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INFÂNCIA FORA DA ASA

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEsse é o título do primeiro livro do Papo de Pracinha. Por que “Infância Fora da Asa”? Manoel de Barros, nosso querido poeta, que tanto valoriza a infância e a natureza, foi nossa inspiração, com seus versos que traduzem muito do que pensamos. Ele diz:  “Poesia é voar fora da asa”. E o que isso nos diz sobre a infância e as crianças? Para nós, as crianças são seres poéticos, que não se enquadram em molduras e modelos. São seres carregados de poesia nos seus modos de pensar e agir sobre o mundo, cujo percurso não pode ser previsto, posto que é sempre inusitado, desconhecido, inesperado, curioso, imaginativo e brincante. Crianças rompem frequentemente com os limites que nós, adultos, definimos para elas. Crianças voam fora da asa. Assim, a Infância precisa ser pensada fora da asa, de um modo inteiro e sensível, que contemple suas diferentes dimensões e especificidades, para além do olhar adulto que a aprisiona. É preciso ir além do instituído, é preciso voar fora da asa.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme


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“Crianças não namoram”

O Papo de Pracinha participou da matéria do site Opinião e Notícia sobre erotização infantil, veja abaixo a matéria completa.


Opinião e Notícia – 22 de Maio, 2017 – Priscila Fagundes

Namoro ou amizade?

Campanha contra erotização precoce das crianças ganha grande repercussão nas redes sociais e levanta debate polêmico, porém fundamental para a educação infantil.

No fim de mais um dia de trabalho, um grupo de pais conversa enquanto aguarda seus filhos saírem da escola. Em meio ao bate-papo, um dos responsáveis conta, divertindo-se, que a filha adora entregar “quem é namorado (a) de quem” na turminha de apenas três anos, em média. Todos sorriem e acham graça.

Mas criança namora? Na verdade, “nem de brincadeira”, estampa em seu slogan uma recente campanha lançada pela Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas) do Amazonas, em parceria com o blog Quartinho da Dany.

Desde que foi divulgada, no dia 5 de abril, a campanha “Criança não namora. Nem de brincadeira” ganhou uma grande repercussão, principalmente nas redes sociais. A ação, que visa conscientizar pais e responsáveis “quanto aos riscos de expor as crianças aos relacionamentos afetivos próprios da fase adulta”, o que pode “adultizar e até mesmo estimular a erotização precoce”, já foi curtida mais de 100 mil vezes e compartilhada mais de 400 mil vezes, atingindo pelo menos 28 milhões de internautas em todo o país.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, o psicólogo Luiz Coderch, coordenador da campanha, explica que “o objetivo inicial era apenas realizar uma conscientização a nível regional”. A ação, no entanto, cresceu de forma significativa, surpreendendo a própria secretaria: “Não esperávamos a repercussão, ficamos muito satisfeitos com a demanda, pois revela que a população está interessada em realizar discussões sobre as melhores formas de educar e proteger as crianças, e a mídia tem papel fundamental nesse processo”.

Luiz Coderch disse ainda que o retorno da campanha tem sido “excelente”, com pais e ou responsáveis procurando os profissionais da Seas para tirar dúvidas e buscar orientação sobre seus filhos. “No Facebook também temos recebido várias histórias interessantes de todo o Brasil, mas creio que as melhores histórias que tenho ouvido são as dos próprios funcionários. Apesar de sermos profissionais da área, também somos pais e mães, e alguns dos comportamentos, como beijar na boca dos filhos, também são cometidos por nós, e isso faz com que o processo de reflexão e busca por melhores condições para as crianças seja uma busca de todos. Somente nessas conversas abertas seremos capazes de desenvolver medidas de melhoria na educação intrafamiliar, bem como na educação formal”.

A reação de muitas pessoas contrárias à campanha “Criança não namora” ajuda a ilustrar a dificuldade em abordar o assunto. Nas redes sociais é possível encontrar perfis que criticam a ação, apontando um excesso de “politicamente correto”.

A professora, mestre e doutora na área de infância Maria Inês Delorme, uma das autoras do blog Papo de Pracinha, ressalta, também em entrevista ao Opinião e Notícia, que encorajar “o ‘namoro’ entre crianças é mais uma ‘das brincadeiras’ que os adultos fazem que não respeitam, as vezes até desagradam as suas crianças”.

‘Estou namorando’

Luiz Coderch ressalta que muitas vezes as crianças, mesmo não tão pequenas, não conseguem diferenciar totalmente uma amizade de um “namoro”. Não se deve, no entanto, reprimir as expressões de afetividade da criança. Por outro lado, não é preciso transformar relações de respeito e carinho em namoro.

“Os pais devem ficar tranquilos e estimular através da valorização dos princípios da amizade, como por exemplo explicar para a criança quais os comportamentos da verdadeira amizade como lealdade, sinceridade e parceria. E ao explicar esses valores tenha certeza que a criança assimilará que possui um amigo e não um namorado”, diz o psicólogo.

Inês destaca também que “o tema exige de pais e professores um conhecimento ampliado e destituído de preconceitos na área da sexualidade”.

“Crianças saudáveis são curiosas em relação ao seu corpo e ao corpo dos amigos, quando percebem que os corpos são diferentes, por exemplo, e isso nada tem a ver necessariamente com interesse sexual. Agir com naturalidade e sem deixar que ‘as experiências adultas’ invadam e tomem a cena é o melhor. Já sabemos de crianças bem pequenas com comportamentos bastante ‘sexualizados e perturbadores’ mas, quando se busca entender o contexto de vida e as experiências delas, em 99% dos casos há elementos que se apresentam para ela, cotidianamente, como corriqueiros e como valorizados. Os adultos precisam ter noção sobre suas responsabilidades em todos os casos”, ressalta a pedagoga.

Além disso, segundo Inês, a erotização infantil se sustenta na cultura do consumo. Pautar desejos e comportamentos das crianças por um viés sexual que ainda não lhes pertence é cruel, “exatamente porque existe alguma valorização por parte dos adultos que a cercam”. Comprar maquiagens, tirar fotografias e expor as crianças em redes sociais, muitas vezes com roupas insinuantes, semelhantes às dos adultos, são “modos simples de tornar invisível a vida das crianças, seus direitos, desejos e suas culturas próprias”, explica.

O tema é polêmico, importante e, muitas vezes, desconcertante. Talvez tudo seria mais fácil se ficássemos com “a pureza das respostas das crianças”.

 

http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/namoro-ou-amizade/


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Sobre o que dizem os psicólogos de Harvard: “Pais que criam bons filhos fazem essas 5 coisas”

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioVale a leitura dessa pesquisa feita pelos psicólogos de Harvard, traduzida e publicada pelo blog Papo de Pai em 21/04/2017.

“Psicólogos de Harvard revelam: Pais que criam bons filhos fazem essas 5 coisas”

Concordamos inteiramente com o que dizem os psicólogos de Harvard. Lembramos, ainda, que autonomia, dignidade e vida colaborativa são valores importantes que se constituem na relação cotidiana das crianças com seus adultos de referência, preferencialmente, sua família, embora não só dentro dela.

Assim, no lugar de verticalizarem autoritariamente as relações que estabelecem com suas crianças, sem perderem seu lugar diferenciado como pais e responsáveis, propomos que os adultos falem menos, que se expliquem e que se imponham também menos e que, em seu lugar, escutem, compreendam, divirjam mas que dialoguem permitindo que elas cresçam sentido-se amadas e importantes dentro da sua família.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Mães: ágeis, velozes e, às vezes, furiosas.

(*) Papo de pracinha

texto_proprioDevemos ao comércio a instituição dessa e de outras datas festivas que conhecemos hoje. Como mãe é “pau para toda obra”, dona do tal “amor incondicional”, figura complexa e em geral protetora, não dá para fingir que esse dia não exista, ainda que com o cuidado de não resvalar para o toque comercial.

Há aquelas bravas e sem muita memória de que um dia foram crianças e jovens e assim, tentam fazer com que suas crianças sejam adultas e ajuizadas, como ela, desde sempre, e elas fazem tudo isso por extremo amor.

Há as que acompanham o crescimento dos filhos regredindo na idade, buscando ser amigas e companheiras dos jovens filhos parecendo ter quase a mesma idade deles e, nesses casos, seu(s) perfil(is) de mãe, por extremo amor,  fica diluído e as vezes, perdido.

Há outras, as que acreditam saber o que é melhor para seus filhos, em qualquer idade. Orientam, acompanham e, com isso, pensam que têm total controle sobre as ações e escolhas. Por amor, claro. Sempre.

Bem, há também as que se orgulham de serem “pai e mãe”, por amarem intensamente seus filhos, como se isso fosse possível. Certas frases entram nas nossas vidas como se fossem verdades inquestionáveis e, como essa, acabam fazendo com que algumas acreditem ser possível acumular a função materna e paterna em uma só pessoa. Mas, ainda assim, não falta amor.

Há louras, morenas, gorduchas, intelectuais, do lar, depressivas, alegres e de todo o jeito. Mais permissivas e mais autoritárias. Sempre, ou quase sempre por amor elas tentam se manter próximas dos filhos disputando com eles o lugar de raiz, do que lhes sedimenta. Mães sedimentam os filhos, ou vice-versa? Como é isso?

Bem, como mães, precisamos ser generosas com todas as mulheres sem perder de vista que as “mães de verdade” nada tenham a ver com essas “mães de poesia”, sempre generosas, boas, prestimosas, disponíveis, doces e orientadoras sem serem autoritárias. Perfeitas.

A vivência da maternidade é deliciosamente complexa, é incrivelmente difícil e não se repete como fórmula nem na relação de uma mesma mãe com seus diferentes filhos. Cada mãe é uma com aquele filho, não no “tamanho” do amor, mas na vivência desse amor cotidiano que exige atenção total, respeito às diferenças e parceria. É difícil, bem difícil, mesmo quando a tarefa é dividida entre dois adultos, que podem ser pai e mãe.

O que dizer para todas elas na passagem de mais um “segundo domingo de maio”, sem sermos repetitivas, piegas nem cair num lugar comum? Também é difícil.

Bem, as mães de hoje estão muito mais fortes no seu papel. Não se sentem diminuídas ao assumirem “parcerias de casal” com quem dividem medos, preocupações, conduções e também a hora do banho, a ida ao pediatra, a alimentação, os passeios de seus filhos. Aí não cabem competição nem desvalias. As mães sabem dos seus deveres e do que só elas podem fazer, como amamentar e dividem com nobreza a educação dos seus filhos. Isso também é amor.

No mais, ainda vemos hoje que as mulheres continuam precisando tirar coelhos de cartola enquanto giram pratos e malabares para dar conta de tudo e, sempre que possível, com alegria de viver, no rosto e no coração.

A essas e as outras mães guerreiras que, por amor, vão à guerra por seus filhos desejamos saúde, força e alegria. Assim, podemos saber porque nas horas mais difíceis os filhos de todas as idades acabem gritando firmemente por “mamãe”. Eles sabem que estamos por perto, mas precisam lembrar que estamos pertinho também nos momentos de alegria, de vitória e de prazer.

Ser mãe, de verdade, nada tem a ver como “padecer” e nem, muito menos com o cenário de “paraíso”, mas, talvez, sejam merecedoras de aplausos todas aquelas que são verdadeiras, sensíveis, discretas quando necessário e, sobretudo, fortes afetivamente para acompanhar a vida dos filhos sem força, sem a fantasia da onipresença e sem poder. Nós avisamos que era difícil! Viva todas as mães, de todos os tipos! Hoje e sempre.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Educar com liberdade não é educar sem limites: vamos falar da escola?

(*) Papo de pracinha

texto_proprio Como prometemos, para concluir a nossa série de textos “Educar com liberdade não é educar sem limites”, falaremos hoje da escola, ou melhor, do que esperar na prática de escolas que apostam em suas propostas educativas na liberdade, na participação e na autonomia das crianças. E, mais uma vez, traremos as contribuições de algumas de nossas leitoras.

O que observar para além do discurso sobre a proposta pedagógica da instituição? O que observar no espaço? Na rotina? Nas atividades? Nas interações?

Já comentamos que as opções de escolas nessa linha não são muitas e, além disso, entre as propostas existentes, muitas vezes há uma certa confusão na prática do que significa a liberdade, o diálogo, a participação da criança na construção dos limites e possibilidades de atuação no espaço e nas relações com seus pares e com os adultos. Mas como perceber isso? Diante das dificuldades de fazer essa escolha, é melhor optar pelo já conhecido?

Para C. (educadora), o mais importante é que os pais procurem uma escola que tenha uma metodologia e um projeto Politico Pedagógico que se aproxime da forma que eles veem o mundo. Se em casa propõem uma educação mais autoritária, uma escola dessa forma será bem vinda e o oposto também é verdadeiro.  Digo isso, pois muitas vezes os pais escolhem pela proximidade, preço e outros fatores, mas depois ficam insatisfeitos, questionando o trabalho e deixando a criança insegura por perceber que os pais não confiam na escola.

C. toca num ponto importante que é a confiança que os pais precisam ter na escola, para que seus filhos, e eles também, se sintam bem naquele espaço e possam estabelecer uma relação de parceria com a instituição. Mas essa escolha, para a maioria das leitoras que nos enviaram contribuições, foi/é difícil. Algumas, mesmo adotando na educação dos seus filhos uma prática mais democrática e baseada na participação e no diálogo, optaram por escolas mais tradicionais. No entanto, essa opção foi consciente, em função das referências que os pais tinham de pessoas que passaram pela escola e que hoje valorizam suas famílias e cultivam suas amizades. Além disso, possuem lembranças cheias de amor da escola, do incentivo ao esporte e contato com a natureza (T. mãe). Outras mães buscaram escolas que se aproximassem mais de sua forma de educar, priorizando uma maior liberdade para suas crianças.

A. (mãe e professora universitária), por exemplo, nos falou do longo processo de escolha de escola para o seu filho de 10 meses, com visitas a todas as instituições das redondezas e muitas surpresas com os discursos: os discursos são muito parecidos, os termos do campo acadêmico como construtivismo, protagonismo infantil, cultura do lúdico e autonomia do pensamento estavam tanto em creches que prezavam por esses princípios como em creches nas quais a distribuição do espaço e as produções expostas nas paredes indicavam que as práticas estavam centradas na pouca participação das crianças ou preparação para o ensino fundamental.

Essa é uma questão bastante complicada, pois realmente os discursos de muitas escolas hoje são quase uniformizados!  Como identificar o que cada instituição realmente pratica em termos de educação?

A. continua: outro aspecto que também chamou nossa atenção foi a excessiva assepsia de algumas instituições que pareciam não ter crianças em seus ambientes. E, ainda assim, adotam o discurso do lúdico! É preciso mesmo desconfiar, como fez A., quando nos deparamos com escolas assim, pois onde há crianças brincando, não tem como estar tudo em perfeita ordem! Há uma bagunça que é inerente à brincadeira, às ações e interações entre as crianças. Por exemplo: seu filho sai da escola sempre com a blusa limpinha? Desconfie se isso for verdade! Certamente, os adultos devem estar conduzindo as suas mãos nas suas produções, para não haver sujeira e para expor “trabalhinhos” lindos nos murais! Mas o que é beleza quando se trata das produções das crianças? Pensem sobre isso!

Após esse primeiro reconhecimento das escolas que ficam no entorno de casa,  A. e o marido decidiram priorizar observar alguns aspectos nas outras visitas que fizeram:   se a organização das salas dava espaço para as interações entre as crianças, a natureza dos trabalhos expostos nos murais, a presença e o acesso de livros e o estado dos brinquedos; livros perfeitinhos e brinquedos ‘quase como saídos das suas caixas’ nos indicavam o pouco manuseio por parte das crianças. A escola escolhida tem pouco espaço físico, mas optou por substituir as paredes das salas por cortinas, assim, as crianças têm a oportunidade de transitar pelos ambientes e escolher as atividades que mais lhe interessam, isso também indica a proximidade entre nosso filho e todos os adultos e crianças da escola, para além de sua turma. É uma escola que, como todas as outras, apresenta contradições, mas o que chamou atenção positivamente é que essas contradições não são ocultadas das famílias. Essa é uma creche também que não estimula o consumo e tanto na escola como fora dela as festas e outros eventos são simples, centrados nas crianças. O uso do uniforme não é obrigatório e a criança pode chegar ao longo do turno, o que nos permite respeitar o horário do sono e chegar por exemplo quase “uma hora atrasados”.  

