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Consumismo infantil: temos saídas?

(*) Papo de Pracinha

texto_proprioTemos falado aqui no Papo de Pracinha sobre os dilemas de educar as crianças diante do poder do consumismo. Desde muito pequenas, as crianças aprendem rapidamente, não apenas a usar o verbo “comprar”, como também a identificar onde se compra e a desejar as muitas coisas que pode ter através do ato de comprar.

Apesar do consumismo infantil ser abordado principalmente como um problema do âmbito familiar, trata-se de uma questão muito mais ampla, cujo enfrentamento precisa ser compartilhado entre o Estado e a sociedade, incluindo empresas, organizações, famílias e a sociedade de modo geral. Estudos recentes vêm apontando graves consequências associadas aos excessos do consumismo infantil, como por exemplo, a obesidade infantil, a erotização precoce, o estresse familiar, a banalização da violência, o consumo precoce de bebidas alcoólicas, entre outras. Construir um mundo sustentável, saudável, justo e fraterno passa por formar cidadãos conscientes e responsáveis e isso não se faz sem enfrentar essa questão.

Sabemos que as mídias de massa e a publicidade exercem um poder cada vez maior no consumismo infantil. As mídias vivem da publicidade e esta existe para vender e para convencer o público a consumir. As crianças, vistas como consumidoras, no presente e no futuro e, mais do que isso, como influenciadoras das escolhas familiares, ficam altamente expostas à publicidade, não apenas por serem alvo importante, mas também porque passam um tempo grande diante da TV. As crianças brasileiras passam em média 5h35, diariamente, em frente à televisão (dados do último Painel Nacional de Televisão, levantamento realizado pelo Ibope Media, englobando a faixa etária de 4 a 17 anos)!

Diante desse quadro, a proteção da criança da publicidade é algo da maior importância. Qualquer forma de comunicação mercadológica que estimule o consumismo infantil ou fira a integridade da criança precisa ser combatida! É abusiva e ilegal! Sim, é ilegal, pois a publicidade para crianças é regulada no Brasil[1]. As regras estabelecidas precisam ser respeitadas e toda a nossa atenção é importante para tanto. Sem falar, nas novas formas de publicidade veiculadas pela Internet, como por exemplo as que comentamos no nosso último texto (Texto: Crianças se vendem e vendem coisas na internet, para outras crianças).

Mas a publicidade na TV não é o único fator influenciador. Precisamos falar também das práticas familiares e daquilo que está nas nossas mãos, para que possamos encontrar outras direções, outros caminhos que tornem nossas crianças mais conscientes e responsáveis para construir uma vida mais saudável e feliz. O consumismo desenfreado é uma ilusão de felicidade e de riqueza, é necessário encontrar caminhos mais férteis para uma vida e um mundo mais plenos.

Mas quais as saídas? O que podemos fazer? Vamos pensar juntos a partir de algumas questões.

  1. Quais os tempos e formas de acesso da criança à televisão e à internet?

Podemos combinar horários na rotina das crianças para essas atividades e negociar com elas o que podem ver/acessar. Há também a possibilidade de bloquear determinados canais de TV, a fim de proteger as crianças de programas inadequados. Há estratégias nos dispositivos de acesso à internet para evitar determinados sites, canais de vídeo etc.

  1. Você consegue acompanhar o que seu filho está vendo na TV ou internet?

Essa é uma prática fundamental! Sabemos que muitas vezes isso é difícil, pois os pais muitas vezes não podem estar presentes nesses momentos, mas esse acompanhamento pode ser feito através do diálogo, do interesse pelo que elas gostam, escolhem, interpretam a partir do que veem nesses veículos. O fato de as crianças, desde muito cedo, operarem com autonomia com as tecnologias, as deixa expostas, sobretudo quando se trata da internet, a uma infinidade de coisas, nem sempre boas para elas.  Vemos crianças de menos de 3 anos surpreenderem seus pais ao selecionarem na tela do tablet ou smartphone vídeos de determinados canais do Youtube, que eles nunca haviam percebido ou colocado para seus filhos assistirem; muitos desses vídeos não seriam aprovados por eles, seja por terem uma proposta comercial (como anunciar brinquedos ) e/ou por apresentarem textos e imagens pobres e desprovidas de conteúdos significativos. A criança não pode ser “abandonada” com esses dispositivos, é preciso atenção, é preciso mediação!

  1. Eu quero! Eu quero! Você tem dificuldade de dizer não para o seu/sua filho/a quando eles “exigem” algo?

Muitos pais têm dificuldade de dizer não aos filhos, cedendo aos seus desejos porque não querem frustrá-los. Mas aprender a lidar com os limites, com a frustração, com o “não”, é ferramenta para o crescimento e para a construção da felicidade. O sim dos pais para tudo, aparentemente resolve a situação momentânea, mas a longo prazo gera sujeitos que não toleram nenhuma frustração. Difícil ser feliz assim, não? Ser firme e dizer não à criança quando necessário é ajuda-la a crescer e a lidar com os limites que fazem parte da vida. Podem ter certeza que firmeza de mãos dadas com amor é uma fórmula de sucesso na educação dos filhos!

  1. Podemos negociar com a criança?

Sim, é desejável, sempre que possível! É uma forma de construir junto com a criança os limites, ajudando-a a compreendê-los e a aprender a regular as suas ações com participação e autonomia.

  1. Com que frequência e de que forma você e seus familiares presenteiam seu filho/a?

O quarto da criança é lotado de brinquedos? E, mesmo assim, ela está sempre pedindo mais e mais? Será que os presentinhos frequentes podem ser reduzidos? Que outras formas temos de proporcionar satisfação às crianças que não seja presenteando-as com objetos de desejo? Em outros tempos, a criança esperava por um brinquedo muito desejado no Natal e no aniversário, mas hoje ela tem tantos, que sua satisfação ao recebê-los dura pouco, logo criando novos vazios e desejos. Nesse contexto, ocorre uma banalização dos brinquedos, tamanha é a facilidade de obtê-los (claro, isso no caso das crianças de classes economicamente favorecidas). Fazer doações, participar de feiras de trocas de brinquedos pode ser um bom caminho para lidar com essa questão.

  1. Que tipos de brincadeiras você propõe/incentiva para o seu/sua filho(a)? Você valoriza e proporciona brincadeiras que não necessitam de produtos mercadológicos?

Por exemplo:

  • as que acontecem ao ar livre, com elementos da natureza (água, terra, areia, ar, grãos, folhas, pedras, árvores, gravetos, troncos etc.)
  • brincadeiras de movimento em parques e pracinhas, com os equipamentos disponíveis – balanços, escorregas, gangorras, redes, pontes, entre outras possibilidades.
  • as brincadeiras da nossa cultura – os diferentes piques, amarelinha, cinco-marias, pular corda etc.
  • brincadeiras e/ou brinquedos criados pelas próprias criançastecidos, papelão, papéis variados, rolhas, potes, fitas, cola etc. podem servir para criar variados brinquedos e brincadeiras. Podemos fazer junto com as crianças, ajudando-a a criar referências para ter suas próprias ideias e soluções. Isso ajuda a criança a valorizar não apenas os brinquedos prontos do mercado, mas aquilo que ela pode fazer e o processo de invenção, imaginação e brincadeira. O processo de brincar é muito mais rico do que qualquer resultado da brincadeira.
  1. Como você lida com o tempo livre das crianças? Elas têm tempos não programados e dirigidos?

Permitir e incentivar na criança o ócio, o não fazer nada, a liberdade para pensar, imaginar e criar oferece à criança um campo aberto de possibilidades, não reguladas por ordens pré-estabelecidas, não tuteladas pelos adultos. Organizar e encher a rotina das crianças com inúmeras atividades é uma forma de inseri-la na cadeia produtiva. É preciso que elas tenham janelas para olhar por si mesmas, para imaginar, para ser criança nos seus modos próprios de ser e estar no mundo.

  1. Que exemplos você dá às crianças?

Finalmente, não podemos deixar de falar da importância daquilo que as crianças vivenciam em casa. Difícil controlar o desejo de possuir/comprar das crianças, quando os adultos são os primeiros a descartar, substituir, valorizar e consumir de modo exagerado, sem medida, não consciente. Os adultos precisam refletir sobre suas práticas de consumo e as referências que estas oferecem às crianças.

 

[1] Veja o que diz a Resolução n. 163, de 13 de março de 2014, do CONANDA, nessa matéria do Programa Criança e Consumo do Instituto Alana

 

(*)Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme.

 Foto: Created by Freepik

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