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As crianças e o consumo

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Todos nós, incluindo as crianças, estamos cada vez mais expostos a uma cultura do consumo que influencia e pauta nossos desejos, sentimentos e compreensão do mundo e de nós mesmos. Qual o nosso grau de consciência disso? Em que essa lógica interfere na construção da nossa felicidade? O que fazemos contra ou a favor dessa realidade? Que consequências isso tem na formação das crianças?

Vejamos um pouco da nossa realidade, a de pessoas pertencentes a uma classe economicamente favorecida, que tem acesso à saúde, educação, habitação e, também, aos variados bens de consumo disponíveis no mercado. Seguindo as leis do mercado, dentro de nossas possibilidades (e muitas vezes, acima delas) estamos frequentemente adquirindo novos bens materiais e substituindo os que já possuímos (smartphones, carros, aparelhos eletrodomésticos, roupas, calçados, acessórios etc.) por modelos mais novos, seja porque as novidades trazidas pelos lançamentos tornam os modelos anteriores obsoletos, seja porque é preciso ter o mais novo produto lançado, pois este nos confere um novo status, aplaca o nosso desejo de tê-los, traz uma sensação de satisfação e de felicidade, nos atesta um certo estilo de vida. A substituição também se dá em razão do gasto do produto e do fato deste não estar mais funcionando a contento; sabemos que este mundo gerido pelo capital e pela cultura do consumo oferece vida curta aos produtos que consumimos. E isso faz parte da lógica. Precisamos sempre ter mais e mais e mais.

Nesse contexto, nossas crianças vão aprendendo muitas coisas: que o “ter” traz satisfação, que as coisas rapidamente ficam velhas e são descartadas e substituídas por outras mais novas. Enfim, aprendem as regras essenciais do jogo contemporâneo do consumo e vão se acostumando a vincular o sentimento de paz e felicidade ao que é material.

Ora, sabemos que as crianças constituem uma importante fatia do mercado, sendo alvo de uma produção cultural mercadológica crescente, envolvendo brinquedos, roupas, acessórios, livros, mobiliário, desenhos animados, músicas, filmes, programas de TV, vídeos, aplicativos etc. A globalização do mundo capitalista tem como um dos pressupostos a incorporação dos vários segmentos da população a essa lógica. Foi no final dos anos 70, início dos anos 80, que as crianças começaram a ser vistas como clientes e consumidoras, tornando-se um segmento específico do mercado. A partir daí, uma forte publicidade passou a se dirigir às crianças, conjugando informação, persuasão, diversão e venda. O segmento infantil tornou-se tão importante para o mercado consumidor, que as crianças transformaram-se em alvo não apenas da propaganda de produtos infantis, como também de muitos produtos dirigidos a adultos, como: seguradoras, bancos, eletrodomésticos, móveis, remédios, roupas e sobretudo produtos da indústria alimentícia. A ideia é que as crianças mobilizam a família para adquirir esses bens, pois teriam forte poder de convencimento junto aos adultos. É importante lembrar também que, hoje, com o acesso das crianças à internet desde muito cedo, outras formas de publicidade vêm sendo desenvolvidas, colocando as crianças expostas a novos modos de veiculação de produtos. Um exemplo são os youtubers mirins que “anunciam e vendem” jogos e produtos para as crianças. Esse tema merece uma reflexão mais cuidadosa e será tratado em outro texto.

Na esfera privada, muitos de nós nos submetemos a essa engrenagem, reproduzindo os desejos fabricados  pelo mercado e desenvolvendo práticas de consumo reguladas por uma matriz unificada de valores, desejos e símbolos de reconhecimento pessoal, fortemente atrelada a produtos de consumo. As pessoas se reconhecem em grande parte não pelo que são, mas pelo que possuem e portam em termos dos bens materiais e simbólicos valorizados pela sociedade.

E com as crianças, acontece o mesmo? O que dizer das crianças que competem entre si sobre quem tem o maior número de Barbies ou de carrinhos Hotweels, a coleção completa de personagens do mais novo desenho da mídia, o mais novo brinquedo do mercado, a sandália da Frozen, o tênis do Mickey etc.? Qual a nossa responsabilidade quando entramos nessa lógica nas nossas relações com as crianças, enchendo-as de brinquedos, cedendo aos seus desejos?

Vamos pensar sobre isso? O Papo de Pracinha inicia hoje esse debate e quer ouvir as famílias sobre práticas e questões relacionadas ao tema. Vamos?

 

(*) Autoras: Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

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