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A brincadeira e o desenvolvimento da criança

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio A brincadeira é uma dimensão humana presente na vida de todos nós, adultos e crianças, porém, sabemos que, para as crianças, ela assume uma centralidade como modo de interagir com os outros e com os objetos e espaços ao seu redor. É na brincadeira, e por meio dela, que muitos processos de desenvolvimento e aprendizagem ocorrem no percurso das crianças.

Vygotsky, autor russo que estudou, entre outras coisas, o desenvolvimento humano, pesquisou seus processos desde o nascimento do bebê. Atribuiu grande importância à brincadeira, principalmente à brincadeira de faz-de-conta que, para ele, impulsiona o desenvolvimento. No faz-de-conta, a criança comporta de forma mais avançada do que na vida cotidiana, assume vários papéis e desenvolve ações diferentes do seu cotidiano habitual. Isso amplia o mundo da criança, possibilita novas formas de interação, gera novos conhecimentos e habilidades, e mobiliza processos de desenvolvimento e de aprendizagem.

As crianças desenvolvem a experiência do brincar nas interações que estabelecem com outros sujeitos, com os espaços ao seu redor e com os significados culturais do seu meio. Ela também aprende a brincar com a mãe, o pai, os avós, os primos e primas, amigos e amigas, professores e professoras, enfim, com as pessoas com quem convive e brinca.

Essa aprendizagem ocorre desde que são muito pequenas. Os bebês fazem certos movimentos que os adultos, com seus sistemas de referência, interpretam como comportamentos lúdicos (movimentos, gestos, manipulações e ações com objetos…). E a partir desse entendimento trazem para a relação com o bebê modos de brincar: sorrisos, falas, gestos e sons que se repetem, criando assim rotinas de brincadeiras. No seu percurso de desenvolvimento, a criança vai então se apropriando de diferentes brincadeiras, incorporando um conjunto de referências lúdicas que serão muito importantes no seu processo de desenvolvimento e de socialização.

As interações das crianças com os mais experientes de sua cultura é essencial à  aprendizagem do brincar. As brincadeiras que os adultos ou irmãos mais velhos fazem de esconder o rosto do bebê sob a fralda ou outros anteparos e manifestar surpresa ao achá-lo são um exemplo desse tipo de interação lúdica. As manifestações do bebê, com sorrisos e movimentos de pernas e braços demonstrando contentamento, estimulam a repetição da brincadeira. Gradativamente, o bebê vai assumindo papel mais ativo, ocupando também o lugar de comando da brincadeira. Nesse processo, a criança aprende a reconhecer as características que definem uma brincadeira: o aspecto fictício, pois a pessoa não desaparece de verdade, pois trata-se de um faz-de-conta, de um plano diferente da realidade imediata; a repetição,  que mostra que se pode sempre voltar ao início, sem que a realidade se modifique; a necessidade de acordo entre os parceiros de brincarem juntos; o não compromisso com resultados, pois é mais importante o modo como se brinca do que aquilo que se busca.

As sequências de ações que compõem e definem uma brincadeira, vivenciadas pelas crianças desde cedo, levam-nas a se apropriarem progressivamente de esquemas que lhes permitem iniciar e participar de brincadeiras com outras pessoas – crianças e adultos – e em outros contextos fora da família. Esses esquemas envolvem: formas particulares de expressão (movimentos, balbucios, risos, falas, entonações e gestos que marcam as etapas das brincadeiras etc.), maneiras de convidar o outro para brincar, movimentos que sinalizam a brincadeira, alternância dos turnos nas ações com o outro, vocabulários e construções verbais específicos. Essas estruturas gerais das brincadeiras, aprendidas nas interações lúdicas que estabelecem com os outros sujeitos de sua cultura, ampliam as possibilidades de participação e de criação de brincadeiras pelas crianças, a partir da transposição dos esquemas já incorporados para outros temas, espaços, tempos e referências culturais específicas. A variedade e a riqueza de experiências lúdicas, portanto, é um elemento fundamental para que a criança possa se apoderar de forma criativa da cultura em que se insere.

Outro aspecto constitutivo do brincar e que tem importância fundamental na formação dos sujeitos é o processo de imaginação. Nos jogos de faz-de-conta, a criança destaca os objetos de seu significado e função presentes, atuando com eles no plano imaginário como se fossem outros. Assim, um cabo de vassoura pode ser um cavalo, uma caixa de papelão, uma casa, uma folha de arvore, comidinha etc. Ao imaginar, a criança se liberta da sua percepção e ação imediatas, criando novos planos de ação, com novos significados, se conecta com sua interioridade, com o mundo simbólico. Imaginem o que isso significa em termos de conquistas, de ampliação dos conhecimentos de si e de possibilidades de criação?

Mas falar de imaginação requer mais tempo. Será assunto para um próximo texto. Hoje paramos aqui, reforçando que o brincar é fundamental na vida das crianças, para que elas possam ser crianças e desenvolvam a sua dimensão humana de forma plena e feliz!

 

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme.

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