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Sobre o desenho da criança na escola: é preciso enxergar a poesia da criança!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Na nossa última conversa sobre o desenho e outras linguagens expressivas no contexto escolar, mencionamos as pastas que as creches/pré-escolas costumam mandar mensalmente para a casa das crianças, contendo as suas produções, ou “trabalhinhos”, termo muito usado na Educação Infantil. Muitas vezes, mais do que uma forma de promover a participação das famílias, no sentido de oportunizar  o diálogo entre a escola e os pais/mães e, também, destes com seus filhos/as, essa prática funciona, principalmente, como uma satisfação da escola em relação ao trabalho realizado com as crianças. Isso, certamente, influencia o planejamento das/os professoras/es em relação às experiências que as crianças terão com as diferentes linguagens expressivas: a preocupação maior é com o resultado, o produto, o papel que irá para casa ou para o mural, o desenho que encantará as famílias. A experimentação, as escolhas, a busca de soluções, as descobertas, ou seja, tudo aquilo que constitui o processo da criança, fica em segundo plano, ou melhor, na maioria das vezes, nem acontece! Ao contrário, as crianças frequentemente são comandadas, conduzidas pelos adultos a executar uma proposta pré-definida, que não abre espaço para o inusitado, para a surpresa, para que a criança deixe suas marcas e viva, efetivamente, com o seu corpo inteiro e a sua imaginação, suas mãos e suas mentes, a experiência de desenhar, pintar, construir etc.,  livremente!  Mas isso seria fazer poesia, e não  “trabalhinhos”!

Sim, como nos disse Drummond, as crianças são poetas, mas “[…] a escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo” (ANDRADE, 1976, p. 593). A poesia está viva na criança quando ela é livre para olhar, tocar, sentir as coisas, fazer conexões, falar, pensar, imaginar e, por meio de gestos, movimentos, sons, formas, cores e palavras, expressar-se e perceber o mundo e a si mesma. Mata-se a poesia da criança quando se prioriza a atividade-produto, a ser apresentada aos pais/mães. Onde fica a arte? Onde fica a criança? Onde fica a liberdade de fazer cavalos verdes? De fazer arvores que voam? Ou traços, formas, e cores que, não necessariamente, se traduzam em palavras– em resposta à pergunta “o que você fez?” –  mas simplesmente tenham o sentido da experimentação, da estética, da poesia da criança?

O que significa ver as crianças como poetas? Como podemos trabalhar com as diferentes linguagens expressivas de modo a enriquecer as possibilidades de expressão artística da criança e de refinamento do seu olhar sensível para o mundo?

A arte precisa estar presente na Educação Infantil, como um campo de conhecimento que se constitui pela imaginação, pela sensibilidade, pela criação, pela experimentação, pela pesquisa, pela surpresa, pela liberdade, pela escuta e atenção às coisas. Não comporta moldes, controles e normas!

Afasta-se da arte, quando as linguagens artísticas são usadas para o ensino de conteúdos. E também quando se tornam instrumento de normatização do desenvolvimento infantil, dispositivo avaliador e classificatório, supostamente revelador da evolução do desenvolvimento da criança. Sim, isso se faz, comumente, com o desenho infantil, quando o foco está muito mais nas etapas evolutivas, que definem um percurso na direção do pensamento adulto, racional-competente-completo, no lugar do processo singular de cada criança.

No entanto, é engraçado constatar que esse a maioria das pessoas desaprenda a desenhar na idade adulta, aquela supostamente completa, considerada o ponto final (?) das etapas do desenvolvimento. Por que isso ocorre?

Matisse, Picasso, Klee, entre outros tantos artistas, foram buscar na criança as fontes para o olhar curioso, sensível, livre e brincante, necessário à criação. Matisse disse: ao artista é indispensável ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda dessa condição nos priva da possibilidade de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal. E Picasso declarou: “…precisei de uma vida inteira para aprender a desenhar como uma criança”.

Os artistas percebem a poesia das crianças! E nós? E a escola?

A escola não percebe a potência criativa da criança quando lhes apresenta desenhos estereotipados a serem reproduzidos, quando tentam conduzir e formatar seus processos, quando lhes constrangem as possibilidades de imaginar e criar, de fazer por si mesmas, de experimentar!

Para ver poesia na criança e permitir que ela amplie suas possibilidades de expressão criativa, a escola precisa caminhar no sentido de:

  • promover o contato da criança com a arte, através da apreciação de diferentes e variadas produções artísticas, em diferentes linguagens;
  • possibilitar o diálogo da criança com diferentes materiais, a partir da liberdade de experimentá-los, de fazer conexões e de dar forma a sua imaginação;
  • experimentar diferentes posições, suportes e texturas para desenhar, pintar, moldar, construir;
  • permitir que a criança “faça arte” com a mesma liberdade, encantamento e alegria com que brinca;
  • mobilizar os sentidos das crianças para as coisas, para os significados que se constituem nas suas relações com a natureza, com as pessoas, com os espaços, com os objetos e com a arte, promovendo ampliação de um olhar sensível sobre o mundo;
  • Ampliar as experiências reais e simbólicas das crianças, alimentando o seu repertório literário, imagético, cênico e fílmico. Olhar sempre o mesmo, o único, empobrece. Como a criança poderá enriquecer suas formas de expressão se o que vê são formas/cores únicas e estereotipadas de gatos, cachorros, árvores, casas, nuvens, cavalos etc.? É preciso ter espaço para o diverso, para a riqueza imagética que existe no mundo e, também, é claro, para aquela que se pode inventar!
  • Cuidar do visual dos espaços, oferecendo às crianças referências para o repertório de imagens e para o pensamento. O espaço também fala e educa o olhar;
  • Encorajar as crianças a se expressar em diferentes linguagens e a encontrar os seus próprios caminhos de expressão e criação.  Para tanto é preciso abrir mão dos moldes, do previsto, dos resultados, dos estereótipos, dos trabalhinhos a serem reproduzidos. É fundamental valorizar os processos das crianças!

