Crianças bem nutridas: crianças saudáveis

Papo de pracinha e Luciana D’Abreu Sarmento (*)

É evidente e muito favorável essa tendência contemporânea de praticar uma alimentação saudável dentro das famílias. Muitos adultos/responsáveis, hoje, têm suas próprias orientações sobre a alimentação adequada para seus/suas filhos/as que, esperançosamente, devem ter sido amamentados/as com leite materno durante um longo período. Só que isso não vale, ainda, para todas as crianças.

No caso dos bebês, sabemos que os seus pais costumam seguir as orientações nutricionais dos pediatras, e deve ser assim mesmo.

No entanto, não é pouco comum encontrarmos bebês e crianças obesas e/ou mal nutridas. Ainda sobrevive, hoje, a mentira de que bebês gordos sejam mais bonitos, mais saudáveis, e melhor alimentados que os outros. Será? Encontramos, também, algumas crianças que embora não precisem, tomem uma ou mais mamadeiras durante a noite, enquanto dormem. Às vezes, também, por medo de que fiquem mal alimentadas na creche ou na escola, os pais lhes oferecem uma mamadeira diária no carro, no caminho. E, ainda, há aquelas que só comem frutas e comida quando liquidificadas. Há as crianças boas de boca, também, que aceitam provar novos alimentos e que comem, tranquilas, mesmo antes de completarem um ano de vida. Valores de família.

Os adultos têm papel primordial nessa relação dos bebês com a alimentação e as crianças percebem logo se existe, ou não, ansiedade nessa tarefa. Toda a orientação dos pediatras podem ir por água abaixo se a família se sentir enfraquecida e insegura, se a família achar que sua criança se alimenta pouco ou mal. Uma das “moedas de troca”, com maior peso, entre as crianças e seus pais está na alimentação e nesse jogo de poder os adultos pagam qualquer preço para que elas comam tudo. No entanto, pode-se dizer que, qualquer que seja a orientação nutricional da família que, em 99% dos casos sejam oferecidas às crianças mais quantidade de comida, as vezes com frequência menor que a indicada, e com qualidade questionável (biscoitos industrializados, balas, frituras etc). Por quê?

Para enriquecer essa conversa e tirar parte das dúvidas convidamos a nutricionista Luciana D´Abreu Sarmento para que tenhamos acesso à informações e esclarecimentos que não costumam ser disponibilizadas pela grande mídia, nem pelas indústrias de alimentos.

Sobre aquela cultura do “suquinho de frutas”, Luciana diz que ela não atende mais às recomendações atuais. Em seu lugar, oferecer as frutas porque os sucos coados e liquidificados perdem as fibras; com isso, o açúcar da fruta (frutose) é absorvido mais rapidamente, caindo na corrente sanguínea e aumentando rapidamente a glicemia (açúcar no sangue), levando o pâncreas a liberar picos de insulina e a trabalhar abruptamente. O uso de suquinhos também pode dificultar a aceitação de água pelo bebê, diminuir o interesse pela mastigação e por outros alimentos.

Sobre a introdução de alimentos sólidos, Luciana reconhece que nem sempre seja tarefa fácil, ainda mais com o uso da colher e do pratinho. Como as crianças não são todas iguais, sugere-se que essas mudanças devam acontecer entre o 6º e o 7º mês de vida do bebê porque seu organismo está preparado para mastigar, deglutir e digerir a comida e, em alguns casos, ele já poderá ser estimulado a pegar a comida com a própria colher. Estando tudo caminhando com tranquilidade, ao 8° e 9° mês a alimentação do bebê pode ir passando gradativamente para a refeição da família com ajuste de consistência, para no 12° mês, a criança estar comendo a comida comum da família. Mas Luciana lembra que não se trata de uma regra, à medida que seja necessário respeitar a individualidade e o tempo de cada criança. A nutricionista nos lembra que as crianças precisam aceitar experimentar alimentos sólidos, novos sabores, aprender a mastigá-los e engoli-los, acostumar com novas texturas. É comum que crianças com predisposição alérgica sejam mais cautelosas e, por isso, seu interesse por alimentos sólidos pode acontecer mais tarde.

Para concluir, buscamos entender melhor por que cresce o número de bebês e crianças que sofrem com a doença chamada de obesidade, e porque ela vem aumentando, tanto nos países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão, quanto naqueles em desenvolvimento como Brasil, onde a obesidade coexiste com a desnutrição infantil. Na infância, os fatores prevalentes para a obesidade são: hábitos alimentares ricos em gorduras e calorias e pobres em fibras, aliado a hábitos sedentários como assistir televisão por muitas horas e jogar vídeo game. O desmame precoce e o consequente emprego de fórmulas lácteas de modo inadequado contribuem para aumento da enfermidade. Outros fatores estariam relacionados ao ambiente familiar, já que filhos de pais obesos têm maiores chances de se tornarem crianças com obesidade.

Os hábitos, comportamentos, os modelos de famílias etc. mudam permanentemente e, com eles, o padrão alimentar também se modifica. As industrias alimentícias passaram a investir num novo perfil familiar que precisaria simplificar as tarefas domésticas, aumentando a praticidade e a comodidade, alem de reduzir o tempo. Esses são os principais argumentos utilizados pelas industrias de alimentos para seduzir os responsáveis e suas crianças no afã de mudarem seus hábitos de consumo, à despeito dos critérios exigidos para uma boa saúde alimentar.

As famílias precisam saber que as crianças que precisam de acompanhamento para tratamento de obesidade não obterão resultados satisfatórios sem a adesão e o apoio de seus pais, com a indicação de que todos da família sigam as orientações. A escola também tem papel fundamental ao valorizar as atividades físicas e uma boa nutrição.

Comer é um ato social que pode envolver vários significados, como: carinho, amor, afeto, recompensa, poder etc. e com isso, muitas vezes uma ida á uma lanchonete de fast food pode simbolizar amor, carinho, recompensa para os adultos, mesmo que a saúde das crianças esteja sendo firmemente comprometida. Portanto, somos nós, adultos, os responsáveis pela boa nutrição e saúde de nossas crianças, não podemos nos omitir nem negligenciar. Isso também é amor.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme (Papo de pracinha) e Luciana d’Abreu Sarmento (nutricionista).