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Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil: vamos pensar sobre isso? [Repost]

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio O pensamento mágico que se configura na infância, na vida de cada criança, não obedece a uma métrica, quantificadora, nem avaliadora e desconhece todos os ideais de perfeição. Assim como acontece com as artes, esse pensamento mágico que chamamos de imaginação também não se subordina. Eles se insurgem contra a ordem, contra as cápsulas e as caixas. Também não obedecem aos padrões de abundância  segundo certos critérios de produtividade que podem ser notados, por exemplo, pelo volume das  pastas de  trabalhinhos “escolares” que vão para a casa, e que são ainda muito valorizados pelos adultos, não só pelos pais, também por algumas instituições de educação infantil. Imaginação e expressões artísticas  não viajam em pastas, mas tem suas próprias asas. E pensando nisso, achamos oportuno repostar o texto que se segue. Vamos pensar sobre a arte e a imaginação na vida e no desenvolvimento infantil?

Vamos ao Papo de Pracinha! Em Abril de 2016 publicamos um texto sobre o assunto e, hoje, repostamos para continuar a reflexão.


 

Sobre Romero Britto, crianças e arte na Educação Infantil: vamos pensar sobre isso?

1444722355_88Não vamos discutir aqui a qualidade do trabalho de Romero Britto e o seu lugar no campo e no mercado da arte. Sabemos que, ao lado da estrondosa popularidade do artista (suas obras são estampadas em todo tipo de produto, suas reproduções são vendidas pelo mundo todo aos lotes, seus originais já foram adquiridos por altos valores, entre outros indicadores de “sucesso”), há uma forte rejeição e crítica no campo da arte e da cultura ao seu trabalho. Nesse sentido, há uma recusa a reconhecê-lo como artista, diante da compreensão de que a sua coleção de quadros, esculturas e outros produtos multicoloridos está muito mais para fast-food do que para a arte.

Certamente vocês já ouviram falar de inúmeras comunidades do tipo #euodeioromerobritto! Mas é certo que no mundo escolar,  grande parte das instituições de educação infantil parece pertencer a outra comunidade: #euamoromerobritto !

Por que esse casamento entre Romero Britto e Educação Infantil, quando se pensa em um trabalho de arte com crianças? É porque as obras de Romero Britto são alegres e multicoloridas? É porque abordam temas ou figuras que se aproximam do universo infantil? Que tipo de propostas são feitas às crianças nas escolas, com base no trabalho do artista? Reproduções para colorir? Releituras, do tipo “fazer como Romero Britto”? Confecção de objetos modelados pelos professores a partir de figuras de suas obras, como, por exemplo, borboletas?

Certa vez, fazíamos um trabalho de formação com professoras de uma creche comunitária do Rio de Janeiro e a coordenadora pedagógica nos mostrou orgulhosa o produto de um projeto de arte com as crianças: um grande cartaz com a reprodução ampliada da obra “O palhaço”, pintada pelas crianças. Obviamente, pelo que pudemos observar, na verdade, pintada pelas mãos das crianças conduzidas pelas mãos dos adultos. A coordenadora nos relatou o tempo que levaram para produzir o cartaz e o quanto as crianças “aprenderam” sobre Romero Britto e arte. Trabalhavam com duas crianças de cada vez (certamente para controlarem melhor seus movimentos), sendo que todas participaram, com suas pinceladas, da confecção da “obra”. E não faltaram, em nossas andanças por instituições de educação infantil no país, referências de Romero Britto, em reproduções decorando as paredes de escolas, estampando produtos variados e, principalmente, em murais com “trabalhinhos” das crianças.

Mas o que esses exemplos têm a ver com um trabalho com arte na Educação Infantil? Como podemos pensar as relações entre criança, arte e educação?

Vamos pontuar algumas coisas que pensamos sobre esse tema:

  • a arte não combina com normas, regras, modos de fazer pré-estabelecidos, ordens para fazer assim ou assado, ou modelos para se chegar a um produto pensado pelo adulto.
  • a arte não combina com atitudes de corrigir, etiquetar, didatizar, controlar, enformar. As crianças precisam ter liberdade de fazer cavalos azuis, pessoas “voando”, nuvens roxas, céu verde. É preciso que o adulto tenha abertura para o novo, o inusitado, a inversão, a descontinuidade, a surpresa e a poesia da criança.
  • os adultos precisam abrir mão do lugar de controladores do pensamento e da expressão das crianças para ocupar o lugar de co-participantes dos seus processos de pesquisa e criação, aguçando a escuta para apoiar as suas necessidades e descobertas.
  • os adultos precisam se conter no seu desejo de traduzir o que a criança desenhou, pintou ou construiu, com perguntas do tipo “O que você desenhou aqui?”, feita, muitas vezes, de forma burocrática. As legendas feitas por meio da escrita dos adultos nomeando elementos como árvore, casa, mamãe, papai etc. se sobrepõem à criação das crianças, invadindo-a. Isso parece dizer para a criança que a sua produção não tem valor em si mesma, e que precisa corresponder/representar uma realidade traduzível na linguagem do adulto. Mas e quando as crianças expressam em suas produções muito mais o prazer estético dos gestos, das formas e das cores, do que uma realidade representável?
  • o uso da arte como instrumento para o ensino de conteúdos (outra prática comum na Educação Infantil) escolariza, empobrece e destrói a arte!
  • a arte envolve imaginação, experimentação e criação. Um trabalho com a arte  e a expressão precisa mobilizar os sentidos das crianças para os significados que vão construindo nas suas relações com o mundo, incentivando-as e apoiando-as na busca de novas possibilidades de dar forma às suas percepções e vivências.
  • as crianças devem ser encorajadas a se expressar em diferentes linguagens e, para tanto, é necessário alimentar a sua imaginação, ampliando o seu repertório cultural e estético; o diálogo com diferentes e variadas produções artísticas, nas suas diferentes linguagens, ao lado da liberdade de explorar e pesquisar as possibilidades dos materiais, ajuda a criança a encontrar seus próprios caminhos de expressão e criação.

Promover o diálogo entre a criança, a arte e a educação é muito mais do que ensinar técnicas de arte e oferecer modelos para as crianças reproduzirem. É muito mais do que fazer trabalhinhos formatados de Romero Britto ou Tarsila do Amaral (outra artista que entrou no gosto das instituições de Educação Infantil)! É muito mais do que fazer trabalhos multicoloridos com temas considerados infantis: palhaços, borboletas, flores etc. As crianças podem e merecem muito mais do que isso!

As crianças refletem sobre o mundo, que é complexo, nem sempre colorido, e é diverso e contraditório! Observam as inúmeras imagens e sons que povoam as cidades, percebem as coisas e sentimentos que existem no mundo, as relações entre as pessoas… Elas podem e devem dialogar com a arte clássica, com a arte contemporânea e com diversas produções artístico-culturais. E podem e devem se aventurar a dar forma a suas percepções e sentimentos, expressando-se em diferentes linguagens!

Para tanto, precisamos ir muito além de Romero Britto!

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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