A entrada das crianças na creche ou na pré-escola: quem se adapta a quem? [repost]

1444722355_88Nossa conversa de hoje é sobre a entrada das crianças, pela primeira vez, numa instituição de Educação Infantil, processo bastante delicado e que geralmente coincide com esse momento que estamos vivendo: o início do calendário escolar.

Essa experiência é vivida pelas famílias de diferentes formas e geralmente envolve uma mistura de sentimentos que podem incluir: expectativa, alegria, preocupação, ansiedade, medo, culpa etc. Muitas perguntas e dúvidas surgem, já na escolha da unidade e, principalmente, durante o processo de entrada, trazendo muitos filtros para o olhar dos pais sobre esse novo espaço: como os adultos cuidarão do meu filho ou da minha filha? Atenderão às suas necessidades? Lhe darão afeto e carinho? O espaço é seguro? Meu filho conseguirá ficar longe de nós? Chorará muito? A alimentação é bem cuidada? Comerá bem? Pegará muitas viroses? O que as crianças fazem nesse espaço?

Essa última pergunta, que muitas vezes ocupa um lugar menos importante diante das demais preocupações mencionadas acima – relacionadas a questões de segurança, alimentação, bem-estar e afeto – é de extrema importância, até mesmo para a garantia desses aspectos e, também, para esse momento da entrada da criança numa unidade de Educação Infantil. O que elas fazem nesse espaço pode atraí-las e convidá-las a ali permanecer, ou não! Organizar, dinamizar e acompanhar o que a criança faz numa unidade de Educação Infantil é uma responsabilidade que se situa do campo específico da Educação. Nesse sentido, chamamos a atenção para o papel fundamental do professor na organização do cotidiano das crianças e na condução da dinâmica desse  encontro entre as crianças e destas com os adultos, os espaços e os objetos. Obviamente que isso se faz em parceria com os demais profissionais que fazem parte da equipe, lembrando que porteiro, equipe da cozinha e da limpeza, pessoal da administração, especialistas de diversas áreas e auxiliares são todos educadores.

Não é difícil dimensionar a importância do momento da entrada de um(a) filho(a) numa Creche ou Pré-Escola, geralmente chamado de adaptação, para as crianças e também para as suas famílias: as crianças estarão entrando em um mundo onde tudo é novo e que constituirá o início de sua experiência escolar; estará uma parte do seu dia (muitas vezes a maior parte) num espaço diferente da sua casa, das suas referências, interagindo com outros adultos, outras crianças, objetos e espaços; viverá provavelmente a sua primeira experiência coletiva fora da família, compartilhando um espaço regulado por regras próprias e onde criará novos vínculos com adultos e crianças. Os pais, por sua vez, estarão passando para terceiros os cuidados e  a educação de sua criança e precisarão construir uma relação de confiança com  a equipe e a proposta da unidade que escolheram. Isso não é pouca coisa!

Será que adaptação é a melhor palavra para nomear esse momento? Vamos pensar: adaptação é um termo associado a uma ideia de passividade, de conformidade a um contexto pré-estabelecido. Na verdade, o termo é coerente com muitas práticas e concepções na Educação Infantil, nas quais as crianças precisam se adequar ao que está posto, não tendo a sua singularidade e modos próprios de ser, agir e sentir contemplados no processo de entrada na creche ou pré-escola. Já temos hoje algumas experiências na Educação Infantil que nomeiam esse  processo de outras formas, tais como acolhimento, ambientação ou inserção, enfatizando um movimento de receber a criança, de preparar a sua entrada, de incluí-la com sua presença ativa e singular naquele espaço. É importante lembrar também que a entrada de novas crianças também provoca alterações no espaço, nos adultos e nas relações entre as crianças.

Como esse momento é planejado pelas instituições? Algumas organizam pequenos grupos em períodos que aumentam progressivamente e que variam de acordo com a faixa etária: quanto menor a criança menos tempo ficam inicialmente: geralmente 1 hora no primeiro dia, aumentando o tempo a cada dia até completar o período em que a criança ficará na unidade. Isso se justifica por se  entender que as crianças precisam lidar com muitas informações novas desse novo espaço e que é preciso não sobrecarregá-las, fazendo com que fiquem tempo suficiente para quererem voltar no outro dia. Algumas unidades incluem os pais no mesmo espaço que as crianças, em um período de tempo que varia entre uma a duas semanas, planejando com estes o seu afastamento, à medida que sentem que a criança pode ficar sozinha junto ao seu grupo. Neste caso, geralmente os pais ainda permanecem na escola durante um tempo, de modo que possam ser acessados sempre que a criança solicitar, até que possam sair quando a criança se sente segura de ficar sem eles. Isso facilita a construção de uma relação de confiança e de segurança nesse novo espaço, tanto para as crianças como para suas famílias. Outras preferem que os pais fiquem desde o início em um espaço diferente daquele em que a criança ficará, permitindo apenas que fiquem na escola. Sabemos, portanto, que existem diversas formas de receber as novas crianças e suas famílias nas unidades de Educação Infantil, mas uma coisa é certa: é fundamental haver um planejamento e um respeito e cuidado para que esse momento seja o mais tranquilo possível para a criança, suas famílias e a instituição.

É comum o foco do processo de acolhimento se voltar prioritariamente para a criação de vínculos afetivos entre a criança e um adulto, esquecendo-se de valorizar outros aspectos que também são fundamentais para a ambientação da criança. Esta é um sujeito competente, que não está presente apenas para receber o que lhe oferecem, mas está ali ativamente estabelecendo relações com esse novo espaço, interagindo com os objetos, pessoas e experiências que ali vive. É claro que os vínculos com os adultos (o professor e os demais profissionais que compõem a equipe) são fundamentais, pois é imprescindível que estes se coloquem próximos às crianças, com atitude de empatia e de escuta para com elas, apoiando-as a ingressar nesse novo ambiente! Mas os vínculos adulto-criança não podem ser o único foco desse processo, é necessário valorizar outros aspectos. Vejamos alguns deles:

  • As interações entre as crianças: estas concorrem para o desenvolvimento e bem-estar delas e para a sua motivação em estar nesse espaço e fazer parte desse grupo.
  • A organização do espaço: deve favorecer as interações, a brincadeira e a autonomia das crianças, contendo mobiliário, objetos e brinquedos interessantes que convidem as crianças a manipulá-los e a fazer suas descobertas, bem como propostas de atividades que promovam o desenvolvimento da criança em suas diferentes dimensões; o espaço deve ser seguro e atraente permitindo que as crianças reconheçam nele as possibilidades de explorar e brincar.
  • Sistema de referência: o adulto é uma referência para a criança, mas faz parte de um sistema de referência organizado com muito cuidado, que inclui os espaços, os tempos, os objetos e a presença dos professores e demais profissionais.
  • O educador desempenha a função de apoiar, facilitar e ampliar as relações entre a criança e o ambiente, a partir de um senso de responsabilidade e respeito por ela.
  • Relação de confiança e aliança entre a equipe e os pais: a educação e o cuidado da criança serão compartilhados pela família e pela instituição, principalmente pelos professores responsáveis pelos grupos, por isso, é imprescindível a escuta mútua.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Adaptação: tempo de olhar para as interações entre as crianças

Bernadete Mourão (*)

O início do calendário escolar marca também, para muitos de nós, uma temporada de tensões relativas ao ingresso das crianças pequenas às unidades de educação infantil, e é a este respeito que trazemos algumas ideias que podem contribuir para pensar este momento delicado que é o da adaptação.

Se nos reportarmos às nossas próprias lembranças de adultos ingressando em um novo ambiente (na universidade ou no trabalho, por exemplo), certamente, a maioria de nós, conferirá grande valor à formação de vínculos com colegas na construção do nosso bem-estar nesses espaços. Vínculos que vão, paulatinamente, participando de um sentimento de pertencimento ao grupo e que nos permitem inserções felizes. Este exemplo, pode nos ajudar, como analogia, a nos deslocar para a posição da criança recém-ingressa em uma creche ou pré-escola ou mesmo no momento de seu reinício após longas férias, permitindo uma reflexão quanto ao valor que deveríamos atribuir ao papel das interações entre as crianças na Educação Infantil. É claro que não é apenas a vinculação afetiva o único elemento a ser considerado na avaliação da qualidade de um espaço, mas isto importa muito para a criança. Vale lembrar que quando conversamos com crianças e perguntamos sobre o que elas mais gostam na creche ou na pré-escola, a quase totalidade delas se refere ao brincar. E este brincar, se bem observarmos, dificilmente acontece solitariamente, como pode ser frequente nos lares, mas sempre com os colegas. É comum colocarmos o foco de nossas preocupações apenas nos adultos das creches e pré-escolas e especialmente nas professoras e nos professores. Esquecemo-nos de valorizar a importância da formação do grupo, das interações que ocorrem entre as crianças e que participam do bem-estar delas na creche e na pré-escola e que, portanto, envolvem seu interesse em lá estar e permanecer. Em geral, apenas valorizamos as relações do adulto com a criança como promotora de segurança, bem estar e de desenvolvimento. Mais ainda, tendemos a reconhecer como majoritariamente importantes os vínculos afetivos da criança voltados aos adultos. Claro que é fundamental um profissional bem formado para um projeto de Educação Infantil de qualidade. E, atrelado à formação, sua capacidade de empatia (especialmente com crianças), atitude de acolhimento, de abertura ao diálogo para uma escuta atenta ao que dizem as crianças (com palavras, risos, choros, recusas, gestos e expressões) e senso de responsabilidade. Assim, longe de colocar o papel da professora e do professor em segundo plano, apenas se está propondo aqui um ajuste no olhar à criança que ingressa no ambiente da creche ou pré-escola que inclua as interações com seus pares.

Para ilustrar esta argumentação, vou contar duas histórias de crianças de aproximadamente três anos e que aconteceram anos atrás, em uma Unidade de Educação Infantil, de que participava. Nesta, o planejamento do período de ingresso de novas crianças (a qual chamávamos de inserção em contraponto ao termo adaptação) incluía a participação dos responsáveis. Inicialmente, cada responsável ficava junto a sua criança na sala de atividades, acompanhando e/ou realizando as propostas feitas pelas professoras (não tínhamos salas de aula porque não eram aulas, mas atividades que realizávamos com crianças de menos de seis anos de idade). Posteriormente, no momento em que o educador já considerasse possível o afastamento do responsável, este permanecia na Unidade, mas em outro local no qual a criança poderia encontrá-lo, caso solicitasse. Certa vez, uma criança precisou que sua mãe ficasse mais de um mês na recepção, dada sua insegurança quanto ao seu afastamento. Em um belo dia de sol, embora igual a tantos outros, o inesperado fez acontecer o ponto de viragem desta história, relatado à equipe pelo próprio pai, observador atento da cena que havia se passado: naquele dia o filho havia chegado atrasado e, quando os colegas o avistaram do pátio externo, começaram a chamar alto pelo seu nome. Ali a magia se realizou e todos “foram felizes para sempre”. Fim da história e começo de uma outra livre de inseguranças. A nosso ver, o fim de uma história e o início da outra relacionaram-se com a recepção esfuziante, espontânea e coletiva, que permitiu que a criança vislumbrasse de modo inequívoco o quanto era querida pelo grupo, re-significando para ela suas noções de pertencimento àquele grupo ao qual passou a integrar, desde então, de forma tranquila e plena.

Nossa segunda e última história deu-se no período de retorno das longas férias de fim de ano e é sobre uma criança que se recusava a ir para sua sala e deixar sua mãe ir embora da creche. Durante meia hora, a recusa aos convites dos adultos era total e absoluta até surgir em cena uma colega que acabara de chegar à creche. Neste momento, as duas crianças se entreolharam. A menina que chegava, sem nada saber o que estava acontecendo, em seu caminho em direção à sala, espontaneamente, fez um gesto com a mão (abrindo a palma da mão e levantando os dedos), que claramente indicava: “- Vem comigo”. O menino que até então era só certeza de recusa, claramente entrou em conflito quanto à decisão tomada. Esboçou um aceite: virou o corpo em direção à menina e deu alguns passos. Por alguns instantes, todos que participávamos da cena, pensamos que a decisão seria revertida. Embora não tenha sido, apenas mais adiante, a dúvida que o convite da colega claramente produziu no menino indica a força das relações que acontecem entre as crianças e que muitas vezes passam despercebidas ao olhar comum.

A partir de tudo que se disse até aqui, fica o convite para um olhar sobre o valor das interações entre as crianças neste delicado período que marca o começo da construção de um mundo novo para crianças e adultos.

(*) Bernadete Mourão, colaboradora do Papo de pracinha, é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – Niterói, e doutora em Psicologia pela USP.