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Para que adiantar as crianças na escola?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio O Jornal Gazeta do Povo, sediado em Curitiba há 100 anos, escreveu uma matéria sobre  o TDAH ( Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) onde pesquisadores de Harvard denunciam as causas desse distúrbio e mais, outras disfunções que também podem acometer as crianças.

Segundo os pesquisadores, o desejo de muitos adultos-responsáveis, pais e mães, de antecipar a vida escolar de seus filhos é a causa muitos casos desse transtorno. As crianças mais novas de uma determinada turma apresentaram uma incidência muito maior de casos, quando comparadas às mais velhas.

A  freqüência a uma turma mais avançada que a indicada para a criança reforça o aumento do diagnostico de TDAH além de deficiências intelectuais e depressão. A quem interessa isso? Nunca as crianças, `as vezes aos pais. E os professores, como se posicionam nesses casos?

O Papo de Pracinha tem estado atento quanto a relação que mães,pais e professores estabelecem com o tempo, e como isso interfere na vida das crianças.

Há uma pressa  permanente na vida que se passa nas grandes cidades, associada ao valor questionável de que “tempo é dinheiro”. Assim, sob essa máxima que pode valer para uma fabrica de sabonetes, por exemplo, e  com todo o respeito, aplicamos como se ela valesse para a vida escolar.   Impomos às crianças a expectativa  de que devem andar rápido,  também na vida escolar.  Muitos adultos acreditam que  “pular séries”, aprender num ritmo acelerado fará com que  venham a ser vencedores na vida futura.  Não vão, podemos garantir. Pelo menos  por esse motivo – a correria.

Desse modo, o que se vê é que as experiências importantes e significativas para a vida das crianças  não podem ter o  tempo, o  percurso e o ritmo de cada uma delas,  mesmo dentro de um grupo de crianças de idade semelhantes, numa mesma instituição. Isso é cruel.

Várias questões merecem esclarecimento para derrubar certas crenças que acabam por adoecer as nossas crianças. Uma delas é a necessária diferença e relação entre memória, imaginação e  cognição. Uma segunda questão  importante exige saber diferenciar  informação e conhecimento, o que corresponde a cada um, mesmo quando entrelaçados.  Vemos crianças com 4 ou 5 anos que sabem “de cor”  o nome de pintores famosos,  que “sabem de cor” o nome de cada letra do alfabeto, quando não sabem contar, também de cor, até 100.

Além de um estímulo à competitividade, a querer que o filho seja melhor, mais inteligente e mais ágil que as outras crianças, o que advém disso não é sucesso e vitória, na maioria das vezes,  mas ansiedade, insegurança e medo.  Crianças têm emoções, histórias de vida e sentimentos que permeiam todo o seu percurso de vida, também dentro da escola.

As dificuldades de aprendizagem também se tornam mais nítidas e, como em geral costumamos  buscar diagnóstico para esses impasses voltando nossos olhares “para as crianças”,  surgem os transtornos, as dores e depressões.

Sobre isso, podemos  usar um exemplo simples e raso, mas que ajuda na discussão. Pode-se dizer que qualquer adulto que ande de bicicleta seja capaz de enumerar todas as   “competências e habilidades” necessárias para isso.  No entanto,  mesmo diante das mais exatas informações sobre como se anda de bicicleta, isso não será suficiente para fazer ninguém sentar e sair andando. Ainda mais se tiver que andar rápido. Podemos pensar em outros exemplos, como aprender a nadar, a  falar uma segunda língua ou dirigir automóvel.

Espera-se que uma criança seja feliz se for engenheira/o aos 13 anos? Seria possível? Seria bom para ela?

Precisamos respeitar todas as crianças e seus embates  na vida e na escola como processos complexos, não lineares, subjetivos em que elas não podem ser vistas como concorrentes, mas como  parceiras indispensáveis  para aprendizagens felizes e produtivas, para todas elas.

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme


 

Diagnóstico (errado) de TDAH é mais frequente em crianças que estão adiantadas na escola

Kerry McDonald FEE* | 28/09/2019 | Gazeta do Povo

Os pais querem o melhor para os filhos, principalmente quando se trata de educação. Embora muitos pais possam sentir o impulso de antecipar a escolarização dos filhos, alguns estão questionando esse movimento e atrasando as matrículas na escola ou abandonando completamente a educação convencional.

Deficiências intelectuais e depressão

Descobertas anteriores de pesquisadores de Harvard mostraram maiores taxas de diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) para crianças que eram as mais novas da turma do jardim de infância em comparação com as mais antigas. Porém, novas pesquisas recém-publicadas na JAMA Pediatrics revelam que, além de diagnósticos mais altos de TDAH de crianças que estão entre as mais jovens de sua série, estar em uma turma anterior à indicada também pode levar ao aumento do diagnóstico de deficiências intelectuais e depressão.

O novo estudo analisou mais de um milhão de crianças no Reino Unido e descobriu que aquelas que estavam entre o trimestre mais jovem de sua série tinham 30% mais chances de serem diagnosticadas com deficiência intelectual do que o quarto mais velho das crianças. Esses jovens tinham 40% mais chances de serem diagnosticados com TDAH e 30% mais chances de serem diagnosticados com depressão. Os pesquisadores concluem:

“Neste estudo, o fato de estar em uma série avançada na escola está associado a um risco aumentado de diagnóstico de TDAH, deficiência intelectual e depressão na infância”.

Essas descobertas devem causar arrepios na espinha de pais e professores. Mantendo constantes outras variáveis ​​da infância, os pesquisadores foram capazes de identificar a antecipação na escolarização como o principal fator que levou as crianças a serem diagnosticadas com importantes problemas acadêmicos e de saúde mental. Essas crianças podem ter sido mais desatentas e enérgicas porque eram mais jovens, não porque tinham TDAH. Da mesma forma, elas podem ter demorado em aprender porque eram quase um ano mais jovens após a entrada na escola do que seus colegas mais velhos na mesma série.

Essas crianças não tinham deficiência intelectual; elas eram apenas pequenas. Também não deveria ser uma surpresa que, se se espera que crianças relativamente imaturas fiquem quietas e prestem atenção nas aulas, e façam o mesmo trabalho acadêmico que as crianças com quase um ano a mais de idade, isso possa levar a uma maior taxa de depressão. Quem não se sentiria deprimido nessa situação?

No outono passado, os pesquisadores de Harvard publicaram descobertas no New England Journal of Medicine mostrando que as crianças americanas que estavam entre as mais jovens de sua série tinham muito mais probabilidade de serem diagnosticadas com TDAH do que as crianças mais velhas. Especificamente, os pesquisadores descobriram que, nos estados com matrículas em 1º de setembro, as crianças nascidas em agosto tinham 30% mais chances de serem diagnosticadas com TDAH do que as crianças nascidas em setembro.

Em outras palavras, as crianças que tinham acabado de completar cinco anos eram menos atenciosas e mais inquietas do que as crianças que estavam prestes a completar seis anos. Isso era particularmente verdade para os meninos. Quem passa o tempo com crianças pequenas sabe que pode haver uma grande diferença entre uma criança de cinco e seis anos. A exuberância juvenil deve ser valorizada e incentivada, e não transformada em patologia.

Rede questionável de diagnósticos de TDAH

O pesquisador de Harvard, Timothy Layton, concluiu:

“Nossas descobertas sugerem a possibilidade de que um grande número de crianças esteja recebendo o diagnóstico de TDAH, e cheguem até a receber tratamento, simplesmente porque elas são imaturas em comparação com seus colegas mais velhos nos primeiros anos do ensino fundamental”.

Os pesquisadores do novo estudo do Reino Unido encontraram resultados semelhantes relacionados ao aumento de diagnósticos de TDAH, juntamente com o diagnóstico de deficiências intelectuais e depressão. Eles sugerem que mais pesquisas devem ser feitas sobre o vínculo entre matrícula escolar precoce e esses resultados potencialmente adversos.

Enquanto isso, os pais devem estar cientes de que seus filhos podem ser apanhados em uma rede questionável de diagnóstico de patologia na escola por nenhuma outra razão a não ser estar entre os mais novos da sua turma.

E os educadores devem estar cientes de que, se uma criança tem dificuldade para ficar quieta e prestando atenção, não está aprendendo tão rapidamente quanto seus colegas ou está mostrando sinais de depressão, o motivo pode ser, simplesmente, por ser mais jovem do que as outras crianças. Ela pode ainda não estar pronta para a escola, e a desconexão entre seu próprio momento e o momento artificial da escola pode causar seu tumulto emocional.

Os pesquisadores do Reino Unido avaliam que os pais devem adiar a entrada na escola, principalmente para crianças ainda imaturas em comparação com seus pares, mas alertam que esse adiamento sem mais reflexão pode apenas mudar o valor de referência. Se algumas crianças se atrasarem para evitar a antecipação da escolarização, simplesmente haverá um novo grupo que será relativamente jovem e poderá experimentar os mesmos problemas. Segundo os pesquisadores:

Em alguns países, os pais de crianças relativamente jovens podem adiar a entrada por um ano. O adiamento do ingresso de crianças que são relativamente jovens e imaturas para o desenvolvimento pode reduzir as diferenças de habilidades, mas o adiamento de entrada para todas as crianças relativamente jovens mudaria apenas quem é relativamente jovem. […] Uma alternativa à escolha dos pais é definir o ingresso na escola com base em testes de habilidades.

Talvez a melhor solução seja dar às crianças a liberdade de crescer e se desenvolver à sua maneira, sem forçá-las a obedecer a padrões arbitrários. Em vez de dar um rótulo às crianças, dê tempo a elas.

* Kerry McDonald é bacharel em Economia pela Bowdoin College e mestre em políticas educacionais pela Universidade de Harvard. É bolsista da FEE e colaboradora regular da Forbes.

© 2019 Fee. Publicado com permissão. Original em inglês.

Gazeta do Povo

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