“Corpinho sim, cabecinha não”: a hora do banho

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Crianças têm sentimentos diferentes em relação ao banho. Em sua maioria, quando já brincam com mais autonomia, não gostam de parar o que estão fazendo para tomar banho. No entanto, depois de iniciado, o banho proporciona tanto prazer e conforto que elas não querem sair dele. Brigam para entrar e, da mesma forma, brigam para sair do banho.

Há as que só tomam banho frio, as que gostam de água bem quentinha, as que gostam de tentar segurar o sabonete que sempre escorrega etc. Há, ainda, os que adoram piscina e os que preferem praia. Tem também a turma do chuveiro e a da banheira. Há os que tem pavor de mar, de chuveiro e de piscina. A água forte que cai do chuveiro direto na cabeça da criança pode ser assustadora, além do sabão ou xampu nos cabelos que podem incomodar aos olhos, mesmo quando não ardem. Pedro, dos dois aos quatro anos, ao ser chamado para tomar banho anunciava logo: corpinho sim, cabecinha não, resistindo sempre.

Respeitados os hábitos e as preferências de cada uma delas, sempre que possível, podemos dizer que em todas as idades, os banhos refrescam, higienizam e relaxam. Há muitas crianças que dormem logo depois do banho, muitas vezes sobre a toalha, antes mesmo de estarem totalmente vestidas.

O que nem sempre passa pela cabeça dos adultos, em casa e nas instituições de educação infantil, é que a hora do banho quase sempre representa um dos poucos momentos, as vezes o único, em que um adulto e uma criança se aproximam, se encontram, se entreolham e conversam. No lugar da correria do dia-a-dia naturalmente, a hora do banho se configura como um cenário propício para conversas descontraídas, para brincadeiras e para contato. Sim, para contato físico. Então, pense conosco por um minuto: como é a hora do banho na sua casa?

Pois é, nas creches e nas escolas o banho nem sempre pode ser demorado. A maioria das atividades são coletivas e o banho precisa ser ágil, o que faz com que muitas vezes aconteça como se fora uma linha de produção industrial, para dar tempo de atender a todas as crianças. A higiene pode até ficar atendida, mas não costuma haver tempo para brincadeiras nem entre as crianças, nem delas com os adultos. Para que a brincadeira, o toque e o contato físico sejam priorizados, a rotina escolar precisa ser repensada para que o banho tenha maior qualidade relacional, contato mais próximo entre o adulto e a criança.

Todos nós adultos, precisamos também estar atentos para não deixar haver desperdício de água potável, além de ser preciso ensinar as crianças a economizá-la. Sem esquecer, ainda, que a hora do banho, que envolve água em pisos lisos (em geral) formam uma dupla imbatível para acidentes graves! Assim, todo cuidado é pouco, mesmo quando existe tempo para brincadeiras!

Então, afinal, o que queremos defender? Aquele banho que promove experiências e sensações. Por exemplo, no caso dos bebês, vale ter tempo para passar a mão e massagear todo o seu corpo, usar uma esponja bem suave, lavar sua cabeça com massagem no couro cabeludo para que ele se sinta confortável e amado. Os adultos precisam, sempre, respeitar o corpo da criança, ouvir e atender às suas preferências, dialogando com ela enquanto vai anunciando o que vai fazer.

Quando já ficam de pé, seja de chuveiro ou de banheira, a higiene pode ser acompanhada de brincadeira e alegria. Há brinquedos que podem ser molhados, lavados, há os que boiam, os que afundam. Há canetinhas coloridas que podem ser usadas para desenhar em azulejos e em plástico, podendo ser limpos com facilidade depois. Nada melhor, também, que uma bacia bem larga, com pouca água que possa ser usada para manter a criança sentada enquanto brinca com certos objetos, com bonecas e com a própria água. Bacias largas não devem ser substituídas por baldes! Cuidado, crianças podem se afogar em baldes com bem pouca agua se ali caírem, de cabeça, e não conseguirem sair rapidamente. Muito cuidado!

Nas creches e escolas, as crianças podem fazer uma farra tomando banho de mangueira em grupo, podem ir ao chuveiro aos pares e em trios, mas sabemos que o banho mais demorado e com contato apurado com o adulto deve ser função dos pais e mães. Em tese, não deve ser papel das creches e escolas cortar as unhas das crianças, nem usar cotonetes em seus ouvidos, por exemplo, mesmo cientes de que muitas crianças só tomam banho fora de casa já que chegam em casa com muito sono, quase na hora de dormir, e assim ficam sem essas e outras vivências preciosas para suas vidas. Em alguns casos é necessário que seja assim e não podemos julgar seus pais por isso.

Mas podemos tentar explicar, aqui, porque é impossível que as crianças saiam impecáveis das creches e das escolas, mesmo depois de terem tomado banho e se alimentado. Não se pode, nem é desejável que as crianças parem de brincar para ir para casa como se fossem para uma festa. Depois do banho, não há como pendurá-las num cabide até a hora de ir para casa. Na verdade, as atividades ao final de cada período costumam ser mais lentas, mas não podem impedir que as crianças interajam umas com as outras, nem com o ambiente, e que assim voltem a se sujar, claro.

O importante é que, sempre que possível, ao chegar em casa as crianças possam tomar um banho com a ajuda do papai ou da mamãe, que sentem à mesa junto com seus pais mesmo que já tenham jantado para perceber que as casas e a instituições que frequentam são espaços diferentes, com suas regras próprias desde que em ambas exista prazer, segurança, atenção e amor para elas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme