Quando a arte vira lixo

Imagem: Luíza Gueiros

Papo de pracinha (*)

1444722355_88“Você está lavando a minha atividade, e eu não quero tirar ela”, foi como o Benjamin expressou a sua indignação diante da intenção da avó, de querer lavar cada dedinho de sua mão no banho até apagar os desenhos feitos por ele mesmo, com canetinha.

Ao desenhar no próprio corpo, e as mãos são parte dele, nós adultos já antevemos que os hábitos mais simples de higiene poderão apagar, limpar qualquer registro gráfico expressivo feitos por uma criança, em seu corpo. Não somos como certas nações indígenas, as vezes ágrafas, que desenham em seus corpos como uma manifestação cultural preciosa. Ao contrário, desde cedo estimulamos nossas crianças a desenharem em papéis e em outros espaços gráficos que julgamos “adequados ou permitidos” e, muitas vezes, na escola e fora dela, eventualmente, não sabemos o que fazer com o “trabalhinho”, a “atividade”, ou seja, com a produção expressiva da criança. Vamos explicar mais e melhor.

Nos perguntamos com frequência sobre quem é o dono da arte e onde ela se encontra: no quadro pintado pelo Van Gogh, por exemplo, no corpo/mente e genialidade do próprio artista ou, ainda, e também, nos seres sensíveis que lhes dão sentido? Esses aspectos são inter-relacionados, mas têm naturezas bastante diferentes. Pois bem, nesse viés, até algum tempo atrás desconsiderava-se a importância dos “rascunhos e croquis” anteriores à obra dada como finalizada pelo artista. Hoje não, há croquis, ensaios e rascunhos de grandes obras que valem tanto quanto o seu produto final, diante do entendimento de que existe um processo de criação artística, às vezes lento e demorado, do qual depende a obra para ser dada como concluída.

Para nós, educadores, cada cena ou representação expressiva ou gráfica da criança tem tanto valor quanto o desenho considerado mais bonito pelos adultos, para colorir o mural da escola, ou da sala de atividades. Ninguém sabe exatamente demarcar o momento exato em que um artista se reconhece como mais ou menos brilhante e, por isso, a educação precisa trabalhar de forma a permitir que talentos e genialidades fermentem e brotem, em todas as crianças, em todas as idades. Elas e suas famílias são as donas de suas criações e produtos, mesmo sabendo que às suas artes não sejam atribuídos nenhum valor monetário, mas exatamente pelo que representam como criação.

Nesse percurso, observamos em instituições de educação infantil um tipo de proposta bastante comum, a de criação expressiva com massa de modelar, argila, terra e água, para que as crianças façam personagens, castelos encantados, suas abstrações, também com papel, lápis, canetinhas e tantos outros materiais. Terminado o tempo estabelecido pelos adultos, somos nós que propomos a elas: vamos fazer uma bola com a massinha com atenção para não misturar as diferentes cores, para guardar? Ou seja, desmanchem vocês mesmos o que acabaram de criar! Quando não mandamos que joguem os próprios desenhos no lixo! Acontece, às vezes, mas não deveria.

Quantas expressões de medos e de sonhos, ideias e histórias não estão ali representadas pelas crianças e que, por não poderem “ser lidas ou identificadas ” pelos olhos dos adultos e, também, por não apresentarem relação “de utilidade” (sic) com a vida do mundo adulto, para nada servem? Puxa, a criança faz o seu dinossauro e nós pedimos que ela o desmanche e faça dele uma bola de massa? Ela faz seu desenho e nós propomos que ela jogue seu desenho, ou sua dobradura, no lixo? Quando muito, guardamos os trabalhinhos numa pasta para ser enviada aos pais como uma “prestação de contas” da ação pedagógica desenvolvida com as crianças. Não é assim?

Pensamos no desrespeito à criança e a sua produção e, também,  nos talentos que podemos estar abortando. Sim, a palavra é forte, mas é a mais adequada. Lembramos do Benjamin que lutou por manter seus dedinhos desenhados no lugar de limpar a sua atividade. Resgatamos a avó da Dayane, uma menina que ainda não falava, já com quatro anos, moradora da Comunidade do Caju. Certo dia, Dayane começou a dançar sempre que se vestia com roupas do “canto da fantasia”, ao usar sapatos de salto alto. Junto com tudo isso, começamos a ouvir seus sons: ela passou a cantar enquanto passeava pela sala de atividades toda paramentada de “mulher grande”. Felizes e emocionadas, comunicamos aos quatro cantos do mundo que a Dayane poderia falar e que estava começando a se expressar, cantando, suavemente. E o resto dessa história já foi dito – aborto de talentos. A mãe a avó dela, apoiadas pela diretora, disseram: “quero vê-la ler, escrever e falar, ela não vem à escola para dançar, nem para cantar”. Nesse dia, a vida de certas professoras e as melhores possibilidades educativas morreram um pouco, ou muito, e com elas também centenas de fadinhas encantadas caíram do céu se contorcendo de dor, com pena desses adultos. Caem do céu e se petrificam. Todos nós que estamos aqui continuamos lutando, até hoje, para não virarmos pedras.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil: vamos pensar sobre isso?

 Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não vamos discutir aqui a qualidade do trabalho de Romero Britto e o seu lugar no campo e no mercado da arte. Sabemos que, ao lado da estrondosa popularidade do artista (suas obras são estampadas em todo tipo de produto, suas reproduções são vendidas pelo mundo todo aos lotes, seus originais já foram adquiridos por altos valores, entre outros indicadores de “sucesso”), há uma forte rejeição e crítica no campo da arte e da cultura ao seu trabalho. Nesse sentido, há uma recusa a reconhecê-lo como artista, diante da compreensão de que a sua coleção de quadros, esculturas e outros produtos multicoloridos está muito mais para fast-food do que para a arte.

Certamente vocês já ouviram falar de inúmeras comunidades do tipo #euodeioromerobritto! Mas é certo que no mundo escolar,  grande parte das instituições de educação infantil parece pertencer a outra comunidade: #euamoromerobritto !

Por que esse casamento entre Romero Britto e Educação Infantil, quando se pensa em um trabalho de arte com crianças? É porque as obras de Romero Britto são alegres e multicoloridas? É porque abordam temas ou figuras que se aproximam do universo infantil? Que tipo de propostas são feitas às crianças nas escolas, com base no trabalho do artista? Reproduções para colorir? Releituras, do tipo “fazer como Romero Britto”? Confecção de objetos modelados pelos professores a partir de figuras de suas obras, como, por exemplo, borboletas?

Certa vez, fazíamos um trabalho de formação com professoras de uma creche comunitária do Rio de Janeiro e a coordenadora pedagógica nos mostrou orgulhosa o produto de um projeto de arte com as crianças: um grande cartaz com a reprodução ampliada da obra “O palhaço”, pintada pelas crianças. Obviamente, pelo que pudemos observar, na verdade, pintada pelas mãos das crianças conduzidas pelas mãos dos adultos. A coordenadora nos relatou o tempo que levaram para produzir o cartaz e o quanto as crianças “aprenderam” sobre Romero Britto e arte. Trabalhavam com duas crianças de cada vez (certamente para controlarem melhor seus movimentos), sendo que todas participaram, com suas pinceladas, da confecção da “obra”. E não faltaram, em nossas andanças por instituições de educação infantil no país, referências de Romero Britto, em reproduções decorando as paredes de escolas, estampando produtos variados e, principalmente, em murais com “trabalhinhos” das crianças.

Mas o que esses exemplos têm a ver com um trabalho com arte na Educação Infantil? Como podemos pensar as relações entre criança, arte e educação?

Vamos pontuar algumas coisas que pensamos sobre esse tema:

  • a arte não combina com normas, regras, modos de fazer pré-estabelecidos, ordens para fazer assim ou assado, ou modelos para se chegar a um produto pensado pelo adulto.
  • a arte não combina com atitudes de corrigir, etiquetar, didatizar, controlar, enformar. As crianças precisam ter liberdade de fazer cavalos azuis, pessoas “voando”, nuvens roxas, céu verde. É preciso que o adulto tenha abertura para o novo, o inusitado, a inversão, a descontinuidade, a surpresa e a poesia da criança.
  • os adultos precisam abrir mão do lugar de controladores do pensamento e da expressão das crianças para ocupar o lugar de co-participantes dos seus processos de pesquisa e criação, aguçando a escuta para apoiar as suas necessidades e descobertas.
  • os adultos precisam se conter no seu desejo de traduzir o que a criança desenhou, pintou ou construiu, com perguntas do tipo “O que você desenhou aqui?”, feita, muitas vezes, de forma burocrática. As legendas feitas por meio da escrita dos adultos nomeando elementos como árvore, casa, mamãe, papai etc. se sobrepõem à criação das crianças, invadindo-a. Isso parece dizer para a criança que a sua produção não tem valor em si mesma, e que precisa corresponder/representar uma realidade traduzível na linguagem do adulto. Mas e quando as crianças expressam em suas produções muito mais o prazer estético dos gestos, das formas e das cores, do que uma realidade representável?
  • o uso da arte como instrumento para o ensino de conteúdos (outra prática comum na Educação Infantil) escolariza, empobrece e destrói a arte!
  • a arte envolve imaginação, experimentação e criação. Um trabalho com a arte  e a expressão precisa mobilizar os sentidos das crianças para os significados que vão construindo nas suas relações com o mundo, incentivando-as e apoiando-as na busca de novas possibilidades de dar forma às suas percepções e vivências.
  • as crianças devem ser encorajadas a se expressar em diferentes linguagens e, para tanto, é necessário alimentar a sua imaginação, ampliando o seu repertório cultural e estético; o diálogo com diferentes e variadas produções artísticas, nas suas diferentes linguagens, ao lado da liberdade de explorar e pesquisar as possibilidades dos materiais, ajuda a criança a encontrar seus próprios caminhos de expressão e criação.

Promover o diálogo entre a criança, a arte e a educação é muito mais do que ensinar técnicas de arte e oferecer modelos para as crianças reproduzirem. É muito mais do que fazer trabalhinhos formatados de Romero Britto ou Tarsila do Amaral (outra artista que entrou no gosto das instituições de Educação Infantil)! É muito mais do que fazer trabalhos multicoloridos com temas considerados infantis: palhaços, borboletas, flores etc. As crianças podem e merecem muito mais do que isso!

As crianças refletem sobre o mundo, que é complexo, nem sempre colorido, e é diverso e contraditório! Observam as inúmeras imagens e sons que povoam as cidades, percebem as coisas e sentimentos que existem no mundo, as relações entre as pessoas… Elas podem e devem dialogar com a arte clássica, com a arte contemporânea e com diversas produções artístico-culturais. E podem e devem se aventurar a dar forma a suas percepções e sentimentos, expressando-se em diferentes linguagens!

Para tanto, precisamos ir muito além de Romero Britto!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Nosso sonho para as crianças em 2016

Papo de pracinha (*)

1. O tempo correrá a favor das crianças, que não precisarão mais cumprir agendas lotadas, podendo se entregar às brincadeiras e ao exercício da imaginação, da invenção e da criação.

  1. As crianças não mais serão colocadas dentro de “caixas “ que formatam e limitam seus pensamentos e ações; ao contrário, poderão pensar livremente e virar o mundo de ponta cabeça!
  1. As crianças terão voz e vez para se expressarem em suas muitas linguagens.
  1. Os adultos olharão com atenção para as crianças e compreenderão seus modos próprios de pensar e agir sobre o mundo, convidando-as a participar das decisões sobre os assuntos que lhes dizem respeito.
  1. As famílias, nas suas diversas formações, serão o porto seguro das crianças, fornecendo-lhes amor, afeto, proteção e apoio ao seu desenvolvimento integral.
  1. As crianças serão prioridade nas políticas públicas de segurança, educação e saúde, e terão garantidos os seus direitos a serviços de saúde e de educação de qualidade, sejam elas negras, brancas, indígenas, quilombolas, do campo ou da cidade.
  1. As escolas não mais colocarão as crianças em formas (/ô/ ou /ó/) uniformizadoras, e não mais encherão os seus cérebros com informações sem sentido; as escolas serão espaços de encontro entre adultos e crianças, e entre a arte, a cultura e a ciência.
  1. As escolas serão espaços de vida, de acolhimento, de afeto e de oportunidades de potencializar a curiosidade e a capacidade de imaginação e criação das crianças; a busca do conhecimento será uma aventura empreendida com autonomia e sensibilidade pelas crianças e adultos, em parceria.
  1. As crianças terão acesso às criações em todas as linguagens artísticas, ampliando e diversificando o seu repertório cultural.
  1. As brincadeiras de rua invadirão as ruas e praças das cidades, reunindo crianças e adultos pelo prazer de brincar e de compartilhar memórias e experiências.
  1. Novas praças serão criadas e as já existentes revitalizadas, a partir das necessidades reais das crianças e dos adultos, recuperando a sua função de lugar de encontros, conversas, brincadeiras, jogos, contemplação e convivência com a natureza .
  1. As crianças terão mais contato com a natureza, e poderão desfrutar da sua riqueza para apreciá-la com sensibilidade, para criar e brincar com seus elementos, e também para aprender a dela cuidar.
  1. As crianças terão proteção contra as formas de manipulação exercidas pelo mercado e pela propaganda.
  1. As crianças não precisarão dos mais novos e caros brinquedos do mercado para serem felizes! Brincarão com diferentes materiais usando a sua inventividade, aprenderão as brincadeiras da nossa cultura e usarão os brinquedos como meios e não como fins em si mesmos.
  1. As crianças serão protegidas de todas as formas de violência, abandono, crueldade e exploração.
  1. As cidades enxergarão as crianças, incluindo-as nas suas políticas urbanas, criando e mantendo espaços apropriados de circulação, cultura e lazer para elas.
  1. As crianças viverão suas infâncias com plenitude, nos ensinando a olhar o mundo de forma mais simples e sensível!

Feliz 2016!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme