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Mães de verdade

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Ainda é muito forte a imagem romântica que temos sobre a maternidade: a abnegação, o instinto materno, o amor incondicional são alguns dos atributos associados à mulher e ao papel de mãe. Mas essa visão, na verdade, foi uma invenção do mundo ocidental e da modernidade. É preciso lembrar que nem sempre foi assim ao longo da história, basta voltarmos à Idade Média. Também veremos que não há uma forma única de se compreender e exercer a maternidade se olharmos para as diferentes culturas.

A maternidade como algo inato às mulheres tornou-se uma premissa que moldou, e ainda molda, a forma como as sociedades veem e tratam a mulher e, não menos, o modo como a própria mulher se vê. A mulher ganhou valor no âmbito da casa, no cuidado com os filhos, e muitas se acomodaram e se enquadraram nesse lugar.

Esse ideal de mãe como modelo único faz com que outras formas de ser mãe sejam vistas como desvios ou inadequações. Muitas mulheres são invadidas por sentimentos de menos valia por não corresponderem ao modelo idealizado de maternidade, aquele associado aos cuidados, à proteção e à abnegação. Preconceitos, cobranças, frustrações, perda de confiança, violência contra as mulheres é o que pode ocorrer com as mulheres que saem do enquadre dessa forma única de se conceber a maternidade.

Felizmente, o feminismo vem gerando e fortalecendo um grande debate sobre o tema, contribuindo para o reconhecimento de que há modos singulares de ser mãe, aprendidos nas relações cotidianas com os filhos e outros membros do núcleo familiar, como o pai, os avós etc. O exercício de ser mãe tem assinatura e é marcado pelos valores, projetos e experiências singulares que atravessam a mulher e seu grupo social. Em artigos, livros, blogs e redes sociais, proliferam depoimentos e reflexões sobre outros modos de ser mãe e de se sentir mãe, que fogem aos padrões idealizados do comportamento maternal. As dores de ser mãe emergem como algo intrínseco à vida e ao exercício de se tornar mãe, para além do amor incondicional que geralmente (mas nem sempre) é experimentado a partir do nascimento de um(a) filho(a). Desvelam-se modos de ser mãe “fora da caixa”, não mais como lugar de felicidade incondicional, mas de um exercício permanente de aprendizagem em que não se tem tudo dado, pelo contrário, se descobre na lida diária, nas noites perdidas de sono, no turbilhão de emoções que brotam ao olhar para o bebê e experimentar esse lugar de mãe.

Essa “caixa” que aprisionou o papel de mãe ainda precisa ser quebrada. A mulher precisa ter autonomia para decidir: Quero ter filho? Mais de um? Quando vou tê-los? Como? Vou amamentar? Por quanto tempo? Vou ter babá? Creche?

É preciso ainda muita luta para que a mulher seja vista como um ser completo, singular, não vinculado ao papel de mãe ou aos padrões maternais associados à mulher. O feminismo vem contribuindo nessa luta, a partir de debates e ações que buscam a proteção dos direitos humanos das mulheres e a igualdade de direitos entre estas e os homens. Mas o desafio é grande e muitos problemas precisam ainda ser enfrentados, como o sexismo, a violência contra as mulheres, a culpabilização das vítimas, a discriminação de gêneros, entre outros.

 

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme

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