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“A praia no tapete, o cavalo na vassoura, o mundo inteiro na sala de casa”

“A praia no tapete, o cavalo na vassoura, o mundo inteiro na sala de casa”: quanta sensibilidade no texto do Gregório Duvivier sobre confinamento com crianças em casa. Vale muito a leitura!


Gregorio Duvivier |Folha de S.Paulo | 2.jun.2020 às 23h15

A praia no tapete, o cavalo na vassoura, o mundo inteiro na sala de casa
Não é fácil estar confinado com uma criança

Não é fácil estar confinado com uma criança. Faz dois meses que minha filha pede, todo dia, pra ir à praia.

Na primeira vez, tentei explicar que não dava. “Filha, tá rolando uma pandemia, como é que eu vou explicar, um vírus que…” — daí me lembro que ela tem dois anos de idade.

Tento resumir: “Não dá, é impossível”, e ela então começa a chorar, e lembro que é mais fácil explicar uma pandemia pra uma criança de dois anos do que dizer que “não dá, é impossível”.

No desespero surge uma ideia. “Chegamos. Olha o mar ali.” E aponto o tapete azul. E ela vê o mar se erguer, e abre um sorriso. Basta.

Desde então, quase todos os dias ela me diz: “Vamo pá paia?”, e vai buscar o maiô, seu chapéu UV e sua cadeirinha de praia diminuta.

Espalhamos almofadas pelo chão, nossa areia improvisada, e então ela abre a cadeirinha em frente ao tapete azul, que faz as vezes do mar.

Puxo uma cadeira e chamamos o moço do mate de galão. Pagamos com uma tampinha de cerveja. “O tôco”, ela lembra. E pego de volta a tampinha que eu mesmo fingi que tinha entregado. “Obrigado.” Um biscoito Globo pra cada um. Doce pra mim, sal pra ela.

Contemplamos o mar: Hoje tá bravo, digo. Você tem coragem? Ela diz: Tenho. E mergulha no mar do tapete, gritando. “Olha, papai, um peixe!” E ergue uma almofada. Cuidado!, digo.

Você tá muito fundo. Ela então finge que se afoga, e eu corro pra salvá-la. E é uma desculpa pra abraçá-la muito forte.

Desde então a estante já foi um castelo, o armário um esconderijo.

Chegamos num momento da quarentena em que todos os objetos da casa já foram ressignificados. Já não há mais o que inventar.

O esfregão é uma peruca, a vassoura é um cavalo, o controle remoto é um celular, a televisão, uma grande aliada. Na hora da faxina, toma-lhe “Frozen”. Livre estou, cantamos, livre estou — como se estivéssemos.

Já não sei como vai ser seu reencontro com a praia de verdade.

Talvez a areia incomode, o mar amedronte. Dois meses e meio, fiz as contas, equivalem a três anos pra mim: um décimo da vida. É uma eternidade. Já não sei se o mundo lá fora estará à altura do tapete.

Muitas vezes invejamos os amigos sem filhos. Os livros que estaríamos lendo, os filmes, as séries, os instrumentos que aprenderíamos a tocar. Mas o tapete seria apenas um tapete. E a vassoura apenas a vassoura.

Não sei o que seria de nós sem a companhia de alguém que nos faz ver, em cada canto da casa, todas as possibilidades do mundo.

Folha S.Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2020/06/a-praia-no-tapete-o-cavalo-na-vassoura-o-mundo-inteiro-na-sala-de-casa.shtml

2 comentários em ““A praia no tapete, o cavalo na vassoura, o mundo inteiro na sala de casa”

  1. Lucia Marques

    A velocidade do tempo, o acúmulo de coisas a realizar e não havia tempo. Agora o tempo é todo nosso, livre para a criatividade, livre para estar perto, mas presos num ambiente definido para outros fins, descanso, silêncio. Porém a criatividade movida pelo amor, permite ver um universo de novas funções para um tapete que só servia para estar lá compondo um ambiente. E o querer estar com os filhos resumia-se a um tempinho limitado que agora se faz enorme, disponível! Agora sim temos tempo, vamos curtir o que o desejo inconsciente nos falseou e que agora é realidade. Podemos ser pais, estar juntos, brincar!!! E nem sabíamos como se-lo!!! Imaginávamos !!!! Agora é realidade!!!!

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  2. Sandra Souza Braga

    O que é o tempo, será que a partir de agora será tão importante? Penso que hoje já não faz mais diferença. As familias aprenderam a conviver, a expressar, a participar, a se relacionar uns com os outros. As crianças tiveram um ganho enorme, conheceram seus pais, conheceram seus lares. Tiveram a possibilidade de serem livres, de criarem e imaginarem o que quiserem. de serem crianças, sem ter que levar a rotina doida dos pais sem nem poder opinar sobre ela. Conheciam mais o seus amigos da escola do que os seus familiares. Sabiam o nome dos colegas, mas não sabiam o nome dos primos, dos avós, dos tios… As emoções viraram sentimentos, sentimentos estes que terá memória para as crianças diferente das memórias dos adultos. Ufa as crianças puderam e estão podendo ser elas mesmas… vivendo nas suas casas com os seus…. e a escola… bom ela terá a sua importância no lugar dela, apenas no lugar que ela precisa estar… Poucas horas por dia somente o necessário… Os pais descobriram que podem suportar o seus filhos em casa, curti-los, educá-los sem tercerizar essa mão de obra que é divina.

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