A. destaca alguns aspectos fundamentais a serem observados na rotina e nos espaços organizados pelas escolas: a possibilidade de movimentação livre e exploração dos materiais pelas crianças, de escolha de atividades e de interações entre as crianças e destas com os adultos. Outro aspecto, que também consideramos muito importante, no mundo em que vivemos, cada vez mais materialista e competitivo, é o não incentivo ao consumo e uma aposta na simplicidade, nas relações sociais afetivas e cooperativas.

Diante dessas questões, vamos trazer aqui alguns aspectos que, a nosso ver, deveriam estar presentes em escolas mais “abertas” à liberdade e à participação das crianças. De forma alguma queremos uniformizar ou trazer receitas de como desenvolver uma educação mais democrática. O mundo é muito complexo e contraditório para tanto! São apenas princípios que nos dão um caminho para a reflexão e para a construção de um olhar sensível para essa questão:

  1. A oposição a uma educação autoritária não significa o apagamento da figura do professor/do adulto! Este precisa ter uma presença segura, generosa e responsável, que desafia as crianças para a autonomia e a liberdade e, ao mesmo tempo, assegura o seu bem-estar e a sua segurança.
  2. O professor precisa atuar tanto na perspectiva individual como coletiva, garantindo o atendimento às necessidades de cada criança e uma relação com os outros e com os espaços, de respeito e de participação.
  3. As escolhas e as decisões das crianças precisam ser feitas com base em limites e possibilidades claros para todos e que se constroem com a participação delas. A garantia de um espaço de liberdade para as crianças exige que os adultos lhes forneçam as referências necessárias para que elas se situem naquele espaço e possam realizar suas escolhas e descobertas.
  4. A autonomia e a participação não se alcançam de uma hora para outra, mas sim por meio da experiência de tomar parte nas decisões que afetam o seu cotidiano, aprendendo a assumir as consequências da sua decisão. Assim, é preciso que a escola ofereça oportunidades diversas para que as crianças expressem suas opiniões, sentimentos e conhecimentos e, ao mesmo tempo, que os adultos saibam escutá-las verdadeiramente.
  5. É preciso haver espaço e tempo para o brincar livre, pois esta é a atividade central da criança, constituindo o principal modo pelo qual ela conhece a si mesma e o mundo ao seu redor.
  6. As crianças precisam exercer o seu direito de curiosamente explorar o ambiente ao seu redor, acessar conhecimentos que lhes permitam compreender o mundo e reelaborá-los/construir novos conhecimentos a partir de suas ferramentas e liberdade para pensar. Para tanto, é importante que tenham autonomia para agir e ferramentas, materiais e informações ao seu dispor para fazer suas escolhas, associações e reinvenções.
  7. Para criar é preciso ter referências e materiais variados. Estes são contornos a partir dos quais a criança ganha confiança e liberdade para pensar e se expressar criativamente.
  8. É fundamental favorecer e respeitar a livre expressão da criança, nas suas diferentes linguagens! A beleza do trabalho na educação infantil envolve a singularidade e a riqueza das produções das crianças: através da fala, do corpo, do desenho, da pintura, das construções, entre outras possibilidades.
  9. É importante a escola se abrir para fora, ocupando também os espaços da cidade, principalmente oferecendo à criança o convívio com a natureza, na perspectiva de promover uma relação sensível com o mundo e de cuidado com o ambiente e a cidade em que vive.

Com tudo isso, vemos como é grande e diferenciada a responsabilidade do professor que atua com crianças nas instituições de educação infantil! Ele não pode ser apenas a “tia” carinhosa que cuida bem das crianças! É preciso, entre outros aspectos, que ele conheça o desenvolvimento infantil, seja sensível à cultura infantil e compreenda os processos de aprendizagem da criança. Nosso próximo texto falará sobre isso. Não percam!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Educar com liberdade não é educar sem limites: continuando a conversa.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioNosso texto da semana passada Educar com liberdade não é educar sem limites mexeu com muita gente! Falamos sobre a tensão entre garantir a liberdade e a necessidade de colocar limites para a criança. Liberdade, para que ela possa fazer suas escolhas e participar daquilo que lhe diz respeito, e limites, para que ela possa participar da vida coletiva, se relacionar com os outros e atuar no mundo de forma solidária e responsável. Esse é um tema polêmico e ao mesmo tempo muito presente para pais e mães que pensam/refletem/decidem sobre a educação de seus filhos, buscando coerência com seus valores e com o que desejam para eles, no presente e no futuro.

Fizemos algumas perguntas aos leitores: de que forma definir limites, sem ferir o respeito às crianças e cercear as suas possibilidades de autonomia e participação? Qual a relação entre liberdade e limites? Que tipo de participação a criança pequena pode ter nas escolhas e rotinas da sua vida cotidiana, na escola ou na família? É possível construir a autonomia da criança desde pequena? Ficamos felizes com as contribuições que recebemos e traremos aqui algumas delas para continuar as nossas reflexões.