Como dissemos em um dos nossos textos – “Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil” – promover o diálogo entre a criança, a arte e a educação é muito mais do que ensinar técnicas de arte e oferecer modelos para as crianças reproduzirem. É muito mais do que fazer trabalhinhos formatados de Romero Britto ou Tarsila do Amaral, é muito mais do que pintar e carimbar mãos e pés no papel. As crianças podem e merecem muito mais do que isso! As crianças precisam voar fora da asa!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Referências:

ANDRADE, C. D. de. A educação do ser poético. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v. 61, n. 140, p. 593-594, out. 1976.

Sobre o desenho da criança na escola: a liberdade de fazer cavalos verdes!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Na educação Infantil, é comum ainda existir na rotina um espaço dedicado ao desenho e, algumas vezes, a outras linguagens expressivas como a pintura, a modelagem, entre outras (a partir do Ensino Fundamental, infelizmente, esse espaço se reduz ou mesmo desaparece!) . Ao final de cada mês, os pais e mães geralmente recebem uma pasta com as produções de seus filhos/as nessas diferentes linguagens: desenho, colagens, pinturas com tinta e outros materiais, etc. O que será que essas produções geralmente expressam?

Vamos ver o conteúdo da pasta que o Martin levou para casa(2 anos e meio): (1) um sapo, em que o corpo é feito pela professora em papel colorido verde, recortado e colado no papel, e as patas do sapo são formadas pelo “decalque” no papel, na posição adequada, das mãos da crianças pintadas de verde; (2) um círculo, cujo interior é preenchido com colagem (com certeza comandada pela professora) de pequenos recortes triangulares de papeis de diferentes cores (pré-recortados por adultos); (3) uma flor, com pétalas e miolo feitos com o “carimbo” das pontas dos dedos da criança, pintados com tintas de diferentes cores, e posicionados acima do caule pré-desenhado pela professora; e outras produções semelhantes. A pasta do Diogo, do mesmo grupo, tem as mesmas produções. Idem para a pasta da Diana, da Maria e do João. Onde está a singularidade, a imaginação, a liberdade de experimentar, a criação, as formas próprias de se expressar de cada criança? Como é o jeito próprio de fazer de Maria, João, Diana e Martin?

O que os adultos estão dizendo às crianças com esse tipo de proposta? Na verdade, o que dizem é que elas ainda não sabem, precisam ser ajudadas, conduzidas, para executar o modelo proposto pelo adulto: vamos fazer “um sapo bem bonito”, “um jardim florido”  etc. As mãos das crianças precisam ser seguradas, orientadas para não borrar, para colar no lugar certo, para pintar a forma desejada, que é a forma (ou fôrma!) do adulto, a obra pronta que apresenta um resultado a ser exposto no mural e apresentado aos pais.

Outra forma de controle das crianças (sim, é controle!) busca definir as cores e formas que a criança deve usar no seu desenho ou pintura: o céu tem que ser azul, as nuvens brancas, os folhas das árvores verdes etc. Cavalo verde? Céu vermelho? Pessoas com os pés fora do chão? Nem pensar! Lá vem a censura e até mesmo a correção, o “lápis vermelho”(sim, isso ainda existe!).

Onde fica a autoria, a criação da criança? Por que as crianças não podem experimentar, seguir suas próprias ideias, movimentos, sentimentos, imaginação e se lançar no processo de criação e descobertas de suas possibilidades? Por que os adultos têm tanta preocupação com o resultado, não se sensibilizando com a riqueza do processo da criança?

Se dermos um lápis nas mãos de uma criança de 2 anos e meio e um papel, o que ela faz? Um risco, vários riscos, linhas retas, curvas,  fortes, fracas, contínuas, descontínuas, de uma, duas, várias cores…a que ela pode chamar de chuva, bruxa, fogo, casa, menino, ou mesmo não nomear, pois seu foco pode estar apenas na experimentação estética e não no desenho como representação. Perguntamos: isso não é desenho? Sim, é desenho, é expressão, é uma marca da criança, uma experimentação por meio da qual descobre formas, cores, sensações, conectando imagens, sentidos e experiências. Não pode ser vista apenas como expressão de uma etapa do desenho, a primeira etapa: a rabiscação.  Isso é uma invenção do adulto, da psicologia, que definiu um percurso para o desenho no processo de desenvolvimento infantil, cujo ponto final seria a representação de uma cena completa, a representação da realidade.

Essa é uma visão equivocada e empobrecida do desenho, da pintura, da expressão artística no campo escolar. E também da criança, que precisa ser vista, no aqui e agora, naquilo que faz, na sua potencia e não pela falta, pela incompletude, pela ausência, pelo vir-a-ser. Só assim, poderemos perceber o desenho da criança (e ela também!) em toda a sua riqueza, em cada momento do seu percurso, ao invés de enxergá-lo a partir do que falta para chegar à uma suposta etapa final.

Temos muito o que conversar sobre o tema! Enviem suas observações sobre as produções das crianças nessas diferentes linguagens! E vamos refletir sobre as possibilidades artísticas das crianças nos espaços de Educação Infantil! O que tem sido feito nas escolas? Como o trabalho com diferentes linguagens artísticas pode ser realizado na perspectiva de contribuir para o processo criativo e expressivo da criança?  E para a criança, o que significa desenhar? O que tem a ver o desenho com a brincadeira e a imaginação?

Aguardem a nossa próxima conversa sobre essas questões!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

O Papo de Pracinha visita Reggio Emilia

(*)Papo de Pracinha

texto_proprioReggio Emília é uma parte da Itália que fica na região da Emilia-Romana.  Com a cidade em ruínas, ao final da segunda guerra mundial, a dramática situação mobilizou, em um grupo de pessoas, o desejo e a necessidade de reconstruir a cidade a partir de uma atenção voltada para as crianças pequenas. Dessa forma, a partir de uma imensa mobilização comunitária, foi construída a Escola 25 Aprille. Nessa empreitada, estava Loris Malaguzzi, um jovem pedagogo que, desde então, passou a ocupar lugar central na construção do Programa Pedagógico de Reggio e na difusão dessa experiência pelo mundo. Hoje, a abordagem de Reggio Emilia engloba uma rede pública municipal de 12 creches e 21 pré-escolas, e inspira muitas escolas, em diferentes partes do mundo. (Disponível na internet no site Reggio Children e no Educação Integral)

A abordagem Reggio Emilia tem como fundamento uma visão da criança como ser potente e sujeito de direitos, que aprende e se desenvolve a partir das relações com os outros. Para termos acesso, ainda que inicial, a esse rico ideário pedagógico, divulgamos aqui alguns pilares nobres em Reggio Emilia, que também o são para a comunidade do Papo de Pracinha. O texto abaixo foi construído por adultos e crianças, juntos e pode ser encontrado no Centro de Formação de Reggio, para interessados e visitantes, com o título de Direitos Naturais de Meninos e Meninas, integrados com os Direitos Naturais mais amplos.

OS DIREITOS NATURAIS DE MENINOS E MENINAS

de Gianfranco Zavalloni, versão para o português de Lena Chianello.

DIREITO AO ÓCIO

de viver momentos de tempo não programados pelos adultos

DIREITO A SE SUJAR

de brincar com a areia, com a terra, com a grama, com as folhas, as pedras, com os raminhos

DIREITO AOS CHEIROS

de perceber o gosto dos cheiros, reconhecer o perfume ofertado pela natureza

DIREITO AO DIÁLOGO

de escutar e de poder ter a palavra, de arguir e de dialogar

DIREITO AO USO DAS MÃOS

de pregar pregos, de serrar e cortar lenha, de lixar e colar, moldar a argila, ler acordes, acender uma fogueira

DIREITO A UM BOM COMEÇO

a comer alimentos saudáveis desde seu nascimento, beber água limpa e respirar ar puro

DIREITO À RUA

A brincar livremente na pracinha, a caminhar pelas ruas

DIREITO AO SELVAGEM

a ter um refúgio nas matas, de ter um bambuzal para se esconder, árvores para subir

DIREITO AO SILÊNCIO

de escutar o assovio do vento, o canto dos pássaros, o borbulhar da água

DIREITO ÀS PAISAGENS

a ver o nascer e o pô do Sol, de admirar na noite a lua e as estrelas

INTEGRAÇÃO AOS DIREITOS NATURAIS

dI Stefano Sturioni

DIREITO À BELEZA

de viver, de frequentar e transformar os lugares marcados por esse valor educativo irreprimível

DIREITO ÀS COISAS NOJENTAS

de aproximar-se, de conhecer animais desprezados pelos adultos, como aranhas, sapos e serpentes

DIREITO DE RALAR OS JOELHOS

sem que o papai e a mamãe façam psicodramas, ameaçando amiguinhos e professores

DIREITO ÀS PESQUISAS E ÀS EXPLORAÇÕES

dialogando com o imprevisível, traçando mapas, coleta de repetição enchendo a casa com coleções, criação de animais

DIREITO À UTOPIA

de imaginar e de habitar mundos diferentes daqueles pensados por eles, frequentando o desconhecido, o invisível, o divergente, o implausível, o desejado…

DIREITO À COMPLEXIDADE

de não serem enganados por explicações banais e simplicistas da realidade das coisas, dos fenômenos, da vida, tendo reconhecidas suas próprias interpretações, os saberes e as competências conquistadas.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Reprodução

As crianças, suas famílias e as instituições.

(*) Papo de pracinha

texto_proprio A turma da pracinha está atenta e apoia os movimentos que aproximam crianças da natureza, elas de suas mães e pais em espaços diferenciados que não se caracterizam necessariamente como uma escola. Defendemos também o direito a brincadeira livre, sem qualquer expectativa em relação a resultados e a objetivos outros que não sejam a brincadeira por ela mesma. Brincar por brincar.

Com ou sem exigência de uso de uniforme, com horário rígido ou flexível e com diferenciadas propostas há espaços de educação infantil com propostas educativas bastante variadas, de ação voltada para crianças a partir de 12, 18 ou 24 meses que não se caracterizam efetivamente como uma creche. Nem com uma escola. O que são?

Nesse viés, há bastante opção, pelo menos nas grandes capitais, para as famílias escolherem e elas têm, sempre, muitas preocupações e expectativas legítimas em relação a esse espaço que receberá seu filho/a, às vezes, ainda, quase um bebê.

Sim, quase um bebê no que se refere a uma autonomia psicomotora e espacial, o que exige uma atenção enorme em relação a esse espaço coletivo: é arejado e limpo? Seguro? Convida as crianças a brincarem juntas?

O espaço adequado para as crianças por si só, precisa ser estimulador, precisa ter sido pensado e estar organizado de maneira adequada para a ação das crianças. Sobre esse aspecto, também, há muito o que observar porque não basta o espaço ser grande, bonito e arborizado, embora só esses quesitos já indiquem um cenário desejável para a convivência de crianças.

São quase bebês, também, muitas vezes, no que se refere à linguagem e às possibilidades de explicitarem necessidades, desejos, medos. A maioria não sabe dizer com clareza o que quer: água? Está com sede? Bateu a cabeça? Sono? Xixi? Quer aquele carrinho vermelho?

Sim, bebês e crianças bem pequenas não são ainda capazes de perceber a importância e o bônus de brincar com outras crianças que, eventualmente, são as que disputam brinquedos, objetos e espaços, instalam conflitos nesse espaço embora sejam chamados de amigos. E tudo indica que são e que serão mesmo.

Só a partir dessas poucas variáveis listadas aqui já se pode imaginar quantas questões envolvem essa relação de crianças em instituições de educação infantil. Tantos outros aspectos não precisam ser citados para que se perceba quantas equações diárias, nessa rotina diária de encontros precisarão ser resolvidas. Quer ver? Uma criança de 18 meses por exemplo, chega dormindo. Quem recebe? Onde ela deitará? Quem ficará perto dela para que não acorde assustada, num espaço desconhecido e sozinha?

E então, as crianças chegam nessas instituições para iniciar um processo de experimentação totalmente novo, que pode ser chamado de acolhimento, já tendo sido conhecido como sendo de adaptação, e surgem questões. Muitas questões. Em geral, elas escaparam às entrevistas entre pais-instituição, como por exemplo: como será a dinâmica “institucional” (seja na creche, na pré-escola, em núcleos ou espaços de educação infantil) diária, da criança com esses novos adultos e com outras crianças nesse novo espaço?

Ninguém pode dizer como cada criança vivenciará esse momento, nem uma forma mais segura e confortável que valha para todas. Mas os profissionais precisam se reunir para organizar, planejar e antecipar coisas que podem acontecer até de um modo totalmente diferente do pensando, mas precisam ser “pré-pensados”.

O que temos observado e escutado, na pracinha, se refere a um certo despreparo eventual, mesclado pela defesa de um espontaneismo, que se assemelha a uma soltura em “nome de liberdade” que não abraça algumas crianças, não as estimula sempre, ou não a todas, a se lançarem ao novo.  Às vezes faltam adultos disponíveis ali, sentados em rodas com outras crianças, com livros de histórias, fantoches, bolas etc., que recebam as crianças nesse novo espaço. Sim, é preciso ter quem as receba, e sempre uma mesma pessoa, no caso do adulto, para que criem vínculos sentindo-se seguros para ir e vir, enquanto precisarem.

Essa soltura exagerada sugere, não podemos afirmar, a existência de certos equívocos básicos, comuns e um deles nós queremos evidenciar aqui: a crença de que um professor possa ser substituído por outros profissionais igualmente importantes, por melhores que todos sejam: artistas plásticos, estudantes e profissionais de psicologia etc.

A ação com crianças em instituições de educação infantil exige a presença, o olhar e a atuação de um professor não apenas pelos aspectos legais que o exigem, mas porque deve ser esse o profissional que tem o dever de oficio de delinear e de dar contornos às ações importantes para a vida das crianças. Esse deve ser o loccus, por excelência, dos profissionais de educação que, junto com psicólogos, nutricionistas, artistas plásticos, músicos etc., devem integrar uma equipe que precisa ter, NECESSARIAMENTE, um pedagogo de referência, pelo menos, para cada grupo de crianças.

Pouco ou nada adianta a luta que todos estamos fazendo pela defesa dos direitos das crianças de participação, de brincadeira livre, de ocupação dos espaços da cidade, de brincadeira na natureza e tantos outros, se não conseguirmos entender as responsabilidades diferenciadas de adultos-profissionais em cada um desses tempos e espaços: médicos nos hospitais, garis limpando as ruas e praças, nutricionistas cuidando da qualidade da alimentação, arquitetos pensando espaços, psicólogos em ação etc., e professores de educação infantil em cada grupamento de crianças, não sozinhos, mas capitaneando uma equipe que tenha um olhar diferenciado e complementar para enriquecer a vida das crianças que frequentam essas instituições.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

Cidade brincante

Hoje o Papo de Pracinha compartilha o texto da coluna de Luiz Antonio Simas no jornal O Globo, onde ele defende, assim como nós, a importância da participação das crianças e suas brincadeiras na vida das cidades. Leia abaixo na íntegra.

 


Luiz Antonio Simas – O Globo – 02/11/2017

A cidade e as crianças

A rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo

Sonho com um projeto que pretendo colocar em prática quando o tempo permitir: escrever um manual com as regras fabulares da amarelinha, da carniça, do jogo de botão, do preguinho, do pique-bandeira, do passaraio, das cirandas cirandinhas, do lenço-atrás, do futebol em ladeiras, do queimado e das variantes da bola de gude. O título está pronto: “Ecologia amorosa das brincadeiras de rua”.

Alguém há de perguntar se brincadeiras infantis têm lugar em um caderno de cultura. Eu devolvo de prima: por que não? Cultura não se restringe a evento e nem é um terreiro onde só os adultos dançam. Cultura é a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca: as maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, silenciar, gritar e brincar.

O léxico de diversas brincadeiras e folganças de rua me parece importantíssimo para uma gramática afetiva da cultura brasileira. Exemplifico: no “Dicionário Português”, de Cândido de Oliveira, a expressão “carniça” tem como uma de suas acepções a de “pessoa que é objeto de motejos”. Luiz da Câmara Cascudo afirma a mesma coisa. Certamente vem daí a expressão “pular carniça” para a brincadeira infantil que hoje anda quase desaparecida nas cidades. Na Idade Média britânica registra-se a brincadeira do leap-frog (saltar sobre a rã), com característica similar ao folguedo que, com os portugueses, chegou ao Brasil.

Outro exemplo é o do jogo do caxangá, o da música “Escravos de Jó”. Esse “jó” da canção vem do quimbundo “njó”, casa. Escravos de jó são, portanto, os escravos de casa. Caxangá é um jogo de pedrinhas e tabuleiro. Tem gente que acha que o jó é uma pessoa; quem sabe o da Bíblia, que sofreu feito doido as provações de Jeová.

Educação infantil deve priorizar a criança brincando com espaço e tomando um “não!” pela cara de vez em quando, para saber que não é dona do mundo, mas pode se divertir nele sem culpas. Os nossos dias de indelicadezas maltratam a falange de erê. A “adultização” de meninas e meninos é acompanhada pela infantilização dos adultos e a agonia da rua como lugar de encontro, derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens, redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças — quando não são as vítimas principais do abandono, da desigualdade social, da intolerância e da violência urbana — acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias e escolas.

A limitação das amizades de escola é evidente: os alunos da mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é geralmente normativa, padroniza comportamentos e domestica os corpos. E a diferença? A rua poderia resolver isso. Se a escola normatiza, a rua deveria ser o lugar capaz de permitir o convívio entre os diferentes. Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e a experiência da escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto e confinadas entre muros concretos e imaginários; erguidos com a dureza de cimentos, preconceitos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a que proporciona a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas. Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não fará.

Em certa ocasião, fui com meu moleque a uma praça reformada — a Xavier de Brito, na Usina — e perguntei para a garotada se eles tinham sido consultados sobre a reforma, para saber se a disposição dos brinquedos estava nos conformes. Nenhum foi ouvido. Os donos do poder desconsideram que a cidade é também um espaço em que as crianças vivem e brincam.

A cidade em que a criança não toca o rebu é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar a questão como urgente e necessária; antes que restem aos erês apenas aplicativos que rodem o pião que não tem mais chão, pulem amarelinhas virtuais e empinem a pipa que não conhece o céu.

Pedagogia infantil, insisto, é deixar a criança brincar e desenvolver aptidões ludicamente. O resto é formar gente triste para os currais do mercado de trabalho. A criança precisa da arrelia das brincadeiras, e a humanização do mundo passa pelo encantamento radical da rua como um espaço de folguedo, flozô e furdunço.

 

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Quando os filhos são postos na vitrine

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio  Filma eu, filma eu! Quero ver eu aí, no seu celular! Deixa, deixa. Não é joguinho não, quero ver eu aí.  Abordagens assim ultrapassam as paredes de casa, da família e são parte do discurso de crianças bem pequenas, às vezes ainda com dois anos, nas ruas, nas escolas, nos supermercados. O que isso quer dizer? Que nós, adultos, já ensinamos a elas um valor contemporâneo, em que “ser” implica poder “ser visto” nas redes sociais.

Pais, mães, babás, às vezes, até professores de crianças estão igualmente imersos no mundo onde a imagem representada ocupa a centralidade das experiências adultas e infantis. Assim, quando há adultos próximos de crianças, porém com mãos, olhos e alma fixados nos ipads, notebooks e celulares dizemos a eles: estamos ocupados com algo muito importante, que nos envolve o tempo todo e que não nos deixa livres para dialogar, brincar e nem para ficar olhando para nada mais.  As crianças tanto passam a supor que essas tecnologias possam ser fascinantes, como de fato são, como passam a ser altamente desejadas por elas. Claro, estamos reclamando dos exageros, mas parece que os adultos andam exagerando mesmo, ou não? E as possíveis consequências para a vida das crianças e de suas famílias não são difíceis de imaginar.

 As cenas representadas valem mais do que as experiências, em si.

Muitas vezes, os adultos criam cenários e circunstâncias que funcionam como pseudoacontecimentos ou pseudoeventos (Boorstin[1], 1961) envolvendo suas crianças. Esses episódios, cada vez mais comuns, escapam completamente dos critérios de espontaneidade, ao contrário, são forjados pelos adultos para terem efeito como uma imagem de suas crianças que seja “comestível, desfrutável, vendável” nas redes, sendo em sua origem, elas apenas auto satisfatórias.

Vale apena destacar aqui ainda aqueles casos onde os pais produzem suas crianças como mulheres adultas, com roupas colantes, maquiagem, erotizando ao máximo as suas meninas.  Crime.

Com isso, mais do que brincar, experimentar, inventar, transformar e descobrir, que são experiências necessárias para a vida das crianças, adultos e crianças comprometem a liberdade das brincadeiras em nome das “melhores imagens e representações” de suas experiências. E sempre são os adultos, em geral as mães, que “empresariam e exploram” a imagem de suas crianças, não as suas próprias.

Para “fazerem sucesso”, têm seus cenários muito reduzidos, suas experiências restritas, os horizontes das brincadeiras limitados em função do olhar do adulto que as empresaria.

É o que vemos quando encontramos adultos que usam seu celular como uma máquina para registrar momentos e imagens da sua criança no balanço, no banho, fazendo dever de casa, almoçando, dormindo e até fazendo cocô no banheiro. O registro não é para perpetuar essas imagens para a vida dessa criança e da família, e sim para divulgá-las nas redes sociais e, com isso, dizer uma “mentira perversa” para as crianças: você nasceu para ser uma celebridade; eu, sua mãe e/ou seu pai (em geral, a tarefa é mais feminina) esperamos que você alimente a sua vida e a dos outros com sua individualidade. Incitamos assim que crianças e adultos fortaleçam mais e mais uma idolatria de suas individualidades, sendo introduzidos pelas suas famílias na cultura do consumo sem reservas.

As crianças são convidadas a serem jovens antes da hora e os idosos, ao contrário, não podem deixar de ser jovens.  E sem espaço para experiências verdadeiras mas para a “produção de celebridades” como entretenimento humano, pensado e concretizado pelas famílias como sendo um produto cultural de massas. Ali não há sofrimento, frustrações nem dores, só brilho e uma competição permanentemente em pauta.

Nenhum adulto que poste demais as imagens de seus filhos sonha para que eles tenham, apenas, aqueles quinze minutos de fama propostos por Andy Warhol. Há que ser famoso o tempo todo e desde a mais tenra idade.  Exagero nosso? Pensamos que não!

 Imagens significativas e perpetuadas ou imagens descartadas?

Mais uma questão a ser discutida se refere ao fato de que as crianças vão crescer e, logo ali na frente, elas podem sentir vergonha e constrangimento dessa exposição a que foram submetidas, dessa divulgação de sua vida cotidiana, ordinária, sem que elas tenham sido ouvidas e sem condições de prever a globalidade da consequência dessa vitrine onde expõem a vida delas.

Já se sabe que diante dessa fome de imagens e da cultura da produção de celebridades infantis, dentro de casa, vem morrendo aquele acervo de imagens digitalizadas que poderiam vir a ser acessadas pelas crianças, mais tarde, como um registro pitoresco de suas histórias. As máquinas digitais facilitaram o serviço de todos, as imagens tornaram-se fáceis de serem feitas, de serem produzidas, alteradas com o uso de filtros, photoshops, e todas são rapidamente veiculadas. As crianças dizem: minha mãe já apagou isso do celular dela. Não tem mais, agora são outras.

Na era do consumo e da descartabilidade, como acontece com o Facebook, “passa um rolo” que faz com que umas imagens deem lugar a outras e, com isso, alimenta-se nos adultos a necessidade de produzir novas imagens para sua substituição, rápida, nas redes.

Por que os adultos agem assim com suas crianças?

Não podemos responder por todos, mas uma grande parte projeta em suas crianças um brilho e uma expectativa de destaque, de sucesso dentro do grupo social, que talvez desejassem ter.

Esquecemos que hoje as celebridades se afastaram da identificação com os grandes feitos, não se destacam espontaneamente por uma ação ou comportamento digno de uma notoriedade. Hoje, as celebridades são produzidas da noite para o dia e são esquecidas, também, no mesmo ritmo.  São criadas para serem consumidas. Isso é bom para as crianças?

Crianças são seres muito especiais, diferentes entre si embora demonstrem gostar de coisas semelhantes em cada momento da vida. O estimulo à espontaneidade, à criatividade e à singularidade não se dão quando as crianças competem individualmente desde cedo, e nem quando a beleza de suas vidas, o improvável que as caracteriza, o inusitado e o inesperado precisam dar lugar a uma encenação de vida, que não é vida. Encenação para o outro ver.

Isso é bom para as crianças?

No Maranhão, há uma sabedoria popular que diz assim: “a casa que tem criança, deus visita todo dia”.   Não há nenhum tipo de religiosidade embutido propriamente nessa frase apenas a defesa de que as crianças iluminam o mundo porque trazem em si sua aura livre e sem amarras, representam a surpresa da vida, fazem as perguntas que os adultos não fazem mais; elas agem como se fossem animais e personalidades, reais e imaginários, rolam, pulam tremem, cantam e dançam num ritual diário de ludicidade e de alegria, de magia e de imaginação.  Elas merecem os nossos olhos e ouvidos atentos, parceiros, ao mesmo tempo em que os enriquecem, quando vemos que elas brincam sozinhas, com outras crianças e com adultos. Isso é bom para as crianças!

O que notamos é que, enquanto seus pais seguram holofotes e esticam tapetes vermelhos para dar destaque às suas crianças, eles esquecem de vê-las como crianças ordinárias que são, com o direito de viver simplesmente, sem qualquer compromisso com o sucesso nas redes. Nesses casos, os pais perdem o tempo de brincar com elas e de deixá-las serem como são.

E vocês, o que pensam sobre isso?

 


[1] Boorstin, Daniel J. (1961) The Image: A Guide to Pseudo-events in America. Ele foi um historiador, professor, advogado e escritor norte-americano (1914- 2004).

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

Babás full time, mulheres quase perfeitas. Por que sim, por que não?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioO tempo urge e a vida exige que mães e pais trabalhem e deem conta de inúmeras tarefas, restringindo-se muito o tempo de convivência com suas crianças.  Sabemos que entre a vida na corda bamba, a sobrevivência, a vida profissional e os filhos, cada família cria seus arranjos que envolvem avós, tias, babás, creches e pré-escolas.

Essa dinâmica é tão estressante e dolorosa para as famílias que não nos cabe nenhum tipo de julgamento ou crítica. Ao contrário, um alento – a história comprova que as crianças sobrevivem e seus pais também, na maioria dos casos.

Sabemos também que há algumas famílias que vivem uma realidade de trabalho mais tranquila e que conseguem dedicar todo o seu tempo aos filhos. Mas, muitas vezes, nesses casos, percebemos um excesso de apego e cuidado, onde sobra pouco espaço para a criança e os pais respirarem o mundo fora dessa relação.

Pensamos em destacar aqui que o desacerto na dose, para os dois lados, no contato entre o pai, a mãe, seu menino e/ou sua menina, pode ser responsável por  uma possível inadequação na vida afetiva e emocional das crianças.

Ela só come comigo, ele só dorme comigo.

Aquelas crianças e mães, em geral, que vivem numa bolha intransponível onde não cabe mais ninguém e ambas acham que não sobrevivem uma sem a outra, faz acender uma luz amarela: ATENÇÃO. Aos poucos e sem estresse as crianças devem ir ampliando o seu universo de convivência, incluindo outras crianças, adultos e espaços novos. Portanto, ao longo da infância, as crianças e suas famílias precisam se desapegar, com cuidado, no sentido de ampliarem e não de restringirem o universo de experiências de suas crianças.

Portanto, frases assim “ela só come comigo, ele só dorme comigo” não devem ser motivo de orgulho para os adultos de referência de cada criança.

Por outro lado, vemos crianças que parecem felizes e saudáveis, coradas, bem alimentadas que passam a sua infância praticamente sem contato direto com o pai, a mãe. São aquelas que têm mais de uma babá ou acompanhante, que se revezam nos fins de semana com as folguistas. Estamos considerando, aqui,  todas essas profissionais como pessoas equilibradas, afetuosas e excelentes substitutas de mãe e de pai.  A tal luz amarela acende pela falta ou pelo excesso, de novo sugerindo ATENÇÃO.

Por que  é tão importante o contato e o vínculo com pai e mãe?     

Bem, dá pra garantir que profissionais da área de Psicologia tenham mais e talvez melhor o sustento para esses pontos, mas, como professoras e pesquisadoras do campo da Educação temos, também, pontos de vista importantes que, certamente, nos aproximam muito dos profissionais de outras áreas.

  1. Contato físico, direto:

O contato com o corpo, desde a gravidez e depois que nascem, por meio do olhar, do toque, da voz de pai e mãe são estruturantes para que nossas crianças se sintam seguras em seu movimento de ser parte e se integrar, de modo bastante personalizado, ao mundo em que vivem. Enfermeiras e boas babás podem oferecer muito conforto e segurança aos adultos e às crianças mas nada substitui, nas doses possíveis, essa relação mais constante e próxima entre os adultos e sua criança.

  1. O que é melhor, para quem?

Cada família tem princípios, regulações e formas de viver que diferem de uma para a outra. A entrada de uma terceira pessoa, que pode ser a babá ou a acompanhante da criança, poderia também ser uma avó ou uma tia que funcionasse como tal, pode trazer outros princípios e valores que não se coadunam com os do pai e da mãe. Isso pode ser resolvido sim, respeitando os valores da família e os da ajudante. No entanto, em geral, quando a família tem muito pouco tempo com sua criança, sequer consegue identificar esses pontos e, menos ainda, tem tempo e espaço para dialogar com essa “assistente”. Não nos referimos aqui a nenhuma maldade ou falta de escrúpulos dessa pessoa, apenas a coisas simples e preocupantes como eventuais fobias, que podem ser medo de ver sangue (chegam a desmaiar), medos exagerados de pequenos animais e insetos (barata, pombos, cães etc), pessoas que seguem a cosmovisões ou religiosidades de modo intenso. Ouvimos de certas famílias: “como ela é muito religiosa eu sei que nunca fará mal à minha criança”, sem uma reflexão mais profunda do que seja fazer bem e/ou fazer mal, em relação às verdades de cada casal e família.   Há também babás que ensinam os números e as letras do alfabeto para crianças antes dos dois anos, acreditando que estão contribuindo para a criança ficar “esperta”, “inteligente. Esse descompasso é complexo no dia-a-dia. E há, ainda, mães, pais e babas que fumam perto das crianças e que ficam com fones de ouvido ligados aos celulares enquanto estão junto delas. Qual é o limite do perdoável e do que deve ser  respeitado?

  1. As crianças precisam de uma vida organizada.

Há um tipo de vínculo que é indispensável para a organização da vida interior da criança que, durante parte da sua infância, precisa se sustentar na frequência, no contato habitual e comum com pessoas e espaços, por mais descolados e arejados que sejam uns e outros. Assim, podemos dizer que algumas ordenações sejam estruturantes: tomar banho num certo horário e com uma certa pessoa, sempre respeitando cada criança, ser recebido/a sempre por uma mesma pessoa na creche ou na escola, pegar e guardar brinquedos em lugares conhecidos e ao alcance das crianças, e por aí vai. Esses adultos “de todos os dias” não precisam ser sempre, nem apenas, pai e mãe, mas pode ser bem ruim variar demais ou os pais não estarem com eles hora alguma, não terem contato de corpo, de olhar e de toque, não brincar. Tomar banho junto, por exemplo, é uma intimidade possível apenas para pai e mãe, e as crianças adoram, muitos pais também. Há um tipo de aproximação e de intimidade que gera amor e segurança, que depende dessa relação entre pais e seus filhos/as.

  1. Quantidade e qualidade

Como diz nosso amigo pediatra Daniel Becker, não vale apenas a quantidade do tempo com suas crianças mas alguma qualidade também. Claro, quantidade e qualidade juntinhos para não se anularem.

Segundo ele, ter filhos exige planejamento embora a maioria das pessoas não faça isso. Mas tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. 

Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. 

  1. As crianças precisam ouvir histórias encantadas:

Embora reconheçamos que essas ajudantes estejam sendo a cada dia melhor formadas, em geral, a maioria das que resolve trabalhar com uma família já identificou com clareza por onde passa seu desejo (faxina? Cozinha? Idosos? Crianças?), sendo que ele precisa caminhar par e passo com o trabalho diário. Grande parte delas é identificada como cuidadoras e protetoras,  com todas as letras.

No entanto, se até dentro das universidades, nas creches e pré-escolas somos capazes de encontrar:  os defensores da ocupação integral do tempo as crianças com atividades programadas, aqueles que veem a brincadeira livre como perda de tempo, como uma atividade improdutiva etc. é fácil imaginar que essas doces mulheres não tenham recebido  formação e,  infelizmente, muitas delas não puderam brincar nem estudar na idade certa, para valorizar a voz e as falas de suas crianças, os espaços de brincadeira livre e ao ar livre e, também, a importância de estarem juntas  na hora das boas histórias. O imaginário infantil precisa ser alimentado por essas brincadeiras, pelas histórias encantadas, pela transformação da terra com a água, com pó de café, por palitinhos de sorvete que boiam na água etc.

Para concluir e reafirmar:   só temos reconhecimento, elogios e agradecimentos para fazer às babas e a todas as ajudantes na família. E não cabe aqui nenhuma crítica ou julgamento ao modo como cada família escolhe se organizar, quando podem pagar a uma pessoa para ajudá-la. Lembremos de um número imenso de crianças que vivem soltas, desconectadas de qualquer adulto, sem proteção alguma, sem direitos, quando não são “cuidadas” por outras crianças (irmãs e irmãos mais velhos), vizinhas etc.  Precisamos lembrar daquelas que ficam todos os dias da semana com uma tia ou uma avó e que passam apenas os fins de semana com seus pais.

Queremos apenas lembrar que nada substitui a relação de pai e de mãe com seus filhos!  Nada! Mas como dissemos no início, a história mostra que, de um jeito ou de outro, as crianças sobrevivem. Mas mais do que sobreviver, queremos que elas cresçam seguras e felizes.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

*Imagem: Designed by peoplecreations / Freepik

A avó: entre a mãe e a sogra

*Fragmento do livro Como nascem os avós, Ed Multifoco, RJ:2016

Há vários mitos e frases feitas que fazem parte do senso comum e que se mantêm vivos ao longo do tempo polarizando os papéis de avós e de sogras. Às avós, cabe o título de “mães com açúcar” e às sogras, o que há de pior: são como cobras, traiçoeiras, via de regra são mulheres possessivas e ciumentas de seus filhos e, para sublinhar com bom humor isso tudo, têm a máxima de que também elas, as sogras, tardam, mas não falham, como se houvesse uma suposta astúcia ou ardil comum a todas.

Esse senso comum é totalmente rejeitado por nós, é equivocado e chega a ser crudelíssimo com certas avós. Dói no coração ouvir coisas assim: filho de filha, neto é. Filho de filho, será que é? Para sacramentar, há ainda a crença perversa de que as avós correriam o risco de perder o amor e a convivência com filhos e netos, os filhos de filhos homens. E a pá de cal é a ameaça latente de que, aos poucos, eles adotariam para si apenas a família de suas amadas. Crenças antigas, ainda vivas, mas que não são verdades universais que se repetem. Estamos aí, vivendo outros modelos de famílias que desafiam o senso comum em nome de amores verdadeiros, de outros tipos de relação entre mulheres de uma mesma família. Nenhuma dessas ameaças, precisa rondar a sua vida e isso depende muito da cultura, da liga de maior ou menor amor e respeito que une cada família, para além dos laços de sangue.

Você tem ciúmes dos seus filhos?

O que pode justificar o sentimento de ciúmes em relação às mulheres amadas e escolhidas pelos seus filhos?  Quem são elas, individualmente e quem é você na relação com elas?  Não se pode amar e respeitar sentindo-se ameaçada ou perdedora. Jamais.

Mulheres inteiras e felizes admiram noras e genros inteiros e felizes: autônomos, independentes, respeitosos e amorosos. Pessoas felizes.

Eventualmente tudo vai bem até o nascimento do neto, quando o filho ou a filha se tornam pai ou mãe, e de como se estabelecerá essa nova relação de mães, pais, avós, filhos e netos. Junto com uma avó e um avô nascem tios, primos, padrinho que querem cercar o bebê e o casal de amor.

E, embora rejeitemos esses lugares sociais antigos, gelados, cruéis e pré-estabelecidos destinados às sogras e às avós, essa proximidade da avó-sogra com o casal e com o neto vem exigir, indiscutivelmente, uma medida saudável e prazerosa para todos. Vale a frase sábia que ouvíamos quando crianças: o pouco enobrece, o muito aborrece.

Embora sem bula nem fórmula, não pode haver impulsos do coração que justifiquem uma quebra de respeito e de ética amorosa entre pais e filhos, entre sogras e noras, entre avós e netos. Como descobrir essa medida? Mesmo vivendo esse amor intenso que leva ao desejo permanente de estar com o neto e com o casal?  É preciso ter sensibilidade e cuidado para definir os espaços e os intervalos de presença – e de ausência – de modo a garantir apoio e amor sem invadir.

Como respeitar sem invadir?

Em geral, os avós procuram ser presentes e disponíveis afetivamente para o filho-papai, filha-mamãe e com o bebê-neto/a mas a medida deve ser dada pelos filhos, o pai e a mãe, em cada caso, já que tudo é novo para todos.  Afinal, com maior ou menor esforço educamos nossos filhos como quisemos e nossos filhos têm o direito e o dever de estabelecer o seu modo de ser pai e mãe.  E ainda, é possível que seus filhos, criados por você, criem seus netos de modo totalmente diferente. É preciso respeitar sempre, não julgar nem querer impor suas práticas e seus valores. Agora valem os deles!

Mais uma vez, encontramo-nos todos nessa ciranda de aprendizagens coletivas. O desafio consiste em aprender a compartilhar tempos e espaços, estar disponível afetivamente para ajudá-los com delicadeza, respeito e sem desabilitar o novo casal. Eles precisam se apoiar na sua própria sensibilidade e em suas escolhas para crescerem como pai e mãe. E nós, como avós. O que será que de fato está no centro dessas disputas femininas familiares? Responder a isso e superar essas coisas se configuram num desafio tremendo para algumas mães, sogras e avós, mas passível de superação. Sempre.

Por que os sogros e os homens em geral não carregam essa fama de invasivos, desrespeitosos e autoritários? Precisamos refletir para poder sair desse lugar.


*Como nascem os avós: o livro traz crônicas escritas pelo psicanalista e avô José Inacio Parente e pela educadora e avó Maria Inês Delorme, sobre a chegada dos netos e seus encantos e desafios. É encontrado na loja online da Editora Multifoco, aqui.