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As festas escolares: para que e para quem? Quem se diverte?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Festa junina – Cena  1

A festa está sendo realizada em um espaço externo à escola, reunindo todas as turmas das várias unidades existentes. Em um amplo salão fechado, em um clube, há uma grande quantidade de famílias e crianças circulando, correndo e brincando, nos desvios e espaços possíveis entre as pessoas, mesas e cadeiras. Há um palco onde os diferentes grupos de crianças estão se apresentando, na ordem estabelecida pela programação. Ao microfone, as professoras, em alto som, chamam os grupos de crianças para se apresentarem. Chega a vez das crianças de 2 a 3 anos que, acompanhadas pelos responsáveis são levadas ao palco; algumas parecem não entender bem o que estão fazendo ali, outras claramente demonstram não querer subir ao palco, o que faz com que o pai ou a mãe tenha que subir junto para garantir a participação de seu filho/sua filha. Algumas choram, outras sorriem, outras olham espantadas para os muitos adultos que se aglomeram à frente do palco, buscando um lugar para ver/fotografar seu filho, registrando esse momento com seus celulares ou câmeras fotográficas. A professora dança e canta fazendo gestos para as crianças imitarem. Muito poucas crianças sabem a coreografia, a maioria fica parada, sem saber o que fazer. Em 5 minutos, acaba a apresentação. A professora sugere um bis. A dança se repete da mesma forma.

 

Festa junina– Cena 2

Na área externa da Unidade de Educação Infantil, famílias, professoras, estagiárias, equipe de coordenação/administração, funcionários se reúnem ao som de um grupo de forró. Encontros, conversas, brincadeiras entre as crianças, algumas organizadas pelas professoras em “barraquinhas”, como pescaria, bola na boca do palhaço, rabo de burro etc., outras, criadas livremente pelas crianças. A um dado momento, uma das professoras convida as crianças, as famílias e a equipe da escola para dançarem uma quadrilha improvisada (durante os dias que antecederam a festa, as crianças brincaram algumas vezes com as professoras de dançar, além de terem participado da confecção dos enfeites e, até mesmo, dos quitutes da festa). Com muitas risadas, todos vão entrando na roda e os passos vão se encontrando, se coordenando e se descoordenando, buscando ritmo, parcerias e brincadeiras.

Esses dois exemplos referem-se a dois modelos completamente diferentes de festas juninas escolares. Entre um e outro, há muitas possibilidades, claro, mas o contraste entre essas duas cenas provoca uma reflexão sobre o sentido que tem, ou deveria ter, uma festa escolar, sobre os valores e conceitos que a sustentam. E, também, nos ajuda a pensar em como organizá-las para que as crianças, as suas famílias e a equipe da escola possam efetivamente se encontrar e confraternizar em torno de fatos/datas comemorativas, projetos etc. de uma forma prazerosa e participativa. Vale a pena escapar do instituído, do habitual, da tradição e perguntar: para que e para quem são as festas? O que está sendo comemorado? De que forma essa atividade pode fazer parte do processo pedagógico? Qual a melhor forma de envolver as crianças? Como as famílias podem participar? Por que defender e como fazer uma festa com a “cara” das crianças?

Falar em festas escolares envolve não apenas o evento em si, mas o seu planejamento, o período que a antecede e a forma como as crianças participam do mesmo. É comum, no contexto escolar, que as festas façam parte do calendário, ano após ano, com pouco ou nenhum envolvimento das famílias e muito menos das crianças. A estas, cabe apenas executar as atividades planejadas pelas professoras, como por exemplo ensaios semanais (às vezes diários) de coreografias de danças, pinturas e colagens de lembrancinhas para as homenagens no dia dos pais ou das mães (as festas das mães e dos pais ainda são comuns, independente das diferentes configurações familiares a que pertencem as crianças), entre outras possibilidades.

Costumamos dizer que o melhor da festa são os preparativos, não é mesmo? Quem já organizou coletivamente uma festa sabe o quanto é prazeroso participar do seu planejamento e produção.  As festas juninas de rua ou a preparação das ruas para a Copa do Mundo são um bom exemplo: crianças, jovens e adultos se encontram(encontravam?) para planejar, escolher, criar e produzir o evento. Quanta aprendizagem, diversão e experiência é possível acontecer nesse pensar e fazer juntos!

Também é interessante observar as brincadeiras das crianças em torno de  “festas de aniversário”. Gastam um longo tempo na preparação da festa (arrumando pratos, fazendo bolos etc), pois é ela que parece ser o melhor da brincadeira, que muitas vezes nem chega ao parabéns!

Isso nos faz pensar o quanto perdem as crianças quando são postas como executoras passivas de algo planejado pelos adultos, e não como participantes e maiores interessadas! Ficam privadas da oportunidade de viver a experiência coletiva de produzir uma festa em que suas vozes e modos próprios de pensar e fazer sejam contemplados na sua concepção e realização.

Na segunda cena descrita acima, vemos uma festa junina mais espontânea do que na primeira, com o envolvimento de todos, sobretudo das crianças. Ali, elas têm a oportunidade de brincar livremente e de participar, junto com os adultos, de todas as possibilidades oferecidas, inclusive de cantar e dançar do seu jeito, com seu corpo brincante. O objetivo é o encontro, a confraternização, a brincadeira e a diversão, e não a apresentação de uma coreografia para alegrar os pais, não o simples cumprimento de uma data comemorativa  do calendário escolar.

Sabemos que alguns pais esperam ansiosos por esse momento de ver/fotografar a tradicional apresentação das crianças. Não somos contra a apresentação em si, e sim contra atividades que não fazem sentido para elas, que são pensadas exclusivamente pelos adultos sem nenhuma participação das crianças. Se a escola desejar incluir uma apresentação, que as crianças possam ser ouvidas e que seus modos próprios de ser, pensar e fazer estejam nelas contemplados.

Enfim, o que o Papo de Pracinha acredita é que as festas escolares não deveriam ser um cumprimento burocrático do calendário, muito menos um espetáculo marcado por valores de consumo ou um evento pensado apenas por adultos sem a participação das crianças. Ao contrário, deveriam ser uma oportunidades de comemorar a amizade entre as crianças e a convivência entre as famílias e de viver de forma participativa a experiência coletiva de celebrar!

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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