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Crianças, literatura e a “volta toda” do Saramago

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Saramago , no documentário Janelas da Alma,  diz que para “conhecer algo, há que se dar a volta  toda”.   Algum tempo é necessário para  dar sentido à expressão do Saramago.  Às vezes, acontece de a gente lembrar, por algum motivo, do cheiro do fogão de lenha, da fazenda,  para vir água à boca por conta do doce de goiaba da infância. Ou ouvir Gil cantar Super Homem  para  uma  mulher se perceber como tal  e, quem sabe para quantos,  ter lido Monteiro Lobato,  quando criança, para descobrir  o que a literatura “faz as gentes”, além do  que podemos fazer com ela.  “Dar voltas inteiras, as voltas todas”!

Dar a volta toda parece ser um percurso com muitas facetas e dimensões.  Colocar-se no lugar do outro, por exemplo, como se diz da tal empatia,  e isso envolve, tanto sentir a dor do outro, quanto  vibrar com o seu sucesso, pode ser.  Mas, dar a volta toda pode significar, também, desenvolver  um sentimento muito próprio sobre um lugar sem nunca ter lá ido,  pensá-lo como reduto de paz e beleza, ou  imaginá-lo como um espaço triste, sem cor e sem som. Já pensaram?  Tudo é passível de ser lido, sentido,  desejado,  rechaçado,  pegado ou largado, como imagem,  pelo poder do pensamento e da imaginação. E nada parece mais alimentador de imagens e do pensamento para se  “dar a volta toda”   do que a arte, e aqui  falamos mais da literatura. Das histórias contadas em livros que permitem ir e voltar, começar de trás pra frente, do meio,  serem sentidas, pensadas, re-sentidas, repensadas, recriadas.

Defender a literatura, como se ela precisasse de defesa, significa  defender a importância de ler histórias para as crianças, de contar boas histórias para elas,  de oferecer ouvidos e olhos para as histórias delas.  Todas as histórias carregam em si narrativas que podem desobedecer a lógica da vida, torcer o pensamento racional com suas causas e efeitos, romper com os prováveis,  com as normas do suposto mundo real  e,  por isso tudo, a literatura é tão indispensável.

A Literatura permite que você esteja onde nunca foi, torcer pela vitória do herói, do vilão, ou dos dois. Permite que você releia uma mesma história   buscando descaminhos, novos lugares para caber, para ser, para estar, para entrar; descobrindo as frestas pelas quais as crianças  transitam tão bem.

Tudo o que nos faz, nesse momento, escrever esse artigo tem a ver com um tempo mais alargado para ler livros, pela pandemia, e pelo disparador de ver a Luciana Sandroni, num programa de TV. Ela acionou as nossas memórias de Monteiro Lobato, convidando-nos a revê-las de um outro jeito, dando “ quase uma volta toda”, como falou Saramago.

O livro escrito por ela se chama Minhas Memórias de Lobato (Companhia das Letrinhas, 3ª edição, 23ª  impressão), e foi ilustrado pelo grande Laerte. Nele, as Memórias de Lobato são contadas  pelos personagens que ele criou: pela Emília, que se tornou a Marquesa de Rabicó, e pelo Visconde de Sabugosa. O criador é visto e narrado por duas das suas criaturas, pela  Emilia, uma boneca de pano que já havia escrito suas próprias memórias e que, dessa vez,  decide escrever as do Lobato com  a ajuda do Visconde. Bem, não vamos  contar aqui toda a história do livro.  É importante valorizar a criação da autora e seu “exercício imaginal” , digamos assim, de uma boneca de pano famosa,  e de uma espiga de milho igualmente famosa que trocam de lugar, assumem-se como autores, tendo eles mesmos nascido e se tornados famosos, por Lobato.

Quem seríamos nós sem Lobato?  Que leitura seria possível fazer quanto à  ousadia poética de Luciana Sandroni,  se não conhecêssemos Lobato?  “A volta toda” parece estar por aqui, pelo poder dessa imaginação que permite ir e vir, parar, mudar o foco, o enquadramento e até a imagem principal, enquanto nutre, alimenta o pensamento que pode ser remontado, reorganizado, desestabilizado, retomado  como antes, ou de um outro jeito. A literatura convida as crianças e também os adultos a virar o mundo de ponta-cabeça e, sem sombra de dúvidas, e  principalmente,  “a dar a volta toda”.

Viva Lobato, Sandroni,  Saramago e a  literatura!

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme

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