Comecemos com B. (mãe e psicóloga):

Este texto do Papo de Pracinha nos chega na mesma semana em que o jogo “Baleia Azul” tomou conta da mídia e das redes sociais suscitando questões  diretamente ligadas ao tema da liberdade na educação de crianças e jovens. A este respeito, um meme que se tornou viral foi o de um chinelo azul onde, em tom jocoso, pais eram convocados a resolverem o problema de supostos suicídios e auto-mutilações ligados ao jogo através de chineladas!

 chinelo azul

 O fato de o meme ter se tornado viral indica a alta receptividade que o castigo tem na nossa cultura como concepção de prática educativa eficiente, onde ainda impera o antigo dito popular “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Assim, talvez, uma pista para compreender a rejeição por escolas que conferem mais liberdade e autonomia aos alunos possa estar na nossa tradição cultural autoritária representada pelo sucesso da piada “do chinelo azul.

B. chama a nossa atenção para a cultura do castigo, tão impregnada nos modos de pensar a educação de crianças e jovens. Frases como “é de pequeno que se torce o pepino”, “não há nada que uma boa chinelada não resolva” são mesmo comumente usadas para ressaltar/valorizar/justificar o poder dos adultos e o modo como estes subjugam as crianças, pregando e praticando uma educação que não admite qualquer grau de liberdade ou participação delas. Concordamos que, efetivamente, essa seja uma das razões para a rejeição por escolas que têm a liberdade e a autonomia como princípios. Neste caso, em função de uma oposição radical a esses princípios.

Mas, mesmo os adultos que se opõem a uma educação autoritária, aquela em que a criança não tem voz, muitas vezes se assustam com a liberdade das crianças, pois isso implica lidar com a imprevisibilidade, a abertura para o novo, a descontinuidade e a perda do seu próprio poder de controle. Para conferir liberdade às crianças é preciso que os adultos abram mão do porto seguro do seu controle e da ordem, geralmente baseados em normas arbitrárias definidas sem a participação das crianças. Ainda que esta ordem sempre possa ser desviada ou questionada pelas crianças, provocando rupturas nas práticas disciplinares, os modelos autoritários de educação representam, sem dúvida, um caminho conhecido e previsível e, talvez, mais  seguro (pelo menos aparentemente) para os adultos. O fato é que muitos pais optam por caminhos mais conhecidos (muitas vezes parecidos com os que eles trilharam) e as escolas “tradicionais” aparecem como uma opção mais confortável.

Vejam o que diz F. (mãe): É importante estimular a autonomia através de tarefas do dia a dia para que a criança adquira auto confiança! Mas em relação à escola, prefiro errar para mais do que para menos quando o assunto é disciplina e cobrança. Acredito que talvez percamos em criatividade, mas ter a possibilidade da criança confundir liberdade com falta de respeito ou de responsabilidade, me faz optar pelas tradicionais. Nesse caso, F. demonstra uma preocupação com algo que comentamos no texto anterior, que é “a dificuldade percebida em muitas dessas escolas de colocar em prática a liberdade como eixo do trabalho com as crianças. Não é incomum que, nessa busca de construir práticas que atendam aos princípios de liberdade, respeito e  participação das crianças, o trabalho educativo se apresente pouco estruturado e a  liberdade seja confundida com ausência de limites.”

É interessante observar também que a mãe F. se coloca no lugar de quem erraria sempre nessa escolha, para mais ou para menos, como ela diz. Mas perguntamos: o que é mais e o que é menos quando o assunto é disciplina? Ou liberdade e limites?

Agora vejam como aquele primeiro comentário, de B. (mãe, psicóloga), tem a ver com o que diz T. (mãe).

(…) posso dizer uma coisa, deixar os filhos terem um mínimo de autonomia e escolhas em suas vidas assusta a maioria das pessoas, eu e meu marido somos frequentemente vistos como pais “easy going” demais, e eu não concordo! Acho importante eles [as crianças] poderem tomar decisões, ainda que pequenas.

Eu e P.(pai) concordamos que nossos filhos devem aprender experimentando, vivenciando e isso normalmente ocorre por suas próprias decisões, após esclarecermos as  consequências (boas e ruins) de suas possibilidades de escolha. Exemplo: [ se querem ] correr de chinelos de dedo, explicamos que existe um risco maior de se “estabacar” com a cara no chão, e eles decidem se correrão ou não esse risco. Óbvio, não expomos nossos filhos a riscos graves, como entrar na piscina com ou sem boia quando não sabe nadar, nem transferimos a responsabilidade de  decidir sobre algo que eles não são capazes de decidir. [Mas] tentamos criar nossos filhos de forma livre dentro dos limites que estabelecemos para eles, e há espaço pra que eles possam avaliar e tomar suas pequenas mas importantes decisões. 

 T. sente o incômodo que a sua forma de educar provoca nas pessoas, chegando a ser vista como “easy going”, “liberais e inconsequentes” Talvez isso se deva a termos ainda como modelo de educação dominante o do “chinelo azul”. Será?

O que T. e P. demonstram considerar importante é envolver as crianças, sempre que possível,  nas decisões sobre o que lhes diz respeito, promovendo o exercício da escolha, da participação e da responsabilidade pelo que fazem. E isso é algo fundamental para a conquista da autonomia da criança. Por que não deixá-la participar da decisão sobre a melhor forma e hora de guardar os brinquedos, da escolha da roupa que irá vestir, a hora em que vai fazer a pesquisa ou tarefa de casa, também quando servem-se nos pratos, na hora das refeições, entre outras possibilidades?

