diferentes maneiras, construindo casas, florestas etc.

O que tem em comum essas brincadeiras? Objetos que se transformam em brinquedos; brincadeiras que dão novos sentidos aos objetos. Um mundo próprio imaginado e criado pelas crianças.

Nem sempre o brinquedo, para a criança, é aquele objeto produzido industrialmente ou artesanalmente como brinquedo. Quem nunca viu uma criança pequena deixar de lado o brinquedo que ganhou de presente, porque se interessou muito mais em brincar com o papel de presente e/ou com a caixa onde veio o brinquedo? Para a surpresa e decepção do adulto, que acha que vai arrasar com a sua escolha, o brinquedo muitas vezes é desprezado pela criança, que prefere interagir com um simples papel e uma caixa! Estes ganham existência de brinquedos, por meio dos gestos da criança – amassar, rasgar, jogar, empurrar, fechar etc.- e do prazer da exploração de texturas, sons e formas. Do ponto de vista da criança, pode ser muito mais bacana essa ação exploratória de diferentes materiais do que, por exemplo, um lindo, caro e colorido brinquedo sonoro, cuja função se reduz a produzir um som ao apertar-lhe um dispositivo!

O que é brinquedo para a criança? O que é brinquedo para os pais? O que é brinquedo para a escola? Será que quando os adultos criam ou escolhem brinquedos para as crianças sabem o que elas desejam? O que faz de um objeto um brinquedo? Continuar lendo O que é brinquedo? As crianças respondem!