Cidade brincante

Hoje o Papo de Pracinha compartilha o texto da coluna de Luiz Antonio Simas no jornal O Globo, onde ele defende, assim como nós, a importância da participação das crianças e suas brincadeiras na vida das cidades. Leia abaixo na íntegra.

 


Luiz Antonio Simas – O Globo – 02/11/2017

A cidade e as crianças

A rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo

Sonho com um projeto que pretendo colocar em prática quando o tempo permitir: escrever um manual com as regras fabulares da amarelinha, da carniça, do jogo de botão, do preguinho, do pique-bandeira, do passaraio, das cirandas cirandinhas, do lenço-atrás, do futebol em ladeiras, do queimado e das variantes da bola de gude. O título está pronto: “Ecologia amorosa das brincadeiras de rua”.

Alguém há de perguntar se brincadeiras infantis têm lugar em um caderno de cultura. Eu devolvo de prima: por que não? Cultura não se restringe a evento e nem é um terreiro onde só os adultos dançam. Cultura é a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca: as maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, silenciar, gritar e brincar.

O léxico de diversas brincadeiras e folganças de rua me parece importantíssimo para uma gramática afetiva da cultura brasileira. Exemplifico: no “Dicionário Português”, de Cândido de Oliveira, a expressão “carniça” tem como uma de suas acepções a de “pessoa que é objeto de motejos”. Luiz da Câmara Cascudo afirma a mesma coisa. Certamente vem daí a expressão “pular carniça” para a brincadeira infantil que hoje anda quase desaparecida nas cidades. Na Idade Média britânica registra-se a brincadeira do leap-frog (saltar sobre a rã), com característica similar ao folguedo que, com os portugueses, chegou ao Brasil.

Outro exemplo é o do jogo do caxangá, o da música “Escravos de Jó”. Esse “jó” da canção vem do quimbundo “njó”, casa. Escravos de jó são, portanto, os escravos de casa. Caxangá é um jogo de pedrinhas e tabuleiro. Tem gente que acha que o jó é uma pessoa; quem sabe o da Bíblia, que sofreu feito doido as provações de Jeová.

Educação infantil deve priorizar a criança brincando com espaço e tomando um “não!” pela cara de vez em quando, para saber que não é dona do mundo, mas pode se divertir nele sem culpas. Os nossos dias de indelicadezas maltratam a falange de erê. A “adultização” de meninas e meninos é acompanhada pela infantilização dos adultos e a agonia da rua como lugar de encontro, derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens, redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças — quando não são as vítimas principais do abandono, da desigualdade social, da intolerância e da violência urbana — acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias e escolas.

A limitação das amizades de escola é evidente: os alunos da mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é geralmente normativa, padroniza comportamentos e domestica os corpos. E a diferença? A rua poderia resolver isso. Se a escola normatiza, a rua deveria ser o lugar capaz de permitir o convívio entre os diferentes. Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e a experiência da escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto e confinadas entre muros concretos e imaginários; erguidos com a dureza de cimentos, preconceitos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a que proporciona a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas. Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não fará.

Em certa ocasião, fui com meu moleque a uma praça reformada — a Xavier de Brito, na Usina — e perguntei para a garotada se eles tinham sido consultados sobre a reforma, para saber se a disposição dos brinquedos estava nos conformes. Nenhum foi ouvido. Os donos do poder desconsideram que a cidade é também um espaço em que as crianças vivem e brincam.

A cidade em que a criança não toca o rebu é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar a questão como urgente e necessária; antes que restem aos erês apenas aplicativos que rodem o pião que não tem mais chão, pulem amarelinhas virtuais e empinem a pipa que não conhece o céu.

Pedagogia infantil, insisto, é deixar a criança brincar e desenvolver aptidões ludicamente. O resto é formar gente triste para os currais do mercado de trabalho. A criança precisa da arrelia das brincadeiras, e a humanização do mundo passa pelo encantamento radical da rua como um espaço de folguedo, flozô e furdunço.

 

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“Transtorno do Déficit de Natureza”: vamos salvar nossas crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Quais são suas memórias de infância ligadas à natureza? Olhar o movimento que as pedrinhas jogadas fazem nas águas dos rios e lagos? Observar o caminho das formigas? Contemplar as folhas balançando ao vento? Tomar banho de rio? Inventar histórias tendo como palco rios, bambuzais, praias, quintais? Correr atrás de galinhas e patos? Fazer castelos de areia na praia? Brincar na terra de fazer comidinha? Lambuzar o corpo de lama?

E nossas crianças, será que mais tarde terão lembranças de experiências com a natureza?

Para o jornalista americano Richard Louv, as crianças da sociedade contemporânea, predominantemente urbana, estão sofrendo hoje de Transtorno do Déficit de Natureza! Ele criou esse termo para chamar a atenção sobre os prejuízos, físicos e mentais, associados a uma vida desconectada da natureza.  Em entrevista ao Instituto Alana[1], ele destaca, entre outros prejuízos, a redução do uso dos sentidos, dificuldades de atenção, taxas mais altas de doenças como miopia, obesidade infantil e adulta e  deficiência de vitamina D. Louv escreveu oito livros abordando temas relacionando família, natureza e comunidade, e é co-fundador do Children & Nature Network (Rede Criança e Natureza), uma organização internacional que desenvolve um movimento para conectar pessoas e comunidades com a natureza. A rede atua junto a líderes urbanos, para  que tornem as suas cidades melhores para as crianças e adultos, e também para a saúde da própria natureza e do nosso Planeta. A rede também divulga estudos que mostram os benefícios econômicos que a reconexão com a natureza pode trazer, como economias potenciais de vidas e de dinheiro, através da redução de doenças respiratórias, do sedentarismo e de problemas de saúde mental.

Nós, do Papo de Pracinha, temos defendido que as crianças precisam ter garantido o seu direito de brincar ao ar livre. As experiências de brincar livre em contato direto com a natureza são fundamentais para a saúde física e mental das crianças, promovendo o seu desenvolvimento em suas múltiplas dimensões. O brincar na natureza favorece, entre outros aspectos, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia, os processos de decisão, o olhar sensível sobre as coisas, a colaboração, a inclusão e o respeito às diferenças de idade, gênero e etnia. Por isso, nossos lemas têm sido: bora brincar lá fora! ou Crianças: ocupem as cidades!

Sabemos que o modelo de crescimento das cidades vem se fazendo a partir de uma lógica que privilegia a ampliação de edificações e vias/espaços para os automóveis e, como consequência, destrói/cobre áreas verdes e rios. A realidade para a maioria de nós, é que passamos a maior parte do nosso tempo, adultos e crianças, na escola, em casa ou no trabalho, em ambientes destituídos de natureza, muitas vezes predominantemente digitais. Claro que não podemos negar os avanços benéficos da tecnologia, mas é preciso que compensemos esse tempo com mais natureza, se não quisermos adoecer ou criar nossas crianças em total desconexão com a vida que pulsa na natureza e com o que ela nos oferece de saúde e bem-estar.

Mas não podemos ficar apenas lamentando essas perdas e esse déficit! Temos saídas, e algumas iniciativas vêm buscando promover essa aproximação das  pessoas e das cidades com a natureza. Você conhece alguma? Vamos nos aproximar dessas inovações que acontecem aqui e no mundo? Nossa ideia é trazer para o Papo de Pracinha alguns exemplos de cidades que se reestruturaram para oferecer mais natureza para as pessoas ou projetos mais específicos relacionados à natureza. Para aguçar a nossa curiosidade e provocar algumas reflexões, poderíamos nos perguntar:

  • Como seria a nossa cidade se elegesse dentro de suas prioridades a conexão das pessoas, especialmente das crianças, com a natureza?
  • E se as escolas tivessem como princípio e eixo organizador do seu espaço e de seu currículo a experiência direta com a natureza?
  • Como seria a saúde da população de uma cidade se a natureza estivesse nas prescrições de saúde das pessoas, desde o seu nascimento?
  • Que natureza ainda existe debaixo das ruas da nossa cidade? (conheça o Projeto Rios e Ruas)
  • O que eu posso fazer no plano individual/familiar para trazer mais natureza para a minha vida e a das crianças?

