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A cidade detesta a criança – Luiz Antonio Simas

Texto publicado por Luiz Antonio Simas em sua coluna do jornal O Globo, em 28 de Agosto de 2018.


 

A cidade detesta a criança

De todas as batalhas que travamos na aldeia, a mais urgente parece ser a que envolve a rua: ela é lugar de encontro ou lugar de passagem?

A Praça Xavier de Brito, na Tijuca, conhecida pelos cariocas como “praça dos cavalinhos”, estava passando por uma reforma na área destinada às brincadeiras da criançada há alguns anos. Indo lá com meu filho, perguntei a algumas crianças se elas tinham sido consultadas sobre a reforma. As respostas foram unânimes: não. Simplesmente não ocorreu a ninguém perguntar aos maiores interessados na reforma o que eles achavam que deveria ser feito. Nós ignoramos um fato básico: cidades são também lugares em que as crianças vivem.

É evidente que não estou pedindo que entreguemos um projeto arquitetônico a uma criança de 7 anos. Tentar entender, todavia, qual é a expectativa da criança em relação ao espaço que ela vai ocupar é o mínimo que pode ser feito. Em certa feita, bati um papo, por conta de uma roda de conversas em Sepetiba, com um garoto indignado porque a rua em que ele morava foi asfaltada — o que é obviamente bom —, mas isso matou a possibilidade de os meninos jogarem bola de gude, o que é obviamente ruim.

De todas as batalhas que travamos na aldeia, a mais urgente me parece ser a que envolve a disputa pela rua: ela é lugar de encontro ou é apenas um lugar de passagem? A supremacia da visão do espaço público como lugar de passagem, a violência e a sensação da violência urbana, o triunfo dos carros, a especulação do solo urbano, a escassez de tempo para o encontro, repercutem na formação da criançada: sem a rua para brincar, a tendência é que as crianças construam amizades circunscritas ao ambiente das famílias, creches e escolas.

As amizades restritas à escola padecem de, pelo menos, um risco. Os alunos de uma mesma turma são — na maioria dos colégios — submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos é normativa sempre e corre o risco de padronizar comportamentos até quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo.

Se a escola normatiza, a cultura da rua foi capaz de permitir o convívio entre os diferentes. Quando era moleque, brinquei muito na rua. Tenho a impressão de que cada menina e menino traziam um embornal de experiências distintas, trocadas na rua de forma lúdica, a partir do ato mais importante para a educação de uma criança: brincar.

Para brincar, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e a escassez que permite invenção. As crianças de hoje estão atoladas em múltiplas atividades, abandonadas ou superprotegidas, reféns do consumo do objeto vendido pronto, e confinadas entre muros concretos e imaginários; erguidos de cimentos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a cidade que proporciona só a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas. Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo.

Escrevi em certa ocasião que a cidade em que a criança não brinca é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. Poucos parecem considerar essa questão como urgente. É bom fazer isso, antes que às crianças restem, como terapia amansadora das angústias e amenizadoras das culpas dos que permitimos isso, aplicativos de última geração que joguem bolas de gude virtuais e empinem pipas que não voam.

Luiz Antonio Simas em O Globo.

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