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A dificuldade e a necessidade de dizer não para as crianças

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Para muitos pais, dizer não ao seu filho ou sua filha, é algo a ser evitado, como se pudessem impedi-lo(a) de sofrer, se frustrar, criando um mundo perfeito que, na verdade não existe. E também porque não suportam e/ou não sabem lidar com o que vem depois do não e da frustração, como o choro, os gritos, a birra, preferindo ser permissivos. Assim, se curvam às suas vontades e se colocam passivos frente às suas atitudes.

Mas agindo assim, de que forma estão educando suas crianças? Como elas aprenderão a ser éticas, justas, a ter respeito pelos outros, se vivem em um mundo onde suas vontades são soberanas, não importando  os outros, as relações?

Ensinar a criança a esperar, a lidar com as frustrações faz parte do papel de ser pai e mãe. As crianças precisam aprender a viver no mundo real, onde há diferenças, regras, limites, autoridade e direitos a serem respeitados. Para tanto, precisam de limites, o que significa ser acompanhada de perto pelos adultos, naquilo que faz e que diz, nas interações com os outros, crianças e adultos. Dar limites não se consegue com discurso, ou com castigos, mas sim com uma mediação muito próxima, sensível e firme, que busque intervir quando necessário, o que pode envolver o “não,” o diálogo, um redirecionamento que leve a criança a uma atitude mais positiva ou colaborativa. Uma mediação que respeite e compreenda a criança e que a ensine a respeitar e compreender o outro. Que a escute e reconheça suas emoções, ajudando-a a lidar com elas de forma mais positiva.

Felipe está na pracinha brincando com Pedro e Gabriel, amigos da escola. Gabriel se dirige para o balanço, acompanhado pelos amigos. São três balanços, Gabriel escolhe o do meio, Pedro o da esquerda e Felipe, quando vê que só tem o da direita vago, diz que não gosta daquele, que quer ir naquele onde está Gabriel. A mãe de Felipe diz que o amigo já está ali, e que ele pode se balançar no que está vago. Ele começa a chorar.

F: Eu não gosto desse, quero ir naquele!

M: Mas por que você não gosta desse?

F: Eu não gosto! Esse é feio.

M: Feio? Por que? Não é igual ao outro?

F: Não é isso, eu não gosto desse. Eu quero ir naquele. E continua chorando.

A mãe de Gabriel que o estava empurrando pergunta à mãe de Felipe porque ele estava chorando. Ao saber, faz menção de tentar resolver o problema trocando de balanço, mas a mãe de Felipe faz sinal de que não seria o caso de fazer isso. E continua a conversar com Felipe.

Abraçando Felipe a mãe explica que ele vai ter que esperar Gabriel sair, ou então se balançar no que está vago. E que quando ele decidir o que quer, ela pode empurrá-lo. Vem uma menina e senta no balanço.

M: Agora você vai precisar esperar a menina sair, se quiser ir nesse.

A menina fica poucos minutos e desiste. Felipe resolve ir.

F: Eu quero ir nesse.

E a mãe vai com ele empurrá-lo. Felipe se balança feliz.

Ao lado da importância da intervenção dos adultos, se coloca também a necessidade de que a criança aprenda nas interações, nas brincadeiras com outras crianças, o que exige que ela tenha autonomia para fazer suas escolhas, tomar suas decisões, desde que isso não signifique risco para ela ou para os outros. Nas brincadeiras, as crianças praticam a solidariedade, a sincronização das ações com os demais, a negociação de regras, a cooperação, a experimentação dos riscos, e também a administração de conflitos, o que requer que ela aprenda a lidar com o medo, a raiva, a frustração, a tristeza, entre outras possibilidades. O desejo de continuar brincando, de não “melar” a brincadeira, mobiliza as crianças a procurar se relacionar com os demais de igual para igual, a olhar para o outro, a investir na brincadeira conjunta, o que é um contexto extremamente rico para o estabelecimento de relações mais democráticas e cooperativas.

Mas ao lado da dificuldade de dizer não por parte dos pais, há também o seu contraponto: a quantidade de “nãos” desnecessários que as crianças escutam a todo momento: “cuidado, não corre, você vai cair”, “não pode brincar assim, vai estragar o brinquedo”, “não pode deixar os brinquedos no chão”, “não pode ficar sem sapato”, “não come assim, vai sujar a roupa”, “não pode ficar sem casaco” etc. A palavra “não” acaba perdendo o seu valor como um limite importante para a criança. É preciso saber dizer não às coisas que realmente importam, evitando se desgastar com coisas pequenas e que fazem parte da vida de uma criança que brinca e explora o mundo. Para tanto, precisamos escutar mais as crianças, procurar entendê-las e, assim, criar mais possibilidades para suas brincadeiras e investigações, retirando limites desnecessários, e trazendo-lhes mais inventividade e alegria. O que, certamente, envolve a sujeira, a bagunça e um certo risco, pois isso é inerente aos seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. Poder brincar de comidinha de verdade em casa, experimentar fazer receitas culinárias, fazer guerra de travesseiros, fazer cabaninhas com lençol, trenzinho com as cadeiras, são algumas possibilidades que fazem da casa da criança um lugar de muita felicidade, acolhimento e descobertas!

 

(*) Angela Borba e Maria Inês Delorme

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