Cidade brincante

Hoje o Papo de Pracinha compartilha o texto da coluna de Luiz Antonio Simas no jornal O Globo, onde ele defende, assim como nós, a importância da participação das crianças e suas brincadeiras na vida das cidades. Leia abaixo na íntegra.

 


Luiz Antonio Simas – O Globo – 02/11/2017

A cidade e as crianças

A rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo

Sonho com um projeto que pretendo colocar em prática quando o tempo permitir: escrever um manual com as regras fabulares da amarelinha, da carniça, do jogo de botão, do preguinho, do pique-bandeira, do passaraio, das cirandas cirandinhas, do lenço-atrás, do futebol em ladeiras, do queimado e das variantes da bola de gude. O título está pronto: “Ecologia amorosa das brincadeiras de rua”.

Alguém há de perguntar se brincadeiras infantis têm lugar em um caderno de cultura. Eu devolvo de prima: por que não? Cultura não se restringe a evento e nem é um terreiro onde só os adultos dançam. Cultura é a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca: as maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, silenciar, gritar e brincar.

O léxico de diversas brincadeiras e folganças de rua me parece importantíssimo para uma gramática afetiva da cultura brasileira. Exemplifico: no “Dicionário Português”, de Cândido de Oliveira, a expressão “carniça” tem como uma de suas acepções a de “pessoa que é objeto de motejos”. Luiz da Câmara Cascudo afirma a mesma coisa. Certamente vem daí a expressão “pular carniça” para a brincadeira infantil que hoje anda quase desaparecida nas cidades. Na Idade Média britânica registra-se a brincadeira do leap-frog (saltar sobre a rã), com característica similar ao folguedo que, com os portugueses, chegou ao Brasil.

Outro exemplo é o do jogo do caxangá, o da música “Escravos de Jó”. Esse “jó” da canção vem do quimbundo “njó”, casa. Escravos de jó são, portanto, os escravos de casa. Caxangá é um jogo de pedrinhas e tabuleiro. Tem gente que acha que o jó é uma pessoa; quem sabe o da Bíblia, que sofreu feito doido as provações de Jeová.

Educação infantil deve priorizar a criança brincando com espaço e tomando um “não!” pela cara de vez em quando, para saber que não é dona do mundo, mas pode se divertir nele sem culpas. Os nossos dias de indelicadezas maltratam a falange de erê. A “adultização” de meninas e meninos é acompanhada pela infantilização dos adultos e a agonia da rua como lugar de encontro, derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens, redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças — quando não são as vítimas principais do abandono, da desigualdade social, da intolerância e da violência urbana — acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias e escolas.

A limitação das amizades de escola é evidente: os alunos da mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é geralmente normativa, padroniza comportamentos e domestica os corpos. E a diferença? A rua poderia resolver isso. Se a escola normatiza, a rua deveria ser o lugar capaz de permitir o convívio entre os diferentes. Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e a experiência da escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto e confinadas entre muros concretos e imaginários; erguidos com a dureza de cimentos, preconceitos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a que proporciona a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas. Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não fará.

Em certa ocasião, fui com meu moleque a uma praça reformada — a Xavier de Brito, na Usina — e perguntei para a garotada se eles tinham sido consultados sobre a reforma, para saber se a disposição dos brinquedos estava nos conformes. Nenhum foi ouvido. Os donos do poder desconsideram que a cidade é também um espaço em que as crianças vivem e brincam.

A cidade em que a criança não toca o rebu é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar a questão como urgente e necessária; antes que restem aos erês apenas aplicativos que rodem o pião que não tem mais chão, pulem amarelinhas virtuais e empinem a pipa que não conhece o céu.

Pedagogia infantil, insisto, é deixar a criança brincar e desenvolver aptidões ludicamente. O resto é formar gente triste para os currais do mercado de trabalho. A criança precisa da arrelia das brincadeiras, e a humanização do mundo passa pelo encantamento radical da rua como um espaço de folguedo, flozô e furdunço.

 

Leia mais aqui

Quando os filhos são postos na vitrine

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio  Filma eu, filma eu! Quero ver eu aí, no seu celular! Deixa, deixa. Não é joguinho não, quero ver eu aí.  Abordagens assim ultrapassam as paredes de casa, da família e são parte do discurso de crianças bem pequenas, às vezes ainda com dois anos, nas ruas, nas escolas, nos supermercados. O que isso quer dizer? Que nós, adultos, já ensinamos a elas um valor contemporâneo, em que “ser” implica poder “ser visto” nas redes sociais.

Pais, mães, babás, às vezes, até professores de crianças estão igualmente imersos no mundo onde a imagem representada ocupa a centralidade das experiências adultas e infantis. Assim, quando há adultos próximos de crianças, porém com mãos, olhos e alma fixados nos ipads, notebooks e celulares dizemos a eles: estamos ocupados com algo muito importante, que nos envolve o tempo todo e que não nos deixa livres para dialogar, brincar e nem para ficar olhando para nada mais.  As crianças tanto passam a supor que essas tecnologias possam ser fascinantes, como de fato são, como passam a ser altamente desejadas por elas. Claro, estamos reclamando dos exageros, mas parece que os adultos andam exagerando mesmo, ou não? E as possíveis consequências para a vida das crianças e de suas famílias não são difíceis de imaginar.

 As cenas representadas valem mais do que as experiências, em si.

Muitas vezes, os adultos criam cenários e circunstâncias que funcionam como pseudoacontecimentos ou pseudoeventos (Boorstin[1], 1961) envolvendo suas crianças. Esses episódios, cada vez mais comuns, escapam completamente dos critérios de espontaneidade, ao contrário, são forjados pelos adultos para terem efeito como uma imagem de suas crianças que seja “comestível, desfrutável, vendável” nas redes, sendo em sua origem, elas apenas auto satisfatórias.

Vale apena destacar aqui ainda aqueles casos onde os pais produzem suas crianças como mulheres adultas, com roupas colantes, maquiagem, erotizando ao máximo as suas meninas.  Crime.

Com isso, mais do que brincar, experimentar, inventar, transformar e descobrir, que são experiências necessárias para a vida das crianças, adultos e crianças comprometem a liberdade das brincadeiras em nome das “melhores imagens e representações” de suas experiências. E sempre são os adultos, em geral as mães, que “empresariam e exploram” a imagem de suas crianças, não as suas próprias.

Para “fazerem sucesso”, têm seus cenários muito reduzidos, suas experiências restritas, os horizontes das brincadeiras limitados em função do olhar do adulto que as empresaria.

É o que vemos quando encontramos adultos que usam seu celular como uma máquina para registrar momentos e imagens da sua criança no balanço, no banho, fazendo dever de casa, almoçando, dormindo e até fazendo cocô no banheiro. O registro não é para perpetuar essas imagens para a vida dessa criança e da família, e sim para divulgá-las nas redes sociais e, com isso, dizer uma “mentira perversa” para as crianças: você nasceu para ser uma celebridade; eu, sua mãe e/ou seu pai (em geral, a tarefa é mais feminina) esperamos que você alimente a sua vida e a dos outros com sua individualidade. Incitamos assim que crianças e adultos fortaleçam mais e mais uma idolatria de suas individualidades, sendo introduzidos pelas suas famílias na cultura do consumo sem reservas.

As crianças são convidadas a serem jovens antes da hora e os idosos, ao contrário, não podem deixar de ser jovens.  E sem espaço para experiências verdadeiras mas para a “produção de celebridades” como entretenimento humano, pensado e concretizado pelas famílias como sendo um produto cultural de massas. Ali não há sofrimento, frustrações nem dores, só brilho e uma competição permanentemente em pauta.

Nenhum adulto que poste demais as imagens de seus filhos sonha para que eles tenham, apenas, aqueles quinze minutos de fama propostos por Andy Warhol. Há que ser famoso o tempo todo e desde a mais tenra idade.  Exagero nosso? Pensamos que não!

 Imagens significativas e perpetuadas ou imagens descartadas?

Mais uma questão a ser discutida se refere ao fato de que as crianças vão crescer e, logo ali na frente, elas podem sentir vergonha e constrangimento dessa exposição a que foram submetidas, dessa divulgação de sua vida cotidiana, ordinária, sem que elas tenham sido ouvidas e sem condições de prever a globalidade da consequência dessa vitrine onde expõem a vida delas.

Já se sabe que diante dessa fome de imagens e da cultura da produção de celebridades infantis, dentro de casa, vem morrendo aquele acervo de imagens digitalizadas que poderiam vir a ser acessadas pelas crianças, mais tarde, como um registro pitoresco de suas histórias. As máquinas digitais facilitaram o serviço de todos, as imagens tornaram-se fáceis de serem feitas, de serem produzidas, alteradas com o uso de filtros, photoshops, e todas são rapidamente veiculadas. As crianças dizem: minha mãe já apagou isso do celular dela. Não tem mais, agora são outras.

Na era do consumo e da descartabilidade, como acontece com o Facebook, “passa um rolo” que faz com que umas imagens deem lugar a outras e, com isso, alimenta-se nos adultos a necessidade de produzir novas imagens para sua substituição, rápida, nas redes.

Por que os adultos agem assim com suas crianças?

Não podemos responder por todos, mas uma grande parte projeta em suas crianças um brilho e uma expectativa de destaque, de sucesso dentro do grupo social, que talvez desejassem ter.

Esquecemos que hoje as celebridades se afastaram da identificação com os grandes feitos, não se destacam espontaneamente por uma ação ou comportamento digno de uma notoriedade. Hoje, as celebridades são produzidas da noite para o dia e são esquecidas, também, no mesmo ritmo.  São criadas para serem consumidas. Isso é bom para as crianças?

Crianças são seres muito especiais, diferentes entre si embora demonstrem gostar de coisas semelhantes em cada momento da vida. O estimulo à espontaneidade, à criatividade e à singularidade não se dão quando as crianças competem individualmente desde cedo, e nem quando a beleza de suas vidas, o improvável que as caracteriza, o inusitado e o inesperado precisam dar lugar a uma encenação de vida, que não é vida. Encenação para o outro ver.

Isso é bom para as crianças?

No Maranhão, há uma sabedoria popular que diz assim: “a casa que tem criança, deus visita todo dia”.   Não há nenhum tipo de religiosidade embutido propriamente nessa frase apenas a defesa de que as crianças iluminam o mundo porque trazem em si sua aura livre e sem amarras, representam a surpresa da vida, fazem as perguntas que os adultos não fazem mais; elas agem como se fossem animais e personalidades, reais e imaginários, rolam, pulam tremem, cantam e dançam num ritual diário de ludicidade e de alegria, de magia e de imaginação.  Elas merecem os nossos olhos e ouvidos atentos, parceiros, ao mesmo tempo em que os enriquecem, quando vemos que elas brincam sozinhas, com outras crianças e com adultos. Isso é bom para as crianças!

O que notamos é que, enquanto seus pais seguram holofotes e esticam tapetes vermelhos para dar destaque às suas crianças, eles esquecem de vê-las como crianças ordinárias que são, com o direito de viver simplesmente, sem qualquer compromisso com o sucesso nas redes. Nesses casos, os pais perdem o tempo de brincar com elas e de deixá-las serem como são.

E vocês, o que pensam sobre isso?

 


[1] Boorstin, Daniel J. (1961) The Image: A Guide to Pseudo-events in America. Ele foi um historiador, professor, advogado e escritor norte-americano (1914- 2004).

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

 

Babás full time, mulheres quase perfeitas. Por que sim, por que não?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioO tempo urge e a vida exige que mães e pais trabalhem e deem conta de inúmeras tarefas, restringindo-se muito o tempo de convivência com suas crianças.  Sabemos que entre a vida na corda bamba, a sobrevivência, a vida profissional e os filhos, cada família cria seus arranjos que envolvem avós, tias, babás, creches e pré-escolas.

Essa dinâmica é tão estressante e dolorosa para as famílias que não nos cabe nenhum tipo de julgamento ou crítica. Ao contrário, um alento – a história comprova que as crianças sobrevivem e seus pais também, na maioria dos casos.

Sabemos também que há algumas famílias que vivem uma realidade de trabalho mais tranquila e que conseguem dedicar todo o seu tempo aos filhos. Mas, muitas vezes, nesses casos, percebemos um excesso de apego e cuidado, onde sobra pouco espaço para a criança e os pais respirarem o mundo fora dessa relação.

Pensamos em destacar aqui que o desacerto na dose, para os dois lados, no contato entre o pai, a mãe, seu menino e/ou sua menina, pode ser responsável por  uma possível inadequação na vida afetiva e emocional das crianças.

Ela só come comigo, ele só dorme comigo.

Aquelas crianças e mães, em geral, que vivem numa bolha intransponível onde não cabe mais ninguém e ambas acham que não sobrevivem uma sem a outra, faz acender uma luz amarela: ATENÇÃO. Aos poucos e sem estresse as crianças devem ir ampliando o seu universo de convivência, incluindo outras crianças, adultos e espaços novos. Portanto, ao longo da infância, as crianças e suas famílias precisam se desapegar, com cuidado, no sentido de ampliarem e não de restringirem o universo de experiências de suas crianças.

Portanto, frases assim “ela só come comigo, ele só dorme comigo” não devem ser motivo de orgulho para os adultos de referência de cada criança.

Por outro lado, vemos crianças que parecem felizes e saudáveis, coradas, bem alimentadas que passam a sua infância praticamente sem contato direto com o pai, a mãe. São aquelas que têm mais de uma babá ou acompanhante, que se revezam nos fins de semana com as folguistas. Estamos considerando, aqui,  todas essas profissionais como pessoas equilibradas, afetuosas e excelentes substitutas de mãe e de pai.  A tal luz amarela acende pela falta ou pelo excesso, de novo sugerindo ATENÇÃO.

Por que  é tão importante o contato e o vínculo com pai e mãe?     

Bem, dá pra garantir que profissionais da área de Psicologia tenham mais e talvez melhor o sustento para esses pontos, mas, como professoras e pesquisadoras do campo da Educação temos, também, pontos de vista importantes que, certamente, nos aproximam muito dos profissionais de outras áreas.

  1. Contato físico, direto:

O contato com o corpo, desde a gravidez e depois que nascem, por meio do olhar, do toque, da voz de pai e mãe são estruturantes para que nossas crianças se sintam seguras em seu movimento de ser parte e se integrar, de modo bastante personalizado, ao mundo em que vivem. Enfermeiras e boas babás podem oferecer muito conforto e segurança aos adultos e às crianças mas nada substitui, nas doses possíveis, essa relação mais constante e próxima entre os adultos e sua criança.

  1. O que é melhor, para quem?

Cada família tem princípios, regulações e formas de viver que diferem de uma para a outra. A entrada de uma terceira pessoa, que pode ser a babá ou a acompanhante da criança, poderia também ser uma avó ou uma tia que funcionasse como tal, pode trazer outros princípios e valores que não se coadunam com os do pai e da mãe. Isso pode ser resolvido sim, respeitando os valores da família e os da ajudante. No entanto, em geral, quando a família tem muito pouco tempo com sua criança, sequer consegue identificar esses pontos e, menos ainda, tem tempo e espaço para dialogar com essa “assistente”. Não nos referimos aqui a nenhuma maldade ou falta de escrúpulos dessa pessoa, apenas a coisas simples e preocupantes como eventuais fobias, que podem ser medo de ver sangue (chegam a desmaiar), medos exagerados de pequenos animais e insetos (barata, pombos, cães etc), pessoas que seguem a cosmovisões ou religiosidades de modo intenso. Ouvimos de certas famílias: “como ela é muito religiosa eu sei que nunca fará mal à minha criança”, sem uma reflexão mais profunda do que seja fazer bem e/ou fazer mal, em relação às verdades de cada casal e família.   Há também babás que ensinam os números e as letras do alfabeto para crianças antes dos dois anos, acreditando que estão contribuindo para a criança ficar “esperta”, “inteligente. Esse descompasso é complexo no dia-a-dia. E há, ainda, mães, pais e babas que fumam perto das crianças e que ficam com fones de ouvido ligados aos celulares enquanto estão junto delas. Qual é o limite do perdoável e do que deve ser  respeitado?

  1. As crianças precisam de uma vida organizada.

Há um tipo de vínculo que é indispensável para a organização da vida interior da criança que, durante parte da sua infância, precisa se sustentar na frequência, no contato habitual e comum com pessoas e espaços, por mais descolados e arejados que sejam uns e outros. Assim, podemos dizer que algumas ordenações sejam estruturantes: tomar banho num certo horário e com uma certa pessoa, sempre respeitando cada criança, ser recebido/a sempre por uma mesma pessoa na creche ou na escola, pegar e guardar brinquedos em lugares conhecidos e ao alcance das crianças, e por aí vai. Esses adultos “de todos os dias” não precisam ser sempre, nem apenas, pai e mãe, mas pode ser bem ruim variar demais ou os pais não estarem com eles hora alguma, não terem contato de corpo, de olhar e de toque, não brincar. Tomar banho junto, por exemplo, é uma intimidade possível apenas para pai e mãe, e as crianças adoram, muitos pais também. Há um tipo de aproximação e de intimidade que gera amor e segurança, que depende dessa relação entre pais e seus filhos/as.

  1. Quantidade e qualidade

Como diz nosso amigo pediatra Daniel Becker, não vale apenas a quantidade do tempo com suas crianças mas alguma qualidade também. Claro, quantidade e qualidade juntinhos para não se anularem.

Segundo ele, ter filhos exige planejamento embora a maioria das pessoas não faça isso. Mas tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. 

Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. 

  1. As crianças precisam ouvir histórias encantadas:

Embora reconheçamos que essas ajudantes estejam sendo a cada dia melhor formadas, em geral, a maioria das que resolve trabalhar com uma família já identificou com clareza por onde passa seu desejo (faxina? Cozinha? Idosos? Crianças?), sendo que ele precisa caminhar par e passo com o trabalho diário. Grande parte delas é identificada como cuidadoras e protetoras,  com todas as letras.

No entanto, se até dentro das universidades, nas creches e pré-escolas somos capazes de encontrar:  os defensores da ocupação integral do tempo as crianças com atividades programadas, aqueles que veem a brincadeira livre como perda de tempo, como uma atividade improdutiva etc. é fácil imaginar que essas doces mulheres não tenham recebido  formação e,  infelizmente, muitas delas não puderam brincar nem estudar na idade certa, para valorizar a voz e as falas de suas crianças, os espaços de brincadeira livre e ao ar livre e, também, a importância de estarem juntas  na hora das boas histórias. O imaginário infantil precisa ser alimentado por essas brincadeiras, pelas histórias encantadas, pela transformação da terra com a água, com pó de café, por palitinhos de sorvete que boiam na água etc.

Para concluir e reafirmar:   só temos reconhecimento, elogios e agradecimentos para fazer às babas e a todas as ajudantes na família. E não cabe aqui nenhuma crítica ou julgamento ao modo como cada família escolhe se organizar, quando podem pagar a uma pessoa para ajudá-la. Lembremos de um número imenso de crianças que vivem soltas, desconectadas de qualquer adulto, sem proteção alguma, sem direitos, quando não são “cuidadas” por outras crianças (irmãs e irmãos mais velhos), vizinhas etc.  Precisamos lembrar daquelas que ficam todos os dias da semana com uma tia ou uma avó e que passam apenas os fins de semana com seus pais.

Queremos apenas lembrar que nada substitui a relação de pai e de mãe com seus filhos!  Nada! Mas como dissemos no início, a história mostra que, de um jeito ou de outro, as crianças sobrevivem. Mas mais do que sobreviver, queremos que elas cresçam seguras e felizes.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

*Imagem: Designed by peoplecreations / Freepik

A avó: entre a mãe e a sogra

*Fragmento do livro Como nascem os avós, Ed Multifoco, RJ:2016

Há vários mitos e frases feitas que fazem parte do senso comum e que se mantêm vivos ao longo do tempo polarizando os papéis de avós e de sogras. Às avós, cabe o título de “mães com açúcar” e às sogras, o que há de pior: são como cobras, traiçoeiras, via de regra são mulheres possessivas e ciumentas de seus filhos e, para sublinhar com bom humor isso tudo, têm a máxima de que também elas, as sogras, tardam, mas não falham, como se houvesse uma suposta astúcia ou ardil comum a todas.

Esse senso comum é totalmente rejeitado por nós, é equivocado e chega a ser crudelíssimo com certas avós. Dói no coração ouvir coisas assim: filho de filha, neto é. Filho de filho, será que é? Para sacramentar, há ainda a crença perversa de que as avós correriam o risco de perder o amor e a convivência com filhos e netos, os filhos de filhos homens. E a pá de cal é a ameaça latente de que, aos poucos, eles adotariam para si apenas a família de suas amadas. Crenças antigas, ainda vivas, mas que não são verdades universais que se repetem. Estamos aí, vivendo outros modelos de famílias que desafiam o senso comum em nome de amores verdadeiros, de outros tipos de relação entre mulheres de uma mesma família. Nenhuma dessas ameaças, precisa rondar a sua vida e isso depende muito da cultura, da liga de maior ou menor amor e respeito que une cada família, para além dos laços de sangue.

Você tem ciúmes dos seus filhos?

O que pode justificar o sentimento de ciúmes em relação às mulheres amadas e escolhidas pelos seus filhos?  Quem são elas, individualmente e quem é você na relação com elas?  Não se pode amar e respeitar sentindo-se ameaçada ou perdedora. Jamais.

Mulheres inteiras e felizes admiram noras e genros inteiros e felizes: autônomos, independentes, respeitosos e amorosos. Pessoas felizes.

Eventualmente tudo vai bem até o nascimento do neto, quando o filho ou a filha se tornam pai ou mãe, e de como se estabelecerá essa nova relação de mães, pais, avós, filhos e netos. Junto com uma avó e um avô nascem tios, primos, padrinho que querem cercar o bebê e o casal de amor.

E, embora rejeitemos esses lugares sociais antigos, gelados, cruéis e pré-estabelecidos destinados às sogras e às avós, essa proximidade da avó-sogra com o casal e com o neto vem exigir, indiscutivelmente, uma medida saudável e prazerosa para todos. Vale a frase sábia que ouvíamos quando crianças: o pouco enobrece, o muito aborrece.

Embora sem bula nem fórmula, não pode haver impulsos do coração que justifiquem uma quebra de respeito e de ética amorosa entre pais e filhos, entre sogras e noras, entre avós e netos. Como descobrir essa medida? Mesmo vivendo esse amor intenso que leva ao desejo permanente de estar com o neto e com o casal?  É preciso ter sensibilidade e cuidado para definir os espaços e os intervalos de presença – e de ausência – de modo a garantir apoio e amor sem invadir.

Como respeitar sem invadir?

Em geral, os avós procuram ser presentes e disponíveis afetivamente para o filho-papai, filha-mamãe e com o bebê-neto/a mas a medida deve ser dada pelos filhos, o pai e a mãe, em cada caso, já que tudo é novo para todos.  Afinal, com maior ou menor esforço educamos nossos filhos como quisemos e nossos filhos têm o direito e o dever de estabelecer o seu modo de ser pai e mãe.  E ainda, é possível que seus filhos, criados por você, criem seus netos de modo totalmente diferente. É preciso respeitar sempre, não julgar nem querer impor suas práticas e seus valores. Agora valem os deles!

Mais uma vez, encontramo-nos todos nessa ciranda de aprendizagens coletivas. O desafio consiste em aprender a compartilhar tempos e espaços, estar disponível afetivamente para ajudá-los com delicadeza, respeito e sem desabilitar o novo casal. Eles precisam se apoiar na sua própria sensibilidade e em suas escolhas para crescerem como pai e mãe. E nós, como avós. O que será que de fato está no centro dessas disputas femininas familiares? Responder a isso e superar essas coisas se configuram num desafio tremendo para algumas mães, sogras e avós, mas passível de superação. Sempre.

Por que os sogros e os homens em geral não carregam essa fama de invasivos, desrespeitosos e autoritários? Precisamos refletir para poder sair desse lugar.


*Como nascem os avós: o livro traz crônicas escritas pelo psicanalista e avô José Inacio Parente e pela educadora e avó Maria Inês Delorme, sobre a chegada dos netos e seus encantos e desafios. É encontrado na loja online da Editora Multifoco, aqui.

Os dois lados dos grupos de whatsapp de mães e pais da escola

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Outro dia conversávamos com um amigo sobre filhos, mais especificamente sobre o contexto da escola, e um dos temas debatidos foi sobre os grupos de whatsapp de mães/pais da escola dos filhos. Ele dizia o quanto estava incomodado com algumas coisas que vinham acontecendo no grupo de mães da turma de um dos filhos, o mais velho (7 anos), a partir de uma situação que havia ocorrido na escola, de desentendimento entre seu filho e um colega de  turma. Ele comentou sobre a interferência das mães em relação ao fato ocorrido, bem como sobre o quanto aquela discussão entre elas havia exposto o filho, e a outra criança também, que passaram a ser alvo de julgamentos precipitados e recomendações quanto à conduta dos pais e da escola em relação às crianças.  Ficou tão aborrecido que sugeriu que a esposa saísse do grupo, com o que ela não concordou, argumentando que, se o fizesse, não saberia mais o que estaria acontecendo na escola no âmbito da turma de seu filho. Nosso amigo é da opinião que esses grupos podem trazer mais prejuízos do que vantagens e, ao comparar com o seu tempo de escola, lembra que o cotidiano da sua turma era mais preservado, não tendo tanta interferência dos pais. Quando os problemas surgiam, na maioria das vezes, eram resolvidos ali entre os alunos, não ultrapassando os muros da escola.

O problema é que hoje, com as redes digitais, a vida na escola ultrapassa em muito, e de forma quase instantânea, os limites da escola. Para o mal e para o bem! São muitas questões envolvidas no uso do Facebook, Instagram, WhastApp, Youtube, entre outras possibilidades. Mas hoje nossa conversa é sobre o uso do whatsapp pelos grupos de pais no contexto escolar.

Os grupos de whatsapp de mães e pais são uma realidade cada vez mais presente. A entrada nesses grupos é quase compulsória e inevitável. Mas quais são os objetivos e limites desses grupos? A que servem? Em princípio, são criados para troca de informações sobre o dia a dia dos filhos na escola, contribuindo para que cheguem a todos, de forma rápida, informações e assuntos que envolvem combinados, festas de aniversário, programas culturais, alertas sobre doenças contagiosas, promovendo uma relação colaborativa entre os pais.  Se antes o encontro, a conversa, as programações (e também as “fococas”) aconteciam na porta da escola, entre as mães que tinham mais disponibilidade de levar e/ou buscar seus filhos, hoje a conversa foi ampliada, envolvendo também aqueles pais e mães que não podem levar e buscar seus filhos todos os dias na escola.

Mas precisamos levar em conta que, volta e meia, aparecem, nesses grupos, temas/conversas que geram desconfortos, constrangimentos, intrigas, desavenças… É preciso refletir também sobre os aspectos negativos dessa nova forma de comunicação, para que tenhamos um uso mais cuidadoso dessa ferramenta, não é mesmo?

O bom uso do whatsapp

 Já mencionamos acima vários aspectos positivos desses grupos, que funcionam como um  meio eficaz e prático de comunicação entre as famílias, facilitador da conexão, da troca de experiências, da colaboração, da informação, da organização de programas nos finais de semana e feriados, do esclarecimento de dúvidas sobre tarefas de casa e outros acontecimentos da escola.

Quando funciona com esse objetivo, é uma poderosa ferramenta de colaboração e aproximação entre as famílias e, também, entre as crianças. Além disso, promove possibilidades de participação na vida escolar dos filhos para todas as famílias, incluindo as que têm pouco tempo para estar presente no levar e buscar ou nas reuniões de pais.

 Mas até onde vão os limites do whatsapp?

 Quem pertence a grupos “temáticos” diversos de whatsapp sabe que é muito comum receber mensagens desprovidas de “bom senso”, como as que espalham correntes, vídeos, fotos, piadas, desejos de bom-dia ou assuntos relacionados a política, causando um excesso de conteúdo no seu aplicativo que perturbam e prejudicam a leitura de mensagens pertinentes ao objetivo principal do grupo. Isso é um aspecto comum a muitos tipos de grupos, como família, amigos, trabalho etc., não escapando, a alguns grupos no contexto escolar. Temos relatos que indicam isso. Mas esse talvez seja o menor dos aspectos negativos, uma vez que pode incomodar os membros do grupo, mas não envolve diretamente as crianças.

Encher o grupo com o envio de fotos dos filhos em passeios também é algo que acontece algumas vezes, transformando as “dicas de atividades” em exibicionismo e marketing pessoal. Outra questão relacionada a fotos é quando se coloca a foto de um evento em que nem todas as crianças foram convidadas, podendo gerar sentimentos de exclusão desnecessários.

Outro aspecto diz respeito às observações ou queixas, compartilhadas no grupo, em relação às práticas escolares.  Ao mesmo tempo em que  muitas dessas observações podem ser bastante úteis e servir de alerta para as famílias cobrarem da escola um trabalho mais cuidadoso com seus filhos, também podem ser fruto de interpretações equivocadas e exageros por parte de quem a expõe, gerando inseguranças e insatisfações desnecessárias nos demais, e que poderiam ser evitadas se o primeiro canal de comunicação para conversar sobre essas questões fosse a escola. A “lupa” ou a “lente” que interpreta uma cena ou uma frase, retirando-a do contexto, pode estar criando uma realidade distorcida que rapidamente pode se espalhar e se tornar “verdade”. Uma provocação de uma criança para a outra nem sempre é bullying, uma criança que agride a outra nem sempre é violenta ou uma ameaça, uma criança que está sozinha afastada do grupo, nem sempre foi excluída, uma fala mais incisiva de um professor para uma criança nem sempre é imprópria, entre outros exemplos. Antes de compartilhar e espalhar no grupo interpretações retiradas de uma situação parcialmente conhecida, que tal conversar com os profissionais da escola primeiro para questioná-los ou sanar as suas dúvidas?

Há ainda um aspecto bastante problemático, que tem a ver com situações semelhantes à relatada no início do texto, que são aquelas que expõem as crianças, trazendo para o grupo assuntos (muitas vezes frutos de interpretações equivocadas) ou fatos não totalmente conhecidos, que podem gerar julgamentos, desrespeito e indisposições entre os adultos, entre as crianças e, também, entre os adultos e as crianças. Desse modo, cria-se no grupo formas de controle/repressão por parte dos pais, que querem palpitar sobre tudo o que envolve seus filhos, não economizando em julgamentos e recomendações para a solução dos problemas que surgem.  Isso configura-se, muitas vezes, como uma espécie de bullying materno/paterno, gerando até mesmo exclusões de crianças e seus pais de atividades organizadas pelo grupo.

Levantamos aqui diferentes aspectos, mas há um elemento comum a essas diferentes situações, inerente à própria ferramenta, que nos ajuda nessa reflexão. A rapidez no repasse das informações, reconhecida como um valor (saber rápido, saber primeiro)  muitas vezes é responsável pela sua superficialidade na divulgação e, também, na análise, que deveria ser mais profunda, comprovando que o tempo pode ser um inimigo das reflexões sensíveis e contextualizadas sobre ações de crianças e de suas famílias. Todos precisamos conviver por segundos, horas ou dias antes de ser contra ou a favor de qualquer coisa. O tempo do whatsapp é quase imediato sendo que poucas coisas são entendidas e, muito menos, equacionadas imediatamente. O tempo da urgência que o whattsap estabelece propõe uma ingestão de coisas sem mastigação, sem digestão e, com isso, criamos outros tipos de urgência em relação à vida de nossas crianças. Quem nos ajuda a estabelecer a relação entre o que é urgente e o que é importante  para as nossas vidas e de nossas crianças?

E você, quais são as suas experiências nesses grupos? Que questionamentos você tem sobre o tema? Vamos nos arriscar, em um próximo texto, a elencar alguns caminhos e limites que possam orientar os pais/escolas no uso dessa ferramenta. Para tanto, gostaríamos da sua colaboração. Vamos lá?

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

É preciso desacelerar a rotina das crianças: parte 2

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEstamos verdadeiramente atentas e preocupadas com o que os adultos vêm fazendo com e pela vida de seus filhos e filhas, as vezes com muito esforço, em nome do “sucesso” futuro, na vida adulta.  Em sociedades altamente competitivas como a nossa, há quem acredite que a criança deva se “preparar para o futuro”, para o mundo do trabalho e, nesses casos, não basta a escola. As crianças acabam frequentando muitas outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades e, tudo indica que quanto mais cursos a criança frequenta, aparentemente mais bem preparada ela estaria. Será?

A contrapartida mais imediata é que muitos pais se julgam melhor avaliados pelo tamanho do investimento que fazem no futuro de seus filhos. Isso é bom para esses pais? E para seus filhos e filhas?

E nesse ritmo frenético há, ainda, uma relativa valorização daquelas escolas que antecipam a educação formal, que exigem de crianças com 3, 4, 5 anos, a “exercitação e o aprendizado”, com muitas aspas, do que seria a leitura, a escrita e as noções matemáticas, quase sempre desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Por que insistimos em certos comportamentos e crenças?

Sabe-se que a brincadeira infantil, livre, sem o controle dos adultos foi bastante esquecida e desvalorizada por muitos longos anos. O fato de ela não depender de objetos específicos, já que tudo pode ser transformado em brinquedo, e nem de um espaço próprio, porque as crianças criam e constroem espaços e tempos de brincar sem obedecer às regulações do mundo adulto, gera uma compreensão de que brincar é algo “inútil e improdutivo” (?). E tem mais, como as brincadeiras escapam ao controle e à previsibilidade dos adultos, porque elas valem por si e não por qualquer outro produto ou resultado que possam produzir, de novo, ficam fora do ranking das atividades saudáveis, produtivas e necessárias para a vida das crianças. Argh!

Isso tudo tem origens remotas que vêm de séculos atrás.

 Um pouco dessa história:

Para entender essa história precisamos chegar ao filosofo grego Platão, que viveu provavelmente de 427 A.C. a 347 A.C. e que influenciou consideravelmente a filosofia ocidental, e também a educação. Suas ideias deixaram resquícios que podem ser vistos até hoje, por exemplo, o fato de a INFÂNCIA não ter características próprias e, por isso, ser vista apenas como um pilar antecipatório para a vida adulta(?). Essa visão “futurista” e ultrapassada de criança só considera as suas possibilidades como um ser em potencial, em um momento futuro, como adulto/a. Assim, as crianças não eram compreendidas como sujeitos que tinham uma vida ativa e rica em experiências no presente. Será que há ainda quem pense assim?

O fato de elas não serem valorizadas como crianças, no presente, também tinha apoio nas ideias de Platão, que as entendia como seres inferiores e via a infância, nesse viés, como uma fase inferior, menos importante que a fase adulta.  Será que já superamos essa antiga concepção?

Para completar, pela impossibilidade de agirem sobre e na pólis, origem da palavra política, Platão entendia a criança como “um outro desprezável, um excluído”, de quem se esperava que fosse vencida e domada pela Educação  (Kohan, 2003).  Não viria daí o fato de que hoje, ainda, a frequência às instituições de Educação Infantil funcionar muitas vezes como pano de fundo para a “socialização desses seres selvagens e desprezáveis” para aprenderem o jogo das regras sociais?

E, se a infância era vista como uma possibilidade futura, a educação funcionaria como uma ferramenta para moldar as crianças.  Alguém ainda acredita nisso?

Onde estão as alternativas?  

  • Na afirmação da criança como um sujeito de direitos, como produtora e consumidora de cultura, garantindo-lhes o direito de brincar. Para que se constituam como sujeitos únicos, sensíveis, criativos e expressivos, as crianças precisam imaginar e fantasiar em contextos de brincadeira livre. Isso é um direito e uma necessidade para viverem plenamente como crianças que são. Brincar, imaginar e fantasiar vem a ser o modo próprio como as crianças experimentam o mundo, como entendem esse mundo, como elas se entendem como parte dele e, também, como melhor expressam o que pensam, sentem e imaginam. Brincar favorece a construção de valores como a solidariedade e a parceria, o respeito às diferenças e aos “outros jeitos” de viver, de ser e de sentir.
  • Na formação de professores de crianças valorizando a brincadeira e defendendo sua importância como um direito delas, de poderem brincar livremente, com outras crianças e com adultos, em casa, nos espaços da cidade e também, em instituições de educação infantil. Não deve haver limites para o brincar e para a brincadeira que é, na verdade, a atividade essencial das crianças.
  •   Num comportamento crítico e reflexivo de pais e das famílias sobre o que desejam verdadeiramente para a vida de seus filhos, cientes de que quando elas são impedidas de brincar não há como retomar esse processo, que só pode ser vivido por elas, em situação de liberdade, se possível em contato com a natureza, e sempre com o apoio dos adultos.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

É preciso desacelerar a rotina das crianças!

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioEscola – natação – futebol – ginástica olímpica – inglês etc. etc. Que atividades temos hoje, antes (ou depois) da escola?  Corre pra cá, corre pra lá, “se arruma rápido senão vai chegar atrasado!”, “hoje não dá tempo de brincar, tem natação”…  No final do dia, crianças exaustas, muitas vezes estressadas.

O que leva os pais a encherem os horários das crianças no contraturno escolar, cada vez mais precocemente, com inúmeras atividades? Em nome de quê organizam assim a vida das crianças? O que pretendem com isso? Que implicações isso traz? Como medir o que é bom ou não para as crianças? Será que sobra tempo e espaço para elas escolherem o que querem fazer? Como fica o tempo de brincar? E o direito de não fazer nada, de não ser dirigido pelo adulto? 

As crianças estão tendo o seu tempo de brincar roubado

 O filme “A invenção da infância”, dirigido por Liliana Sulzback, apresenta depoimentos de crianças e adultos de diferentes e desiguais realidades brasileiras: de um lado, nas famílias de baixo poder aquisitivo e em contextos onde o índice de mortalidade infantil é altíssimo, crianças que trabalham desde cedo para garantir a sobrevivência, perpetuando o ciclo da pobreza e da miséria; de outro, pertencentes a famílias com melhores condições financeiras e que investem na educação dos seus filhos, crianças que assumem inúmeras responsabilidades no cumprimento de uma série de atividades extraescolares, escolhidas pelos adultos em função de seus ideais sociais: cursos de línguas, balé, natação, tênis etc.  O primeiro grupo de crianças expõe-se muitas vezes a riscos e condições inadequadas, cumprindo uma rotina pesada, enquanto o segundo grupo compromete-se com diversas atividades, que ocupam seu tempo semanal, com uma carga horária puxada. Em que pesem as profundas desigualdades entre os dois grupos no que se refere ao acesso à saúde, educação, habitação e aos bens culturais, há algo comum na vida de todas essas crianças: o tempo que lhes é roubado de ser criança, de viver com plenitude a infância!

O trabalho infantil, proibido pela Constituição Federal, é um problema gravíssimo que enfrentamos no nosso país e precisa ser erradicado o quanto antes. A idade mínima para o trabalho é de 16 anos, sendo permitido, entretanto, que aos 14 anos o adolescente seja aprendiz. Uma série de estudos e pesquisas têm mostrado os prejuízos que o trabalho infantil traz para a vida de uma pessoa. Mas esse é um tema para discutirmos em outro momento. Hoje, queremos falar da realidade que afeta esse segundo grupo de crianças: agendas semanais lotadas e infâncias institucionalizadas.

Agendas lotadas: em nome de quê?

Há um discurso presente na nossa sociedade competitiva de que a criança precisa se preparar para o futuro, para o mundo do trabalho e, para tanto, não basta a escola, é importante que ela frequente outras atividades para desenvolver um conjunto variado de habilidades.  É aí que entram os cursos de línguas, o esporte, o balé, entre outras possibilidades, compondo essa formação, supostamente “ampla”. Quanto mais cursos, aparentemente mais bem preparadas estariam as crianças. Será?

Junta-se a isso, a opção de muitos pais por escolas que antecipam a educação formal, demandando das crianças, ainda pequenas, com 3, 4, 5 anos, permanecerem a maior parte do tempo paradas realizando atividades relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita, bem como de noções matemáticas, muitas vezes, totalmente desprovidas de sentido para elas. Roubam-lhes, assim, seu tempo de correr, pular, brincar, descobrir e explorar livremente o mundo, junto com seus pares!

Sabemos que muitas instituições chegam a diminuir o tempo de “recreio” para garantir mais tempo para a “grade curricular. Não estamos querendo dizer que atividades estruturadas não sejam importantes para as crianças. Mas elas não podem impedir o tempo do brincar livre! Brincar sem a direção do adulto, contribui para a autonomia das crianças, que aprendem a fazer escolhas, avaliar os riscos de seus movimentos e ações, descobrir seus limites e possibilidades.

Os pais frequentemente se apoiam no discurso do investimento na formação dos filhos, de querer dar o melhor para eles. Mas o que é melhor para as crianças? É disso que as crianças precisam? Ou essa é uma forma de os pais compensarem o pouco tempo que compartilham com os filhos? Ou de se projetar nos filhos? (Já vimos pais em competição de natação dizerem para os filhos quando não correspondem a suas expectativas: “Você não é meu filho!”).

Por que é retirado da rotina das crianças, cada vez mais cedo, o tempo da brincadeira, o tempo livre?

Brincar é uma necessidade essencial na vida das crianças

 O brincar é o principal modo pelo qual as crianças interagem com o mundo, contribuindo para o conhecimento de si mesmas, para o estabelecimento de relações e vínculos com outras pessoas, adultos e crianças, e para o conhecimento da realidade a sua volta, constituindo uma dimensão fundamental no desenvolvimento e na formação cultural das crianças. Desenvolve a imaginação, a criatividade e muitos outros aspectos cognitivos, físicos e emocionais.  Mas parece que, aos olhos dos adultos, a brincadeira, que não é propriamente uma atividade “produtiva”, cujos resultados possam ser medidos, é algo menos valorizado na agenda das crianças. A brincadeira se restringe ao tempo que sobra em meio a uma grade horária lotada, cheia de compromissos e responsabilidades.

É preciso garantir o direito à brincadeira, se não queremos produzir crianças estressadas precocemente e com déficits acumulados: de natureza (brincar ao ar livre promove o contato da criança com a natureza), de criatividade, de imaginação, enfim, de felicidade!

Não fazer nada não é perda de tempo

O não fazer nada ajuda a gerar ideias, coloca a mente em movimento criativo, incentiva a imaginação e a curiosidade, permite o conhecimento de si mesmo. Como ter espaço para a criação, a invenção de brincadeiras, se o tempo da criança estiver totalmente regrado, institucionalizado, ocupado com atividades dirigidas? A rotina acelerada das crianças vai criando ansiedade, muitas vezes, levando-as a demandarem atividade atrás de atividade, mesmo no tempo em que poderiam estar livres. É comum vermos crianças que mal encerram um programa no final de semana, quererem emendar outra atividade. Ao sair da casa de um amigo com quem passaram o dia, imediatamente perguntam aos pais: quando chegarmos em casa posso ver um filme na televisão? Posso jogar no tablet? Posso chamar um amigo (vizinho) para brincar comigo?

É importante incentivar a criança a brincar sozinha desde cedo, a buscar fazer coisas de que goste, a fazer suas próprias escolhas, a motivar-se, a criar novas brincadeiras.

Assim, convidamos vocês a se juntar a nossa campanha por mais natureza e mais tempo de brincar livre na vida das crianças! Precisamos desacelerar a rotina delas, proporcionando-lhes mais experiências de brincadeira, de fruição, de exploração dos elementos da natureza através do corpo e da imaginação! Junto com isso, também não podemos nos esquecer: menos tempo de eletrônicos! As tecnologias digitais estão aí para serem usadas, é claro, as crianças também aprendem e se divertem com elas, mas usá-las por tempo prolongado, tira das crianças a energia criativa que as impele a brincar e buscar novas experiências lúdicas. E mais: nós também, adultos, pais, avós, babás, titios e titias precisamos desligar nossas telas temporariamente para poder compartilhar de forma mais inteira o tempo em que estamos com as crianças! Vamos, também nós, desacelerar?

(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme

O que perturba as crianças?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio A psicóloga Jennifer Delgado Suárez escreveu, para a Revista Pazes (maio, 2017) um artigo onde analisa criticamente o que pode ser perturbador e angustiante na vida das crianças contemporâneas.

Na mesma linha de pensamento do Papo de Pracinha, ela sugere uma educação que não funcione nos extremos, no excesso nem na falta, sempre que possível.

No afã de “preparar” as crianças para a vida, e em nome do amor que têm pelos filhos, muitas vezes os adultos acabam desrespeitando os ritmos, os desejos e direitos das crianças que deixam de brincar livremente e passam a não ter tempo para desenvolver o pensamento mágico e a imaginação.

Sugerimos a leitura e uma ampla discussão sobre o que a autora chama como “os quatro pilares do excesso”.  Vamos lá?  O banco da praça nos aguarda.


Os quatro excessos da educação moderna que perturbam as crianças

Por Revista Pazes  – MPor Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

Quando nossos avós eram pequenos, eles tinham apenas um casaco de frio para o inverno. Apenas um! Naquela época de vacas magras, já era luxo ter um. Exatamente por isso a criançada cuidava dele como se fosse um tesouro precioso. Naquela época bastava a consciência de se ter o mínimo indispensável. E, acima de tudo, as crianças tinham consciência do valor e da importância de suas coisas.

Muita água correu por baixo da ponte, acabamos nos transformando em pessoas mais sofisticadas. Agora prezamos pelas várias opções e queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que desejarem, ou, caso seja possível, muito mais. Não percebemos que esse mimo excessivo ajuda a criar um ambiente propício para transtornos psicológicos.

De fato, foi demonstrado que o excesso de estresse durante a infância aumenta a probabilidade de que as crianças venham a desenvolver problemas psicológicos. Assim, uma criança sistemática pode ser empurrada para ativar um comportamento obsessivo. Uma criança sonhadora, sempre com a cabeça nas nuvens, pode perder a sua capacidade de concentração.

Neste sentido, Kim Payne, professor e conselheiro norte-americano, conduziu uma experiência interessante em que simplificou a vida de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Depois de apenas quatro meses, 68% destes pequeninos passaram a ser considerados clinicamente funcionais. Eles também mostraram um aumento de 37% em suas habilidades acadêmicas e cognitivas, um efeito que não poderia coincidir com a medicação prescrita para esta desordem, o Ritalin.

Estes resultados são, em parte, extremamente reveladores e, mais que isto, também são um pouco assustadores, porque nos fazem pensar se realmente estamos criando para nossos filhos um ambiente saudável, mental e emocionalmente.

O que estamos fazendo de errado e como podemos corrigir isto?

Quando o “muito” se transforma em “demais”?

No início de sua carreira, este professor trabalhou como voluntário em campos de refugiados, onde teve que lidar com crianças que sofrem de estresse pós-traumático. Payne constatou que essas crianças se mostravam nervosas, hiperativas e tremendamente ansiosas, como se pressentissem que algo de ruim fosse acontecer de uma hora para a outra. Elas também eram amedrontadas em excesso, temendo qualquer novidade, o desconhecido, como se tivessem perdido a curiosidade inata das crianças.

Anos mais tarde, Payne constatou que muitas das crianças que precisavam de sua ajuda mostravam os mesmos comportamentos que os pequenos que vinham de países em guerra. No entanto, o estranho é que estas crianças viviam na Inglaterra, abraçados por um ambiente completamente seguro. Qual a razão que os levava a exibir os sintomas típicos de estresse das crianças pós-traumáticas?

O professor pensa que as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, mentalmente vivem em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo. A exposição à muitos estímulos provoca um estresse acumulado que obriga as crianças a desenvolverem estratégias que as façam se sentir mais seguras.

Na verdade, as crianças de hoje estão expostas a um fluxo constante de informações que não são capazes de processar. Elas são forçadas ao crescimento rápido, já que os adultos depositam muitas expectativas sobre elas, forçando-as a assumir papéis que realmente não condizem com a realidade infantil. Assim, o cérebro imaturo das crianças é incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela nova educação, por conseguinte, um grande estresse ocorre, com as óbvias consequências negativas.

Os quatro pilares do excesso.

Como pais, nós normalmente queremos dar o melhor para os nossos filhos. E pensamos que, se o pouco é bom, o mais só pode ser melhor. Portanto, vamos implementar um modelo de paternidade superprotetora, nós forçamos os filhos a participar de uma infinidade de atividades que, em teoria, ajudam a preparar os pequenos para a vida.

Como se isso não fosse suficiente, nós enchemos seus quartos com livros, dispositivos e brinquedos. Na verdade, estima-se que as crianças ocidentais possuem, em média, 150 brinquedos. É demais, e quando é excessivo, as crianças ficam sobrecarregadas. Como resultado, elas brincam superficialmente, facilmente perdendo o interesse imediatista nos brinquedos e no ambiente, elas não são estimuladas a desenvolver a imaginação.

Payne ressalta que estes são os quatro pilares do excesso que forma a educação atual das crianças:
1 – Excesso de coisas.
2 – Excesso de opções.
3 – Excesso de informações.
4 – Excesso de rapidez.

Quando as crianças estão sobrecarregadas, elas não têm tempo para explorar, refletir e liberar tensões diárias. Muitas opções acabam corroendo sua liberdade e roubam a chance de se cansar, o que é elemento essencial no estímulo à criatividade e ao aprendizado pela descoberta.

Gradualmente, a sociedade foi corroendo as qualidades que tornam o período da infância algo mágico, tanto que alguns psicólogos se referem a esse fenômeno como a “guerra contra a infância”. Basta pensar que, nas últimas duas décadas, as crianças perderam uma média de 12 horas por semana de tempo livre. Mesmo as escolas e jardins de infância assumiram uma orientação mais acadêmica.

No entanto, um estudo realizado na Universidade do Texas revelou que quando as crianças brincam com esportes bem estruturados, elas se tornam adultos menos criativos, em comparação com jovens que tiveram mais tempo livre para criar suas próprias brincadeiras. Na verdade, os psicólogos têm notado que a maneira moderna de jogar gera ansiedade e depressão. Obviamente, não é apenas o jogo mais ou menos estruturado, mas também a falta de tempo.

Simplificar a infância.

A melhor maneira de proteger a infância das crianças é dizer “não” para as diretrizes que a sociedade pretende impor. É preciso deixar que as crianças sejam crianças, apenas isso. A melhor maneira de proteger o equilíbrio mental e emocional é educar as crianças na simplicidade. Para isso, é necessário:

– Não encher elas de atividades extracurriculares, que, em longo prazo, não vão ajudá-las em nada.
– Deixe-lhes tempo livre para brincar, de preferência com outras crianças, ou com jogos que estimulem a criatividade, jogos não estruturados.

– Passar um tempo de qualidade com eles é o melhor presente que os pais podem dar.

– Criar um espaço tranquilo em suas vidas onde eles podem se refugiar do caos e aliviar o estresse diário.

– Garantir tempo suficiente de sono e descanso.

– Reduzir a quantidade de informações, certificando-se de que esta seja sempre compreensível e adequada à sua idade, o que envolve um uso mais racional da tecnologia.

– Simplifique o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança.

– Reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixe que elas sejam simplesmente crianças.
Lembre-se que as crianças têm uma vida inteira pela frente até se tornarem adultos, entretanto, então, permita que elas vivam plenamente a infância.

Texto publicado em espanhol no site Rincón de la Psicología, traduzido e adaptado pela Revista Pazes.


(*) Angela Borba e Maria Inês de C. Delorme