É preciso desacelerar a rotina das crianças: parte 2

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEstamos verdadeiramente atentas e preocupadas com o que os adultos vêm fazendo com e pela vida de seus filhos e filhas, as vezes com muito esforço, em nome do “sucesso” futuro, na vida adulta.  Em sociedades altamente competitivas como a nossa, há quem acredite que a criança deva se “preparar para o futuro”, para o mundo do trabalho e, nesses casos, não basta a escola. As crianças acabam frequentando muitas outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades e, tudo indica que quanto mais cursos a criança frequenta, aparentemente mais bem preparada ela estaria. Será?

A contrapartida mais imediata é que muitos pais se julgam melhor avaliados pelo tamanho do investimento que fazem no futuro de seus filhos. Isso é bom para esses pais? E para seus filhos e filhas?

E nesse ritmo frenético há, ainda, uma relativa valorização daquelas escolas que antecipam a educação formal, que exigem de crianças com 3, 4, 5 anos, a “exercitação e o aprendizado”, com muitas aspas, do que seria a leitura, a escrita e as noções matemáticas, quase sempre desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Por que insistimos em certos comportamentos e crenças?

Sabe-se que a brincadeira infantil, livre, sem o controle dos adultos foi bastante esquecida e desvalorizada por muitos longos anos. O fato de ela não depender de objetos específicos, já que tudo pode ser transformado em brinquedo, e nem de um espaço próprio, porque as crianças criam e constroem espaços e tempos de brincar sem obedecer às regulações do mundo adulto, gera uma compreensão de que brincar é algo “inútil e improdutivo” (?). E tem mais, como as brincadeiras escapam ao controle e à previsibilidade dos adultos, porque elas valem por si e não por qualquer outro produto ou resultado que possam produzir, de novo, ficam fora do ranking das atividades saudáveis, produtivas e necessárias para a vida das crianças. Argh!

Isso tudo tem origens remotas que vêm de séculos atrás.

 Um pouco dessa história:

Para entender essa história precisamos chegar ao filosofo grego Platão, que viveu provavelmente de 427 A.C. a 347 A.C. e que influenciou consideravelmente a filosofia ocidental, e também a educação. Suas ideias deixaram resquícios que podem ser vistos até hoje, por exemplo, o fato de a INFÂNCIA não ter características próprias e, por isso, ser vista apenas como um pilar antecipatório para a vida adulta(?). Essa visão “futurista” e ultrapassada de criança só considera as suas possibilidades como um ser em potencial, em um momento futuro, como adulto/a. Assim, as crianças não eram compreendidas como sujeitos que tinham uma vida ativa e rica em experiências no presente. Será que há ainda quem pense assim?

O fato de elas não serem valorizadas como crianças, no presente, também tinha apoio nas ideias de Platão, que as entendia como seres inferiores e via a infância, nesse viés, como uma fase inferior, menos importante que a fase adulta.  Será que já superamos essa antiga concepção?

Para completar, pela impossibilidade de agirem sobre e na pólis, origem da palavra política, Platão entendia a criança como “um outro desprezável, um excluído”, de quem se esperava que fosse vencida e domada pela Educação  (Kohan, 2003).  Não viria daí o fato de que hoje, ainda, a frequência às instituições de Educação Infantil funcionar muitas vezes como pano de fundo para a “socialização desses seres selvagens e desprezáveis” para aprenderem o jogo das regras sociais?

E, se a infância era vista como uma possibilidade futura, a educação funcionaria como uma ferramenta para moldar as crianças.  Alguém ainda acredita nisso?

Onde estão as alternativas?  

  • Na afirmação da criança como um sujeito de direitos, como produtora e consumidora de cultura, garantindo-lhes o direito de brincar. Para que se constituam como sujeitos únicos, sensíveis, criativos e expressivos, as crianças precisam imaginar e fantasiar em contextos de brincadeira livre. Isso é um direito e uma necessidade para viverem plenamente como crianças que são. Brincar, imaginar e fantasiar vem a ser o modo próprio como as crianças experimentam o mundo, como entendem esse mundo, como elas se entendem como parte dele e, também, como melhor expressam o que pensam, sentem e imaginam. Brincar favorece a construção de valores como a solidariedade e a parceria, o respeito às diferenças e aos “outros jeitos” de viver, de ser e de sentir.
  • Na formação de professores de crianças valorizando a brincadeira e defendendo sua importância como um direito delas, de poderem brincar livremente, com outras crianças e com adultos, em casa, nos espaços da cidade e também, em instituições de educação infantil. Não deve haver limites para o brincar e para a brincadeira que é, na verdade, a atividade essencial das crianças.
  •   Num comportamento crítico e reflexivo de pais e das famílias sobre o que desejam verdadeiramente para a vida de seus filhos, cientes de que quando elas são impedidas de brincar não há como retomar esse processo, que só pode ser vivido por elas, em situação de liberdade, se possível em contato com a natureza, e sempre com o apoio dos adultos.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

É preciso desacelerar a rotina das crianças!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEscola – natação – futebol – ginástica olímpica – inglês etc. etc. Que atividades temos hoje, antes (ou depois) da escola?  Corre pra cá, corre pra lá, “se arruma rápido senão vai chegar atrasado!”, “hoje não dá tempo de brincar, tem natação”…  No final do dia, crianças exaustas, muitas vezes estressadas.

O que leva os pais a encherem os horários das crianças no contraturno escolar, cada vez mais precocemente, com inúmeras atividades? Em nome de quê organizam assim a vida das crianças? O que pretendem com isso? Que implicações isso traz? Como medir o que é bom ou não para as crianças? Será que sobra tempo e espaço para elas escolherem o que querem fazer? Como fica o tempo de brincar? E o direito de não fazer nada, de não ser dirigido pelo adulto? 

As crianças estão tendo o seu tempo de brincar roubado

 O filme “A invenção da infância”, dirigido por Liliana Sulzback, apresenta depoimentos de crianças e adultos de diferentes e desiguais realidades brasileiras: de um lado, nas famílias de baixo poder aquisitivo e em contextos onde o índice de mortalidade infantil é altíssimo, crianças que trabalham desde cedo para garantir a sobrevivência, perpetuando o ciclo da pobreza e da miséria; de outro, pertencentes a famílias com melhores condições financeiras e que investem na educação dos seus filhos, crianças que assumem inúmeras responsabilidades no cumprimento de uma série de atividades extraescolares, escolhidas pelos adultos em função de seus ideais sociais: cursos de línguas, balé, natação, tênis etc.  O primeiro grupo de crianças expõe-se muitas vezes a riscos e condições inadequadas, cumprindo uma rotina pesada, enquanto o segundo grupo compromete-se com diversas atividades, que ocupam seu tempo semanal, com uma carga horária puxada. Em que pesem as profundas desigualdades entre os dois grupos no que se refere ao acesso à saúde, educação, habitação e aos bens culturais, há algo comum na vida de todas essas crianças: o tempo que lhes é roubado de ser criança, de viver com plenitude a infância!

O trabalho infantil, proibido pela Constituição Federal, é um problema gravíssimo que enfrentamos no nosso país e precisa ser erradicado o quanto antes. A idade mínima para o trabalho é de 16 anos, sendo permitido, entretanto, que aos 14 anos o adolescente seja aprendiz. Uma série de estudos e pesquisas têm mostrado os prejuízos que o trabalho infantil traz para a vida de uma pessoa. Mas esse é um tema para discutirmos em outro momento. Hoje, queremos falar da realidade que afeta esse segundo grupo de crianças: agendas semanais lotadas e infâncias institucionalizadas.

Agendas lotadas: em nome de quê?

Há um discurso presente na nossa sociedade competitiva de que a criança precisa se preparar para o futuro, para o mundo do trabalho e, para tanto, não basta a escola, é importante que ela frequente outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades.  É aí que entram os cursos de línguas, o esporte, o balé, entre outras possibilidades, compondo essa formação, supostamente “ampla”. Quanto mais cursos, aparentemente mais bem preparadas estariam as crianças. Será?

Junta-se a isso, a opção de muitos pais por escolas que antecipam a educação formal, demandando das crianças, ainda pequenas, com 3, 4, 5 anos, permanecerem a maior parte do tempo paradas realizando atividades relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita, bem como de noções matemáticas, muitas vezes, totalmente desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Sabemos que muitas instituições chegam a diminuir o tempo de “recreio” para garantir mais tempo para a “grade curricular. Não estamos querendo dizer que atividades estruturadas não sejam importantes para as crianças. Mas elas não podem impedir o tempo do brincar livre! Brincar sem a direção do adulto, contribui para a autonomia das crianças, que aprendem a fazer escolhas, avaliar os riscos de seus movimentos e ações, descobrir seus limites e possibilidades.

Os pais frequentemente se apoiam no discurso do investimento na formação dos filhos, de querer dar o melhor para eles. Mas o que é melhor para as crianças? É disso que as crianças precisam? Ou essa é uma forma de os pais compensarem o pouco tempo que compartilham com os filhos? Ou de se projetar nos filhos? (Já vimos pais em competição de natação dizerem para os filhos quando não correspondem a suas expectativas: “Você não é meu filho!”).

Por que é retirado da rotina das crianças, cada vez mais cedo, o tempo da brincadeira, o tempo livre?

Brincar é uma necessidade essencial na vida das crianças

 O brincar é o principal modo pelo qual as crianças interagem com o mundo, contribuindo para o conhecimento de si mesmas, para o estabelecimento de relações e vínculos com outras pessoas, adultos e crianças, e para o conhecimento da realidade a sua volta, constituindo uma dimensão fundamental no desenvolvimento e na formação cultural das crianças. Desenvolve a imaginação, a criatividade e muitos outros aspectos cognitivos, físicos e emocionais.  Mas parece que, aos olhos dos adultos, a brincadeira, que não é propriamente uma atividade “produtiva”, cujos resultados possam ser medidos, é algo menos valorizado na agenda das crianças. A brincadeira se restringe ao tempo que sobra em meio a uma grade horária lotada, cheia de compromissos e responsabilidades.

É preciso garantir o direito à brincadeira, se não queremos produzir crianças estressadas precocemente e com déficits acumulados: de natureza (brincar ao ar livre promove o contato da criança com a natureza), de criatividade, de imaginação, enfim, de felicidade!

Não fazer nada não é perda de tempo

O não fazer nada ajuda a gerar ideias, coloca a mente em movimento criativo, incentiva a imaginação e a curiosidade, permite o conhecimento de si mesmo. Como ter espaço para a criação, a invenção de brincadeiras, se o tempo da criança estiver totalmente regrado, institucionalizado, ocupado com atividades dirigidas? A rotina acelerada das crianças vai criando ansiedade, muitas vezes, levando-as a demandarem atividade atrás de atividade, mesmo no tempo em que poderiam estar livres. É comum vermos crianças que mal encerram um programa no final de semana, quererem emendar outra atividade. Ao sair da casa de um amigo com quem passaram o dia, imediatamente perguntam aos pais: quando chegarmos em casa posso ver um filme na televisão? Posso jogar no tablet? Posso chamar um amigo (vizinho) para brincar comigo?

É importante incentivar a criança a brincar sozinha desde cedo, a buscar fazer coisas de que goste, a fazer suas próprias escolhas, a motivar-se, a criar novas brincadeiras.

Assim, convidamos vocês a se juntar a nossa campanha por mais natureza e mais tempo de brincar livre na vida das crianças! Precisamos desacelerar a rotina delas, proporcionando-lhes mais experiências de brincadeira, de fruição, de exploração dos elementos da natureza através do corpo e da imaginação! Junto com isso, também não podemos nos esquecer: menos tempo de eletrônicos! As tecnologias digitais estão aí para serem usadas, é claro, as crianças também aprendem e se divertem com elas, mas usá-las por tempo prolongado, tira das crianças a energia criativa que as impele a brincar e buscar novas experiências lúdicas. E mais: nós também, adultos, pais, avós, babás, titios e titias precisamos desligar nossas telas temporariamente para poder compartilhar de forma mais inteira o tempo em que estamos com as crianças! Vamos, também nós, desacelerar?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Crianças e adultos: um relógio, vários tempos.

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88O tempo corre, cada vez mais rápido! É essa a sensação que temos hoje. Quais as razões disso? Suspeitamos de algumas: o volume de informações ao alcance dos nossos olhos e ouvidos e, ao mesmo tempo, impossíveis de serem apropriadas como gostaríamos;  o número de tarefas a serem cumpridas no nosso cotidiano e no trabalho nos fazendo chegar ao final do dia com algumas, ou muitas, ainda por fazer, com a sensação de dívida permanente; a rapidez e a quantidade de mensagens e e-mails que chegam a todo minuto nas telas dos nossos celulares, criando-nos cada vez mais demandas; a falta de tempo para o ócio, o lazer e a convivência em família, especialmente com as nossas crianças.

E as crianças, como sentem e vivem o tempo? Como esse “tempo contemporâneo” afeta a as suas vidas? E nós, adultos, como nos relacionamos com as crianças em relação ao tempo? Respeitamos o seu tempo? Ou impomos-lhes o nosso tempo, o ritmo veloz do nosso dia-a-dia?

Os gregos nos ajudam a pensar sobre a questão do tempo. No grego clássico, há mais de uma palavra para se referir ao tempo. Chronos significa a continuidade de um tempo sucessivo, designando o tempo físico, aquele que pode ser medido. Outra palavra é Kairós, que significa ‘medida’, ‘proporção’, e, em relação com o tempo, ‘momento crítico’, ‘temporada’, oportunidade (Kohan, ….).  A terceira palavra indica um caminho para pensarmos essa relação entre a criança e o tempo:  Aión, que significa a intensidade do tempo da vida humana, uma temporalidade que não pode ser medida, que segue outra lógica, não a da física. Heráclito disse que Aión é uma criança que brinca, seu reino é uma criança. Ora, sabemos que o brincar é central na vida das crianças, pois é o modo principal pelo qual conhecem o mundo e a si mesmas. Assim, podemos dizer que o brincar é a “medida de tempo” das crianças, correspondendo à intensidade com que elas exploram livremente os objetos, a natureza, os espaços, experimentando e inventando novas arrumações e significados para o mundo. Durante a brincadeira, a vida cotidiana fica entre parêntesis e se impõe um outro tempo, o tempo da imaginação, da sensibilidade, da experiência de transformar o que está ao redor.

Nós, adultos, interrompemos a todo momento as brincadeiras das crianças, desfazendo essa intensidade, provocando-lhe o sentimento de que a sua brincadeira durou pouco e que ela queria mais e mais e mais… Vem tomar banho, anda logo senão vamos chegar atrasados na escola, entra no carro e fica quietinho na cadeirinha, tá na hora de comer, anda, come rápido, vem dormir, já é tarde… e as crianças: Ah, mas já?; não quero;  peraí; mas todo dia tem creche? ; deixa eu brincar só mais um pouquinho… Palavras cotidianamente pronunciadas por adultos e crianças e que revelam o descompasso entre o modo como vivem o tempo. Chronus x Aión?

Carlos Drummond de Andrade traduz muito bem esse descompasso, no seu poema “Brincar na rua”. Vejamos a primeira estrofe:

Tarde?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
e já estão chamando da janela:
É tarde.

Será que podemos olhar com um pouco mais de atenção esse tempo das crianças? Quantas imposições lhes fazemos, desde que nascem,  para que se enquadrem em um tempo que não é o delas? Vejamos: quando instituímos que elas devem mamar de três em três horas; quando ‘treinamos’ o seu sono com técnicas que programam um tempo progressivo para que fique no berço sozinha (mesmo que chore) até que se acostume a dormir sozinha e a noite inteira; quando as instituições de educação infantil programam  os tempos de atividades de desenhar, brincar, dormir, comer, tomar banho, sem que sejam respeitados os tempos próprios das crianças; quando enclausuramos as crianças em casa, não permitindo que experimentem o tempo da liberdade do brincar e do contato com a natureza; etc. etc. etc.

É claro que não podemos fugir de muitos desses enquadramentos. Temos nossos compromissos e nossa rotina de trabalho, que precisam ser cumpridos, e é importante que a criança se adeque ao cotidiano da família.  A criança, por sua vez, também necessita ter uma rotina, que lhe dê segurança, indicando-lhe onde está, com quem está, o que está por vir etc, ajudando-a a se organizar e a situar-se no mundo. Mas é preciso que essa rotina não seja para ela uma camisa de força e que contemple também seus desejos e modos de ser e fazer. As rotinas das crianças precisam garantir o livre brincar e o falar e ser escutada.  Precisamos aumentar esse tempo aión, para que as crianças sejam felizes.

E mais! Nós, adultos, também precisamos viver mais esse tempo da intensidade e da experiência: contemplar a natureza, ir à praia, viajar, conversar com amigos, ir ao cinema, ler um bom livro, passear pela cidade, não fazer nada… Sem esquecer que brincar com as crianças ao ar livre, explorar e sentir a natureza, ocupar a nossa cidade é um caminho para vivermos esse outro tempo. Já pra pracinha todo mundo! É tempo de brincar!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Quando o adulto escuta a criança

Papo de Pracinha (*) 

1444722355_88O escritor israelense Etgar Keret, em seu livro “Sete anos bons”[i], conta algumas passagens de sua vida, durante o período descrito por ele como aquele em que tive o privilégio de ser filho do meu pai e pai do meu filho. Uma das histórias, Taxi, nos faz perceber, de forma muito sensível, a força que uma criança tem junto às pessoas a sua volta, gerando nestas os sentimentos mais diversos. Com sua forma peculiar de entender o mundo e se expressar, a criança mexe com os adultos, tira-os de seu porto seguro, desestabiliza-os, provocando-lhes novos modos de se ver e de ver o mundo.

Difícil sair com um bebê nas ruas, sem que este não atraia a atenção de pessoas diversas, provocando olhares afetuosos, sorrisos ou palavras elogiosas. Por outro lado, em outras situações e espaços, como por exemplo, em um restaurante, uma criança que chora, grita, ri, brinca, corre etc. atrai, muitas vezes, outros tipos de reações: olhares ou atitudes de reprimenda, impaciência, intolerância, repulsa, raiva…

O que parece inquestionável é que as crianças se fazem presentes no mundo em que vivem, com suas formas próprias de ser, agir e compreender o que acontece a sua volta. As crianças, nem sempre se encaixam nos moldes que, nós adultos, preparamos para elas.

A história de Etgar Keret se passa em um taxi, quando ele ia com seu filho Lev, de 3 anos, para a casa do seu avô. Lev cantava Yellow Submarine, bem baixinho, inventando palavras, enquanto balançava as perninhas curtas, no ritmo da música. De repente, suas pernas bateram no cinzeiro do carro, onde havia apenas uma embalagem de chiclete, derrubando-o. Imediatamente, o motorista pisou no freio, olhou para trás e com a cara muito perto do rosto da criança gritou, em tom colérico: – Seu menino idiota. Você quebrou meu carro, seu imbecil! O pai perguntou ao taxista: – Ei, você é louco ou o quê? Gritar com uma criança de 3 anos por causa de um pedaço de plástico? Vire-se e comece a dirigir ou, juro, na semana que vem você estará fazendo a barba de cadáveres no necrotério de Abu Kabir (…), ouviu bem? O motorista lançou um olhar cheio de ódio para os dois, respirou fundo, e seguiu o percurso. Naquele clima, que estava longe de ser agradável, Lev rompeu o silêncio e disse, olhando duramente para o pai: – Papai, o que esse homem disse? O pai, respondeu rapidamente, em tom leve: – Esse homem disse que, quando você estiver dentro de um carro, precisa prestar atenção em como mexe suas pernas para não quebrar nada. Lev olhou pela janela e perguntou: – E o que você disse ao homem? E o pai: – Eu? – Eu disse ao homem que ele tinha toda razão, mas que ele deveria dizer o que precisava em voz baixa e com educação, e não gritar. – Mas você gritou! retrucou Lev. – Eu sei, mas isso não foi certo. E sabe do que mais? Vou pedir desculpas agora. O pai, curvou-se para frente, chegando bem perto do pescoço do taxista e disse em voz alta, quase declamando: Sr. taxista desculpe-me por ter gritado com o senhor, não foi direito. Passaram-se alguns minutos e Lev falou: Mas papai, agora o homem tem que me pedir desculpas também. O pai, achando que não era uma boa ideia pedir ao taxista que se desculpasse com uma criança de 3 anos, respondeu: – Você é um garotinho inteligente e já sabe muita coisa sobre o mundo, mas não tudo. Acho que não temos que pedir ao motorista que se desculpe, porque só de olhar para ele já sei que se arrependeu. Faltavam dois minutos para chegarem ao destino, quando Lev falou: – Papai, não sei se ele se arrependeu. Nesse momento, o taxista pisou novamente no freio, puxou o freio de mão e disse olhando nos olhos de Lev: Acredite em mim garoto, estou arrependido.

Precisamos escutar mais as crianças e dar espaço para que participem de tudo que afeta as suas vidas. Nós, adultos, costumamos achar que sabemos tudo sobre as crianças e, com isso, exercemos nosso poder sobre elas, programando suas vidas, dirigindo-as, corrigindo-as etc. Mas não sabemos. Na verdade, elas têm muito a nos ensinar, a nos fazer ver o que não vemos mais e olhar para o mundo de uma forma mais sensível e verdadeira. 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme.

[i] Etgar Keret, . Sete Anos Bons. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2015.

Crianças, ocupem as cidades!

Patricia Werner

Foto: Patricia Werner

Papo de Pracinha (*)

Onde estão as crianças nas cidades? Em que momentos ouvimos suas vozes, risos, choros e brincadeiras? De que forma as cidades refletem, na sua urbanização, a presença das crianças? Que espaços temos para as crianças? Como foram pensados? São efetivamente ocupados por elas? O que elas acham deles?

Nos shoppings, nos finais de semana, com certeza sons e movimentos de crianças estarão ali, em meio ao burburinho típico desses espaços. Mas não estamos falando de espaços fechados, e sim das áreas externas e públicas, que servem não apenas ao ir e vir, mas aos encontros de pessoas de todas as idades, inclusive crianças.

Se prestarmos atenção no cotidiano dos espaços de circulação das cidades, é possível ver uma concentração maior de crianças em horários bem específicos: os de entrada e saída das escolas.  Mesmo assim, muitas crianças, nesses horários, estão em carros ou transportes escolares, opção adotada por muitas famílias de classes economicamente favorecidas.

Nas pracinhas e parques, em dias de semana, também podemos ver a presença de crianças: há um número significativo de bebês de até seis meses, acompanhados de suas mães (que se encontram em licença maternidade), e crianças até seis anos, em sua maioria acompanhadas de babás ou avós e, poucas delas, com suas mães ou pais. Depois disso, parece que as crianças se enclausuram em suas casas ou nas escolas. Nos finais de semana, muda um pouco essa configuração e algumas praças ficam repletas de famílias em busca de atividades externas e livres com suas crianças. Isso mostra que precisamos revitalizar as praças, pois muitos desses espaços estão abandonados ou sem nenhum atrativo que mobilize as pessoas para a sua ocupação.

Tonucci[1] diz: quando nunca encontramos crianças, caminhando ou brincando nos espaços públicos, na semana ou no fim de semana, significa que a cidade está doente e que uma cidade que é boa para as crianças é boa para todos.

Sabemos quais são alguns dos problemas que levam a essa realidade, sobretudo nas grandes cidades: falta de segurança, horários puxados de trabalho dos pais, redução do tempo livre das crianças (e dos adultos também) que têm suas agendas lotadas de atividades, longo tempo de deslocamento de um lugar para o outro, urbanização desordenada, destruição de áreas verdes, invasão dos espaços públicos pelos automóveis, redução e abandono de áreas públicas de lazer coletivas, como praças e parques… São muitos os fatores que nos afastam dos espaços ao ar livre! As cidades pensadas pelos adultos criam cada vez mais possibilidades de se viver sem precisar ir ao exterior. O que vemos são adultos e crianças cada vez mais hipnotizados pelos aparelhos eletrônicos e vivendo a maior parte do tempo em espaços fechados, distantes da natureza.

Mas as pesquisas mostram que precisamos de ar livre e da natureza para termos saúde e felicidade! Para as crianças, brincar na natureza, em espaços públicos, favorece o movimento, a sensação de liberdade, a imaginação, a criação e o  encontro com outras crianças e adultos. O convívio com a natureza ensina à criança o sentido do cuidado e mobiliza sua sensibilidade para a beleza das diferentes texturas, dos cheiros, das cores e das formas ali presentes.

Então pensemos juntos: como as crianças podem ir até a cidade? E como a cidade pode acolher as crianças?

Há algumas iniciativas interessantes por aí. Projetos de caminho escolar estão sendo desenvolvidos em vários países, como EUA, Canadá, Austrália e países da Europa. A ideia é viabilizar que as crianças se movam com segurança e autonomia pelas ruas, passando a usá-las,  desfrutando e se apropriando dos espaços públicos, das cidades onde moram. O projeto Cidade das Crianças coordenado por Tonucci, e que hoje tem a participação de vários países, busca transformar as cidades a partir da escuta e da participação das crianças. São as crianças o principal parâmetro para se pensar a cidade. Uma das maiores reivindicações das crianças é fazer o caminho de ida e volta casa-escola a pé ou de bicicleta, sozinhos e/ou com adultos. Em Buenos Aires, uma das ações do Projeto foi, no lugar de requisitar maior presença da polícia, pedir maior participação dos moradores dos bairros nas ruas, nos horários dos itinerários casa-escola, garantindo maior segurança para as crianças. O resultado foi a redução em 90% dos incidentes criminais contra as crianças. Bacana, não? Experiências como essa, que ocorrem também em outras cidades, elevam a convicção de que a presença das crianças nas ruas torna as ruas mais seguras, além de promover a interação entre pessoas de todas as idades.

            Outro aspecto importante é que, para usufruir dos espaços da cidade, é preciso que a criança tenha tempo livre, tempo para viver a experiência de brincar, a qual envolve riscos, aventura, pesquisa, descoberta, superação de obstáculos, satisfação, emoção, entre outros aspectos. Em Roma, o prefeito, ao receber a reivindicação das crianças do projeto A Cidade das Crianças – de que precisavam de mais tempo para brincar livremente -, enviou uma carta a todas as escolas sugerindo que nos finais de semana e feriados não houvesse dever de casa. Seria uma boa iniciativa em muitas de nossas cidades, não é mesmo? E por que não pedir também para as famílias reduzirem a agenda das crianças, criando tempo livre para elas no seu cotidiano?

As cidades podem fazer muito pelas crianças e por todos nós: inverter a prioridade dada à circulação de automóveis, ampliando as áreas de circulação de pedestres; criar áreas de pedestres; bancos nas calçadas; ciclovias e estacionamento de bicicletas; espaços como Parklets (áreas anteriormente usadas para estacionamento e transformadas em espaços de convívio e lazer), entre outras ações.

Nós, adultos, também podemos fazer muito, tentando criar tempos de relaxamento, suspendendo a pressa, o “anda logo”, “depressa, vamos nos atrasar”, mesmo que seja por pouco tempo. Que tal experimentar passear pela cidade, por alguns minutos com sua(s) criança(s), explorando os espaços a sua volta? Pode ser uma grande brincadeira ver quem vê mais árvores, bueiros, postes, cachorros etc., seja num simples passeio, seja no caminho para a padaria ou para a escola. Que tal redescobrir a natureza que há nas nossas cidades?

Ocupemos a nossa cidade junto com as crianças, ela é nossa, e também das crianças! A cidade precisa se humanizar, precisamos estar nela, usá-la, fazê-la nossa! Uma cidade que é boa para as crianças, é boa para todos nós!

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

[1] Francesco Tonucci é um pensador italiano, psicopedagogo e desenhista, coordenador do Projeto “La città dei Bambini”, nascido em Fano (Italia) , em 1991. Para saber mais sobre esse projeto, acesse http://www.lacittadeibambini.org

Crianças e violência

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Não trataremos de violência urbana porque ela não está presente só nas metrópoles, no campo também. Nem, tampouco da violência presente nos desenhos animados, pensados preferencialmente para as crianças, porque ela está presente nas novelas, nos anúncios e na mídia em geral. Também não podemos alocar a violência nas ruas porque ela se faz presente nas casas, dentro das famílias, até nas creches e escolas.

Pode ser ingênuo, de nossa parte, supor que as crianças não tenham acesso a esses tipos de violência que ameaçam aos adultos. Quando e como elas tomam contato com isso, nem sempre se pode precisar. Salvo em alguns casos, como o do menino Chico que, com apenas quatro anos, teve a sua casa em Vila Isabel invadida por bandidos armados. No colo da mãe, eles foram trancados num compartimento da casa e, nessa hora, perguntou a ela: isso é filme, mãe?   E ela, embora assustada e amedrontada, respondeu: não, é de verdade. Já lhe disse que há pessoas do bem e do mal. Estas são pessoas do mal. Eles querem levar coisas da nossa casa para eles, mas a polícia vai chegar e vai ficar tudo bem.

Com esse tipo de reação da mãe, não planejada pelo susto óbvio do momento, foi demonstrada à criança uma certa aposta dela em relação a um final feliz, que poderia não ter acontecido, mas que acabou acontecendo, de fato, já que a polícia chegou e salvou a vida dessa família. No entanto, os pais de Chico tinham consciência de que a violência e seus riscos, de alguma forma, já faziam parte da vida dessa criança. Quando deixavam o carro estacionado numa vaga, e não em outra, quando verificavam se o mesmo estava trancado para não ser roubado, ou para minimizar os riscos, “passavam” para ele a existência da violência, de pessoas “do mal” etc.

Como o Chico representou internamente essa vivência real, não se pode dizer. O quê desse cenário assustador marcou sua memória com maior ou menor força, não sabemos. Nem como os seus pais também “representam” internamente, cada um deles, de formas próprias e únicas, essa dura experiência. Tudo isso pode ser revelado ou transmutado em palavras, mas esses registros são sempre subjetivos e cada pessoa, em qualquer idade, vai elaborar esse acontecimento a seu modo.

É comum que os adultos fiquem preocupados em relação a esses fatos virem a se tornar traumas na vida de seus filhos. No entanto, sob o ponto de vista da Psicologia, o que é traumático nem sempre coincide com o dramático e /ou violento. Eventualmente, um som, um rosto estranho, o olhar triste de alguém ou algum outro acontecimento avaliado como sem importância por terceiros pode vir a ser traumático. O que tem valor de trauma é o que toca particularmente a cada um e se apresenta como insuportável. E com isso, seria algo para o qual não se pode encontrar, tão logo, um sentido. Ou seja, não necessariamente um fato assustador vai ser traumático. De forma simples, estamos dizendo que o traumático em si não está no fato, ainda que possa ter sido verdadeiramente violento, mas sim no encontro contingente com algo perturbador para alguém. Um encontro imprevisível, que promove uma ruptura nas formas que cada qual “inventa” para se localizar no mundo. Haverá, então, nesse caso, que se inventar algo novo, que inclua o acontecimento em questão.

Voltando a vida das crianças, ter que criá-las num mundo assim tão complexo e até mesmo cruel não nos permite naturalizar a violência, nem a miséria, a pobreza, a falta de compromissos dos adultos para com as crianças, a falta de condições básicas de vida que, em geral, são geradoras de comportamentos violentos. No entanto, vivemos no fio dessa navalha: como fortalecer ou preparar nossas crianças para lidarem com essa dimensão tenebrosa da vida social _ a violência?

Como educadoras, em princípio, não defendemos nenhuma fórmula ou comportamento adequado, para adultos ou para crianças, que sirva para todos. Em geral, a forma como seus pais e as famílias lidam, cotidianamente, com a vida deixa exemplos e aprendizagens que costumam aparecer na vida das crianças. Há pais que fazem cursos de tiro, com armas de fogo e que acreditam na força da defesa da família a partir desses recursos. Há pais totalmente pacíficos e amorosos, que ensinam desde cedo aos filhos a diferença, por exemplo, entre brigas e lutas marciais. Há aqueles seres explosivos que por muito pouco brigam no trânsito. Há casais que nunca aumentaram a voz um para o outro, e há também pessoas que só falam gritando. Poderíamos ficar aqui falando de exageros e de grosserias que nada mais são do que atos violentos, embora não sejam sempre caracterizados como sendo de violência física. E que diferença faz?

Outro dia, uma mãe amiga estacionou o carro, junto com seus dois filhos, de cinco e dois anos. Ela pediu às crianças que saíssem rápido do carro para evitar que ladrões pudessem vir roubá-los. O menino, o mais velho, se mostrou confuso nessa hora: adultos não são vilões; os vilões não moram nas cidades e sim nas florestas. Com isso ela se mostrou insegura sobre como apresentar a violência para seus filhos.

De certa forma, em situações como essas os adultos já estão trazendo uma representação da violência do mundo para perto dos seus filhos. E é natural que seja assim. Não podemos supor é que eles nunca tenham tido acesso a nenhum conteúdo violento, para eles. Um grito mais alto de alguém, uma freada brusca do automóvel, um brinquedo que se perde, ou que se quebra, uma vacina que dói, um puxão de cabelos na escola são situações que podem ser violentas sob a ótica das crianças e, também, na de alguns adultos.

É claro que “no mundo perfeito”, aquele que idealizamos para viver junto com os nossos filhos, não existiria nada ruim, nada ameaçador, mas a vida não é assim. Portanto, embora não seja uma receita que valha para todos, não é recomendável que as crianças sejam sacralizadas, idealizadas nem tratadas num nível exagerado de proteção em que se negue a elas, a experiência da vida social como sujeitos de cultura que são. Negar que exista maldade no mundo, negar que existam pessoas desestruturadas que podem ser violentas e más, para nós, é como negar uma das facetas reais do mundo em que vivem, e que tem, do outro lado dessa mesma moeda, toda a alegria e felicidade, tudo de bom que embebe a vida de prazer.

Quem apresenta a violência às crianças é a vida. Nós adultos, com delicadeza e cuidado não podemos mentir para elas e, mais do que isso, precisamos considerar como nós, adultos, lidamos como vários aspectos intervenientes, como: as nossas vivências como pai e mãe, as experiências delas, as dúvidas que nos trazem, os fatos que se impõem sobre elas etc. Respeitosamente, vamos conversando e deixando claro, sempre, que o bem e o mal existem. E também que devemos perseguir o bem, sem olhar a quem, mas sem ingenuidades.

As histórias de encantamento são ótimas para as crianças lidarem com essa luta do bem contra o mal sendo que, aos poucos, e não são poucas as vezes, elas precisarão tomar contato com a vitória do mal, na vida real. É triste, mas é verdadeiro.

(*) Autoras: Angela M. Borba e Maria Inês de C. Delorme, com a contribuição de Ana Claudia Jordão

Chupeta: sim, não, por quê?

Papo de pracinha com colaboração de Irla Mello (*)

1444722355_88É comum encontrar mães e pais, principalmente os de primeira viagem, com muitas dúvidas em relação à educação do seu bebê, mesmo antes de ele nascer. Assim, com frequência somos procuradas por esses novos pais querendo saber o que pensamos sobre vários assuntos relativos à vida do bebê. Como, hoje, a maioria das maternidades têm um rol de coisas que devem fazer parte da bolsa do bebê, naturalmente são levantadas expectativas sobre o uso de determinadas coisas, e uma delas é chupeta. Nesse viés, dá para entender que pais e mães sejam induzidos a pensar e a responder sobre alguns aspectos para os quais ainda não tinham parado para pensar antes.

Como já dissemos algumas vezes, não se pode garantir que nada que seja excelente para a vida de uma criança, será igualmente bom para a vida de uma outra, com duas nobres exceções, o leite materno e o amor, indispensáveis para todas. O uso da chupeta, portanto, poderia ser incluído nessa mesma lógica.

E então, devo levar chupeta? Nós não gostaríamos que ela usasse chupeta. A chupeta é mesmo um foco de contaminação para as crianças? Se ela usar chupeta, vai ficar dentuça e precisará de aparelho dental, no futuro? Fora pressões mais diretas, como: fale a verdade, você ofereceu chupeta aos seus filhos? Fala, fala!

Defendemos que seja cada bebê quem nos diga se a chupeta será adequada e oportuna, ou não. De forma geral, a chupeta pode funcionar como um alento, como algo que acalma a criança. E nem que fosse só por isso, valeria a pena incluí-la no kit maternidade. Segundo a ortodontista Irla Mello, a chupeta pode ser interessante se houver um uso comedido dela, uma vez que esta não é necessária para o desenvolvimento da criança. Assim, para ajudar a estabelecer esse uso comedido, o ideal é que a chupeta seja usada se ela der conforto à criança.

O ideal é que os pais associem seu uso aos momentos de sono, por exemplo, para não criar o hábito de chupar a chupeta o dia inteiro pois o uso muito frequente da chupeta pode, a longo prazo, causar algum tipo de má oclusão, diz ela.

O que mais podemos dizer sobre a chupeta? Bem, para fortalecer a concepção de que cada criança é um ser único, integrado e diferenciado de todos os outros, nunca se pode garantir que ela vá gostar da chupeta como seu irmão, como seu pai que chupou até os sete anos ou coisa parecida. Vamos procurar “ouvir” o bebê? Ele tem muitas cólicas, chora muito? Aceita a chupeta? Não aceita?

É o bebe recém-chegado, sem saber de nada, quem deverá ajudar pai e mãe a resolver muitos desses impasses. Não é pouco comum que os filhos, às vezes mesmo recém-nascidos, venham exigir condutas diferenciadas de seus pais para questões relativamente simples. O casal pode ser favorável à chupeta, por exemplo, e o bebê pode não gostar de chupar chupetas. Isso vale para a escolha da hora melhor do banho, para a escolha das roupas em função da sensação térmica de cada bebê e para tantas outras coisas. E a criança, como ela é?

Sobre o medo de que a chupeta possa facilitar doenças, porque cai no chão, se mistura com chupetas dos amiguinhos na creche, ou na pracinha etc., isso pode acontecer. Mas isso funciona como qualquer outro brinquedo que vá à boca das crianças pequenas que brincam coletivamente. Dessa forma, a chupeta pode ser um foco de infecção se não for higienizada ou esterilizada de forma correta, bem como os brinquedos e mordedores.

Se a criança for usar a chupeta, diz Irla, os pais devem optar por usar chupetas ortodônticas que possuem uma anatomia que se adapta melhor à cavidade bucal da criança e que, por isso, permitem um maior contato da língua com o palato durante a deglutição.

As crianças que usam chupeta necessariamente ficarão dentuças? Não se pode dizer. O que se sabe é que o uso prolongado da chupeta pode provocar danos ao desenvolvimento da arcada dentária da criança, sem que se possa afirmar que isso será uma consequência óbvia em todas elas. Mesmo assim, para evitar isso, sugere-se o uso da chupeta até no máximo 3 ou 4 anos de idade. Depois dos 4 anos, chupeta poderá causar problemas oclusais, principalmente se for usada com muita frequência. Quando o uso é muito intenso ou prolongado, durante e/ou depois da dentição permanente, a criança pode começar a desenvolver alguma deficiência esquelética e/ou dentária o que torna mais difícil a correção dos danos causados, lembra a ortodontista.

Nós, professoras, devemos respeitar as escolhas das famílias e a orientação dos pediatras sem, no entanto, nos omitir. Assim, ao chegar na creche a na escola, ou quando vão para passear na rua, supomos que a criança não precisará ficar o tempo todo de chupeta, também, porque ela deverá experimentar alimentos, beijar, emitir sons e conversar livremente.

Não podemos esquecer que as crianças são todas muito diferentes umas das outras, o que exige uma parceria de mãe e pai muito efetiva, mas flexível, em respeito ao que elas nos dizem, mesmo antes de falar.

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C.Delorme, com a colaboração da ortodontista Irla Mello.

Crianças bem nutridas: crianças saudáveis

Papo de pracinha e Luciana D’Abreu Sarmento (*)

É evidente e muito favorável essa tendência contemporânea de praticar uma alimentação saudável dentro das famílias. Muitos adultos/responsáveis, hoje, têm suas próprias orientações sobre a alimentação adequada para seus/suas filhos/as que, esperançosamente, devem ter sido amamentados/as com leite materno durante um longo período. Só que isso não vale, ainda, para todas as crianças.

No caso dos bebês, sabemos que os seus pais costumam seguir as orientações nutricionais dos pediatras, e deve ser assim mesmo.

No entanto, não é pouco comum encontrarmos bebês e crianças obesas e/ou mal nutridas. Ainda sobrevive, hoje, a mentira de que bebês gordos sejam mais bonitos, mais saudáveis, e melhor alimentados que os outros. Será? Encontramos, também, algumas crianças que embora não precisem, tomem uma ou mais mamadeiras durante a noite, enquanto dormem. Às vezes, também, por medo de que fiquem mal alimentadas na creche ou na escola, os pais lhes oferecem uma mamadeira diária no carro, no caminho. E, ainda, há aquelas que só comem frutas e comida quando liquidificadas. Há as crianças boas de boca, também, que aceitam provar novos alimentos e que comem, tranquilas, mesmo antes de completarem um ano de vida. Valores de família.

Os adultos têm papel primordial nessa relação dos bebês com a alimentação e as crianças percebem logo se existe, ou não, ansiedade nessa tarefa. Toda a orientação dos pediatras podem ir por água abaixo se a família se sentir enfraquecida e insegura, se a família achar que sua criança se alimenta pouco ou mal. Uma das “moedas de troca”, com maior peso, entre as crianças e seus pais está na alimentação e nesse jogo de poder os adultos pagam qualquer preço para que elas comam tudo. No entanto, pode-se dizer que, qualquer que seja a orientação nutricional da família que, em 99% dos casos sejam oferecidas às crianças mais quantidade de comida, as vezes com frequência menor que a indicada, e com qualidade questionável (biscoitos industrializados, balas, frituras etc). Por quê?

Para enriquecer essa conversa e tirar parte das dúvidas convidamos a nutricionista Luciana D´Abreu Sarmento para que tenhamos acesso à informações e esclarecimentos que não costumam ser disponibilizadas pela grande mídia, nem pelas indústrias de alimentos.

Sobre aquela cultura do “suquinho de frutas”, Luciana diz que ela não atende mais às recomendações atuais. Em seu lugar, oferecer as frutas porque os sucos coados e liquidificados perdem as fibras; com isso, o açúcar da fruta (frutose) é absorvido mais rapidamente, caindo na corrente sanguínea e aumentando rapidamente a glicemia (açúcar no sangue), levando o pâncreas a liberar picos de insulina e a trabalhar abruptamente. O uso de suquinhos também pode dificultar a aceitação de água pelo bebê, diminuir o interesse pela mastigação e por outros alimentos.

Sobre a introdução de alimentos sólidos, Luciana reconhece que nem sempre seja tarefa fácil, ainda mais com o uso da colher e do pratinho. Como as crianças não são todas iguais, sugere-se que essas mudanças devam acontecer entre o 6º e o 7º mês de vida do bebê porque seu organismo está preparado para mastigar, deglutir e digerir a comida e, em alguns casos, ele já poderá ser estimulado a pegar a comida com a própria colher. Estando tudo caminhando com tranquilidade, ao 8° e 9° mês a alimentação do bebê pode ir passando gradativamente para a refeição da família com ajuste de consistência, para no 12° mês, a criança estar comendo a comida comum da família. Mas Luciana lembra que não se trata de uma regra, à medida que seja necessário respeitar a individualidade e o tempo de cada criança. A nutricionista nos lembra que as crianças precisam aceitar experimentar alimentos sólidos, novos sabores, aprender a mastigá-los e engoli-los, acostumar com novas texturas. É comum que crianças com predisposição alérgica sejam mais cautelosas e, por isso, seu interesse por alimentos sólidos pode acontecer mais tarde.

Para concluir, buscamos entender melhor por que cresce o número de bebês e crianças que sofrem com a doença chamada de obesidade, e porque ela vem aumentando, tanto nos países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão, quanto naqueles em desenvolvimento como Brasil, onde a obesidade coexiste com a desnutrição infantil. Na infância, os fatores prevalentes para a obesidade são: hábitos alimentares ricos em gorduras e calorias e pobres em fibras, aliado a hábitos sedentários como assistir televisão por muitas horas e jogar vídeo game. O desmame precoce e o consequente emprego de fórmulas lácteas de modo inadequado contribuem para aumento da enfermidade. Outros fatores estariam relacionados ao ambiente familiar, já que filhos de pais obesos têm maiores chances de se tornarem crianças com obesidade.

Os hábitos, comportamentos, os modelos de famílias etc. mudam permanentemente e, com eles, o padrão alimentar também se modifica. As industrias alimentícias passaram a investir num novo perfil familiar que precisaria simplificar as tarefas domésticas, aumentando a praticidade e a comodidade, alem de reduzir o tempo. Esses são os principais argumentos utilizados pelas industrias de alimentos para seduzir os responsáveis e suas crianças no afã de mudarem seus hábitos de consumo, à despeito dos critérios exigidos para uma boa saúde alimentar.

As famílias precisam saber que as crianças que precisam de acompanhamento para tratamento de obesidade não obterão resultados satisfatórios sem a adesão e o apoio de seus pais, com a indicação de que todos da família sigam as orientações. A escola também tem papel fundamental ao valorizar as atividades físicas e uma boa nutrição.

Comer é um ato social que pode envolver vários significados, como: carinho, amor, afeto, recompensa, poder etc. e com isso, muitas vezes uma ida á uma lanchonete de fast food pode simbolizar amor, carinho, recompensa para os adultos, mesmo que a saúde das crianças esteja sendo firmemente comprometida. Portanto, somos nós, adultos, os responsáveis pela boa nutrição e saúde de nossas crianças, não podemos nos omitir nem negligenciar. Isso também é amor.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme (Papo de pracinha) e Luciana d’Abreu Sarmento (nutricionista).

“Corpinho sim, cabecinha não”: a hora do banho

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Crianças têm sentimentos diferentes em relação ao banho. Em sua maioria, quando já brincam com mais autonomia, não gostam de parar o que estão fazendo para tomar banho. No entanto, depois de iniciado, o banho proporciona tanto prazer e conforto que elas não querem sair dele. Brigam para entrar e, da mesma forma, brigam para sair do banho.

Há as que só tomam banho frio, as que gostam de água bem quentinha, as que gostam de tentar segurar o sabonete que sempre escorrega etc. Há, ainda, os que adoram piscina e os que preferem praia. Tem também a turma do chuveiro e a da banheira. Há os que tem pavor de mar, de chuveiro e de piscina. A água forte que cai do chuveiro direto na cabeça da criança pode ser assustadora, além do sabão ou xampu nos cabelos que podem incomodar aos olhos, mesmo quando não ardem. Pedro, dos dois aos quatro anos, ao ser chamado para tomar banho anunciava logo: corpinho sim, cabecinha não, resistindo sempre.

Respeitados os hábitos e as preferências de cada uma delas, sempre que possível, podemos dizer que em todas as idades, os banhos refrescam, higienizam e relaxam. Há muitas crianças que dormem logo depois do banho, muitas vezes sobre a toalha, antes mesmo de estarem totalmente vestidas.

O que nem sempre passa pela cabeça dos adultos, em casa e nas instituições de educação infantil, é que a hora do banho quase sempre representa um dos poucos momentos, as vezes o único, em que um adulto e uma criança se aproximam, se encontram, se entreolham e conversam. No lugar da correria do dia-a-dia naturalmente, a hora do banho se configura como um cenário propício para conversas descontraídas, para brincadeiras e para contato. Sim, para contato físico. Então, pense conosco por um minuto: como é a hora do banho na sua casa?

Pois é, nas creches e nas escolas o banho nem sempre pode ser demorado. A maioria das atividades são coletivas e o banho precisa ser ágil, o que faz com que muitas vezes aconteça como se fora uma linha de produção industrial, para dar tempo de atender a todas as crianças. A higiene pode até ficar atendida, mas não costuma haver tempo para brincadeiras nem entre as crianças, nem delas com os adultos. Para que a brincadeira, o toque e o contato físico sejam priorizados, a rotina escolar precisa ser repensada para que o banho tenha maior qualidade relacional, contato mais próximo entre o adulto e a criança.

Todos nós adultos, precisamos também estar atentos para não deixar haver desperdício de água potável, além de ser preciso ensinar as crianças a economizá-la. Sem esquecer, ainda, que a hora do banho, que envolve água em pisos lisos (em geral) formam uma dupla imbatível para acidentes graves! Assim, todo cuidado é pouco, mesmo quando existe tempo para brincadeiras!

Então, afinal, o que queremos defender? Aquele banho que promove experiências e sensações. Por exemplo, no caso dos bebês, vale ter tempo para passar a mão e massagear todo o seu corpo, usar uma esponja bem suave, lavar sua cabeça com massagem no couro cabeludo para que ele se sinta confortável e amado. Os adultos precisam, sempre, respeitar o corpo da criança, ouvir e atender às suas preferências, dialogando com ela enquanto vai anunciando o que vai fazer.

Quando já ficam de pé, seja de chuveiro ou de banheira, a higiene pode ser acompanhada de brincadeira e alegria. Há brinquedos que podem ser molhados, lavados, há os que boiam, os que afundam. Há canetinhas coloridas que podem ser usadas para desenhar em azulejos e em plástico, podendo ser limpos com facilidade depois. Nada melhor, também, que uma bacia bem larga, com pouca água que possa ser usada para manter a criança sentada enquanto brinca com certos objetos, com bonecas e com a própria água. Bacias largas não devem ser substituídas por baldes! Cuidado, crianças podem se afogar em baldes com bem pouca agua se ali caírem, de cabeça, e não conseguirem sair rapidamente. Muito cuidado!

Nas creches e escolas, as crianças podem fazer uma farra tomando banho de mangueira em grupo, podem ir ao chuveiro aos pares e em trios, mas sabemos que o banho mais demorado e com contato apurado com o adulto deve ser função dos pais e mães. Em tese, não deve ser papel das creches e escolas cortar as unhas das crianças, nem usar cotonetes em seus ouvidos, por exemplo, mesmo cientes de que muitas crianças só tomam banho fora de casa já que chegam em casa com muito sono, quase na hora de dormir, e assim ficam sem essas e outras vivências preciosas para suas vidas. Em alguns casos é necessário que seja assim e não podemos julgar seus pais por isso.

Mas podemos tentar explicar, aqui, porque é impossível que as crianças saiam impecáveis das creches e das escolas, mesmo depois de terem tomado banho e se alimentado. Não se pode, nem é desejável que as crianças parem de brincar para ir para casa como se fossem para uma festa. Depois do banho, não há como pendurá-las num cabide até a hora de ir para casa. Na verdade, as atividades ao final de cada período costumam ser mais lentas, mas não podem impedir que as crianças interajam umas com as outras, nem com o ambiente, e que assim voltem a se sujar, claro.

O importante é que, sempre que possível, ao chegar em casa as crianças possam tomar um banho com a ajuda do papai ou da mamãe, que sentem à mesa junto com seus pais mesmo que já tenham jantado para perceber que as casas e a instituições que frequentam são espaços diferentes, com suas regras próprias desde que em ambas exista prazer, segurança, atenção e amor para elas.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Sobre crianças e adultos: ódio e intolerância

Papo de pracinha (*)

1444722355_88Um menino de cinco anos deu um chute em uma menina de apenas um ano, numa praça carioca. Embora exista uma boa diferença de idade entre eles, o fato isolado poderia até ser relativizado, entendido como coisa de criança, pelas outras mães e babás que frequentam habitualmente essa pracinha. No entanto, duas outras atitudes assustaram muitos os adultos: a frase dita pela criança maior – detesto criança pequena, elas enchem o saco; e a atitude da mãe desse menino de cinco anos, que assistiu a tudo sem nada dizer, expressando até certa concordância com o que fez e disse seu filho. Não tomar atitude é, em si, uma postura de omissão que pode ser grave. E uma pessoa disse, sem titubear: se precisar vamos chamar a polícia para essa mãe e para esse menino! Uma outra mulher de uns 30 anos, concluiu: já avisei para o meu patrão. Se esse menino tocar na nossa menina vamos todos para a delegacia porque vou partir para cima do filho e da mãe dele.

Em uma outra praça próxima, há apenas alguns balanços para as crianças usarem. As crianças vão se revezando nesses balanços, sempre sob a mediação dos adultos. Muitas reagem, choram mas há adultos que entendem a importância desse revezamento. Até que uma mãe, sentada em um dos balanços, com seu bebê de aproximadamente um ano no colo avisa: pode fazer fila, chorar e espernear. Pode chamar a polícia para me tirar daqui. Eu fico esperando horas para sentar aqui com meu filho e hoje vou ficar até eu cansar, até eu encher o saco de vocês, para vocês verem como é bom ficar aí parado, esperando. Criança grande vai jogar bola, vai brincar do que quiser, de outras coisas. Desiste porque vocês não são os donos dessa praça!

Teríamos aqui inúmeros casos para relatar o que se configura como falta de educação, desequilíbrio emocional e omissão/negligência de adultos em relação às suas crianças. Mas vale lembrar que para esses dois casos, em tempos e espaços diferentes, houve reação. E nos dois casos a polícia foi citada como capaz de equacionar o conflito, amenizar as tensões. Assustador!

Ficamos nos perguntando quais devem ser os limites de compreensão dos adultos em relação às habituais e históricas brigas de crianças, por acreditar que existam intervenções necessárias ao embate em si, à educação da sua criança e das outras, envolvidas no impasse, além das do entorno que ali estão, assistindo sem serem chamadas a opinar.

Como agir ao ver uma criança que mal anda receber um chute de uma criança de cinco anos, que corre livremente pela praça gritando “detestar crianças pequenas”. Claro, impossível analisar o chute sem o peso do termo “detestar”. O que faz uma criança manifestar que detesta outras crianças? O que ela entende por “detestar”? E sua mãe, não repercute internamente essa cena com preocupação, susto e até com tristeza ao ouvir a tal frase do seu filho? É preciso declarar, aqui, que não sabemos como é a vida dessa criança, como funciona a sua família, nem quais são as bases da sua educação. Pode-se dizer que, embora seja desconhecido o cenário global da vida dessa família, que entre mãe e filho não exista compromisso ético, afetivo, nem parceria respeitosa. Onde está presente o adulto, responsável, que tem deveres em relação às suas crianças? Essa relação de responsabilidade para com os filhos ultrapassa qualquer tipo de conforto material que possa ser oferecido a elas. Estamos falando aqui daquele patrimônio imaterial chamado de educação. Educar é difícil, trabalhoso, além de ser um processo relacional. Ou seja, exige interação de diferentes ordens: de adultos com crianças, entre as próprias crianças etc. E, para haver relação, é preciso que se estabeleça visibilidade e respeito ao outro, cada um nos seus diferentes lugares sociais. Além de ser possível ver e respeitar os seus pares, seus próximos, mas, em especial, os seus ímpares, os que são e pensam diferente.

Diante da omissão de certos adultos e, ainda, como parte do cenário político e social atual em que punir se confunde com educar, são os adultos que nos dois casos ameaçam chamar a polícia, para resolver o que são incapazes de fazer. Esses não são casos de polícia.

A mãe sentada no balanço com sua criança, ao avisar que não vai sair de jeito algum, volta a ser punitiva em relação às outras crianças. Ou seja, se foi muito ruim para ela, adulta, esperar pelo balanço para seu bebê, ela devolve com intolerância e grosseria a sua raiva, mostrando-se incapaz de distrair a sua criança até o balanço vagar. E nem estamos discutindo aqui se o balanço deveria ser usado por adultos, numa pracinha para crianças. Essa mãe também fala da polícia, se mostrando mais poderosa que a própria, enquanto ensina às crianças que esperam pelo brinquedo que façam o que ela não soube fazer com seu bebê – buscar outra diversão para tornar a espera mais suave, suportável.

Estamos diante de casos em que a falta de educação, a omissão, a raiva, a vingança, a insegurança e a prepotência se mostram presentes na vida desses adultos demonstrando o tamanho do desafio que eles e todos nós temos e teremos para educar essas e outras crianças.

E pior, até agora não pensamos nessas crianças como sujeitos que têm o que dizer, sobre como entendem a figura de seus pais, dos adultos em geral, da polícia, sobre os cuidados necessários para com outras crianças, menores e maiores, também com adultos, com idosos, com todos os outros. Nem sobre como entendem esse espaço chamado de ‘pracinha’.

Podemos dizer que a figura simbólica da polícia, por exemplo, que supostamente deveria estar relacionada à ordem social necessária para a vida, não é assim entendida por todas as crianças. Muitas delas sentem que a polícia, muitas vezes, é quem traz a desordem, e já sabem, aos cinco anos, que a polícia chega sempre dando tiros, que crianças morrem de balas perdidas, além de outras informações mentirosas, ensinadas pelos adultos, diante de sua incapacidade para educá-las: que a polícia vem e prende as crianças que saem de perto dos seus pais nos shoppings, que a polícia segura a criança e corta o cabelo daquelas que choram para serem penteadas, por exemplo, dentre outras coisas ainda piores. E, sempre que os adultos colocam a figura da polícia na relação com as crianças eles declararam sua incapacidade para gerenciar e educar os próprios filhos.

Crianças precisam de amor, de segurança, de firmeza, de conversa e de acompanhamento permanente de adultos comprometidos com seus direitos e deveres; também que sejam pessoas equilibradas, felizes, que sejam capazes de lhes ensinar a brincar, a rir, a respeitarem-se e também aos outros. Elas não precisam de polícia, mas de adultos inteiros, presentes, amorosos e firmes. A pracinha precisa ser gerenciada por quem ali convive, com generosidade, respeitos e muitas vezes com firmeza, não pela polícia.

Para concluir, lembramos que as construções sociais se dão na convivência, na efervescência da vida social. Assim, nunca somos vítimas apenas dos contextos desastrosos que se configuram e que parecem se impor, como se estivéssemos fora deles. Isso exige pensar no tamanho do desafio de educar para uma vida melhor para todos, para tempos melhores, para a gratidão, o amor e pelo fim dos preconceitos, das injustiças, dos extremismos, do ódio e da intolerância, de toda a ordem.

(*) Autores: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme