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O que as crianças fazem com tantos likes?

(*)Papo de Pracinha

texto_proprio Acumular likes nas redes sociais em função de uma exposição exagerada das crianças, meninos e meninas desde bem pequenos, promovida pelos próprios pais, pode ser muito ruim para a vida delas.

Há alguma novidade nisso? Talvez não, mas apesar de todos, ou quase todos, já serem donos dessa informação, parecem desconhecer os riscos e as consequências disso. Pais e mães permanecem querendo exibir e expor as suas crias como se dela fossem donos. E sem saber o que elas acham disso.

Não pensamos apenas nos riscos em relação à segurança pessoal das crianças, o que já seria motivo importante para não expô-las. Mas estamos refletindo aqui sobre uma exposição de crianças nas suas atividades cotidianas – ao dormir, comer, tomar banho e até mesmo fazer cocô no vaso sanitário – como um movimento invasivo e desrespeitoso em relação à própria criança.

Adriana Friedman, pedagoga paulista, chama a atenção para o fato de os pais serem “os guardiões da informação pessoal de seus filhos e, por outro, os narradores de suas vidas”. Poucos pais prestam atenção para o fato de as crianças ficarem “enfraquecidas” para narrar suas próprias histórias e experiências de vida quando há adultos que sempre falam delas, por elas e dispõem de suas imagens para comprovação.

Há ainda uma desqualificação crescente das experiências infantis, e também adultas, quando predomina a intenção de fotografar ou filmar situações no afã de expô-las nas redes sociais. E com uma rapidez assustadora. Só que as experiências, em si mesmas, são muito mais potentes para a vida das crianças do que sua foto ou filmagem. Algum equívoco, certa inversão e muito exagero vêm acontecendo também nesse sentido.

As crianças são mesmo um celeiro de vida espontânea e criativa. Seres portadores de perguntas interessantes e desestabilizadoras, têm sempre novidades em função da sua forma única de ser e de estar com outras pessoas no mundo. Isso não encanta apenas os seus pais mas quase todas as pessoas. No entanto, a maioria das crianças não têm a menor ideia de que sua vida está sendo exposta e divulgada para um mundo de pessoas desconhecidas. E a vida de sua família também fica em evidência, por tabela.

E no caso de crianças com até 6 anos, elas representam os mais altos índices de publicação, segundo os estudos da empresa de segurança digital AVG , em vários países.

Divulgamos aqui a matéria publicada em 16 de agosto de 2019, escrita por Nayá Fernandes para o jornal O São Paulo.

Precisamos refletir sobre o preço de tantos likes ao longo da  vida das crianças que estão tão expostas. Ainda haveria lugar para os álbuns de fotos, onde as crianças podem se ver em diferentes tempos e espaços, com pessoas queridas, em situações memoráveis? Ver fotografias em papel, mexer nelas, rever, “transver”, como diz Manoel  de Barros, possibilita uma experiência diversa do tempo efêmero das telas.

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme


Fotos das crianças nas redes sociais?

Por Nayá Fernandes – 16 de agosto de 2019

Um estudo da empresa de segurança digital AVG, a partir de dados de cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Espanha, Itália, Austrália, Nova Zelândia e Japão, revelou que três a cada quatro crianças com menos de 2 anos de idade têm fotos colocadas no ambiente on-line.

O estudo mostra o fenômeno das redes sociais e a publicação, muitas vezes compulsiva, de fotos de crianças e adolescentes, na maioria das vezes pelos próprios pais.

A pesquisa revela que, em média, os pais de crianças menores de 6 anos publicam 2,1 informações por semana sobre elas. Dos 6 aos 13 anos, há uma queda: 1,9 informação por semana. Quando o adolescente completa 14 anos, o ímpeto se reduz a menos de uma menção por semana (0,8).

Existe um limite?

Auris Sousa é jornalista e mãe da pequena Cecília, de 1 ano de idade. Com o esposo, ela divide a rotina de trabalho, casa e cuidado com a filha. Ao comentar sobre o tema e a exposição de fotos e vídeos da pequena nas redes, Auris disse que “é bem difícil controlar a emoção diante de uma carinha, do olhar tão amoroso de um filho”.

