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Qual o melhor “crytranslator”: um aplicativo ou a sensibilidade da mãe, pai ou cuidador do bebê?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Nosso texto da semana passada, “The CryTranslator, um aplicativo que promete identificar o motivo do choro do seu bebê”, gerou várias reflexões em nossos leitores, o que nos deixou muito felizes, pois hoje podemos continuar a conversa dialogando com as contribuições que recebemos!

Selecionamos algumas posições encaminhadas por parceiros que trabalham com a temática da infância, e que fazem parte, assim como o Papo de Pracinha, da Rede Nacional da Primeira Infância[i]. Ainda não ouvimos as opiniões/experiências de mães e pais e gostaríamos muito de recebe-las, já que são elas e eles os potenciais usuários desse tipo de aplicativo.

Algo bastante ressaltado nas contribuições, e com o qual concordamos, foi o valor das interações humanas na constituição dos sujeitos e da vida coletiva:

O bebê se constitui sujeito e forma uma representação de si mesmo a partir de suas experiências com o outro e o mundo físico. Sem o “outro” não há um “eu”, por isso, o “tu” antecede a noção de que ele é um “eu”. A relação mãe-bebê, pai-bebê, cuidador-bebê é primária: peles que se tocam, olhares que se cruzam, sons que se interpretam e interpenetram, jeitos de estar um frente ao outro que criam significados de pertencimento, cuidado, segurança, confiança, alegria, amor (ou seus contrários).(VitalDidonet)[ii]

Os pais se constituem pai e mãe na relação com o bebê, no exercício de ser pai e mãe, de cuidar, tocar, falar, olhar, observar, sentir, cheirar, escutar, interpretar, responder… O conhecimento mútuo mãe-bebê, pai-bebê, vai se fazendo a partir da criação de significados e sentidos sobre gestos, expressões, ações, choros, movimentos… Não há nenhum manual, muito menos nenhuma tecnologia que substitua o valor das relações eu-outro, é isso o que nos faz humanos!

Mas o que fazer quando o bebê não para de chorar e nada do que o pai e/ou a mãe fazem resolve e a criança continua aos berros? O que o bebê tem? Fome, dor, incômodo? Está doente? Quanta angústia gera o choro de uma criança! E também dor de ver a criança sofrendo, cansaço de noites mal dormidas, irritação…! Será que, nesse contexto, poderia ser bom o uso de um aplicativo que ajudaria a identificar o motivo do choro do bebê orientando os pais sobre o que fazer? Afinal o que tem de mal usar a tecnologia a nosso favor?

O Portal Aleitamento comentou em maio deste ano sobre o Chatterbaby, aplicativo criado pela Dra. Ariana, Ph.D. em Estatística, professora do Semel Institute da UCLA e mãe de 4 filhos. Funciona com base na comparação do choro do bebê com diversos outros choros de lactentes em um enorme banco de dados. Todo esse catálogo de choros contou com a ajuda de 1,7 mil bebês e levou 5 anos para ser gravado, catalogado e testado por Ariana e outras mães veteranas – tudo com base na experiência delas com seus filhos. Funciona nos mesmos moldes do The CryTranslator, garantindo confiabilidade de 90% nos resultados, além de pode ser alimentado com o envio do som do choro de seu bebê, fazendo com que o algoritmo identifique as características únicas daquele choro, melhorando a capacidade de diagnóstico conforme o uso. O portal assim se posiciona:

Geralmente não apoiamos esses aparatos que competem com o “instinto materno” que podem acabar desempoderando mães e pais. Contudo, admitimos que mães de primeira viagem e seus filh@s sofrem muito com os choros. E as mulheres urbanas, com pequena rede de apoio social, em famílias isoladas podem ser beneficiadas. Além de ser um projeto idealizado e com grande participação de mães experientes sob o aval de uma Universidade. (Prof. Dr. Marcus Renato[iii]).

Interessante a ponderação de Marcus Renato e concordamos que pode ajudar a mães/pais de primeira viagem, até mesmo para trazer uma sensação de maior segurança, encorajando-os a interagir de diferentes formas com seu bebê.

Não somos contra o uso de tecnologias. Elas são produções humanas, inteligentes e criativas que, procuram criar soluções para os problemas identificados nas nossas experiências concretas. Quantos aplicativos melhoraram e vêm melhorando/transformando as nossas formas de comunicação? É algo mesmo impressionante! Mas nós, humanos, precisamos ir além do consumo das tecnologias, refletindo criticamente sobre elas e cuidando para que estas não substituam/prejudiquem/impeçam as relações humanas, que necessitam tempo, envolvimento, olho no olho, toque, presença. Basta lembrarmos do uso cada vez maior e essencial dos celulares nas nossas vidas e o quanto isso contribui para o bem e para o mal, tirando-nos muito do tempo de presença,real e por inteiro, nas relações com nossos filhos, por exemplo. Não são poucos os pais e mães que ficam conectados quase 24 horas e comem, conversam, veem TV, brincam com seus filhos, com um olho aqui e outro no celular.

É preciso encorajar os pais a desenvolver seus modos próprios de cuidar do seu bebê, a mobilizar a sua sensibilidade e capacidade afetiva de ler as mensagens do seu bebê, conectando-se com este cada vez mais, não através de uma aparelho, e sim daquilo que caracteriza a relação mãe-bebê, pai-bebê, que é o que nos faz humanos, o poder das linguagens, a possibilidade de ver o outro, de estar com o outro,  e de se ver/ser através do outro.

Por mais tranquilizador que pareça ter um intérprete do choro do bebê em casa, por mais competente que o aparelho seja na identificação do motivo do choro e por mais rápido (10 segundos!) que o faça, ele é um personagem estranho e gélido que se intromete na relação primária entre um bebê que está aprendendo a contar o que quer e o que sente e um adulto que cuida dele e o protege; (Vital Didonet)

Não podemos esquecer que é o choro do bebê (ou de qualquer animal mamífero) que transforma a mãe/maternagem e o pai/paternagem em protetores naturais de sua “cria” (criação) e daí a responsabilidade na troca, aprender o significado e o motivo do choro e adequar a resposta para “tranquilizar” este “sofrimento” (fome, sede, frio, falta de apego, febre, dor em geral)  (Evelyn Eisenstein [iv])

Terminamos nossa conversa por hoje com as palavras de Vital Didonet:

Se queremos que nossos filhos preservem e desenvolvam a humanidade nos sentimentos, no pensamento, nas ações, devemos cuidar deles e educá-los como humanos. E isso exige esforço, inclusive o de aprender a decodificar seus choros, seus balbucios, suas garatujas, gestos, olhares e expressões fisionômicas. Não vamos colocar um smartphone para fazer leitura facial de nossos bebês para saber se eles estão com fome ou com sono, com sede ou com desejo de tirar a roupa que os sufoca… Não subestimemos a capacidade da mãe, do pai, do cuidador de comunicar-se com seus bebês. Se eles não tivessem essa capacidade os humanos não teriam sobrevivido.

 Mas ainda queremos ouvir pais e mães sobre o assunto. Você usaria, já usou? Como foi a experiência?

 

[i]Rede Nacional da Primeira Infância: uma articulação nacional de organizações da sociedade civil, do governo, do setor privado, de outras redes e de organizações multilaterais que atuam, direta ou indiretamente, pela promoção e garantia dos direitos da Primeira Infância

[ii]Vital Didonet – Filósofo, pedagogo, e especialista em políticas públicas para a primeira infância e assessor da Rede Nacional Primeira Infância.

[iii]Marcus Renato – Médico graduado pela UFRJ. Especialista em Medicina Preventiva e Social pelo IMS/UERJ e Mestrado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz. Docente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina – UFRJ. Especialista em Amamentação pelo Wellstart International Lactation Management (1994) e pelo International Board Certified Lactation Consultant desde 2001 com re-certificação até 2019. * Editor do Portal www.aleitamento.com desde 1996.

[iv] Evelyn Eisenstein –  Médica e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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