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Filhos sem telas?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Qual a média diária de tempo de uso de telas pelas crianças brasileiras em smartphones, tablets ou computadores? Qual o impacto disso na vida delas e de suas famílias?

O recente artigo de Pablo Guimón, no El País,  “Os gurus digitais criam os filhos ­­sem tela” traz uma interessante abordagem do tema, chamando a nossa atenção para um aparente paradoxo: os adultos que mais entendem sobre a tecnologia dos celulares e aplicativos querem que seus filhos se afastem desses dispositivos; até mesmo os pioneiros na sua criação, desde o início já tinham isso claro. Bill Gates, por exemplo, criador da Microsoft, relatou em 2017 que, durante as refeições, a família não tinha celulares sobre a mesa, e que seus filhos tinham o tempo de uso de tecnologia limitado, só tendo tido direito aos seus primeiros celulares aos 14 anos. Steve Jobs, criador da Apple, disse em uma entrevista ao The New York Times (2010) que proibia os filhos de usarem o iPad.

O mesmo artigo traz dados de uma pesquisa da Commom Sense Media, revelando a velocidade com que a relação da criança com a tecnologia vem se transformando nos últimos anos: as crianças norte-americanas de zero a oito anos passavam, em 2017, uma média de 48 minutos por dia no celular, três vezes mais do que em 2013 e dez vezes mais que em 2011. O ritmo vertiginoso dessas mudanças provoca que tipo de impacto nas crianças pequenas? O que podemos avaliar desde já e o que vamos poder constatar somente daqui a alguns anos, quando essas crianças pequenas terão se tornado jovens e adultos?

E as escolas, como lidam com essa questão? Guimón destaca a experiência de uma escola no coração de Palo Alto, Vale do Silício, na Califórnia, epicentro da economia digital. Waldorfof Peninsula é uma escola particular, que tem como alunos filhos dos administradores da Apple, Google e outras, e onde as telas só são usadas no período que corresponde ao nosso ensino médio. Dentre os argumentos que sustentam essa escolha sobressai a visão de que a tecnologia limita para os seres humanos as suas possibilidades de criação, a sua capacidade de concentração e, também,a de imprimir emoção no processo de aprender.

É claro que são as capacidades humanas que permitem o uso da tecnologia pelos sujeitos, mas é claro também que o uso da internet, dos aplicativos, com sua ampla gama de informações e possibilidades, muda as formas de acesso ao conhecimento, de aprendizagem e de produção do conhecimento e de relacionamentos com os outros.

Mas vamos nos concentrar nas crianças pequenas que, desde muito cedo, já têm acesso aos celulares, seja diretamente, por meio de vídeos e aplicativos de joguinhos, histórias e outros, ou, indiretamente, já que, desde que nascem, vêem seus pais interagindo com esse objeto durante a maior parte do dia, mesmo enquanto fazem outras coisas: comer, ver televisão, brincar com seus filhos, alimentá-los, tomar banho (sim, até no banho muitos adultos não se afastam dos seus celulares). Os celulares são quase uma extensão do nosso corpo. Sem dizer que vemos crianças,cada vez menores, com seus próprios celulares. Como colocar limites às crianças diante dessa realidade?

Essa reflexão não escapa, ainda de uma outra tônica contemporânea. Muitos pais exibem seus filhos e ensinam a eles, como um valor familiar, que “ser é estar nas redes sociais”. Assim, cada vez mais cedo, muitas crianças são estimuladas por suas famílias não só a participar desse cenário como consumidores de conteúdos prontos, mas colocam sob as crianças a responsabilidade de criar conteúdos, a se exporem como crianças, tentando  fabricar as celebridades dentro da própria casa.

Nós do Papo de Pracinha não somos saudosistas e nem resistentes às benesses da tecnologia acessível a todos e cada vez com mais facilidade e com mais velocidade.

Ao defender a brincadeira livre em espaços onde exista natureza não significa impedir ou negar o acesso às tecnologias. Apenas entendemos que,  juntas, as crianças são capazes de interagir, de inventar e descobrir, de criar outras possibilidades enquanto brincam.

Ninguém pode brincar por elas.  Nenhum adulto sequer tem comandos e controle sobre suas brincadeiras infantis, mas apenas pode acompanhar, respeitosamente , além de resguardar a integridade física e psicológica das crianças.

Brincar é a atividade essencial da/para a vida das crianças, para alimentarem seu(s) imaginário(s), para que ampliem suas movimentações corporais,  para que tenham seu ritmo e tempo próprios de se relacionar com as pedras, o vento, as folhas que voam, com a água do mar e da bacia. Tudo isso é enriquecido pela presença de outras crianças que sempre apresentam novos desafios, outras formas de parceria, defendem-se dizendo sim ou não e abraçam-se, quando desejam. Brincar não é apaziguador, nem sempre mantém os espaços organizados e limpos, é promotor de outros desejos, novas experiências, convida ao contato com as camadas mais internas e as ancestralidades. E a natureza, por sua vez, nunca se mantém igual.

Ficarem sentadinhas, diante de uma tela dinâmica e colorida pode ser interessante por alguns minutos, se for o caso, mas nunca equivale a uma boa brincadeira ao sol, que exige correr e subir sem sapatos, com suor escorrendo, terra ou lama no corpo. Isso é energia, é saúde e experiência criativa.

O que você pensa sobre isso ?

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

 

1 comentário em “Filhos sem telas?

  1. Concordo plenamente. A criança recebe informações prontas, não manipula, não cheira, não prova, não descobre por ela mesma. Penso estarmos fazendo um grande mal a elas em nome de um movimento tecnológico que as emburrecem, as mobilizam causando problemas de saúde, problemas de visão, problemas de relacionamento social.

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