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O preço do brincar: é “de pagar”?

(*) Papo de Pracinha e Isabela Alves¹

texto_proprio Ela se aproximou bem devagar, ficou observando quietinha por alguns minutos. De longe sua avó também a observava. Depois de ver algumas crianças se aproximando sem nenhuma espécie de ingresso ou papelzinho, ela tomou coragem e junto a mim, com uma voz bem suave e ainda um pouco desconfiada perguntou:

–  tia, quanto paga pra brincar? É de pagar essa brincadeira?

 Esse questionamento se fez intensamente presente no último evento promovido pelo Papo de Pracinha, na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Isso nos fez pensar sobre a sociedade contemporânea que vive a cultura do consumo, da descartabilidade e do valor dado ao que o dinheiro pode comprar.  O processo de concentração de capital e a busca de ampliação permanente do mercado consumidor são assuntos diretamente ligados à vida de crianças e de adultos  que flertam de maneira sublime, ás vezes nem tanto, de modo mais agressivo mesmo,   com o âmbito escolar.

O contexto consumista que permeia a sociedade atual  transforma desejos em necessidades que precisam ser saciadas em tempo recorde. O público infantil se identifica por inteiro com certos  valores do consumo, e sua saciedade rápida aumenta as vaidades, a competição e, claro, o sentimento equivocado de poder. Isso acaba impactando os processos educativos em suas diferentes dimensões.

Muitas crianças que estão ali para brincar, naquela  área pública, ao ar livre, onde lhes são oferecidos potes de tintas, pincéis,  folhas, grãos e sementes para brincar de comidinha, por exemplo, sentem-se paralisadas até entender que ali, no “Bora Lá: brincar na Cidade”, promovido pelo Papo de Pracinha, não  é preciso pagar para brincar.

Elas vão e voltam, inúmeras vezes, até onde estão seus responsáveis para se certificar se não precisa “pagar dinheiro”, se é caro ou barato, para que os adultos  lhes autorizem, ou não, a entrar na brincadeira.

As crianças não estão erradas. Numa sociedade em que se paga por tudo e o valor das coisas é medido pelo quanto elas custam, como algo pode ser tão divertido, tão bonito e não “ter um preço” ?

Ter que pagar até para brincar é fruto de uma experiência infantil em outros eventos e espaços em que se paga para entrar na brincadeira. Isso acontece com tamanha frequência que as crianças vão aprendendo, nas relações com a cultura que, no mundo em que  vivem é necessário pagar para ter acesso a muitas coisas.

A própria brincadeira livre, como não exige materiais, recursos caros ou brinquedos específicos é, por isso mesmo, muitas vezes desvalorizada. O fato de ela poder acontecer em qualquer lugar como se fora uma linha tênue que envolve as crianças em  aspectos  simbólicos compartilhados (o banco da praça pode ser uma cabana, um ônibus que anda correndo ou uma cobra feroz) também ajuda a desqualificar a brincadeira livre.

Mas quem a desqualifica, então? É o olhar adultocêntrico de quem se sente incapaz de valorizar algo que não se submete ao seu controle, aos seus ritmos e desejos e que, sobretudo, não tem um produto final para ser avaliado. **O que vale na brincadeira é a brincadeira mesmo, os seus ritmos, caminhos e descaminhos que são dados pelas crianças. Muito podemos observar e tentar entender quando elas brincam, mas, de verdade, a brincadeira lhes pertence como experiência da cultura, ali, naquele momento e lugar.

Sim, no “Bora lá, Brincar na Cidade” não é preciso “pagar dinheiro” para brincar, da mesma forma que não se paga para tomar um banho de rio, de cachoeira, nem para soltar pipa ao ar livre, em contato com a natureza, nas cidades que são de todos.

 

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

[1] Isabela Alves é aluna do 5º período de Pedagogia da UERJ e integra a turma de Pesquisa e Pratica Pedagógica  de nome: Crianças e Natureza, nas Cidades, ministrada por Maria Inês Delorme.

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