Escola e educação Família Uncategorized

‘Bullying’, violência social e vida escolar: tangências e cruzamentos

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioO Papo de Pracinha se preocupa em especial com crianças, mas amplia suas preocupações às pessoas, de um  modo geral, em dois cenários: o escolar e o familiar.

É triste constatar, mas crianças praticam e sofrem bullying, às vezes sem saber suas implicações, apenas partilhando o que vivem e aprendem. E pior, sob o argumento de que certos  mecanismos questionáveis estariam sendo usados para sua educação. Repetem-se estratégias familiares instaladas, às vezes por gerações, que podem produzir fracassos pessoais também por gerações, travestidas como as melhores das intenções.

Vemos adultos que riem quando seus filhos escorregam, ou levam um tombo, para afastar o susto e a dor, pensando em formar filhos fortes e combativos, que não choram nem sentem dores. Isso é bullying.

Há adultos que estimulam seus filhos a serem altamente competitivos e vencedores, sempre, para que sejam fortes e combativos num futuro que não tarda a chegar. O importante é vencer, mesmo que “derrotando”, o seu melhor amigo. Isso envolve algum, ou muito bullying.

Há adultos que se acham os maiorais, sabem-tudo e pensam saber como educar suas crianças para serem “vencedoras”, que é como eles se vêem, como eles acham que são,  muitas  vezes,  por terem alcançado sucesso financeiro. Eles querem suas crianças fortes e combativas, sob qualquer argumento, como promessas de vida vitoriosa. Em geral foram vitimas desse tipo de pressão, quando crianças, e praticam  “a conduta garantida” da vitória em todos os aspectos, sempre. Isso é uma estratégia fracassada, alem de ser bullying.

Crianças são seres de curiosidade, de espontaneidade , de participação e de alegria.Sem romanceá-las, sabemos que elas têm pesadelos, medos, sentimentos doloridos e que muitas vezes sofrem por vários motivos. Elas precisam viver suas dores, participar de disputas,vivenciar perdas. Sem prepotência delas ou dos adultos, elas precisam saber nomear o que lhes dá alegria, tristeza, raiva, medo, vontade  de bater no amigo ou de puxar seus cabelos.

Educar as crianças para a vida, para serem felizes, cooperativos, parceiros e também combativos, exige sensibilidade para fortalecê-los dia a dia, cotidianamente, em situações ordinárias,  como tratamos no texto anterior.

Mas, para a nossa redenção humanitária, nem todas as famílias são iguais, nem todos os adultos são defendidos e protegidos por escudos pouco humanos, mentirosos e frágeis, que lhes enfraquecem na vida e na educação de suas crianças. Muitos estão atentos e acompanham com presteza e amor os deslizes e sucessos de suas crianças, com naturalidade, para que sejam o que são. E são tantos. Viva.

Mas a escola e os professores têm múltiplos desafios e compromissos ampliados, cada vez mais complexos. Também por isso, evidenciamos a figura de Paulo Freire que lutou para tornar humano, competente, afetuoso , além de um ato político a função  de educar.

Sem afeto, sem afetar todos os lados envolvidos nas questões escolares, não há educação civilizatória e libertária. Não adianta formular e seguir protocolos de conduta “burocráticos”, apenas, para rever atos de violência, de agressividade desmedida e de bullying sem que estejam envolvidos todos os elementos que compõem a vida da criança: a escola como um sistema, as famílias como sistemas embora diferenciadas,  todos os seus sub-sistemas como suas cosmovisões e religiosidades, os valores praticados, as questões culturais que envolvem gêneros e por aí vai. A escola deve ser lugar de reflexão coletiva, espaço de embates e de formulação coletiva de propostas. O lugar do professor é diferenciado e muito importante nessas tarefas.

Tudo isso vem à tona quando acompanhamos mais um caso de violência logo ali, nos Estados Unidos,  em que um jovem aluno é desarmado pelo seu professor, há 27 anos na escola, que em seguida o abraça. Com isso, evitou-se mais uma tragédia brutal como as que temos acompanhado pelo mundo. (Saiba mais)

Todos os casos de violência que chegam às escolas são situações que estão no cenário de vida de professores, crianças e suas famílias. Os/as professor não tem todo o poder do mundo, e nem sempre encontram as melhores soluções para cada caso, mas seu papel é fundamental.

Paulo Freire, no seu livro “ Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar” de 1997, afirma que seu “engajamento com a Educação, desde faz muito, se dá na luta em favor de uma escola democrática. De uma escola que, continuando a ser um tempo-espaço de produção de conhecimento em que se ensina e em que se aprende, compreende, contudo, ensinar e aprender de forma diferente. Em que ensinar já não pode ser este esforço de transmissão do chamado saber acumulado, que faz uma geração á outra,(falta algo – que se faz de uma geração a outra?))e aprender não é a pura recepção do objeto ou do conteúdo transferido. Pelo contrário, girando em torno da compreensão do mundo, dos objetos, da criação, da boniteza, da exatidão científica, do senso comum, ensinar e aprender giram também em torno da produção daquela compreensão, tão social quanto a produção da linguagem, que é também conhecimento”.

Nesse viés, diz ele,  a professora e o professor precisam ocupar um lugar outro para além da função de tia e tio amorosos. Amor,  compromisso, competência, sensibilidade e delicadeza são fundamentais para ser possível exercer o ato político de educar sem partidarismos políticos, mas na luta por caminhos, soluções negociadas e compartilhadas que gerem  alternativas e caminhos possíveis para a  superação de problemas. Violência é um problema, fome é outro, falta de família é mais um, bullying é ato de violência. Chamar a criança “de porco”, porque não quer tomar banho ou “de ogro”, porque brigou na pracinha são atos altamente violentos e desrespeitosos.

Para concluir, queremos valorizar o papel da linguagem que pode tanto libertar quanto “castrar o corpo consciente e falante de mulheres e de homens” e, nós incluiríamos de crianças. “É preciso não esquecer que há um movimento dinâmico entre pensamento, linguagem e realidade do qual, se bem assumido, resulta uma crescente capacidade criadora de tal modo que, quanto mais vivemos integralmente esse movimento tanto mais nos tornamos sujeitos críticos do processo de conhecer, de ensinar, de aprender, de ler, de escrever, de estudar”, e diríamos, de nos re-humanizarmos e sermos todos mais felizes.

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme

Ps: Todas as citações com aspas são de Paulo Freire, no livro citado no corpo do texto.

Foto: Photo by Felicia Buitenwerf on Unsplash

0 comentário em “‘Bullying’, violência social e vida escolar: tangências e cruzamentos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: