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Experiências criadoras na infância

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Recortes de papos de adultos, na pracinha:

  1. “Não volto mais naquele parque! As crianças tropeçam na terra, nas pedrinhas e saem de lá todos ralados”.
  2. “Não quero que minha filha descubra esses brinquedos altos porque, se ela gostar, eu vou ter um troço”.
  3. “Comprar para ele a sandália Melissa tudo bem, pode ser, mas desde que seja preta para todo mundo saber que ele é menino. “

 

Recortes de papos de crianças, na pracinha :

  1. “Minha mãe tem medo de morto. Ela não deixa eu ver o Chico matar galinha (lá no sítio) porque eu sou criança. Mas eu faço um buraco e enterro a cabeça e os pés delas. O Chico deixa, escondido da minha mãe”(menino, 5 anos).
  2. “Meu pai não deixa eu correr na rua nem no parque, pra não cair. Mas eu corro na escola e não caio” ( menina, 4 anos).
  3. “Poxa, o que eu mais gosto é mexer na terra com água. Minha mãe e meu pai não deixam, dizem que ali tem bicho que entra na barriga. Mas eu só sei fazer castelos com terra, água e folhas, desse jeito. Aí… eu não posso fazer nenhum castelo, nem de fada nem de bruxa, e nem a torre da Rapunzel “ ( menino, 5 anos).

 

Esses recortes de narrativas de adultos e de crianças nos fazem tomar contato com modos muito diferentes, complexos, curiosos e até contraditórios de sentir, de experimentar e de viver no mundo. Muitas vezes nos surpreendemos com o modo como as crianças expressam suas ideias e têm imagens sobre o mundo, sobre o que os adultos pensam sobre elas e sobre o que elas querem para si.

Parece que uma das questões pungentes da educação de crianças, nas famílias,  e também  em instituições de educação infantil, vem colocar um desafio que precisa ser enfrentado pelas sociedades contemporâneas: o de embeber os processos educativos de aspectos mais humanitários, mais  sensoriais, em contato maior com a natureza, de modo a valorizar a imaginação como força criadora, tornando possível conectar crianças “por inteiro” em experiências  duradouras e vivas.

Arriscaríamos dizer que os processos educativos amplos, em diferentes instituições, já há algumas décadas vem se fortalecendo “academicamente” em questões que nos enfraquecem como sujeitos, como seres humanos, como sujeitos de/da cultura. Talvez a infância venha a ser o espaço por excelência onde as crianças  resistem e insistem em ser inteiras, em todas as suas dimensões integradas e vivas, apesar dos esforços reiterados, de didatizar, pedagogizar e de restringir, assepticamente a educação ao ensino de  conteúdos e de disciplinas estanques. As crianças resistem, as crianças sobram para além do que planejamos para elas.  Nunca as dominamos nem as controlamos inteiramente. Viva as crianças!

A base ou o esteio das relações das crianças com o mundo está no seu mundo imaginário, na sua capacidade de se encontrar e se distanciar, se apropriar e distorcer, recriar  e remontar o mundo segundo sua lógica própria, que difere, completamente, da do mundo adulto.

E, nesse sentido, o mundo simbólico expressa o modo mais próprio, íntimo e  intenso de  relação das crianças com outras crianças, delas com elas mesmas, delas com o mundo, o que só pode acontecer em situações de brincadeira livre, sem o controle, longe da ótica produtiva do mundo adulto. Só dessa forma as crianças podem  sentir o pulsar da vida por meio de experimentações  sensoriais, de idas e vindas, repetições e inovações, num tempo que precisa ser duradouro, no tempo da experiência, no tempo de cada criança. Nesse viés,  desejamos ampliar o conceito de experiência também como  possibilidade de elas mesmas narrarem os fatos, os sonhos, os medos na primeira pessoa, protagonizarem com a força da suas próprias imagens e representações.  Para isso,  as experiências por inteiro podem ser definidas como o fez Larrosa (Barcelona, 2002), ou seja,  experiências são ações por inteiro, duradouras e profundas que deixam marcas nas crianças, que lhes afetam e, para que isso se lhes aconteça, em geral, é necessário garantir o tempo de brincar livre como um direito para que possam viver “alguns riscos e uma travessia”.

Para aprofundar essa discussão, pense se suas crianças têm garantido algum tempo livre, diariamente, para brincar “sem o comando”, sem o seu controle, livre dos percursos dos adultos, embora acompanhadas e assistidas por eles.

Até quando poderemos aceitar essa forma de educação de crianças em sociedades e culturas ocidentais, pautadas apenas na valorização suprema do pensamento lógico que desloca o olhar adulto em relação à criança para, equivocadamente, enquadrá-la  por faixa etária, de forma etapista, sem janelas ou frestas que lhes  permitam exceder a essa busca de “racionalidade pura”.  Até quando?

Existem alternativas para ações educativas mais  próximas do que as crianças precisam, mais felizes para elas, e que não podem passar ao largo dos conhecimentos científicos e acadêmicos, claro, desde que reconhecidos os seus limites e possibilidades. Quem testa, avalia e redimensiona esses conhecimentos teóricos são as crianças, cotidianamente, desde que sejam reconhecidas e legitimadas as suas experiências interativas na/com a natureza, com o meio, com o outro, momentos privilegiados em que são convidadas a acessar e a se envolver com as imagens arquetípicas da(s) sua(s) infância(s).

 

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

Foto: Ilana Eleá

1 comentário em “Experiências criadoras na infância

  1. Glaucimilena Serejo lobato

    Fiz um artigo que falava sobre essas experiências das crianças, que por sinal foi meu artigo de graduação. Experiências que marcam e potencializam seu ser. Hoje são tantas e tantas informações que enchemos as cabeçinhas e muitas vezes não fazem sentido algum para elas.

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