As crianças e a cidade Uncategorized

Quem manda na cidade? As crianças respondem.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio “As crianças têm o direito de se expressar e escolher a maneira de fazê-lo. Elas têm o direito de dar sua opinião e o adulto tem o dever de ouvi-las”, artigo 12, Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989).

A partir do reconhecimento desse direito, planejamos  uma  brincadeira, em etapas.

Lembram- se que propusemos a montagem de um mapa estilizado, algo próximo de uma maquete da cidade onde vivem, a partir de caixas, recortes, cola,  palitos etc.?

Lembram-se que sugerimos que as crianças pudessem retomar o “mapa-maquete”, um ou mais dias depois, para rever a organização, complementá-la, incluir ou excluir elementos, remontá-la etc.?

Tirar fotos desse processo, que pode acontecer num play, num apartamento ou numa pracinha ajuda muito às crianças para uma retomada de todos os passos da montagem.

Durante e depois da construção do “mapa-maquete” as crianças conversam entre elas, conversam conosco e vale a pena ouvir o que umas dizem às outras sobre a cidade, sobre como pensam e sentem. Tirar fotos com o celular e imprimi-las depois  é muito bom para essa revisão afetiva, por parte das crianças.

Mais importante do que o resultado final dessa brincadeira é o percurso de construção da cidade, segundo o olhar delas, com todas as idas e vindas necessárias.

Realizamos essa brincadeira com crianças que moram nas redondezas de uma praça localizada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro e costumam brincar nesse local. Algumas frequentam a praça com pai ou mãe e a maioria com uma babá.

Todas são crianças oriundas de classe média alta, têm pais com escolaridade superior e frequentam diferentes instituições de ensino particular do entorno.Sabe-se que se o grupo fosse outro, outras respostas e reflexões poderiam ter surgido. Não temos dúvidas de que crianças em situação de pobreza, que vivem em áreas periféricas da cidade teriam outras imagens da sua cidade, outras expectativas e opiniões, de forma geral. Lembramos aqui que 40% das crianças do Rio de Janeiro vivem em locais onde não há saneamento básico, o que é apavorante. E mesmo sua ida à escola não tem garantida qualquer possibilidade de diminuição das desigualdades, ao contrario, têm reforçado  essas desigualdades. Sabemos que sem educação, séria e em novas bases, não haverá redução de desigualdades e nem, tampouco a economia poderá deslanchar. Isso pode ser assunto para outro texto. Voltemos às crianças, na pracinha.

Conversamos com 11 crianças, entre 4 e 8 anos. Três meninas de 5, 6 e 8 anos. E oito  meninos, quatro deles com 4 anos, 6 anos, 7 anos e dois com 8 anos. Essa praça é muito arborizada, oferece brinquedos como balanços, gangorra, trepa-trepa, e um campo de futebol cercado onde crianças de idades variadas jogam futebol, inclusive meninas. Só quando chega “o grupo dos grandes, que são meninos com mais de 11 anos e que já chegam com seus times formados, os menores saem do campo para dar lugar a eles.

Aqui estão os depoimentos das crianças sobre a cidade, seu gerenciamento, suas preferências e visões:

A.A.D., menino de 4 anos :  “A cidade é dos adultos que trabalham. Mas tem  os garis, aqueles que são varredores, os que cuidam da cidade, então eles são mais donos. Quem é o dono tem que cuidar das coisas. Os garis cuidam. ”

J.F.A., menino, 7 anos: “na minha cidade tem casas, prédios, cinemas, restaurantes. Tem muitas árvores e muito vento. Tem mais de um zilhão de pessoas. É legal essa cidade, mas tem muito vento aqui no RJ. Eu acho que o dono da cidade é o presidente Jair Bolsonaro e o Osorio Duque Estrada também era dono,  porque o nome dele é o nome de uma rua. Acho que as pessoas votam e escolhem quem vai ser o dono. “

M.H.A. , menina, 5 anos: “na minha cidade tem muitos pombos, também vejo amigos na rua que são pessoas. Na minha cidade também tem escola e a casa da minha avó. Também tem  quero-queros, bem-te-vis e passarinhos. Eu vejo flores também mas eu não vejo sapos, só Vitoria Regia e macaco-prego, esses eu já vi. Eu acho que os donos da cidade são os porteiros e a síndica do prédio . Eu não sei onde está a síndica.”

J.M, menino, 6 anos: “ na minha cidade tem praias e bairros. O dono da minha cidade e do meu país… até que tem, mas ele não mora aqui. Mora no céu, o nome dele é Deus”.

M.S, menina, 8 anos – “a minha cidade tem muito barulho, é bem legal mas tem muita política, mas no final sempre dá certo. Os prefeitos que são os donos e são todos [fanáticos]. É estranho falar isso, mas eles todos já foram pra cadeia. Eu preferia ter rei e rainha do que ter presidente.  Na minha opinião, eu não sei qual que fez mais crimes e mais besteiras, talvez seja o prefeito o dono da cidade. Eu não sei bem, desculpe aí.”

B., menino, 8 anos – “ tem amor e carinho, tem brinquedos pra brincar. Prédios, casa, piscinas e muitas coisas. Ruas, caminhões, lojas . A minha cidade não tem dono, eu acho. Quer dizer, acho que o dono é Dom Pedro”.

B,B, menino, 4 anos- “na minha cidade tem Lego, carrinhos, brinquedos de médico. Tem suco, tem fruta, tem arvores, tem amor. O dono da minha cidade é o papai. “

J.B., menino, 4 anos: “a minha cidade é o Rio de janeiro e tem muita coisa. Eu sou o dono dela, também. Tem muito dono”

C.C. ,menino, 8 anos – “ na minha cidade tem pessoas, prédios, ruas, carros, prédios, condomínios e a nossa imaginação. O dono da cidade é … todo mundo”

S.C.C., menina 6 anos – “na minha cidade tem pizzaria, praia, rios, cachoeiras, parques , casas, arvores, grama, pracinha, plantas, prédios e casas vendendo. A cidade não tem nenhum dono, ela é sem dono.”

 

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme

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