Quem quiser nos contar sobre alguma iniciativa, use esse espaço – blog ou facebook – ou nosso email: papodepacinha@gmail.com. Vamos adorar compartilhar essas experiências com nossos leitores.

Antes de encerrar nosso papo de hoje, gostaríamos de citar o Projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana, que vem desenvolvendo algumas iniciativas bacanas na cidade do Rio de Janeiro. Além de produzir publicações e seminários para discussão do tema, criaram algumas ferramentas: (1) os Grupos Natureza e Família, com um Guia Passo a Passo para ajudar as famílias a organizarem grupos que se encontrem para brincar com suas crianças em parques ou praças, fazer piquenique, fazer trilhas e caminhadas, fazer passeios guiados com foco em aspectos da natureza, entre outras possibilidades; (2) O Movimento Boa Praça  disponibiliza um manual que incentiva o uso e a apropriação de áreas verdes públicas; (3) o GPS da Natureza que ajuda crianças de todas as idades e suas famílias a descobrirem atividades divertidas ao ar livre, na área em questão, por meio de sugestões, como praia, unidade de conservação, incluindo previsão de duração e do clima.

Viver tendo uma relação direta com a natureza ensina as crianças, sobretudo, que somos uma pequena parte desse planeta vivo, imenso e rico, repleto de outros tipos de vida da qual dependemos, todos. E torna possível viver em regime de colaboração e respeito ativos num sistema integrado do qual dependemos todos uns dos outros.


[1] “Cidades mais ricas em natureza” – Entrevista com Richard Louv – Publicação do Instituto Alana – Criança e Natureza.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

E agora eu era…princesa, herói ou formiguinha?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 Ser outros, muitos outros: bicho, gente, mau, bom, bonito, feio, herói, bandido, bruxa, fantasma, monstro, adulto, homem, mulher, bebê… Quem não se lembra da magia que é se fantasiar e fazer de conta que somos outros?

Fantasias ajudam as crianças a dar asas a imaginação e  a compor novos personagens e histórias. Experimentando ser outros numa realidade de faz-de-conta, a criança se reconhece e reflete sobre o mundo em que vive, além de inventar outras lógicas, que desafiam o mundo real. A brincadeira de faz-de-conta é um exercício de criação para as crianças.  E não precisamos achar que, se ela está imitando o bandido ou brincando de comidinha, será ladra ou chefe de cozinha, como se a  brincadeira infantil fosse uma preparação para o desempenho de futuros papéis. Ela está apenas experimentando ser outros, sem deixar de ser quem é, vivendo com intensidade o seu tempo de ser criança. Ela está aprendendo a lidar com as emoções, as diferenças, as dificuldades, no espaço protegido da imaginação e da brincadeira.

É comum vermos as crianças fantasiadas de princesas ou super-heróis nas ruas, escolas e festas infantis. Mas é preciso que as crianças também possam ser formiguinhas frágeis, pássaros, gatos ou cachorros, corajosos ou assustados, monstros horripilantes, dragões, bruxos, fadas ou o que a imaginação mandar. Muitos personagens da mídia carregam valores, padrões e regras relativas a gênero, beleza e modos de ser e agir, sobre os quais precisamos refletir.  No mínimo, esses personagens precisam de contrapontos, para que as crianças experimentem outras possibilidades de ser. Defendemos, nesse sentido, que as crianças tenham acesso a literatura, música, cinema, teatro e desenhos animados que fujam desses estereótipos, para que tenham referências culturais diversas, que lhes permitam criar diferentes personagens e histórias, sem ficar presas ao universo pré-estabelecido de um personagem. Nesse sentido, é interessante que as crianças também tenham acesso a fantasias fora dos padrões de consumo e da mídia. Outra possibilidade é criar fantasias junto com as crianças, com máscaras de papel, pedaços de tecidos, adereços diversos, maquiagem, roupas e acessórios de adultos, entre outras possibilidades. Nós, adultos, também nos divertimos nessa brincadeira. Bora lá?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Fotos: Luiza Gueiros

Crianças, a natureza está lá fora!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88É sabido que ao longo da história os homens foram criando recursos e ferramentas para ampliar seus movimentos e sua ação sobre os espaços como aconteceu, por exemplo, com a escada para aumentar sua altura, o ancinho para ampliar a ação de mãos e braços e a corda, para amarrações e para laçar animais em movimento.

As crianças que têm a oportunidade de brincar em contato com a natureza podem, não só sofisticar algumas dessas criações, como também descobrir, experimentar ações individuais e coletivas importantes como: correr livremente, saltar pedras e obstáculos, andar sobre pés de latas ou pernas de pau, subir em árvores, cavar a terra, usar a corda para amarrações e para pular. E quando percebem que suas vozes produzem vibrações e ecos? Chega a ser mágico.

Ao ar livre elas podem soltar pipa (em áreas sem fios elétricos), observar a dança das folhas secas ao vento, a direção do vento, as cores e formatos diferentes de árvores e folhas, o balé das bolas de sabão.   Experimentar com seu próprio corpo, seus desejos, suas histórias.

A natureza nunca se porta da mesma forma, mesmo em espaços já conhecidos. O ambiente natural convida as crianças a desenvolver sua percepção, sensibilidade, a capacidade de inventar e de descobrir respeitosamente, a sentir o cheiro da chuva,  a se conectar com os movimentos do mundo vivo e natural de que são parte. Isso é Papo de Pracinha.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

As crianças amam fazer comidinhas!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Não se pode afirmar que todas gostem das mesmas brincadeiras, pois as crianças têm suas preferências. Também é difícil, muitas vezes, encontrar explicações racionais que justifiquem seus desejos.  No entanto, para entender o envolvimento delas em diferentes brincadeiras, podemos levar em conta alguns aspectos que são comuns aos seus modos de brincar, como a curiosidade, a experiência transformadora, as combinações, as descobertas e as invenções.

Terra, água, gravetos, sementes, folhas, pedrinhas, potes variados transformam-se nas mãos das crianças em feijão, carne, arroz e outras comidinhas produzidas e inventadas magicamente por elas, em diferentes contextos imaginários onde servem/comem suas produções: festas de aniversário, casamentos, restaurante, cafés etc.  A criança experimenta texturas diferentes e o poder que tem de, com seus gestos e movimentos, transformar os materiais. Ao jogar água na terra, vê a água “desaparecer” e surgir a terra molhada, material que oferece outras possibilidades de manipulação, assumindo diferentes formas e significados a partir das ações de verter, misturar, enformar etc. Aqui estamos falando do brincar na natureza, em parques, praças e outros locais onde encontramos esses materiais. Mas e dentro de casa, também dá pra brincar de comidinha de uma forma interessante? Sim, podemos permitir às crianças misturar pó de café e água, um pouquinho de leite em pó, arroz etc., em panelinhas, potinhos ou outros recipientes pequenos, para que possam fazer suas misturas criativas, descobertas e invenções de cardápios. Por que não?

Muitas vezes, os adultos impedem esse tipo de brincadeira porque faz sujeira no ambiente, na roupa e até mesmo no corpo da criança. Aqui temos que resgatar o antigo provérbio que indica ser impossível fazer omeletes sem quebrar ovos.  De verdade, poder se sujar ao manipular “alimentos” é parte da vida de quem cozinha, de quem bota a mão na massa. E brincar  de verdade, experimentar os diferentes materiais, sem se sujar, é quase impossível. Para brincar, é preciso ter liberdade de se sujar, se for necessário.

Outra preocupação é quanto à segurança. Fogões acesos, fornos quentes, panelas aquecidas etc. são causadores de acidentes graves e, para preveni-los, procuramos manter as crianças afastadas da cozinha. Talvez esse impedimento seja uma fonte de curiosidade da criança em relação a esse espaço mágico que é a cozinha, onde se produz tantas coisas gostosas! Mas podemos criar o ambiente da cozinha em outros espaços, montando junto com as crianças a sua “cozinha” de faz-de-conta: caixas podem virar fogão, recipientes de plástico panelinhas, pratos, colheres de pau atendem muito bem às crianças.

O Papo de Pracinha defende que as crianças estreitem cada vez mais a sua relação com a natureza, dando-lhes a oportunidade de explorar seus diferentes elementos e com eles fazer suas experimentações e criações. É preciso levá-las para brincar ao ar livre nas praças e nos espaços públicos e deixá-las mexer na terra, coletar folhas, pedras… E, quando estiverem em casa, que tal convidá-las a brincar de forma ativa, criativa, inventiva e imaginativa? Bora lá fazer comidinha?

Boas comidinhas são Papo de Pracinha.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Brincar ao ar livre na cidade! Bora lá?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Ainda que o emparedamento em suas casas e escolas seja uma realidade para grande parte das crianças, percebe-se hoje uma motivação por parte de um número significativo de famílias de promover para elas o brincar livre, em espaços abertos e em contato com a natureza.

Observa-se, de um lado, as famílias buscando espaços de natureza na cidade para levarem seus filhos para brincar ou fazer piqueniques e, de outro, iniciativas crescentes por parte de diferentes organizações ligadas à criança de promover ações culturais em praças, parques e outros espaços abertos, com atividades voltadas para o público infantil. Esse duplo movimento aponta para a importância de a cidade acolher as crianças e suas famílias, oferecendo espaços de natureza que convidem à brincadeira livre, à experimentação, à criatividade, à imaginação, ao brincar junto e a uma ocupação cuidadosa da cidade.

Na semana passada, uma matéria no jornal O Globo, de 31 de Outubro de 2016, intitulada A volta da pracinha (pág. 31), aborda a revitalização de espaços ao ar livre em diferentes pontos da cidade, apontando que esses espaços vêm atraindo, nos finais de semana, eventos infantis, com troca de livros, teatrinho e oficinas diversas, como horta, fabricação de brinquedos, entre outras.  O fato é que estamos sentindo um crescente movimento de ocupação dos espaços públicos da cidade. Não só nos finais de semana, pois  algumas praças, revitalizadas por iniciativas diversas, como grupos de moradores que se associaram a comerciantes, vereadores ou empresas, por exemplo, vem sendo ocupadas também durante a semana pelas crianças (geralmente crianças até 6 anos).

Assim, está mais do que na hora de a cidade, como poder público, incluir nas suas ações urbanas e culturais, como política pública,  a garantia de espaços públicos ao ar livre seguros, bonitos e mais conectados com as crianças (e não com um pensamento adulto que não enxerga a criança), com a participação das comunidades que os frequentam, incluindo as crianças.  A ocupação da cidade pelas crianças torna-a mais segura. Aqui, vale lembrar Tonucci[1]: quando nunca encontramos crianças, caminhando ou brincando nos espaços públicos, na semana ou no fim de semana, significa que a cidade está doente. Adotemos o seu lema: uma cidade que é boa para as crianças é boa para todos!

Sobre o Bora lá: brincar na Lagoa

Tendo esse lema como norte, o Bora lá: brincar na Lagoa, evento promovido recentemente (29/10) pelo Papo de Pracinha, em parceria com a Miüdo, teve a intenção de propiciar às crianças e suas famílias o brincar livre na cidade e em contato com a natureza.

 

Bora lá: Brincar na Lagoa
Foto de Alexandre Brum

Na paisagem incrível da Lagoa, cercada de verde, água, sol e brisa (fomos premiadas com um tempo lindo e agradável, depois de dias de chuva ameaçando a realização do Bora lá…), sob o colorido de tecidos, balões de papel, bolas de sisal, acolhemos as crianças e suas famílias, com um espaço de brincadeira,  imaginação e convivência. Oferecemos coisas simples, muito simples, dispostas em diferentes cantos prontas a serem exploradas pelas crianças e adultos.

Bora lá: Brincar na Lagoa
Foto de Alexandre Brum

Terra, água, grãos, sementes, folhas, gravetos, galhos, texturas diversas ofereceram às crianças a possibilidade de se conectarem com os elementos da natureza e experimentar suas possibilidades, através do corpo, dos movimentos, da imaginação e da criatividade.  Fazer comidinha com panelinhas de barro e esses materiais exerceu uma atração incrível nas crianças. Era, disparado, o canto mais disputado. Foi imensa a entrega das crianças nas misturas de terra, água, sementes, no mexer, colocar, retirar, recolocar, fingir comer, imaginar, sentir, fazer de novo… Mas, logo logo, outros espaços e materiais foram chamando a atenção das crianças.

Bora lá: Brincar na Lagoa
Foto de Alexandre Brum

Pés de lata, bolinhas de sabão de todos os tamanhos, garrafinhas sensoriais, bambolês, túneis provocavam movimentos, desafios, risos e alegria: correr, saltar, se abaixar, se arrastar, ficar mais alto, cair, levantar, rir, chorar, gargalhar… Livros diversos, no espaço de “Leiturinhas”, levaram muitas crianças junto com seus pais, tios ou avós a ouvir e contar histórias de bruxas, bichos, meninos, meninas, florestas… viajando com as palavras e imagens para outros mundos.

Bora lá: Brincar na Lagoa
Foto de Alexandre Brum

Fantasias trouxeram para o espaço do Bora lá pássaros, tigres, dragões, bailarinas, princesas e outros seres. E a música? Tantos olhinhos brilharam, corpos balançaram, vozes soaram em ritmos diversos, cantando em comunhão e embalados pela riqueza da expressão musical!

Bora lá: Brincar na Lagoa
Foto de Alexandre Brum

Procuramos acompanhar a repercussão do Bora Lá  no contato com crianças pais, avós e amigos  ali mesmo, durante e depois do evento. No entanto, não é possível ver como vocês, que nos acompanham e que estavam lá, as preferências e interesses da(s) sua criança(s).

Queremos saber como cada um que participou do evento percebeu a relação do seu/sua filho com o que estava ali disponível para ele(s) e ela(s).  O que mais gostou? Onde permaneceu por mais tempo? Sentiu falta de alguma coisa?

Contem para nós.  Prometemos compartilhar nas próximas semanas as nossas impressões e as devoluções que espontaneamente recebermos.

Queremos agradecer a presença de todos e dizer que teremos outros encontros pela frente, tão gostosos quanto o primeiro.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme


[1] Francesco Tonucci é um pensador italiano, psicopedagogo e desenhista, coordenador do Projeto “La città dei Bambini”, nascido em Fano (Italia) , em 1991. Para saber mais sobre esse projeto, acesse http://www.lacittadeibambini.org

Fotos: Alexandre Brum – brumfotos – Contatos: brumfotos@gmail.comhttp://www.brumfotos.com

Bora lá brincar na Lagoa? Conheça o evento!

Você já pensou em levar sua criança a se divertir ao ar livre? E se nessa área, você tivesse a oportunidade de contar com atividades muito criativas e interessantes, capazes de incentivar mais ainda o contato com a natureza e a sustentabilidade por meio de brincadeiras únicas e divertidas?

Então, ótimo! Porque é exatamente isso que o evento “Bora lá brincar na Lagoa” propõe. Um espaço para que crianças interajam, se relacionem e aprendam sobre o universo a seu redor.

O que se vê muito hoje, infelizmente, é a falta de crianças brincando ao ar livre. Pais muito ocupados, crianças com agendas lotadas e uso exagerado de televisão, tablets e smartphones acabam impedindo que as crianças brinquem livremente na natureza.

Por isso mesmo você precisa conhecer o evento “Bora lá brincar na Lagoa”. Sua proposta é oferecer brincadeiras  gostosas para crianças e pais se divertirem juntos.

Programação do evento Bora lá: brincar na Lagoa

O evento ocorrerá na Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, das 9h às 13h, em 29 de outubro, sábado.

A programação está repleta de atividades que associam materiais presentes na natureza, como terra, águia, grãos, sementes, folhas, gravetos, texturas à imaginação, liberdade e criatividade das brincadeiras das crianças. Brincar na natureza permite conhecer e passar a respeitar e a cuidar dos ambientes naturais.

Como se isso não fosse o bastante, as crianças poderão brincar com tecidos, bambolês, pescaria e bolha de sabão de mil tamanhos diferentes. Há também um espaço destinado às leituras, com livros e almofadas para que todos fiquem confortáveis.

O evento contará com as fantasias produzidas pela Elefoa, para encantar as crianças. Lá todo mundo pode ser o que quiser. E que criança não quer?

As atividades não param por aí. Haverá um cantinho para os bebês, com tapetes confeccionados pela Miüdo, e materiais sensoriais para que os bebês explorem e se encantem mais ainda com o mundo.

E, como não poderia faltar, haverá uma vivência musical, com Bebel Nicioli, da Brincadeiras Musicais, para tornar essa manhã ainda mais mágica e especial.

Onde, na Lagoa?

Quase em frente aos Pedalinhos. Bem na altura do Parque Municipal da Catacumba, que oferece uma passarela para a Lagoa. Perto também do Palaphita Kitch. Onde houver criança e muita alegria.

Leve as crianças e se divirta junto!

O evento Bora lá brincar na Lagoa é uma excelente alternativa de tirar as crianças de casa e propor um passeio diferenciado, muito mais natural, divertido e simples. Aliás, os materiais utilizados serão sustentáveis, o que também promove a conscientização acerca da preservação do meio ambiente.

Tendo como cenário a paisagem incrível da Lagoa, ainda por cima, será um ótimo espaço para curtir com toda a família, não acha?!

Então, acesse agora mesmo a página do evento Bora lá brincar na Lagoa!

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Crianças na natureza

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Vocês acreditam que o contato direto de crianças com a natureza as convidam para a criação artística e para um relaxamento que contribui para o seu equilíbrio interior? Os espaços naturais convidam as crianças a se relacionar com eles. A natureza permite, por exemplo, que as crianças observem e que sejam sensíveis às diferentes formas de árvores e de folhas, às cores presentes nas plantas e nas flores, nos pássaros e até mesmo no céu.

O Papo de Pracinha acredita que brincar em espaços abertos ajuda a quebrar com a visão consumista e reduzida do mundo, que só tem servido para gerar competição e tristeza nas crianças.

Vamos essa semana brincar com liberdade, com os pés descalços na terra onde se pode pisar para tentar ouvir os sons do vento?  O Papo de Pracinha vai e apoia o vídeo do Instituto Alana nesse passeio.

Fonte: Instituto Alana (Youtube)

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

8 brincadeiras ao ar livre

Papo de pracinha (*)

1444722355_88 Em tempos de tantas tecnologias ao alcance das crianças, é cada vez mais comum que elas passem grande parte do seu tempo livre, que já é pouco, emparedadas dentro de suas casas. Sem falar, no emparedamento que também acontece nas escolas, espaços muitas vezes limitados e áridos, ausentes de natureza. Nesse contexto, ir para fora de casa, passear pela cidade, brincar livre e na natureza, em parques, praças, praias etc. é hoje uma prescrição para a saúde e a felicidade das crianças. Nós, adultos, precisamos desfrutar mais do convívio com as crianças na natureza! Interagir com terra, areia, árvores, plantas em geral, bichos, flores etc. nos aproxima da vida, nos torna mais sensíveis, nos traz maior conexão com nosso ser interno e com as nossas crianças. Que tal experimentar incluir mais atividades ao ar livre em família! Aqui vão algumas sugestões de brincadeiras que podemos fazer em praças, parques, ruas fechadas, entre outros espaços públicos abertos.

  1. Contar histórias à sombra de uma árvore – leve uma canga, esteira ou algo semelhante, encontre uma posição confortável e desfrute da leitura de um bom livro junto com sua(s) criança(s).
  1. Passear pelo parque, levando uma bolsa ou um cesto, observar a natureza e coletar sementes, folhas, flores, gravetos, pedrinhas etc. Após a coleta, pode-se organizar o que foi encontrado em pequenos potes ou saquinhos, fazer uma produção artística usando esses materiais naturais, ou então seguir a sugestão da criança.
  1. Fazer bolhas de sabão.
  1. Montar uma cabaninha, usando tecidos amarrados em árvores.
  1. Desenhar no chão com gravetos ou giz.
  1. Brincar de amarelinha, corda, pique (pique árvore, por exemplo), entre outras possibilidades de brincadeiras tradicionais.
  1. Brincar de fazer comidinha, com areia/terra, panelinhas, potinhos, colheres, pás etc.
  1. Brincar de cientista, explorando a natureza com uma lupa.

Conte-nos também suas ideias e as de suas crianças!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme