É preciso desacelerar a rotina das crianças: parte 2

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEstamos verdadeiramente atentas e preocupadas com o que os adultos vêm fazendo com e pela vida de seus filhos e filhas, as vezes com muito esforço, em nome do “sucesso” futuro, na vida adulta.  Em sociedades altamente competitivas como a nossa, há quem acredite que a criança deva se “preparar para o futuro”, para o mundo do trabalho e, nesses casos, não basta a escola. As crianças acabam frequentando muitas outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades e, tudo indica que quanto mais cursos a criança frequenta, aparentemente mais bem preparada ela estaria. Será?

A contrapartida mais imediata é que muitos pais se julgam melhor avaliados pelo tamanho do investimento que fazem no futuro de seus filhos. Isso é bom para esses pais? E para seus filhos e filhas?

E nesse ritmo frenético há, ainda, uma relativa valorização daquelas escolas que antecipam a educação formal, que exigem de crianças com 3, 4, 5 anos, a “exercitação e o aprendizado”, com muitas aspas, do que seria a leitura, a escrita e as noções matemáticas, quase sempre desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Por que insistimos em certos comportamentos e crenças?

Sabe-se que a brincadeira infantil, livre, sem o controle dos adultos foi bastante esquecida e desvalorizada por muitos longos anos. O fato de ela não depender de objetos específicos, já que tudo pode ser transformado em brinquedo, e nem de um espaço próprio, porque as crianças criam e constroem espaços e tempos de brincar sem obedecer às regulações do mundo adulto, gera uma compreensão de que brincar é algo “inútil e improdutivo” (?). E tem mais, como as brincadeiras escapam ao controle e à previsibilidade dos adultos, porque elas valem por si e não por qualquer outro produto ou resultado que possam produzir, de novo, ficam fora do ranking das atividades saudáveis, produtivas e necessárias para a vida das crianças. Argh!

Isso tudo tem origens remotas que vêm de séculos atrás.

 Um pouco dessa história:

Para entender essa história precisamos chegar ao filosofo grego Platão, que viveu provavelmente de 427 A.C. a 347 A.C. e que influenciou consideravelmente a filosofia ocidental, e também a educação. Suas ideias deixaram resquícios que podem ser vistos até hoje, por exemplo, o fato de a INFÂNCIA não ter características próprias e, por isso, ser vista apenas como um pilar antecipatório para a vida adulta(?). Essa visão “futurista” e ultrapassada de criança só considera as suas possibilidades como um ser em potencial, em um momento futuro, como adulto/a. Assim, as crianças não eram compreendidas como sujeitos que tinham uma vida ativa e rica em experiências no presente. Será que há ainda quem pense assim?

O fato de elas não serem valorizadas como crianças, no presente, também tinha apoio nas ideias de Platão, que as entendia como seres inferiores e via a infância, nesse viés, como uma fase inferior, menos importante que a fase adulta.  Será que já superamos essa antiga concepção?

Para completar, pela impossibilidade de agirem sobre e na pólis, origem da palavra política, Platão entendia a criança como “um outro desprezável, um excluído”, de quem se esperava que fosse vencida e domada pela Educação  (Kohan, 2003).  Não viria daí o fato de que hoje, ainda, a frequência às instituições de Educação Infantil funcionar muitas vezes como pano de fundo para a “socialização desses seres selvagens e desprezáveis” para aprenderem o jogo das regras sociais?

E, se a infância era vista como uma possibilidade futura, a educação funcionaria como uma ferramenta para moldar as crianças.  Alguém ainda acredita nisso?

Onde estão as alternativas?  

  • Na afirmação da criança como um sujeito de direitos, como produtora e consumidora de cultura, garantindo-lhes o direito de brincar. Para que se constituam como sujeitos únicos, sensíveis, criativos e expressivos, as crianças precisam imaginar e fantasiar em contextos de brincadeira livre. Isso é um direito e uma necessidade para viverem plenamente como crianças que são. Brincar, imaginar e fantasiar vem a ser o modo próprio como as crianças experimentam o mundo, como entendem esse mundo, como elas se entendem como parte dele e, também, como melhor expressam o que pensam, sentem e imaginam. Brincar favorece a construção de valores como a solidariedade e a parceria, o respeito às diferenças e aos “outros jeitos” de viver, de ser e de sentir.
  • Na formação de professores de crianças valorizando a brincadeira e defendendo sua importância como um direito delas, de poderem brincar livremente, com outras crianças e com adultos, em casa, nos espaços da cidade e também, em instituições de educação infantil. Não deve haver limites para o brincar e para a brincadeira que é, na verdade, a atividade essencial das crianças.
  •   Num comportamento crítico e reflexivo de pais e das famílias sobre o que desejam verdadeiramente para a vida de seus filhos, cientes de que quando elas são impedidas de brincar não há como retomar esse processo, que só pode ser vivido por elas, em situação de liberdade, se possível em contato com a natureza, e sempre com o apoio dos adultos.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

É preciso desacelerar a rotina das crianças!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEscola – natação – futebol – ginástica olímpica – inglês etc. etc. Que atividades temos hoje, antes (ou depois) da escola?  Corre pra cá, corre pra lá, “se arruma rápido senão vai chegar atrasado!”, “hoje não dá tempo de brincar, tem natação”…  No final do dia, crianças exaustas, muitas vezes estressadas.

O que leva os pais a encherem os horários das crianças no contraturno escolar, cada vez mais precocemente, com inúmeras atividades? Em nome de quê organizam assim a vida das crianças? O que pretendem com isso? Que implicações isso traz? Como medir o que é bom ou não para as crianças? Será que sobra tempo e espaço para elas escolherem o que querem fazer? Como fica o tempo de brincar? E o direito de não fazer nada, de não ser dirigido pelo adulto? 

As crianças estão tendo o seu tempo de brincar roubado

 O filme “A invenção da infância”, dirigido por Liliana Sulzback, apresenta depoimentos de crianças e adultos de diferentes e desiguais realidades brasileiras: de um lado, nas famílias de baixo poder aquisitivo e em contextos onde o índice de mortalidade infantil é altíssimo, crianças que trabalham desde cedo para garantir a sobrevivência, perpetuando o ciclo da pobreza e da miséria; de outro, pertencentes a famílias com melhores condições financeiras e que investem na educação dos seus filhos, crianças que assumem inúmeras responsabilidades no cumprimento de uma série de atividades extraescolares, escolhidas pelos adultos em função de seus ideais sociais: cursos de línguas, balé, natação, tênis etc.  O primeiro grupo de crianças expõe-se muitas vezes a riscos e condições inadequadas, cumprindo uma rotina pesada, enquanto o segundo grupo compromete-se com diversas atividades, que ocupam seu tempo semanal, com uma carga horária puxada. Em que pesem as profundas desigualdades entre os dois grupos no que se refere ao acesso à saúde, educação, habitação e aos bens culturais, há algo comum na vida de todas essas crianças: o tempo que lhes é roubado de ser criança, de viver com plenitude a infância!

O trabalho infantil, proibido pela Constituição Federal, é um problema gravíssimo que enfrentamos no nosso país e precisa ser erradicado o quanto antes. A idade mínima para o trabalho é de 16 anos, sendo permitido, entretanto, que aos 14 anos o adolescente seja aprendiz. Uma série de estudos e pesquisas têm mostrado os prejuízos que o trabalho infantil traz para a vida de uma pessoa. Mas esse é um tema para discutirmos em outro momento. Hoje, queremos falar da realidade que afeta esse segundo grupo de crianças: agendas semanais lotadas e infâncias institucionalizadas.

Agendas lotadas: em nome de quê?

Há um discurso presente na nossa sociedade competitiva de que a criança precisa se preparar para o futuro, para o mundo do trabalho e, para tanto, não basta a escola, é importante que ela frequente outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades.  É aí que entram os cursos de línguas, o esporte, o balé, entre outras possibilidades, compondo essa formação, supostamente “ampla”. Quanto mais cursos, aparentemente mais bem preparadas estariam as crianças. Será?

Junta-se a isso, a opção de muitos pais por escolas que antecipam a educação formal, demandando das crianças, ainda pequenas, com 3, 4, 5 anos, permanecerem a maior parte do tempo paradas realizando atividades relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita, bem como de noções matemáticas, muitas vezes, totalmente desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Sabemos que muitas instituições chegam a diminuir o tempo de “recreio” para garantir mais tempo para a “grade curricular. Não estamos querendo dizer que atividades estruturadas não sejam importantes para as crianças. Mas elas não podem impedir o tempo do brincar livre! Brincar sem a direção do adulto, contribui para a autonomia das crianças, que aprendem a fazer escolhas, avaliar os riscos de seus movimentos e ações, descobrir seus limites e possibilidades.

Os pais frequentemente se apoiam no discurso do investimento na formação dos filhos, de querer dar o melhor para eles. Mas o que é melhor para as crianças? É disso que as crianças precisam? Ou essa é uma forma de os pais compensarem o pouco tempo que compartilham com os filhos? Ou de se projetar nos filhos? (Já vimos pais em competição de natação dizerem para os filhos quando não correspondem a suas expectativas: “Você não é meu filho!”).

Por que é retirado da rotina das crianças, cada vez mais cedo, o tempo da brincadeira, o tempo livre?

Brincar é uma necessidade essencial na vida das crianças

 O brincar é o principal modo pelo qual as crianças interagem com o mundo, contribuindo para o conhecimento de si mesmas, para o estabelecimento de relações e vínculos com outras pessoas, adultos e crianças, e para o conhecimento da realidade a sua volta, constituindo uma dimensão fundamental no desenvolvimento e na formação cultural das crianças. Desenvolve a imaginação, a criatividade e muitos outros aspectos cognitivos, físicos e emocionais.  Mas parece que, aos olhos dos adultos, a brincadeira, que não é propriamente uma atividade “produtiva”, cujos resultados possam ser medidos, é algo menos valorizado na agenda das crianças. A brincadeira se restringe ao tempo que sobra em meio a uma grade horária lotada, cheia de compromissos e responsabilidades.

É preciso garantir o direito à brincadeira, se não queremos produzir crianças estressadas precocemente e com déficits acumulados: de natureza (brincar ao ar livre promove o contato da criança com a natureza), de criatividade, de imaginação, enfim, de felicidade!

Não fazer nada não é perda de tempo

O não fazer nada ajuda a gerar ideias, coloca a mente em movimento criativo, incentiva a imaginação e a curiosidade, permite o conhecimento de si mesmo. Como ter espaço para a criação, a invenção de brincadeiras, se o tempo da criança estiver totalmente regrado, institucionalizado, ocupado com atividades dirigidas? A rotina acelerada das crianças vai criando ansiedade, muitas vezes, levando-as a demandarem atividade atrás de atividade, mesmo no tempo em que poderiam estar livres. É comum vermos crianças que mal encerram um programa no final de semana, quererem emendar outra atividade. Ao sair da casa de um amigo com quem passaram o dia, imediatamente perguntam aos pais: quando chegarmos em casa posso ver um filme na televisão? Posso jogar no tablet? Posso chamar um amigo (vizinho) para brincar comigo?

É importante incentivar a criança a brincar sozinha desde cedo, a buscar fazer coisas de que goste, a fazer suas próprias escolhas, a motivar-se, a criar novas brincadeiras.

Assim, convidamos vocês a se juntar a nossa campanha por mais natureza e mais tempo de brincar livre na vida das crianças! Precisamos desacelerar a rotina delas, proporcionando-lhes mais experiências de brincadeira, de fruição, de exploração dos elementos da natureza através do corpo e da imaginação! Junto com isso, também não podemos nos esquecer: menos tempo de eletrônicos! As tecnologias digitais estão aí para serem usadas, é claro, as crianças também aprendem e se divertem com elas, mas usá-las por tempo prolongado, tira das crianças a energia criativa que as impele a brincar e buscar novas experiências lúdicas. E mais: nós também, adultos, pais, avós, babás, titios e titias precisamos desligar nossas telas temporariamente para poder compartilhar de forma mais inteira o tempo em que estamos com as crianças! Vamos, também nós, desacelerar?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

“Transtorno do Déficit de Natureza”: vamos salvar nossas crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Quais são suas memórias de infância ligadas à natureza? Olhar o movimento que as pedrinhas jogadas fazem nas águas dos rios e lagos? Observar o caminho das formigas? Contemplar as folhas balançando ao vento? Tomar banho de rio? Inventar histórias tendo como palco rios, bambuzais, praias, quintais? Correr atrás de galinhas e patos? Fazer castelos de areia na praia? Brincar na terra de fazer comidinha? Lambuzar o corpo de lama?

E nossas crianças, será que mais tarde terão lembranças de experiências com a natureza?

Para o jornalista americano Richard Louv, as crianças da sociedade contemporânea, predominantemente urbana, estão sofrendo hoje de Transtorno do Déficit de Natureza! Ele criou esse termo para chamar a atenção sobre os prejuízos, físicos e mentais, associados a uma vida desconectada da natureza.  Em entrevista ao Instituto Alana[1], ele destaca, entre outros prejuízos, a redução do uso dos sentidos, dificuldades de atenção, taxas mais altas de doenças como miopia, obesidade infantil e adulta e  deficiência de vitamina D. Louv escreveu oito livros abordando temas relacionando família, natureza e comunidade, e é co-fundador do Children & Nature Network (Rede Criança e Natureza), uma organização internacional que desenvolve um movimento para conectar pessoas e comunidades com a natureza. A rede atua junto a líderes urbanos, para  que tornem as suas cidades melhores para as crianças e adultos, e também para a saúde da própria natureza e do nosso Planeta. A rede também divulga estudos que mostram os benefícios econômicos que a reconexão com a natureza pode trazer, como economias potenciais de vidas e de dinheiro, através da redução de doenças respiratórias, do sedentarismo e de problemas de saúde mental.

Nós, do Papo de Pracinha, temos defendido que as crianças precisam ter garantido o seu direito de brincar ao ar livre. As experiências de brincar livre em contato direto com a natureza são fundamentais para a saúde física e mental das crianças, promovendo o seu desenvolvimento em suas múltiplas dimensões. O brincar na natureza favorece, entre outros aspectos, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia, os processos de decisão, o olhar sensível sobre as coisas, a colaboração, a inclusão e o respeito às diferenças de idade, gênero e etnia. Por isso, nossos lemas têm sido: bora brincar lá fora! ou Crianças: ocupem as cidades!

Sabemos que o modelo de crescimento das cidades vem se fazendo a partir de uma lógica que privilegia a ampliação de edificações e vias/espaços para os automóveis e, como consequência, destrói/cobre áreas verdes e rios. A realidade para a maioria de nós, é que passamos a maior parte do nosso tempo, adultos e crianças, na escola, em casa ou no trabalho, em ambientes destituídos de natureza, muitas vezes predominantemente digitais. Claro que não podemos negar os avanços benéficos da tecnologia, mas é preciso que compensemos esse tempo com mais natureza, se não quisermos adoecer ou criar nossas crianças em total desconexão com a vida que pulsa na natureza e com o que ela nos oferece de saúde e bem-estar.

Mas não podemos ficar apenas lamentando essas perdas e esse déficit! Temos saídas, e algumas iniciativas vêm buscando promover essa aproximação das  pessoas e das cidades com a natureza. Você conhece alguma? Vamos nos aproximar dessas inovações que acontecem aqui e no mundo? Nossa ideia é trazer para o Papo de Pracinha alguns exemplos de cidades que se reestruturaram para oferecer mais natureza para as pessoas ou projetos mais específicos relacionados à natureza. Para aguçar a nossa curiosidade e provocar algumas reflexões, poderíamos nos perguntar:

  • Como seria a nossa cidade se elegesse dentro de suas prioridades a conexão das pessoas, especialmente das crianças, com a natureza?
  • E se as escolas tivessem como princípio e eixo organizador do seu espaço e de seu currículo a experiência direta com a natureza?
  • Como seria a saúde da população de uma cidade se a natureza estivesse nas prescrições de saúde das pessoas, desde o seu nascimento?
  • Que natureza ainda existe debaixo das ruas da nossa cidade? (conheça o Projeto Rios e Ruas)
  • O que eu posso fazer no plano individual/familiar para trazer mais natureza para a minha vida e a das crianças?

Quem quiser nos contar sobre alguma iniciativa, use esse espaço – blog ou facebook – ou nosso email: papodepacinha@gmail.com. Vamos adorar compartilhar essas experiências com nossos leitores.

Antes de encerrar nosso papo de hoje, gostaríamos de citar o Projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana, que vem desenvolvendo algumas iniciativas bacanas na cidade do Rio de Janeiro. Além de produzir publicações e seminários para discussão do tema, criaram algumas ferramentas: (1) os Grupos Natureza e Família, com um Guia Passo a Passo para ajudar as famílias a organizarem grupos que se encontrem para brincar com suas crianças em parques ou praças, fazer piquenique, fazer trilhas e caminhadas, fazer passeios guiados com foco em aspectos da natureza, entre outras possibilidades; (2) O Movimento Boa Praça  disponibiliza um manual que incentiva o uso e a apropriação de áreas verdes públicas; (3) o GPS da Natureza que ajuda crianças de todas as idades e suas famílias a descobrirem atividades divertidas ao ar livre, na área em questão, por meio de sugestões, como praia, unidade de conservação, incluindo previsão de duração e do clima.

Viver tendo uma relação direta com a natureza ensina as crianças, sobretudo, que somos uma pequena parte desse planeta vivo, imenso e rico, repleto de outros tipos de vida da qual dependemos, todos. E torna possível viver em regime de colaboração e respeito ativos num sistema integrado do qual dependemos todos uns dos outros.


[1] “Cidades mais ricas em natureza” – Entrevista com Richard Louv – Publicação do Instituto Alana – Criança e Natureza.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Carnaval na pracinha: máscaras, rabos e Ladybug

(*) Papo de Pracinha

1444722355_88As pracinhas e as ruas foram tomadas pelas festas de momo e, com elas, as crianças se fizeram presentes com sua alegria, usando fantasias interessantes, criativas e fresquinhas. Só que não, ou nem sempre.  Os palhaços, piratas, baianas, bailarinas e melindrosas tradicionais estiveram presentes, como sempre, e a cada ano em menor escala, dando espaço para os super-heróis, heroínas e vilãs da televisão e do cinema. Mas houve novidades, e lindas.

A campeã desse carnaval foi a heroína (podemos chamar assim?), Ladybug que vem encantando adultos e crianças pelos canais a cabo da televisão por meio da série de animação Miraculous Ladybug. Nada contra, mas se pode comprovar que a televisão ainda é um meio de distração e de entretenimento de muitas crianças, por muitas horas e cada vez mais cedo. E também de adultos porque conhecem a mocinha, destacam o bom gosto de sua roupa e compram (ou fazem, ou mandam fazer) a fantasia, tal e qual.  É uma graça mesmo já que usa uma cor forte, o vermelho, e as bolinhas pretas que lembram uma joaninha, sem faltar a máscara que encanta, seduz e torna tudo mais mágico ainda.

Para quem não conhece, a série em questão tem a cidade de Paris como cenário, e esta é protegida por dois personagens fortes, com superpoderes, diante da ameaça de risco, do mal. De um lado, a menina Marinette Dupain Cheng que se transforma em Ladybug, com o poder da sorte e, de outro, seu amigo e amor da escola, Adrien, que se transforma em Cat Noir, com o poder da má sorte. Esse antagonismo de poderes entre eles é desconhecido por ambos, ou seja, eles não sabem do poder de transformação do outro. Cat Noir este ano, quase não veio ao Rio.

Mas, interessa-nos aqui conversar sobre a fantasia em si, sobre a possibilidade de ser sem ser, de agir como se fosse um herói, um pássaro ou um avião, como uma prerrogativa característica do mundo das crianças que alcança os adultos, que pode ser mais ou menos alimentada, estimulada por eles, desde que sempre respeitando cada criança.

Há aquelas crianças mais soltas, que podemos chamar carinhosamente como “mais exibidas” que entram facilmente nas brincadeiras, que aceitam roupas, adereços e maquiagens etc. Mas há outras que não se sentem bem assim e que rejeitam a fantasia. Isso não é motivo para não participar da festa que, pelo calor carioca, exige uma roupa fresca e confortável, sempre, para todos.  Há famílias e casais que se fantasiam junto com suas crianças e assim a festa se torna mais interessante ainda para as crianças, já que agrega um núcleo de afetos pela fantasia e pela alegria da festa.  Há também os que não gostam de carnaval e que fogem dele, e esses precisam ser igualmente respeitados, mas aqui, dessa vez, estamos pensando nos que gostam e participam da festa, junto com suas crianças.

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Os super-heróis não faltam às festas, nunca, sejam eles: o Super Homem, o Batman, o Hulk (esse já tem idade!), o Woody, do Toy Story com chapéu, blusa quadriculada, calça comprida, e tantos outros. Todos muito bonitos e alegres, quando usados por crianças que se mostram felizes dentro de suas fantasias.  Será que elas se identificam com os personagens que vestem e que passam a ser, nessas festas?

Nós queremos exaltar aqui as crianças e famílias que não estiveram usando as fantasias mais caras, nem as mais brilhosas, talvez, mas aquelas que criativamente fizeram a partir de uma combinação de elementos que produziu personagens inusitados, diferenciados e engraçados. Esse também foi o carnaval da magia da criação. Vimos mães, pais e filhos com roupas de palhaço coloridas, fresquinhas e maquiagens onde cada um carregava nas mãos, por exemplo, um “objeto circense” se é que podemos chamar assim: um prato num canudo grosso para a criança palhacinha se passar pelo equilibrador de pratos, o pai carregava dois malabares e a mãe, pasmem, tinha uma perna de pau mais baixa que o comum, mas ela as usava belamente, dançantemente.

Também foi o carnaval dos rabos e mascaras. Amamos!  Basta um rabo de macaco bem elaborado, preso com um elástico na cintura, um shortinho marrom, sem camisa e a máscara de macaco. Sensacional, resultado do trabalho de artistas, com orelhas e buraco nos olhos. Eram macacos, ativos e felizes.  Vimos também dinossauros nessa mesma onda, mãe e filho com rabos maravilhosos e bem feitos, lindos.

Bem as máscaras de pássaros e as asas coloridas, mais uma vez, encantaram a turma da pracinha pelo capricho, pela criatividade, beleza e originalidade.

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Queremos aplaudir, portanto, artistas e artesãos como a Fécula (www.fecula.tanlup.com), na criação dos mais lindos rabos, que coloriram e animaram a festa. E, também, aplaudir a turma da Elefoa (www.facebook.com/elefoa e @elefoa), que vem colorindo os corpos das crianças com as asas de aves mais lindas do mundo. Parabéns.

E, para fechar o carnaval com uma brincadeira, daríamos o Prêmio Papo de Pracinha àqueles que se pautaram em critérios de originalidade, beleza e conforto pautados no respeito pelas crianças.  E, ainda bem, não faltaram confetes, serpentinas nem as melhores marchinhas!

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(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Brincar com água: leveza e imaginação

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Brincar de fazer barquinhos de diferentes materiais para navegar na água, tomar banho de mangueira, sentir a chuva caindo no corpo, pisar, deslizar e escorregar na água, tomar banho de mar, rio ou piscina, jogar pedra no rio e observar os desenhos que ali surgem, encher potinhos de diferentes tamanhos e formas, dar banho nas bonecas ou nos bichos, misturar água e terra, experimentar o que flutua e o que afunda, fazer barulhos e espuma batendo mãos e pés na água… São tantas possibilidades! Quem não gosta?

Brincar com água produz uma sensação corpórea direta e uma conexão interior, vividas pela maioria das crianças com grande prazer e curiosidade. A leveza e a fluidez vivenciadas no contato e nas ações que as crianças desenvolvem com a natureza desse elemento, provocam a entrega da criança e a experimentação de ações e combinações que levam à criação de novas formas de brincar e sentir.

O projeto Território do Brincar registrou em diferentes comunidades e regiões do Brasil – rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral – o brincar livre e espontâneo das crianças. Em Acupe, na Bahia, uma brincadeira comum das crianças é construir as “tamancas” (barcos com velas semelhantes aos usados pelos pescadores da região) e fazê-las navegar pelo rio ao sabor da direção do vento. Para tanto, usam sola de chinelo de borracha, tampinha de garrafa, pedaços de varetas e sacola plástica de embalagem. E na experiência de fazer seus barcos e com eles brincar, a criança observa o movimento do barco, a força e o movimento da água, o peso e a direção do vento e, com isso, acumula conhecimentos valiosos para o brincar e sobre a natureza. A partir do vídeo abaixo, podemos sentir o quanto a brincadeira com os barcos promove conexão entre a criança e a natureza. É preciso olhar para a natureza com atenção, respeitá-la, compreendê-la e preservá-la para brincar com o que ela nos oferece.

O brincar na natureza provoca a imaginação da criança! Ao observar e entrar em contato com seus elementos a criança vai tecendo o seu processo de brincadeira e criação. O brinquedo não está dado e pronto, mas se cria na relação com a natureza!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

Brincar na natureza: o vento como “alimento de pensar”

Papo de Pracinha (*)

     “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido. … Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.”

                                                   Fernando Pessoa

1444722355_88A insegurança das ruas, hoje, associada à falta de tempo que submete a todos, faz com que deixemos as crianças em casa, brincando e vendo televisão. Tudo isso pode ser bom para elas, desde que suas vidas não se resumam a isso. Em algum momento elas precisam tomar contato com a natureza, brincar ao ar livre e tomar contato com toda a sua magia.

O vento, por exemplo, é encantador para as crianças porque como algumas dizem “ eu gosto de ventar cabelo, com meu pai, na bicicleta dele”, outras crianças menores gostam de correr atrás das folhas secas que voam ao sabor dos ventos e que dificilmente se deixam alcançar.

Não estamos falando de boas aulas de ciências naturais, nem de aprendizagens escolarizadas, mas de experimentações individuais e coletivas que, quando acontecem ao ar livre costumam acontecer e que convidam a vivências estéticas, sensíveis e sensoriais: sentir o vento no rosto, sentir a força e a direção do vento pelas folhas que voam, pela reação dos pássaros, pela direção e altura das pipas no céu.

Pode parecer ingênua essa defesa, pela poesia que nela está embutida, mas são vivências assim que ampliam a capacidade de entender o mundo, que permitem sentir a grandeza do mundo, que favorecem as descobertas e as invenções.

Um espaço onde crianças soltem pipas ou onde exista “uma biruta” instalada ao ar livre, claro, pode ser alimentador do pensamento: “por que ela gira? Por que ela fica gorda e fica magra? Ás vezes ela dorme. Por quê? Por quê? Por quê?” .

Por isso tudo, defendemos as melhores oportunidades de as crianças terem um contato maior com a natureza, para poderem sentir o vento, interagir com ele e, também, para que alimentem seu pensamento, como defende Fernando Pessoa.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Fotos: Luiza Gueiros

E agora eu era…princesa, herói ou formiguinha?

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88 Ser outros, muitos outros: bicho, gente, mau, bom, bonito, feio, herói, bandido, bruxa, fantasma, monstro, adulto, homem, mulher, bebê… Quem não se lembra da magia que é se fantasiar e fazer de conta que somos outros?

Fantasias ajudam as crianças a dar asas a imaginação e  a compor novos personagens e histórias. Experimentando ser outros numa realidade de faz-de-conta, a criança se reconhece e reflete sobre o mundo em que vive, além de inventar outras lógicas, que desafiam o mundo real. A brincadeira de faz-de-conta é um exercício de criação para as crianças.  E não precisamos achar que, se ela está imitando o bandido ou brincando de comidinha, será ladra ou chefe de cozinha, como se a  brincadeira infantil fosse uma preparação para o desempenho de futuros papéis. Ela está apenas experimentando ser outros, sem deixar de ser quem é, vivendo com intensidade o seu tempo de ser criança. Ela está aprendendo a lidar com as emoções, as diferenças, as dificuldades, no espaço protegido da imaginação e da brincadeira.

É comum vermos as crianças fantasiadas de princesas ou super-heróis nas ruas, escolas e festas infantis. Mas é preciso que as crianças também possam ser formiguinhas frágeis, pássaros, gatos ou cachorros, corajosos ou assustados, monstros horripilantes, dragões, bruxos, fadas ou o que a imaginação mandar. Muitos personagens da mídia carregam valores, padrões e regras relativas a gênero, beleza e modos de ser e agir, sobre os quais precisamos refletir.  No mínimo, esses personagens precisam de contrapontos, para que as crianças experimentem outras possibilidades de ser. Defendemos, nesse sentido, que as crianças tenham acesso a literatura, música, cinema, teatro e desenhos animados que fujam desses estereótipos, para que tenham referências culturais diversas, que lhes permitam criar diferentes personagens e histórias, sem ficar presas ao universo pré-estabelecido de um personagem. Nesse sentido, é interessante que as crianças também tenham acesso a fantasias fora dos padrões de consumo e da mídia. Outra possibilidade é criar fantasias junto com as crianças, com máscaras de papel, pedaços de tecidos, adereços diversos, maquiagem, roupas e acessórios de adultos, entre outras possibilidades. Nós, adultos, também nos divertimos nessa brincadeira. Bora lá?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Fotos: Luiza Gueiros

Crianças, a natureza está lá fora!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88É sabido que ao longo da história os homens foram criando recursos e ferramentas para ampliar seus movimentos e sua ação sobre os espaços como aconteceu, por exemplo, com a escada para aumentar sua altura, o ancinho para ampliar a ação de mãos e braços e a corda, para amarrações e para laçar animais em movimento.

As crianças que têm a oportunidade de brincar em contato com a natureza podem, não só sofisticar algumas dessas criações, como também descobrir, experimentar ações individuais e coletivas importantes como: correr livremente, saltar pedras e obstáculos, andar sobre pés de latas ou pernas de pau, subir em árvores, cavar a terra, usar a corda para amarrações e para pular. E quando percebem que suas vozes produzem vibrações e ecos? Chega a ser mágico.

Ao ar livre elas podem soltar pipa (em áreas sem fios elétricos), observar a dança das folhas secas ao vento, a direção do vento, as cores e formatos diferentes de árvores e folhas, o balé das bolas de sabão.   Experimentar com seu próprio corpo, seus desejos, suas histórias.

A natureza nunca se porta da mesma forma, mesmo em espaços já conhecidos. O ambiente natural convida as crianças a desenvolver sua percepção, sensibilidade, a capacidade de inventar e de descobrir respeitosamente, a sentir o cheiro da chuva,  a se conectar com os movimentos do mundo vivo e natural de que são parte. Isso é Papo de Pracinha.

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

As crianças amam fazer comidinhas!

Papo de Pracinha (*)

1444722355_88Não se pode afirmar que todas gostem das mesmas brincadeiras, pois as crianças têm suas preferências. Também é difícil, muitas vezes, encontrar explicações racionais que justifiquem seus desejos.  No entanto, para entender o envolvimento delas em diferentes brincadeiras, podemos levar em conta alguns aspectos que são comuns aos seus modos de brincar, como a curiosidade, a experiência transformadora, as combinações, as descobertas e as invenções.

Terra, água, gravetos, sementes, folhas, pedrinhas, potes variados transformam-se nas mãos das crianças em feijão, carne, arroz e outras comidinhas produzidas e inventadas magicamente por elas, em diferentes contextos imaginários onde servem/comem suas produções: festas de aniversário, casamentos, restaurante, cafés etc.  A criança experimenta texturas diferentes e o poder que tem de, com seus gestos e movimentos, transformar os materiais. Ao jogar água na terra, vê a água “desaparecer” e surgir a terra molhada, material que oferece outras possibilidades de manipulação, assumindo diferentes formas e significados a partir das ações de verter, misturar, enformar etc. Aqui estamos falando do brincar na natureza, em parques, praças e outros locais onde encontramos esses materiais. Mas e dentro de casa, também dá pra brincar de comidinha de uma forma interessante? Sim, podemos permitir às crianças misturar pó de café e água, um pouquinho de leite em pó, arroz etc., em panelinhas, potinhos ou outros recipientes pequenos, para que possam fazer suas misturas criativas, descobertas e invenções de cardápios. Por que não?

Muitas vezes, os adultos impedem esse tipo de brincadeira porque faz sujeira no ambiente, na roupa e até mesmo no corpo da criança. Aqui temos que resgatar o antigo provérbio que indica ser impossível fazer omeletes sem quebrar ovos.  De verdade, poder se sujar ao manipular “alimentos” é parte da vida de quem cozinha, de quem bota a mão na massa. E brincar  de verdade, experimentar os diferentes materiais, sem se sujar, é quase impossível. Para brincar, é preciso ter liberdade de se sujar, se for necessário.

Outra preocupação é quanto à segurança. Fogões acesos, fornos quentes, panelas aquecidas etc. são causadores de acidentes graves e, para preveni-los, procuramos manter as crianças afastadas da cozinha. Talvez esse impedimento seja uma fonte de curiosidade da criança em relação a esse espaço mágico que é a cozinha, onde se produz tantas coisas gostosas! Mas podemos criar o ambiente da cozinha em outros espaços, montando junto com as crianças a sua “cozinha” de faz-de-conta: caixas podem virar fogão, recipientes de plástico panelinhas, pratos, colheres de pau atendem muito bem às crianças.

O Papo de Pracinha defende que as crianças estreitem cada vez mais a sua relação com a natureza, dando-lhes a oportunidade de explorar seus diferentes elementos e com eles fazer suas experimentações e criações. É preciso levá-las para brincar ao ar livre nas praças e nos espaços públicos e deixá-las mexer na terra, coletar folhas, pedras… E, quando estiverem em casa, que tal convidá-las a brincar de forma ativa, criativa, inventiva e imaginativa? Bora lá fazer comidinha?

Boas comidinhas são Papo de Pracinha.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme