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Como deveriam ser as pracinhas: as crianças respondem.

(*) Papo de Pracinha

texto_proprio Há alguns anos o Papo de Pracinha vem desenvolvendo ações em espaços públicos da cidade de modo a libertar crianças e famílias do aprisionamento em que vivem, dentro de suas casas, sob variados motivos, e também com a intenção de aproximá-los da natureza.

No texto “Crianças, a Natureza está lá Fora”, o Papo de Pracinha convida as crianças e seus responsáveis para brincar em espaços públicos, com brincadeiras livres que incluam suas iniciativas, escolhas, imaginação e ordenações propostas por elas. Assim, fomos ouvir o que algumas crianças com idades entre 3 e 10 anos, que frequentam pracinhas em diferentes bairros da cidade têm a dizer sobre esses espaços, suas expectativas em relação a eles.

A natureza nunca se porta da mesma forma, mesmo em espaços já conhecidos. O ambiente natural convida as crianças a desenvolver sua percepção, sensibilidade, capacidade de inventar e de descobrir. A sentir o cheiro da chuva, se conectar com os movimentos do mundo vivo e natural de que são parte.

Tudo o que elas pedem para as praças seria totalmente viável e possível, dependendo apenas de vontade política e de mais respeito por elas, por suas vidas, seus direitos e desejos. Para contar essa história para vocês organizamos suas respostas em três blocos de interesses:  1. Estrutura dos espaços; 2. Brinquedos e 3. Gestão das pracinhas.

  1. Quanto à estrutura das pracinhas:

As crianças pedem árvores para vários fins: para não haver apenas áreas de sol, mas também de sombra, para brincarem de casa na árvore,  para subir e descer, e até mesmo para ter onde encostar para “contar no pique–esconde”:  “eu queria uma casinha de brinquedo, aquelas de boneca e uma casa na árvore. Mas as crianças precisam de muita ajuda para fazer essa casa da árvore e preciso também de uma árvore”.

Nas férias de verão, elas gostariam de brincar até mais tarde nas pracinhas, mas  “elas ficam muito escuras, precisaria de luz na praça, que nem a que tem nos campos de futebol dos adultos”.

Elas reclamam da sujeira, da falta de lixeira e de banheiros para crianças e adultos, além do xixi e cocô de gato e de cachorro, que sujam o chão: “minha mãe não deixa mais eu sentar no chão da pracinha porque é muito sujo”. Ao mesmo tempo, elas pedem bancos e mesas para elas usarem enquanto brincam e, também, para crianças e adultos poderem sentar.

Para elas ter água para beber e água para brincar seria muito importante: “a gente precisa da água para fazer bolos e castelos , com folhas, com pedrinhas”.

Também falta terra e areia mole para ser possível fazer buracos: “eu gosto de fazer túneis com o Diego, na pracinha. O carro entra e sai do outro lado”.

E a pracinha tem que ser bonita também, tem que ter jardim e flores coloridas: “O que eu mais gosto é desse muro colorido”, referindo-se a um jardim vertical que tem numa pracinha em Itaguaí. “Ele é muito colorido e parece uma floresta grande”.

Eles pedem também que existam bichos como peixes em lagos e cavalos de verdade para andarem.  E concluem pedindo que as praças que têm brinquedos não fossem todas iguais, com o mesmo brinquedo: “cada uma podia ter um diferente pra gente ir lá”

  1. Quanto aos brinquedos das pracinhas:

Aqui vale a ressalva de que tudo pode ser um brinquedo para a criança. E que, em espaços onde há natureza – rios, mar, árvores, folhas, pedras etc. – não faltam elementos para suas brincadeiras, à despeito daquela compreensão restrita  de que brinquedo é “o que se pode comprar em loja”.

Assim, precisamos fazer um exercício para ser possível tomar as casinhas que pedem como brinquedos e não como elementos estruturais das praças. Nesses casos, priorizamos a função da brincadeira e a impregnação lúdica como prerrogativas das crianças.

Eles pedem por casinhas com vários fins:  “para ter um canto de leituras”, na sombra. Também para brincarem de casinha, com cozinha, fogãozinho e panelinhas, usando o que a natureza disponibiliza no chão: “nossa brincadeira predileta é de cozinheira, aqui na praça. A gente pega as folhas de todos os lugares do chão e leva para um lugar duro para apoiar e cortar as comidas”.

Elas querem gangorras e balanços consertados para “balançar bem alto e ir até as nuvens e, ainda, um pula-pula igual ao dos shoppings,  mas sem ter que pagar”.

As crianças pedem caixas de papelão: “quando a gente ganha a gente faz cavernas e cabanas.  A gente adora cabanas e cavernas de caixas”.

A maioria dos meninos pede traves para o jogo de futebol, “que não precisa ser um campo enorme mas tem que ter as traves. Tem que ter espaço para andar de bicicleta e de skate, perto da casa da gente”.

As crianças mesclam, também, certos pedidos viáveis com desejos muito intensos, e que só podem acontecer no rico mundo da imaginação e da fantasia, como: “ter neve para brincar”; “poder brincar na chuva e com lama”. Elas tomam como sonhos poder “tomar banho de chuva mesmo que usando botas e capas de chuva como os pais gostam”. 

  1. Quanto à gestão das pracinhas:

As crianças oscilam entre, por um lado, a compreensão das pracinhas como espaços públicos livres,  onde não deveria “ter adulto e nem um dono” e que, nesse caso, pertenceria a pessoas de todas as idades, de cada comunidade e, por outro lado,  o entendimento de que é importante haver um ou mais cuidadores, gestores, nesses espaços.  Algumas coisas não podem acontecer “como deixar cachorro e gato fazer cocô no chão da praça”.

Elas gostariam que houvesse oferta de “ balas, doces e sucos, mas do lado de fora das grades da praça”. Vale notar que as crianças não citaram as grades que podem cercar as praças como sendo importantes, talvez por entenderem que isso já exista em muitas delas.

Essa pessoa ou essas pessoas deveriam varrer as praças, manter os espaços limpos e não permitir “que gente sem casa more na praça”, o que pode ser compreensível quando a fala é das crianças, mas que não seria simples diante do fato de os espaços públicos serem de todos.

As crianças sinalizam que as regras de suas famílias a elas impostas cerceiam suas liberdades, ao apontar a possibilidade de os gestores assumirem como função, também, tomar conta delas e deixar os pais em casa, “para brincarem sossegados, sem gritaria de mãe e de pai, ‘sai daí, vai cair, larga ele’”.

Esse “guardador das pracinhas” tinha “que ter um, pelo menos em cada praça e ele deveria guardar nossas cordas de pular, as bolas do futebol num carrinho feito aqueles de obra, mas com tampa e trancado”. Diz ela: “quando eu trago corda vem um monte de gente pular. Aquele tio ali (um comerciante ambulante e local) que fica sempre aqui podia guardar tudo pra gente. A gente poderia fazer torneios”.

De noite “ele poderia passear pelo comércio e juntar caixas. A gente ia brincar muito, mas de dia ele tinha que cuidar do trânsito, pra nossa mãe deixar a gente ir brincar sozinho. Não pode passar ônibus na rua da praça e tem que fazer um grupo pra atravessar. Ele poderia guiar as crianças na rua”.

E para descansar, se alimentar e dormir, perguntamos? Essa pessoa receberia um salário? Esse seria o trabalho dela?  “Sim, o presidente ia pagar o salário dele/a. Ele/a podia ir na nossa escola, comer merenda, almoçar e dormir lá, mas só depois de catar as caixas”

 

(*) Angela Meyer Borba e Maria Inês de C. Delorme

11 comentários em “Como deveriam ser as pracinhas: as crianças respondem.

  1. Jéssica Pereira Miranda

    Maravilhoso!!! Amei!

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  2. Ana Roberta Novello

    Excelente!

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  3. Que texto lindo! Carregado de certezas por crianças que sabem muito bem o que querem. Parabéns.

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  4. Vanessa Lima

    Muito legal a ideia das crianças terem espaço de falar o que pensam! Adorei o texto!

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    • Sim Vanessa, geralmente elas não são ouvidas. Os adultos costumam achar que sabem o que é melhor para as crianças. Mas quando elas podem dizer o que pensam, sempre nos surpreendem!

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  5. Luana Figueiredo

    É nítido perceber a pureza dessas crianças !!! Quanta imaginação, quanta vontade de criar, brincar e imaginar !!!! E não esquecendo que elas têm uma preocupação singela pela natureza! Incrível !!

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  6. Quanto conhecimento adquirimos com as crianças. De fato, nunca havia pensado num “guardador de pracinha”, interessantíssima a ideia. Adorei o texto e obrigada por partilhar essa rica experiência.

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