Sobre esse aparente descontrole dos pais, Adriana Friedmann, doutora em Antropologia, mestre em Educação, pedagoga e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid) e do Mapa da Infância Brasileira, recordou que os pais são, por um lado, os guardiões da informação pessoal de seus filhos e, por outro, os narradores de suas vidas. “Ao narrar, compartilhamos informações sobre os filhos, ao mesmo tempo em que os privamos do direito a fazê-lo eles mesmos em seus próprios termos. E isso é uma fonte potencial de dano à qual prestamos pouca atenção”, disse.

Mas, por que muitos pais, mesmo sabendo dos riscos dessa exposição, continuam a publicar tais imagens?

Auris, por exemplo, pela própria profissão que exerce, disse que sempre soube dos riscos e se questionou, várias vezes, sobre os possíveis exageros de postagens de crianças antes de ser mãe.

“Porém, desde que minha filha nasceu, o meu Instagram parece dela. Tento evitar e hoje já diminuí muito as postagens, mas sei o quanto queremos dividir com o mundo as fofurices, a inteligência, o desenvolvimento tão fascinante e até mesmo as dificuldades. Contudo, acho que tudo precisa ter limite, e, sem dúvida, há outros aspectos que vão além de uma reprovação futura da criança”, continuou Auris.

Para Adriana, as redes sociais têm se tornado, para muitos pais, álbuns compartilhados das suas vidas e, principalmente, das dos seus filhos.

“A tentação de publicar, compartilhar fotos ou fatos de crianças, pode ter diversas motivações: orgulho dos filhos, mostrar para o mundo (em princípio para seus contatos) as conquistas, feitos, imagens, comemorações e eventos, relatar vivências, comunicar doenças, férias etc. Raramente esses adultos têm consciência das potenciais consequências desses compartilhamentos, sobretudo para a vida de seus filhos, uma vez que, em geral, não os consultam sobre seu desejo ou consenso. Quanto mais novas as crianças – ainda antes de nascerem, quando estão sendo gestadas – mais e mais imagens são veiculadas, fase esta da primeira infância, em que as crianças não têm compreensão nem ideia desse tipo de divulgação das suas vidas”, continuou a pesquisadora.

Há perigo?

O que parece uma foto inocente e atrairá uma série de likes, pode, porém, tornar-se um pesadelo para os pais e para a própria criança ou adolescente.

“Nunca fiz postagens da minha filha de uniforme escolar, nem de nada que identifique o lugar em que ela estuda. Acho também perigoso apontar as comidas preferidas, porque fica muito fácil para um estranho tentar atrair a confiança por meio da alimentação. Amo fotos, mas não quero trocar histórias por imagens, experiências por exposição. Por isso, curto muito cada evolução, cada novidade com a minha filha, depois penso na foto. Se tiver os dois, ótimo. Caso contrário, minha prioridade é viver o momento”, disse Auris.

Adriana salientou o que tem sido discutido nas formações de educadores, pesquisadores e especialistas: “Há, na verdade, uma ‘violência’, um ‘atravessamento’ sendo praticado pelos adultos todo dia e em todos os grupos com relação às crianças. Não respeitar as crianças, não ter a capacidade de se colocar no lugar delas, não é somente uma violação à sua individualidade. Pode, também, trazer quebra de confiança e consequências aos seus comportamentos e desenvolvimento futuros”.

Foto X experiência

As fotografias marcam momentos inesquecíveis e ajudam a família a recontar a própria história. Mas, quando a fotografia perfeita se torna o objetivo principal, deixando de lado a experiência, pode tornar-se um problema. E, se a superexposição parece estar naturalizada hoje, as curtidas, compartilhamentos e interações nas redes sociais parecem ter mais importância do que a convivência.

“Certa vez, ainda quando eu não tinha a Cecília, vi uma mãe tirando fotos do seu filho em frente aos enfeites de Natal de um shopping center. O pátio estava lindo, eu me encantei e imaginei que a criança tivesse ainda mais encantada. Mas a mãe não deixou o menino viver a experiência e fez com que ele parasse para inúmeras poses, ficasse paradinho até que ela conseguisse a selfie perfeita. Depois, para minha surpresa, saiu com ele dali. Nem percorreu todo cenário. Acredito que, por trás de uma superexposição, também mora o risco de enfraquecimento dos laços”, afirmou Auris.

Jornal O São Paulo

 

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