Dia-a-dia Outros temas Uncategorized

Crianças se vendem e vendem coisas na internet, para outras crianças.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Sim, produzimos e consumimos cultura o tempo todo. Temos a facilidade de gerar conteúdos domesticamente e de divulgá-los, em segundos, quase que planetariamente.

Assim, tudo a que se pode ter acesso hoje por celular, pelo computador e também pela televisão faz parte de um universo de informações, de conteúdos e de conexões que devem suas vidas à internet. E ninguém, em sã consciência, pode julgar as mídias digitais, mais pelos riscos de uso e de problemas que ela pode produzir, do que pelas facilidades e avanços em variados níveis: comunicacionais, jornalísticos, acadêmicos e científicos, afetivos, lúdicos etc.

Claro, também é uma unanimidade que ela é movida pelo mundo adulto, que ela se destina a esse público adulto e que, mesmo o que é produzido e oferecido às crianças, muitas vezes, tem fins absolutamente comerciais e podem ser mesmo nocivos à vida delas.

Qual é o cenário, hoje?

Alguns adultos (pais) estimulam em suas crianças o uso dessas mídias digitais para terem um tempo livre, sem precisar dar atenção a elas. Isso acontece em geral em restaurantes e em grupos. A criança fica isolada, focada no celular do pai ou da mãe, sem perturbá-los.

Também acontece de os adultos oferecerem celulares e laptops a crianças bem pequenas como se elas precisassem, desde cedo, ser parte de um grupo que só cresce, o das pessoas que têm o seu celular e/ou o seu computador, o mundo dos conectados digitais.

Nos dois casos, e em todas as suas variações, os adultos são responsáveis pelas escolhas que fazem e pelas decisões que tomam. Assim, suas crianças, filhos e filhas, no mínimo, deixarão de brincar e de ocupar seu tempo livremente, sozinhos ou junto com outras crianças, para acessar (ver e ouvir) o que lhes é apresentado, dado, entregue, pronto para consumo.

Tem ainda um terceiro grupo de pais, ou seja, de adultos que precisam investir em crianças como celebridades e como crianças que trabalham produzindo conteúdos para a internet (texto Celebridades “homemade”: crianças youtubers) e que expõem a vida cotidiana delas nas mídias sociais para que sirvam como modelo ou, apenas, para se sentirem importantes. Eles promovem os filhos, não a eles mesmos.

Nesse caso, se inclui um vasto grupo de crianças (texto Quando os filhos são postos na vitrine) que vêm sendo “profissionalizadas precocemente”, diríamos ainda que desrespeitosa e abusivamente, para que se  tornem “influenciadores digitais”, youtubers (donos de canais) de tutorial de maquiagens, por exemplo e afins. Sim, todas essas crianças vivem sob a tutela de um, ou mais, adultos que planejam por elas, que sonham por elas e que desenham suas vidas sem que elas possam fazer escolhas e viver livremente. Embora pareçam ser protagonistas.

Youtubers fazem propaganda e vendem na internet:

Os IrmãosNeto estão longe de ser crianças, mas trabalham, hoje, diretamente para elas. Com mais de 9 milhões de seguidores, chegam a receber, dependendo do post, até trezentos mil cliques (viewers) além de fazerem vendas ostensivas pelo Youtube.

Não é difícil entender o sucesso que alcançam com as crianças.  Os irmãos Felipe e Lucas são jovens adultos que usam seus cabelos coloridos, propõem gincanas e competições, fazem “Caça ao Tesouro” em piscina e, também podem chegar a postar vídeos travestidos de vampiros em que se entrevistam mutuamente, questionando a existência deles e, também, se vão ao dentista cuidar de seus dentes, tão marcantes nesse tipo de personagem. Eles querem ser engraçados, e às vezes são mesmo.

Chega a páscoa e eles celebram o gasto de um mil e cem reais em ovos. Uma montanha de ovos, com todas as marcas postas em evidência, explicitadas nominalmente por eles, que vão abrindo os ovos “ao vivo”, ovo a ovo, mas com destaque para o que há dentro dos ovos. E os brindes que vêm neles embutidos. Isso remete diretamente a certos desejos infantis: saber o que tem dentro, ganhar presentes e brindes como se fossem gratuitos e por aí vai. O Supermercado Guanabara também é cenário e foco de um post onde fazem abertamente sua propaganda, com slogan e tudo, além de promoverem uma “corrida” com adultos dentro do carrinho enquanto uma infinidade de crianças assiste e aplaude. Dessa vez, a gincana é para ver quem compra mais, em menos tempo.  As crianças gostam e se divertem? Parece que sim !!!

Embora não se possa pensar nelas como uma audiência passiva e homogênea, ou seja, elas não seguem linearmente o que veem mas recortam e ressignificam os conteúdos das mídias, em que nível esse tipo de visionamento pode enriquecer a vida dessas crianças? O imaginário infantil precisa ser alimentado e seriam esses vídeos o seu melhor alimento?

Podemos refletir, também, sobre os tutoriais de maquiagem feitos para meninas em que todas iniciam o tutorial pela expressão: Oi meninas. E assim, como se conversassem diretamente entre elas, essas youtubers com quatro a oito anos, apresentam e “vendem” produtos, comportamentos e desejos para seu público. São esmaltes de unha, batons, bases, blushs, pincéis de maquiagem  etc., vendidos pela Nicole (8 anos),  pela Fran, Nina e Bel , talvez com cinco anos de idade, e por tantas outras.

Vamos concluir refletindo sobre o “Planeta das Gêmeas”,  canal da Nicole e Melissa que são irmãs gêmeas e que têm a ajuda de sua mãe para fazer seus posts. Na verdade, não encontramos conteúdos perniciosos nem grosseiros mas a “venda das meninas”, para outras meninas e meninos, “ensinando como se vestir, como serem alunas exemplares e até a diferenciar uma laranja partida e uma slime, massa viscosa e moldável. As irmãs têm mais de sete milhões de seguidores e, com o apoio direto e visível de sua mãe, presente em alguns vídeos, elas tentam ensinar a meninos e meninas “como ser criança”, “crianças como elas são”. Elas são o modelo, chupam pirulitos na escola, mostram o que é  uma “aluna popular” e outra, “exemplar”, e  já chegaram a Portugal com seus posts.  Podemos identificar um caráter “didático” nos seus posts e os números indicam que elas fazem sucesso.

No Brasil, as crianças não devem trabalhar pelo menos até os 16 anos, ou seja, estão impedidas de receber e de acumular dinheiro que seja fruto de trabalho. Também no Brasil,  há uma lei que impede a propaganda dirigida diretamente às crianças. Seja como trabalhadoras infantis ou como garotas-propaganda, podemos dizer como isso é nocivo para suas vidas.

Como podemos nomear essas ações de crianças youtubers que, com o reforço dos seus adultos de referência, fazem propaganda às vezes “discreta” (para quem?) e sempre abusiva  na internet ao “venderem gratuitamente”, sempre,  narcisismo e consumismo?  Quem considera isso bom para as crianças?

O quê, nós, pais, mães e professores de crianças, vamos entender como sucesso?

Ser modelo para outras crianças? Ser vitrine na internet? Tornar-se uma celebridade? Acumular dinheiro como trabalhador infantil?  Viver a vida como crianças que são ou, influenciadas e apoiadas pelos adultos, abrirem mão de brincar e de viver, simplesmente, para dizer como se deve brincar e como se deve viver?

 

(*)Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

1 comentário em “Crianças se vendem e vendem coisas na internet, para outras crianças.

  1. Pingback: Consumismo infantil: temos saídas?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: