Reencontro na pracinha em 2016

Olá, amigos de praça!

Que alegria retomar as atividades do blog! Para esse reencontro escolhemos destacar certas questões que pautam o nosso trabalho, desde sempre, e que marcaram nossos papos na pracinha em 2015. Assim, escolhemos cinco temas mega importantes em defesa da alegria, da segurança e do bom desenvolvimento para todas as crianças, e também do apoio e espaço de debate para suas famílias, professores e profissionais. Esses cinco assuntos foram campeões de acessos e podem ser encontrados lá no Banco da Praça, seção do Papo de Pracinha em que postamos nossos textos autorais. É só clicar nos links!

O primeiro tema se refere ao fortalecimento dos pais e responsáveis nas decisões, escolhas e no acompanhamento responsável da vida dos seus filhos. O que é melhor para os seus filhos?, de 17/10.

O segundo aborda uma questão prática que naturalmente faz parte da vida de todas as crianças: o que são brinquedos e o que as crianças pensam sobre eles. O que é brinquedo? As crianças respondem!, de 13/10.

O terceiro se refere ao que acreditamos, apoiamos e no que investimos quando o assunto é festa de aniversário de nossas crianças. Os aniversários e as festas-espetáculo, de 03/12

O quarto tema é sobre a decisão de matricular os filhos numa creche e as dificuldades para escolher a instituição que atende melhor a cada uma das famílias. A difícil escolha da creche, de 05/11

O quinto e penúltimo tema se refere a outra decisão muito difícil, sobre a escolha da pré-escola. Que aspectos devem ser valorizados? Bem, pais e mães maduros e unidos em relação a vida de seus filhos precisam vencer esse impasse juntos e, para isso, levantamos questões pensando em ajudá-los. Pré-escola: aprender mais e cada vez mais cedo?, de 12/11

Por último? Bem, convidamos você a nos contar três assuntos que gostaria de debater aqui na pracinha, junto conosco. Isso ajuda a enriquecer nossa conversa e fortalece o vínculo entre todos os que sentam conosco nessa pracinha. Vai ser ótimo ouvir suas contribuições!

Equipe do Papo de Pracinha

Os aniversários e as festas-espetáculo

Papo de pracinha (*)

Volta e meia nos deparamos no caótico transito da nossa cidade com chamativas limusines, um tipo de carro-espetáculo ou festa de aniversário ambulante. Decoradas internamente para criar um cenário de celebridades ou princesas, esses veículos oferecem filmes, música e comes e bebes, com direito a guaraná servido em taça de espumante.

Há tempos, esse jeito estranho de celebrar aniversários tem “circulado” na nossa cidade. O que levaria uma menina a desejar ter a sua festa em um espaço ambulante fechado e limitado, no caótico trânsito do Rio de Janeiro, com algumas poucas amigas escolhidas a dedo (8 a 10)? O que fazem ali dentro? Conversam, comem, bebem e, quem sabe, brincam(será?) um pouco também. O que mais?

Ser a protagonista de um passeio-festa de limusine, automóvel equipado com teto solar, luzes, som, decoração, e viver algumas horas como celebridade parece consagrar a aniversariante – e também suas convidadas – como estrela-glamorosa-linda-poderosa, modelo de beleza-celebridade dos padrões de consumo da moda! Essa parece ser a motivação principal dessa festa e não o encontro para brincar, conversar e celebrar entre amigos a alegria de completar mais um ano de vida!

Esse modelo de festa, assim como outros tantos, como salão de beleza, top-model, cinema, casa de festas, fazem parte de uma indústria especializada em festa teens e infantis. Mais um dos produtos da lógica do consumo que tudo invade! Espetáculo e ostentação transformaram-se nos parâmetros para a organização da festa: decorações temáticas cada vez mais sofisticadas, brindes especiais, animações e atrações…Sem falar da música, supostamente utilizada como pano de fundo para tornar o ambiente alegre, mas que acaba se tornando a protagonista da festa junto “com o luxo e riqueza”, porque impede qualquer tipo de conversa pelo volume praticado– de bebês a jovens.

E assim, o evento festa de aniversário torna-se especial e caro, muito caro!. Muitas crianças aderiram a tais modelos, e suas famílias também. É comum ouvir os pais dizerem que preferem contratar festas desse tipo porque não dá trabalho e oferece segurança! E pior, há pais que competem entre si sobre qual é a melhor festa “ostentação”. O que esperar então dos filhos de pais que pensam assim?

Hoje, até mesmo festas simples que aconteciam pelo prazer de estar com os amigos, como a festa do pijama, em que todos se reúnem na casa do aniversariante para brincar, assistir filmes, conversar e dormir juntos, já entrou na indústria de festas e já se organiza com kits de pijamas ou camisolas com o nome do aniversariante, lembrancinhas e outros apetrechos tornando dispendioso o que era simples e barato. O pior é que o valor que se cria no grupo, em torno do aspecto material, leva a que todos queiram ter a sua festa dentro dos modelos em voga.

As festas parecem seguir um protocolo que uniformiza tudo, deixando muitas vezes o sentido original da comemoração de aniversário em segundo plano. A diferenciação entre uma e outra festa se faz no mais, cada vez mais (e mais caro!): animadores, shows, cenários super-coloridos, DJs, mesas lotadas de doces e enfeites, brinquedos, brindes etc.?

Na maioria das festas, nem se entrega mais o presente nas mãos do aniversariante, que muitas vezes fica sem saber quem deu o quê. Onde fica a emoção e a surpresa de presentear e ser presenteado? Hoje, já podemos até escolher – ou melhor, selecionar – algo que antecipadamente sabemos que vai agradar o aniversariante, pois ele próprio fez sua lista de presentes! Sim, nas festas de crianças e adolescentes já existem listas de presentes, como é usual nas festas de casamentos. Prático, não? Mais um protocolo adicionando burocracia e reduzindo delicadeza, singularidade e sensibilidade!

E assim, vamos abandonando a surpresa e a sensação de expectativa, de alegria ou de frustração envolvidas no receber e oferecer um presente. Sob a ótica utilitarista e consumista, vamos abandonando o sentido original de presentear, que é a manifestação de carinho em relação ao outro, e também o sentido de celebrar as datas que marcam momentos importantes na nossa vida, como é o caso do aniversário, que é compartilhar a nossa alegria com os amigos fortalecendo os vínculos de afeto, respeito e amizade.

Do que realmente a criança precisa? O que a torna feliz? O que é importante para que ela cresça cultivando valores humanos? O que esse tipo de festa pode trazer para a criança? Precisamos fazer essas perguntas, do contrário, podemos facilmente nos enredar na lógica do consumo.

Mas ainda bem que existe resistência a tudo isso. Há um movimento que se contrapõe às festas-espetáculo e que aposta na simplicidade e nas relações de amizade e convivência. Temos relatos de festas infantis em que o foco da comemoração está no encontro das crianças e nas brincadeiras coletivas. Brincadeiras da nossa cultura, como pular corda, amarelinha, elástico, mamãe posso ir etc., ou nas brincadeiras inventadas pelas crianças com materiais simples e variados. Esperamos que muito mais crianças e famílias resgatem e criem formas de comemoração mais sensíveis e menos consumistas, baseadas no encontro com o outro e na alegria de viver mais um ano de vida, celebrando esse momento com simplicidade e, nem por isso de modo menos feliz, ou melhor, e por isso mesmo de modo mais feliz!

Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante (Renato Russo)

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme