Brincar com liberdade: condição de felicidade!

Papo de pracinha (*)

1444722355_88A redução crescente dos espaços e tempos de brincadeira livre das crianças vem provocando diversas ações voltadas para a conscientização da sociedade sobre o valor da brincadeira na infância: documentários, vídeos, eventos culturais e científicos, reportagens televisivas, publicações, entre outras iniciativas. Na semana passada, por exemplo, tivemos a Semana Mundial do Brincar, promovida pela Aliança pela Infância, cujo objetivo é mobilizar e sensibilizar famílias, educadores, adultos e brincantes de todas as idades para que ofereçam tempo e espaço ao brincar das crianças.

Que bom que esse movimento em defesa do brincar está acontecendo, precisamos mesmo falar mais e mais sobre isso! Mas precisamos de muito mais ainda para modificar essa realidade que vem se impondo às crianças! As forças que causam a redução e o empobrecimento do brincar livre são avassaladoras e, para enfrenta-las, é necessário elevar as crianças à prioridade que elas merecem ter. Precisamos olhar com mais atenção para as crianças e para o que estamos fazendo delas!

É urgente a compreensão e a garantia, por meio de ações concretas, tanto no nível macro das políticas sociais, culturais, educacionais e urbanas, como no cotidiano das famílias e das instituições de educação infantil, de que o brincar é uma dimensão essencial da vida e, como tal, precisa ser garantida. Para as crianças, o brincar é central para o seu desenvolvimento e interação com o mundo! Quando não é devidamente contemplado, coloca-se em risco o bem-estar e a felicidade das crianças!

Mas de que brincar estamos falando?

Não é do brincar instrumentalizado e didatizado pelos adultos, presente em muitos espaços escolares e também familiares. Sabemos que a preocupação cada vez mais precoce com a escolarização das crianças, ou com a sua formação para um mundo competitivo, tem levado a uma pedagogização do brincar. Os brinquedos/brincadeiras são escolhidos porque desenvolvem isso ou aquilo, ou porque levarão a essa ou àquela aprendizagem. A escola é mestre em usar a brincadeira como recurso para o ensino. Não estamos dizendo que não seja válido usar a ludicidade nas práticas pedagógicas, mas é preciso saber que quando a brincadeira é transformada em instrumento visando a alguma coisa, deixa de ser brincadeira para a criança. A brincadeira não cabe na previsibilidade dos adultos e nem, tampouco, tem um resultado, como um jogo de regras, por exemplo. Talvez por isso, essa brincadeira que liberta, não pode funcionar como estratégia pedagógica.

O que estamos defendendo aqui é o brincar “de verdade”, sem compromisso com resultados. Não se brinca para aprender, ou para alguma coisa. Brinca-se para brincar, brinca-se de boneca para brincar de boneca, e não para preparar-se para a vida adulta. Brinca-se de bombeiro para brincar de bombeiro, e não para preparar-se para ser bombeiro, ou para qualquer outra profissão. Como diz Lydia Hortélio, educadora e musicóloga brasileira, brinca-se para ser feliz. É preciso brincar para afirmar a vida.

E o que é necessário para que o brincar de verdade aconteça?

Tempo – as agendas das crianças lotadas de compromissos e as escolas com suas rotinas voltadas para a escolarização roubam o tempo livre das crianças e, com isso, empobrecem ou até mesmo impedem a experiência do brincar livre. O brincar de verdade precisa de tempo, tempo para projetar, imaginar, experimentar, voltar ao começo, fazer de novo, tempo para a fruição, para girar o mundo para outro lugar, o lugar do faz-de-conta, do livre pensar e agir.

Liberdade – de escolha, movimento, ideias, condução das ações, definição das regras, negociação de conflitos…

Risco – arriscar-se faz parte do brincar. E o brincar permite que a criança se arrisque em um espaço protegido, o da brincadeira. Arriscar-se a subir em árvores, correr, pular, saltar, esconder-se, rodar… Arriscar-se a ser o ladrão, o lobo mau, a bruxa, o forte, o fraco… No brincar livre, as crianças aprendem a avaliar os riscos e a ajustar suas ações.

Autonomia – as crianças também precisam brincar sem a tutela do adulto, tomar decisões por si próprias, fazer as suas escolhas, assumir responsabilidades pelas suas ações, criar formas próprias de brincar.

Envolvimento – engajamento e inteireza fazem parte do brincar livre. A brincadeira cria um mundo próprio, dentro do mundo maior, no qual as crianças se inserem por inteiro, “suspendendo” a realidade durante o tempo do brincar.

Não-produtividade – como já apontado, o brincar livre não tem compromisso com resultados. É importante por si mesmo. Ponto!

Convívio com a natureza – o brincar na e com a natureza favorece a liberdade, incentiva o movimento, a força, a coordenação, a concentração, a imaginação e a criação; e, o que é muito importante, afasta as crianças do consumo, da TV, dos ipads, smartphones e computadores, e também da brincadeira mediada pelos brinquedos de mercado, resgatando a simplicidade e a força dos elementos da natureza como recursos naturais para o brincar. Brincar na e com a natureza favorece a conexão com a vida. Sem deixar de falar no sentimento que desenvolve de amor e proteção à natureza.

Encontro com o outro – brincar com o outro exige e promove a partilha, a aceitação de pensamentos diferentes, a negociação e a coordenação de ideias, a tolerância, a definição e divisão de papeis, promovendo a sociabilidade e a percepção de si e do outro.

Cidades amigas das crianças – As cidades reduziram seus espaços públicos de brincadeira, priorizando o transporte individual, invadindo recursos naturais em prol da especulação imobiliária, diminuindo as calçadas para ampliar as vias de circulação de automóveis… É preciso inverter essa prioridade, criando espaços de brincadeira nas cidades: mais pracinha, pracinhas que acolham crianças de todas as idades, mais natureza, mais autonomia para as crianças, espaços seguros de circulação e de interação com a cidade.

Reconhecemos a dificuldade da maioria das famílias de conciliar a rotina de trabalho com a rotina dos filhos. Mas o pouco que conseguimos estar com nossos filhos, permitindo-nos segui-los nas suas brincadeiras livres, pode significar muito para eles. É muito melhor do que comprar o mais novo brinquedo do mercado, como compensação do tempo em que estivemos longe deles. O brinquedo passa, mas os momentos de intimidade e conexão que acontecem no brincar ficam, e dizem muito para os pequenos, e para os adultos também! Falam de amor, liberdade e felicidade.

Por fim, fica aqui a sugestão: que tal experimentar desacelerar a rotina das crianças e deixá-las brincar mais, livres e sem compromisso? Certamente faremos as crianças mais felizes!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

O que é melhor para seus filhos?

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não é pouco comum ver mães, pais e famílias se sentindo fragilizados para decidir coisas importantes em relação às suas crianças. Como eu percebo isso? Não é difícil diante do número de e-mails, telefonemas e abordagens que recebo de amigos e nos espaços por onde transito: o que você acha sobre o uso da chupeta? E a natação para bebês? A água do banho: quente, morna ou fria? As escolas bilíngues? Castigos, sim, não, a partir de que idade? E tantas outras dúvidas, inseguranças e lacunas que incomodam os corações de pais e mães em busca de respostas. Mas quem tem essas respostas? Onde elas estão prontas e acessíveis?

Assim, preciso evitar sempre ocupar esse espaço que me é oferecido para não agir de uma forma que contraria as minhas raízes, a minha história e as minhas crenças. Ao mesmo tempo, isso não é simples porque não sou um ser sem opinião, alguém que se omite e que pouco se expõe. Portanto, é bem comum eu vir a responder com uma proposta assim: vamos conversar sobre isso? para aceitar dialogar sobre um tema aflitivo sem alimentar crenças fantasiosas. Não acredito que qualquer pessoa, fora do contexto familiar que sustenta a relação afetiva cotidiana, tenha as melhores respostas para a educação de suas crianças. E, junto com isso, eu não acredito em pessoas que se julguem superiores, mais sabidas (isso na nossa sociedade nada mais é do que poder), capazes de solucionar problemas alheios com respostas prontas.

Me pergunto ainda, a quem interessa criar, disseminar e manter essa forma de ver a vida onde, por exemplo, se busque defender um único modo para todas as mães parirem seus filhos, sobre um padrão de amamentação por igual período para todas as crianças que poderia ir de 6 meses a 2 anos, ou pelos primeiros mil dias, como alguns defendem e, ainda, sobre os benefícios e malefícios do uso da chupeta. Dei três exemplos provocadores porque qualquer “estudioso de crianças” poderia responder rápida e genericamente a essas três questões. E eu também, desde que genericamente. No entanto, generalidades não combinam com a mulher, a mãe e a avó que me habitam porque desejo garantir o espaço das subjetividade(s), do que diferencia as pessoas, e isso delicadeza, cuidado e muito respeito. Continuar lendo O que é melhor para seus filhos?