T. comenta sobre a dificuldade que percebe em muitos pais em relação à colocação de limites para os filhos, e pensa que existe, de um lado, uma preguiça de lidar com a consequência de um SIM LIVRE e , por outro lado, também existe o desconforto de um NÃO NECESSÁRIO. E fecha essa ideia dizendo Educar dá trabalho.

Sim, dá mesmo, exige sobretudo a presença amorosa, generosa e segura dos pais, estimulando a autonomia, a liberdade e a participação das crianças e, ao mesmo tempo, dando-lhes os contornos/limites necessários para que tenham uma boa, democrática, respeitosa e responsável relação com os outros e com os espaços em que se inserem.

Em relação à escolha da escola, a mãe T. lembra que:

Muitos pais optam por escolas “fortes” por conta do mercado de trabalho que está cada vez mais concorrido etc., e tomam a decisão de colocar seus filhos de 6 anos em escolas que irão iniciar o processo de treinamento para o vestibular já na alfabetização, com muitos testes, muitos deveres de casa, com crianças lendo em duas línguas e escrevendo com letra cursiva e bastão com 5 anos. Filhos com futuro garantido, pais satisfeitos! Eu discordo disso. (…) Criança tem que brincar, sonhar, correr e, sim, aprender a ler e a escrever, mas de forma orgânica, sem competições e cobranças extremas. E sobre a sua escolha de escola, diz: eu pensei muito nas referências que tenho hoje e infelizmente não tive nenhuma referência de escolas mais “liberais”. Em contrapartida, tive somente referências positivas da escola onde ele estuda  hoje e o que mais importou foi ver que os ex-alunos que conheço dessa escola são pessoas que valorizam suas famílias e cultivam suas amizades. Além disso, possuem lembranças cheias de amor da escola, do incentivo ao esporte e contato com a natureza. Isso ultrapassou qualquer dúvida que eu tivesse e superou as questões que eu tinha sobre ser uma escola religiosa. A decisão foi acertada, pois meu filho está super adaptado e feliz.

 Chamamos a atenção para algumas expressões significativas e bastante arraigadas na nossa sociedade, que polarizam as escolas entre “fortes e fracas”, as decisões de pai e mãe “erradas para mais ou para menos”, quando falamos em liberdade, em autonomia e em limites na vida escolar. Vamos retomar essa discussão com o que nos foi dito por alguns/algumas educadoras para tentar oferecer ainda outros elementos para enriquecer a reflexão.

Ficamos nos perguntando se, e em que medida, precisaríamos conhecer mais sobre como se dá o processo de aprender, como as crianças constituem conhecimentos novos na relação com a experiência com outras crianças, pautadas nas interações sociais e na linguagem que sustenta e organiza o pensamento. Ao conversarem umas com as outras, saindo dos lugares estabelecidos para elas, para ir ao encontro de outras crianças com quem desejam falar, poderia ser  considerado como desobediência? Ou como falta de limites e de disciplina? E caladinhos e sentados, aprenderiam mais e melhor? São pontos importantes que precisamos levantar!

Há muito ainda o que dizer sobre o tema e na próxima semana pretendemos continuar o debate colocando foco maior nas escolas, no que se refere aos princípios de autonomia, participação e liberdade, no qual traremos outras contribuições dos leitores.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Educar com liberdade não é educar sem limites

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioCostumamos ver a criança como um ser frágil, imaturo, inocente e, também, incompetente. Ainda que a criança, nos seus primeiros anos de vida, seja dependente do adulto e tenha uma fragilidade incontestável, esse olhar da “falta” nos leva a não perceber as reais possibilidades e capacidades da criança. Estamos sempre buscando o que ainda lhe falta no caminho evolutivo para se tornar adulta: ela ainda não anda, não fala, não lê, e por aí vai. Mas o que já faz? Como enxerga o mundo ao seu redor? O que compreende daquilo que falamos e fazemos com ela?

Nós, adultos, tentamos explicar a infância com nossos saberes supostamente bem construídos e, assim, criamos/usamos escalas, grades e normas para medir o seu desenvolvimento e, também, inventamos/adotamos diferentes métodos para educá-la. Esse olhar da incompletude, que vê a criança prioritariamente por aquilo que lhe falta para se tornar um adulto racional é responsável por um projeto de educação que apressa o percurso da criança, antecipa aquilo que ela pode ou não fazer, programa os seus passos e conhecimentos a serem adquiridos, enquadra comportamentos, tudo isso na busca de torná-la um sujeito competente e produtivo.

No contexto escolar, esse projeto tem algumas características que sobressaem, com maior ou menor grau de intensidade, de acordo com a proposta institucional em questão: a relação vertical e autoritária dos adultos em relação às crianças, a definição de etapas progressivas a serem seguidas, a cobrança de uma disciplina rígida que garanta a ordem, as punições pelo não cumprimento das regras e ordens dos adultos, a ausência de voz e de participação das crianças, a transmissão (ou despejo?) de conteúdos (muitas vezes sem nenhum sentido). No âmbito da educação familiar, sobressai o mesmo modelo unilateral e vertical, em que apenas os adultos têm voz e a criança precisa se submeter ao que eles escolhem, desejam e organizam para elas.

Mas existem outras formas de se compreender as crianças que se desviam dessa visão e que, ao contrário da “falta”, revelam a potência da criança e as suas formas  próprias de pensar, sentir e agir.  Há estudos e teorias no campo da psicologia, sociologia, antropologia e educação que têm como base a confiança na capacidade da criança e a compreensão de que esta é um sujeito da cultura e não um ser meramente biológico a ser “dissecado” em etapas progressivas e universais de desenvolvimento. Tais conhecimentos nos ajudam a questionar a ausência de voz e de participação das crianças nas práticas escolares e familiares a elas dirigidas.

Essa visão da criança como sujeito potente e participante do mundo em que vive sustenta modelos de educação que, geralmente, enfatizam os seguintes princípios: a liberdade e a autonomia das crianças, a participação e o respeito às suas formas próprias de expressão e de pensamento. Mesmo considerando que, nessa categoria, que vamos chamar aqui de “escolas alternativas ao modelo tradicional”, existam diferentes perspectivas teóricas e práticas de educação, podemos identificar eixos comuns nas suas propostas, por exemplo:  uma relação mais democrática entre adultos e crianças e, também, um trabalho com os conhecimentos que seja mais contextualizado e conectado com interesses e conhecimentos próprios das crianças.

Algumas famílias que compartilham dessa outra visão de criança buscam escolas que ofereçam aos seus filhos oportunidades de brincar livre, expressar-se em diferentes linguagens, construir conhecimentos significativos e exercer o seu potencial criativo. Acontece que o leque de opções nessa linha não é grande, tornando difícil essa escolha, principalmente, quando é preciso levar em conta, além da proposta pedagógica, fatores como valor financeiro e distância de casa. Além disso, há outro aspecto que entra em jogo na escolha de uma proposta mais democrática de educação, que é a dificuldade percebida em muitas dessas escolas de colocar em prática a liberdade como eixo do trabalho com as crianças. Não é incomum que, nessa busca de construir práticas que atendam aos princípios de liberdade, respeito e  participação das crianças, o trabalho educativo se apresente pouco estruturado e a  liberdade seja confundida com ausência de limites. Ao se depararem com um trabalho “solto”, com contornos pouco claros para as crianças e para os adultos, os pais ficam desencorajados de fazer a escolha por essa proposta.

Efetivamente, um trabalho em que a liberdade é priorizada mas os limites estão ausentes peca por não oferecer às crianças as referências necessárias para que possam criar com confiança e, assim, expandir as suas possibilidades de agir e pensar livremente. Mas como educar com liberdade e ao mesmo tempo com limites claros para as crianças, sem ferir o respeito a elas como sujeitos e cercear as suas possibilidades de autonomia e participação? Que limites seriam esses? Qual a relação entre liberdade e limites? Que tipo de participação a criança pequena pode ter nas escolhas e rotinas da sua vida cotidiana, na escola ou na família? É possível construir a autonomia da criança desde pequena?

Nós do Papo de Pracinha temos algumas reflexões para expor, sobre isso. Mas gostaríamos de dialogar com as suas opiniões: você já viveu ou consegue se colocar nesse conflito no que diz respeito à escolha da escola para o seu filho, entre a opção de uma escola mais tradicional e uma escola que proporcione maior liberdade e autonomia para as crianças? Que aspectos entram em jogo nessa escolha? Que questões você levanta em relação a essas diferentes práticas educativas?

Vamos lá? Não deixem de manifestar seus pontos de vista, questionamentos ou experiências vividas, suas contribuições serão conteúdo do nosso próximo texto. Participe!

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Tapas, mordidas e puxões de cabelo entre crianças.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Uma mãe, amiga da pracinha nos procurou com alguma preocupação. Ela foi chamada na “escola” do filho, que tem quase dois anos, para tentar entender, junto com a professora, o que está acontecendo, pois ele está batendo nos amigos às vezes e, também, batendo com a cabeça no chão e na parede, quando contrariado.

Existe uma tendência. Quase sempre, quando a escola chama os pais para conversar sobre seus filhos, na grande maioria das vezes, é feito o anúncio de algum problema em relação à criança. É sempre assim? Deve ser assim? Pois é, sabemos que não. Defendemos a parceria e a proximidade casa-escola para gerenciar essas questões, que não necessariamente significam um problema da criança, podendo estar relacionado com o próprio processo de desenvolvimento ou com relações que se constroem no contexto da própria escola. Na verdade, as próprias crianças, mesmo com quatro ou cinco anos,  já sabem que um convite para os pais irem à escola pode ser indicativo de problemas. Isso é fato, acontece muito ainda,  mas pode ser diferente.

Sair da escola do seu filho/a com uma batata quente na mão e alguns sustos no coração não é simples, nem confortável. Vários motivos levam a mãe e/ou o pai a pensar que morder, empurrar, puxar cabelos e até bater a cabeça na parede etc. são consequências diretas de “problemas em casa” que podem ser resolvidos pelos pais. Mas não é assim. E, nesse processo, os adultos tomam para si certas responsabilidades mescladas de culpas que não existem, ou que são hiperdimensionadas devido a um conjunto de fantasias equivocadas que são construídas culturalmente. Seriam os filhos um rebatimento direto do que são seu pai e sua mãe?  Seriam os seus filhos crianças que agem de “forma errada” (???) porque estão longe do controle dos adultos? Seriam eles agressivos ou violentos porque começam a apresentar certos comportamentos nem sempre doces, ternos e conciliadores?

Na nossa opinião, as escolas de crianças poderiam se antecipar e conversar com os pais desmistificando certos medos e preocupações dos adultos diante de alguns comportamentos que são bastante comuns entre as crianças, sem rotulá-las e sem colocá-las em “formas de comportamentos previstos” para cada idade, não se trata disso.

Crianças em geral a partir de 18 meses começam a perceber a sua potência e força para lutar pelo que querem e, se possível, alcançar seus objetivos com agilidade. Vale o aqui e o agora, para elas. Em segundos, a bola que todos disputavam pode estar abandonada num canto da sala. E todos estarem atrás de uma panelinha, velha e quebradinha. Acontece.

Nem sempre as formas que as crianças desenvolvem para “impor sua vontade” são delicadas devido a sua incapacidade temporária para negociar, para entender o seu desejo e o dos amigos, e mais, para conseguir transformar isso tudo em linguagem socialmente compreensível, em linguagem produtiva que permita pactos e acordos.

Crianças em torno dos dois anos e, às vezes, até bem mais tarde, procuram resolver impasses e atender aos seus desejos com o corpo, com o esquema melhor organizado que dispõem. E, vamos combinar, que embora isso não indique agressividade, nós adultos nos aborrecemos, queríamos ter filhos gostosos e educados, quase uns “Ghandis” quando, na verdade, na hora da mordida, do empurrão e da cabeçada nada disso esteja exatamente em jogo.

Para concluir, mãe amiga da pracinha, pedimos a você que não aceite esse lugar comum de mulher e mãe de filhos de faz-de-conta, filhos de livros de poesia, suaves e cor de rosa, sempre.

Alguma agressividade usada na hora certa e sob o controle da sua criança, aos poucos, vai permitir que ela ande de bicicleta, jogue futebol na praça, mergulhe numa piscina. Alguma agressividade será sempre necessária para ser possível viver.  Converse com a sua criança sem expectativas outras, sem exageros e sem pressão, dê-lhe amor e tenha firmeza, sempre que necessário.  Parabéns, ele é bem normal e saudável.

Sobre mordidas, saiba mais aqui: A boca: mordidas, conhecimentos e experiências.

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

A “escolha de Sophia”: o olhar preconceituoso do adulto.

(*) Papo de Pracinha

Sobre notícia do portal Globo.com em 04.04.2017

texto_proprio Viralizou pela internet a história da linda Sophia Benner que escolheu, numa loja de brinquedos, uma boneca negra e não branca como ela é.

O fato de essa notícia ter sido destaque na mídia, para nós, por si só, não engrandece a escolha dessa criança nem justifica o olhar dos adultos para a escolha dela. Quando acompanhamos e estudamos crianças podemos verificar que os seus desejos, seus medos, suas escolhas não expressam linearmente o que seus pais, os seus adultos de referência e até a mídia esperam dela. E crianças de uma mesma família, de mesmo gênero e de idades semelhantes poderiam fazer escolhas bastante diferenciadas.

Para demonstrar a nossa preocupação, precisamos destacar algumas questões. A primeira delas consiste no fato de as crianças não serem uma audiência homogênea, pasteurizada e, portanto, não se submeterem aos padrões impostos pelos adultos, nem pela mídia, sem reservas. Nesse caso, a pequena Sophia foi levada a uma loja para escolher um brinquedo e nenhum de nós pode afirmar categoricamente o porquê de sua escolha, nem os valores que estão por trás dessa escolha. Quem disse que os brinquedos devem ser semelhantes aos seus donos, para encantá-los?

Bem, a atitude da Sophia soa bonita, sim. Sugere uma proximidade importante entre crianças e pessoas de diferentes etnias, sim. Mas sem o olhar preconceituoso dos adultos que a cercam, essa notícia não teria esse destaque.

Ninguém se prendeu ao objeto da sua escolha (por que uma boneca), o preço do presente (possibilidades reais de compra), se seria a boneca pesada demais ou leve para ser carregada pela menina? Se poderia tomar banho com Sophia, ou não? Se a boneca tem cabelo para ser penteado, ou não? E nem, tampouco, se seria bom para a vida de sua criança presenteá-la por ter se libertado das fraldas, coisa que não depende apenas da sua educação nem da sua vontade, mas de maturações de outra ordem.

Olhos preconceituosos questionaram a escolha de Sophia. A vendedora acusa que “ela poderia escolher uma boneca de presente e optou por um brinquedo de cor diferente da sua”, o que para nós é bastante curioso, no mínimo! E seguiu confrontando a escolha da criança: “tem certeza que é essa que você quer, querida? Ela não se parece com você. Temos muitas outras que se parecem mais com você”.

Sophia, com apenas 2 anos, respondeu: “Sim, ela se parece comigo. Ela é uma médica, como eu sou uma médica. Eu sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Você vê o cabelo bonito dela? E o estetoscópio dela?”, respondeu Sophia, admirada com o novo brinquedo. E muitos vivas para a Sophia que soube explicar muito bem a sua escolha, sem ter dado destaque à cor da pele da boneca, tal como fizeram a vendedora e também sua mãe. Os olhos preconceituosos desses adultos justificaram espalhar a atitude da Sophia pela internet mesmo sem terem “escutado” a criança, os motivos de sua escolha. Bacana é perceber que os dois anos de vida não a impediram de contestar a vendedora.

Ponto para Sophia por saber brigar pelo que quer. Bobo e preconceituoso dar destaque à escolha da criança sem que a questão étnica estivesse em pauta em sua vida, no auge dos seus dois anos de vida. Quem quer fazer sucesso com essa notícia?

Leia na íntegra aqui.

Imagem (fonte): Reprodução Facebook

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme