As crianças e a cidade Uncategorized

Des-cobrindo a natureza na cidade e nas escolas.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Quando as transformações das cidades, muitas vezes realizadas em nome do “progresso”, começam a nos afetar negativamente e de forma contundente, nos desumanizando e colocando até em risco a nossa saúde física e mental, em geral, surgem ações e movimentos que ganham mais ou menos força e efetividade, dependendo do contexto, na busca de mudar, reverter ou, ao menos, contornar o quadro existente.

É o caso da construção de ciclovias para incentivar a diminuição do número de carros, do alargamento das calçadas e estreitamento das vias de circulação dos transportes no sentido de recuperar e alargar as possibilidades de circulação e lazer dos pedestres (algumas cidades já fazem assim, enquanto outras continuam fazendo o oposto), de políticas ambientais mais rígidas para evitar o desmatamento, da arborização das cidades, da construção e revitalização de áreas de lazer recuperando a natureza, entre várias outras alternativas. Nessas ações, volta-se o foco para o ser humano, como uma tentativa de tirá-lo da invisibilidade em que foi colocado nas políticas urbanas das últimas décadas.

O Papo de Pracinha tem apontado que as crianças talvez sejam o grupo mais excluído ou invisibilizado nas políticas públicas que pensam as cidades. Não existe escuta em relação às suas necessidades reais e ao que elas próprias querem nos espaços em que vivem. Que espaços públicos têm para brincar? Como são pensados? Como as crianças desejam que sejam as pracinhas? Que possibilidades e segurança têm para circular com autonomia nas ruas e calçadas? Há algumas experiências muito interessantes em outros países. A cidade de Freiburg, na Alemanha, por exemplo, realiza várias ações no sentido de acolher as crianças e promover um diálogo maior entre estas, a cidade e a natureza. Vale saber um pouco mais através do relato da missão técnica realizada pelo Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana.

Diante de cidades que não oferecem muitos espaços para as crianças e, além disso, são marcadas pela violência e insegurança, as crianças tendem a ficar emparedadas em suas casas, perdendo o contato com a natureza, com o sol, com as plantas, o que gera consequências diretas na sua saúde. Não à toa, alguns pediatras  têm prescrito “brincar do lado de fora” como receita para a saúde das crianças.

Nesse processo, as crianças vão sendo desconectadas da natureza, impedidas do seu direito humano de ter experiências de brincar com a terra, a água, o ar, o sol, elementos tão vitais para elas. Soterrar a natureza diminui também a força vital e humana das crianças e de suas infâncias.

E as escolas, o que têm feito em relação a essa questão? Como enfrentam essa realidade já que as crianças passam grande parte do seu dia naquele espaço? Suas propostas e espaços expressam a preocupação de proporcionar o encontro da criança com a natureza? Podemos dizer que algumas escolas trabalham nesse sentido, mas constituem uma minoria. O que podemos constatar é que, assim como as cidades, os pátios das escolas foram sendo cimentados, eliminando a natureza da vida das crianças (no caso, estamos nos referindo àquelas privilegiadas com a natureza em seus espaços, pois a grande maioria foi sendo estabelecida em espaços adaptados, pequenos, muitas vezes sem nenhuma área externa). E foram fechando-se em si mesmas, evitando abrir-se para os espaços externos das cidades. Interessante lembrar, entretanto,  que, se a violência é um dos fatores que provocam esse emparedamento, contraditoriamente, as experiências mostram que a ocupação dos espaços torna a cidade mais segura.

Subir, descer, correr, sentir o sol, a terra, o ar, perceber e tocar as  plantas, as pedras, os galhos, tudo isso promove bem-estar, a brincadeira livre, a imaginação, a criação, conectando a criança com a natureza, com o mundo e com o seu interior.  As escolas, em geral, ao contrário de favorecer  essas experiências, têm o dom de parar os corpos, acreditando que o aprendizado exige disciplina e controle; o movimento e a expansão são vistos como nocivos, e no máximo acontecem como formas de distensão, intervalos, escapes, para depois se retornar à rotina do trabalho intelectual.

O Programa Criança e Natureza, uma iniciativa do Instituto Alana, busca investir na criação de condições favoráveis para que as crianças convivam com a natureza. A principal motivação é a percepção do emparedamento cada vez maior das crianças e de um tipo de institucionalização que tiram da criança o tempo e a liberdade de brincar e interagir com espaços mais amplos de natureza. Este ano  lançou a publicação Desemparedamento da infância: a escola como lugar de encontro com a natureza com a intenção de  “sistematizar e descrever alguns caminhos que, em geral, fazem parte do processo de desemparedamento e ressignificação dos espaços escolares. Apesar de sabermos que cada escola ou rede de ensino, a partir de sua realidade, constrói a própria história, consideramos que esses caminhos são essenciais, já que podem contribuir para formarmos uma rede muito potente de experiências exitosas de ressignificação e requalificação dos espaços escolares e não-escolares, a partir da desregulação de sua natureza emparedada” (p.15)

A publicação relata experiências bem sucedidas, em escolas e organizações que criaram alternativas para desemparedar as crianças, ou pelo menos para ampliar o seu contato com a natureza, trazendo-a para dentro da escola. E trazer a natureza para dentro da escola não é plantar sementinhas e acompanhar seu crescimento, atividades episódicas, mas promover experiências com a natureza, o que exige tempo, espaços, convivência e intensidade nas interações.

O investimento de algumas instituições se deu na retirada da pavimentação dos pátios escolares, na criação de desníveis no relevo dos terrenos, na criação de desafios para o desenvolvimento físico das crianças, espaços para o movimento e para o descanso e instrospecção, e uma paisagem mais bela, natural, que proporciona mais conforto e segurança. Em instituições que não tinham essa possibilidade, a solução foi facilitar o uso de espaços ao ar livre próximos, abrindo, por exemplo, um simples portão que passou a permitir que as crianças tivessem acesso à praça ao lado da EMEI Prof. Ernest Sarlet., fazendo seu mundo crescer!

Iniciativas como essas podem ser referências para um processo de inovação dos espaços e práticas escolares que possam trazer mais vida para as crianças, através do brincar na e com a natureza! O Papo de Pracinha apoia!

Sabemos que a questão é complexa, mas sabemos também que é possível mudar esse panorama. Assim como algumas plantinhas encontram, nas pequenas fendas que se abrem no cimento,  formas de viver sem pedir licença, as crianças também encontram, nas fendas dos controles dos adultos, formas de ser, de imaginar, de criar, de ser criança, de viver… Sigamos as crianças, o seu desejo e procuremos nas fendas da realidade formas de desemparedar as crianças, de criar possibilidades para que elas encontrem alegria e possibilidades de se desenvolver de modo íntegro e conectado com a natureza e a cultura.

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

0 comentário em “Des-cobrindo a natureza na cidade e nas escolas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: